INTRODUÇÃO
A 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que será realizada em Belém do Pará em 2025, destaca a Amazônia como eixo estratégico nas discussões globais sobre mudanças climáticas, especialmente no que se refere à conservação dos recursos hídricos e à adaptação aos seus impactos1,2. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC), as projeções para o período de 2016 a 2035 indicam alterações significativas em variáveis hidrometeorológicas, sobretudo em regiões tropicais como a Amazônia3. Tais mudanças afetam diretamente a disponibilidade e a qualidade da água, comprometendo a capacidade dos corpos hídricos de diluir poluentes e manter o equilíbrio ecológico, além de expor a população local a contaminantes presentes em águas destinadas ao consumo, à pesca ou ao lazer4,5.
As bacias amazônicas desempenham funções essenciais na regulação climática global e na oferta de serviços ecossistêmicos6. Estudos recentes reforçam que os ecossistemas aquáticos tropicais são particularmente sensíveis às mudanças climáticas, com efeitos já observados em corpos d'água da bacia amazônica, como o rio Pará7. A degradação desses sistemas, impulsionada por pressões antrópicas e alterações hidrológicas, repercute diretamente na saúde, na segurança alimentar e nas atividades econômicas das populações locais8,9.
Nesse contexto, o estudo da bacia do rio Maguari-Açu, localizada na Região Metropolitana de Belém, torna-se estratégico para subsidiar políticas públicas e ações de governança hídrica10,11. A análise temporal de indicadores hidroquímicos é fundamental para o monitoramento de impactos ambientais, permitindo identificar áreas vulneráveis, padrões de contaminação e tendências críticas4. Tais resultados contribuem para a avaliação de riscos potenciais à população, como a contaminação por metais, o aumento de sólidos dissolvidos e as mudanças na qualidade da água para abastecimento, lazer e pesca, além de oferecer subsídios para medidas de mitigação e educação ambiental12.
Pesquisas recentes têm evidenciado intensa contaminação por metais em canais pluviais e corpos d'água urbanos da Amazônia. Santana13 observou concentrações de cádmio (Cd), cobalto (Co) e cobre (Cu) na água acima dos limites legais em várias bacias, indicando contaminação antrópica e risco ecológico, de acordo com os parâmetros estabelecidos para águas doces de classe II. Em Macapá, o canal do Jandiá apresentou concentrações de Cd, chumbo (Pb), cromo (Cr) e níquel (Ni) nos sedimentos de fundo superiores aos valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sugerindo risco adicional à saúde das populações que utilizam essas águas para consumo ou atividades recreativas14.
A aplicação de técnicas multivariadas é reconhecida como ferramenta eficaz para compreender os processos ambientais complexos que influenciam a qualidade da água, permitindo identificar simultaneamente diferentes fontes de poluição15. A modelagem multivariada tem se mostrado útil no monitoramento contínuo da qualidade da água, especialmente em contextos urbanos, oferecendo subsídios para o controle da poluição e para a gestão sustentável dos recursos hídricos16. Dessa forma, é possível prever áreas de maior risco à população e planejar ações de mitigação específicas, aumentando a resiliência hídrica e a proteção da saúde pública17.
Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar a variação espacial e temporal de metais e parâmetros físico-químicos no rio urbano Maguari-Açu, localizado em Ananindeua, estado do Pará, na Amazônia brasileira, considerando os diferentes usos do entorno e a influência da sazonalidade. Além disso, busca-se discutir os resultados à luz das mudanças climáticas, fornecendo subsídios concretos para a gestão ambiental, a proteção da população local e o fortalecimento de pesquisas sobre resiliência hídrica em áreas urbanas amazônicas.
MATERIAL E MÉTODO
ÁREA DE ESTUDO
O estudo foi realizado na bacia do rio Maguari-Açu, localizada na Região Metropolitana de Belém, estado do Pará, Brasil, abrangendo o município de Ananindeua, com aproximadamente 507.838 habitantes em 202418. A região apresenta processo acelerado de urbanização, com áreas já consolidadas e outras em expansão; o uso do solo é predominantemente voltado à agricultura e à construção civil19,20.
A hidrografia é marcada pelo rio Maguari-Açu, que deságua no furo do Maguari e delimita a região a noroeste com Belém. O rio sofre influência das marés em sua porção margeada por vegetação, uma vez que parte de seu curso foi retificada e transformada em canal pluvial. O clima é equatorial quente e úmido, com temperatura média próxima de 25 °C e precipitação anual entre 2.250 e 2.500 mm, concentrada de janeiro a junho21. Os meses mais chuvosos são fevereiro, março e abril, enquanto os menos chuvosos correspondem ao período de agosto a novembro.
AMOSTRAGEM E DELINEAMENTO EXPERIMENTAL
Foram realizadas seis campanhas de amostragem na bacia do rio Maguari-Açu, distribuídas em 11 pontos, durante o período menos chuvoso (outubro a dezembro de 2024) e o mais chuvoso (fevereiro a abril de 2025). As amostragens abrangeram áreas residenciais, industriais e de lazer, com coordenadas variando entre 1°19'17,37''S e 1°21'40,87''S de latitude e 48°21'22,42''W e 48°23'52,12''W de longitude (Figura 1). A seleção dos pontos considerou os diferentes usos do entorno (residencial, industrial e recreativo), a influência do escoamento superficial e a proximidade de potenciais fontes de contaminação, de modo a representar gradientes espaciais e padrões sazonais de contaminação.

Fonte: Eliane Brabo (2025).
Figura 1 - Trecho do rio Maguari-Açu, no município de Ananindeua, estado do Pará, Brasil (área de estudo), com a localização dos pontos de coleta utilizados no estudo
Os pontos MA01-MA06 correspondem a canais de drenagem urbana em áreas residenciais; os pontos MA07-MA09 situam-se, respectivamente, em um píer de lazer, em uma margem periférica residencial e em uma ponte urbana com intenso tráfego de veículos. Já os pontos MA10 e MA11 localizam-se na margem do rio, em área industrial associada à atividade madeireira (Figura 1). Essa distribuição permitiu avaliar variações espaciais e impactos de diferentes pressões antrópicas.
Todos os procedimentos seguiram as recomendações da 24ª edição do Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMEWW)22. As amostras foram coletadas em frascos de polipropileno de 1 L, utilizando baldes de aço inoxidável previamente esterilizados.
As variáveis físico-químicas, pH, temperatura (T), condutividade elétrica (CE), sólidos totais dissolvidos (STD), oxigênio dissolvido (OD) e potencial de oxirredução (ORP), foram medidas in situ com sonda multiparâmetros HI9828 (Hanna®), conforme os métodos SMEWW 500-H+B, 2550B, 2510B, 2510A, 4500-O e 2580B22.
ANÁLISE DE AMOSTRAS
Foram analisados alumínio (Al), bário (Ba), ferro (Fe), manganês (Mn), sódio (Na) e zinco (Zn), conforme o método SMEWW 3020B22. Para Al e Fe (fração dissolvida), alíquotas de 50 mL foram filtradas e acidificadas com 500 µL de HNO3 65% (Emsure ® Merck, Estados Unidos). Para Ba, Mn, Na e Zn (fração total), outra alíquota de 50 mL foi acidificada com 500 µL de HNO3 65% e 250 µL de HCl 37%.
As análises foram realizadas por ICP-OES (Vista-MPX ® , Austrália), em configuração axial, controlada pelo software ICPExpert Vista 4.1.023. O Al foi quantificado na linha espectral de 396,152 nm; o Ba em 455,403 nm; o Fe em 238,204 nm; o Mn em 257,610 nm; o Na em 588,592 nm; e o Zn em 212,857 nm. Entre os parâmetros instrumentais utilizados: potência de 1,0 kW, fluxo de plasma de 15 L/min, bomba a 30 rpm, tocha de 2,4 mm e nebulizador tipo V-groove.
VALIDAÇÃO DO MÉTODO ANALÍTICO
A validação contemplou linearidade, exatidão (recuperação) e limites de detecção (LD) e de quantificação (LQ). As curvas de calibração foram construídas no intervalo de 0,025 a 3,2 mg/L, a partir de soluções padrão certificadas (Inorganics Venture ® , Estados Unidos).
A exatidão analítica foi avaliada pela porcentagem de recuperação, conforme a Equação 1, utilizando o material de referência SRM 1643f (National Institute of Standards and Technology - NIST, Estados Unidos)24.

Onde CE é a concentração determinada experimentalmente e CT é a concentração certificada no material de referência padrão.
O LQ foi determinado segundo o DOQ-CGCRE-008 (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - Inmetro)25, pela análise de dez brancos fortificados com a menor concentração da curva; o LD foi estimado como um terço do LQ.
As recuperações variaram de 95,5% a 102,7%, indicando boa concordância entre os valores certificados e experimentais. De acordo com a Association of Official Analytical Chemists (AOAC, Appendix F)24, um método é considerado exato quando a recuperação varia de 80% a 110%.
As concentrações certificadas e obtidas foram, respectivamente: Al (0,133 e 0,127 mg/L), Ba (0,513 e 0,524 mg/L), Fe (0,093 e 0,094 mg/L), Mn (0,037 e 0,038 mg/L), Na (18,640 e 18,855 mg/L) e Zn (0,074 e 0,073 mg/L).
Não foi possível aplicar testes de recuperação para pH, T, CE, STD, OD e ORP, pois não há materiais de referência certificados para esses parâmetros.
PROCEDIMENTOS ESTATÍSTICOS
A estatística descritiva foi aplicada aos dados, inicialmente organizados no software Microsoft Excel® 201926 e posteriormente analisados no Minitab ® 20.227. Foram construídos boxplots para avaliar a variabilidade dos dados; para explorar padrões multivariados, elaborou-se uma matriz normalizada com 66 amostras e 12 variáveis, submetida à Análise de Componentes Principais (Principal Component Analysis - PCA) e à Análise de Agrupamento Hierárquico (Hierarchical Cluster Analysis - HCA). Valores inferiores ao LD e ao LQ foram substituídos por LD/2 e LQ/2, respectivamente, a fim de evitar distorções estatísticas nas análises multivariadas28.
RESULTADOS
ANÁLISE ESTATÍSTICA DESCRITIVA
A Tabela 1 apresenta os valores médios, desvios padrão e intervalos observados para os parâmetros investigados, além dos LD, LQ e dos Valores Máximos Permitidos (VMP) estabelecidos pela Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 357/200529.
Tabela 1 - Análise estatística dos parâmetros físico-químicos e químicos da qualidade da água superficial na bacia hidrográfica do rio Maguari-Açu, município de Ananindeua, estado do Pará, Brasil.
| Parâmetro | Média ± DP | Mínimo | Máximo | LD | LQ | VMP |
|---|---|---|---|---|---|---|
| pH | 6,80 ± 0,39 | 5,92 | 9,00 | N.A. | N.A. | 6,0-9,0 |
| T (°C) | 28,78 ± 1,09 | 26,02 | 31,19 | N.A. | N.A. | N.A. |
| CE (µS/cm) | 1.332,90 ± 3.079,59 | 66,41 | 16.530,0 | N.A. | N.A. | N.A. |
| STD (mg/L) | 714,51 ± 1 584,00 | 47,0 | 8.467,0 | N.A. | N.A. | 500,0 |
| OD (mg/L) | 2,50 ± 1,56 | 0,04 | 6,19 | N.A. | N.A. | > 5,0 |
| ORP (mV) | 111,06 ± 72,38 | -77,80 | 274,20 | N.A. | N.A. | N.A. |
| Al (mg/L) | 0,09 ± 0,14 | 0,004 | 1,07 | 0,01 | 0,03 | 0,1 |
| Ba (mg/L) | 0,06 ± 0,06 | 0,004 | 0,21 | 0,01 | 0,03 | 0,7 |
| Fe (mg/L) | 0,72 ± 0,62 | 0,05 | 2,18 | 0,01 | 0,03 | 0,3 |
| Mn (mg/L) | 0,05 ± 0,02 | 0,004 | 0,13 | 0,01 | 0,03 | 0,1 |
| Na (mg/L) | 165,10 ± 359,19 | 3,13 | 1.539,00 | 0,01 | 0,03 | - |
| Zn (mg/L) | 0,02 ± 0,02 | 0,004 | 0,08 | 0,01 | 0,03 | 0,18 |
N.A.: Não se aplica; DP: Desvio padrão; LD: Limite de detecção; LQ: Limite de quantificação; VMP: Valor Máximo Permitido; pH: Potencial hidrogeniônico; T: Temperatura; CE: Condutividade elétrica; STD: Sólidos totais dissolvidos; OD: Oxigênio dissolvido; ORP: Potencial de oxirredução; Al: Alumínio; Ba: Bário; Fe: Ferro; Mn: Manganês; Na: Sódio; Zn: Zinco.
Nota: N.A. indica que não há valor máximo permitido estabelecido para o parâmetro na Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 357, de 17 de março de 2005. Para os parâmetros pH, T, CE, STD, OD e ORP, não se aplicam LD ou LQ.
As Figuras 2 e 3 mostram os boxplots com a variação sazonal dos parâmetros físico-químicos e dos metais ao longo das campanhas, permitindo observar a dispersão dos dados e as tendências sazonais.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Figura 2 - Boxplots dos parâmetros físico-químicos da água superficial do rio Maguari-Açu, comparando os períodos chuvoso e menos chuvoso. A linha central representa a mediana, as caixas indicam os quartis e os pontos correspondem aos valores atípicos (outliers)

Fonte: Elaborado pelos autores.
Figura 3 - Boxplots das concentrações de metais na água superficial do rio Maguari-Açu, comparando os períodos chuvoso e menos chuvoso. A linha central representa a mediana, as caixas indicam os quartis e os pontos correspondem aos valores atípicos (outliers)
A análise das águas superficiais do rio Maguari-Açu revelou variações sazonais marcantes. A temperatura variou de 26,0 a 31,2 °C (média: 28,8 °C), com pico em dezembro de 2024, coincidindo com o início do período mais chuvoso. A CE variou de 66,4 a 16 530 µS/cm (média: 1.332,9 µS/cm), atingindo valores máximos em outubro e reduzindo-se com o aumento da pluviosidade.
O ORP oscilou entre -77,8 e 274,2 mV (média: 111,1 mV), refletindo a transição de condições redutoras para oxidantes, com pico em abril de 2025. O pH variou de 5,9 a 9,0 (média: 6,8), predominando condições levemente ácidas a neutras. Os STD oscilaram de 32,2 a 8 090 mg/L (média: 714,5 mg/L), com maiores valores no período menos chuvoso e redução a partir de fevereiro, evidenciando a influência hidrológica.
O OD variou de 0,04 a 6,19 mg/L (média: 2,5 mg/L), com menores valores em fevereiro e recuperação em abril. As concentrações de Al variaram de 0,004 a 1,07 mg/L (média: 0,09 mg/L), aumentando no período mais chuvoso. O Ba variou de 0,004 a 0,212 mg/L (média: 0,06 mg/L); o Fe apresentou média de 0,72 mg/L (intervalo: 0,05-2,18 mg/L), com acúmulo no período menos chuvoso; o Mn oscilou de 0,004 a 0,130 mg/L (média: 0,050 mg/L); e o Zn manteve-se em níveis baixos (0,004-0,076 mg/L; média: 0,02 mg/L).
A PCA mostrou que as quatro primeiras componentes explicaram 74,8% da variância total (PC1 = 29,3%; PC2 = 19,4%; PC3 = 15,0%; PC4 = 11,1%). A PC1 foi influenciada por Na, CE e STD, associando-se à salinização e indicando um gradiente de mineralização da água. A PC2 foi influenciada por OD e Mn (carregamentos positivos) e por Ba e Zn (negativos), refletindo processos de oxirredução e disponibilidade de metais, nos quais a diminuição do OD pode favorecer a mobilização de Mn. A PC3 destacou Fe e ORP, relacionados à mobilização de metais, enquanto a PC4 evidenciou Al e temperatura, indicando processos físico-químicos influenciados por variações térmicas e pelas interações entre metais no sedimento e na coluna d'água.
No gráfico da PCA (Figura 4A), foram representadas apenas as componentes PC1 e PC2, que juntas explicaram 48,7% da variância total, permitindo visualizar a dispersão e o agrupamento das amostras.
A HCA corroborou os resultados da PCA (Figura 4B), revelando três grupos principais: (i) pH, CE, STD e Na; (ii) temperatura, OD, Fe e Mn; (iii) ORP, Al, Ba e Zn. O primeiro grupo correspondeu à PC1, relacionada à salinidade; o segundo refletiu os efeitos da oxigenação e da presença de metais-traço; e o terceiro expressou variações redox e aportes específicos de Al.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Figura 4 - Análise estatística multivariada dos parâmetros físico-químicos e das concentrações de metais: (A) PCA, mostrando a distribuição dos pontos amostrais e a contribuição dos parâmetros para os componentes principais; (B) HCA, com dendrograma que demonstra os agrupamentos entre as amostras com base na similaridade dos dados
DISCUSSÃO
QUALIDADE FÍSICO-QUÍMICA DA ÁGUA SUPERFICIAL
A variação da temperatura refletiu fatores locais, como cobertura vegetal e transição sazonal característica da região10. Santana13 observou variações de 22,06 a 24,71 °C, com valores mais baixos em áreas com maior cobertura de mata ciliar, evidenciando a modulação térmica da água por fatores ambientais locais. Essas oscilações podem afetar os ecossistemas aquáticos, alterando a composição de espécies e a disponibilidade de nutrientes, com reflexos sobre as comunidades que utilizam essa água30.
A CE apresentou ampla dispersão, especialmente nos meses menos chuvosos, indicando a contribuição de efluentes urbanos e do escoamento superficial, além da concentração natural de íons durante a estiagem. Esses valores extremos podem ser explicados pela combinação de áreas urbanas com baixo índice de saneamento, despejo de esgotos domésticos e variações sazonais na vazão31,6. Santana13 registrou CE elevada (>100 µS/cm) em bacias antropizadas, reforçando a relação entre urbanização, aporte de íons e aumento da condutividade elétrica, enquanto Vasconcelos Junior et al.32 observaram CE mais estável em águas superficiais, embora também influenciada pelo regime de marés e pelo aporte de águas continentais. Além disso, valores muito baixos em pontos específicos podem refletir diluição por chuva, influência de água subterrânea ou fluxos locais com baixo teor iônico33. Níveis elevados de CE indicam possível risco à saúde humana, devido à presença de sólidos dissolvidos e contaminantes, afetando o consumo de água e os ecossistemas aquáticos utilizados pela população34.
O ORP evidenciou a coexistência de condições oxidantes e redutoras, sendo os valores negativos mais frequentes em canais urbanos, onde há intensa atividade microbiana e decomposição de matéria orgânica35,36. A elevação progressiva do ORP durante o período mais chuvoso pode estar associada à renovação hídrica e ao aumento da oxigenação natural37.
O Na apresentou forte variação sazonal e espacial, com valores elevados nos pontos jusantes e nos meses menos chuvosos, sugerindo processos de salinização local, influência urbana e baixa diluição natural. Esse padrão é compatível com o descrito por Dos Santos et al.38 e Pereira et al.7 Santana13 também reportou valores elevados de Na em bacias urbanizadas, corroborando a influência antrópica na distribuição espacial do elemento. O excesso de Na pode ter implicações para a saúde humana, particularmente em populações que utilizam água não tratada, além de alterar os equilíbrios ecológicos naturais39.
A média de pH foi superior à reportada por Vasconcelos Junior et al.32 na foz do rio Maguari-Açu, o que pode refletir maiores efeitos sazonais sobre esse parâmetro na área de estudo40. Santana13 relatou pH variando de 6,1 a 7,3, evidenciando tendência similar de valores mais elevados em áreas antropizadas. Rios amazônicos são naturalmente ácidos devido à decomposição da matéria vegetal e à baixa capacidade de tamponamento; no entanto, elevações no pH podem indicar influência antrópica, como despejos domésticos, ou variações sazonais relacionadas à vazão e à diluição. Essas alterações afetam a solubilidade e a toxicidade de metais, com possíveis impactos ecológicos e sobre a saúde humana41-43.
O STD também refletiu o ciclo hidrológico, com concentrações mais elevadas no período menos chuvoso, devido à menor vazão fluvial44. Santana13 observou STD mais altos em áreas antropizadas, enquanto Vasconcelos Junior et al.32 registraram valores médios de 15,76 mg/L em águas superficiais, com variação sazonal associada ao aporte de águas continentais e à diluição durante os períodos chuvosos. O aumento do STD pode indicar contaminação por matéria orgânica, com consequências para a saúde dos ecossistemas e das comunidades locais45.
Os níveis de OD indicaram oxigenação insuficiente e potencial risco de anoxia. Estudos anteriores em trechos distintos do rio Maguari-Açu confirmam a recorrência de baixos níveis de OD em sistemas aquáticos impactados por matéria orgânica7,32. Essa condição pode ser explicada pela alta densidade populacional, pelo lançamento de efluentes domésticos e industriais e pela ausência de infraestrutura de saneamento, fatores que aumentam a demanda bioquímica de oxigênio46. A leve recuperação observada nos meses finais pode estar relacionada ao aumento da pluviosidade e à renovação das águas47.
A mobilização do Al pode estar associada à presença de matéria orgânica e à influência de áreas alagadas48. Santana13 relatou concentrações de Al abaixo do limite legal, enquanto Vasconcelos Junior et al.32 observaram valores variando de 0,0328 a 0,6966 mg/L, com picos durante a maré enchente, sugerindo influência do carreamento de metais e matéria orgânica. O Al, em concentrações elevadas, pode representar risco tóxico para organismos aquáticos e para a população humana, particularmente em comunidades que utilizam água para consumo direto49.
O Ba, por sua vez, tem sua mobilidade associada à acidez da água e à presença de efluentes ricos em compostos solúveis50,51. Santana13 registrou concentrações de Ba dentro dos limites legais, e Vasconcelos Junior et al.32 observaram média de 0,0163 mg/L em águas superficiais, com leve incremento durante a maré enchente, reforçando a dinâmica de carreamento natural e a influência de marés.
O comportamento sazonal do Fe pode estar relacionado à lixiviação de solos ferrosos e a processos redox52. O Mn apresentou origem predominantemente natural, vinculada ao intemperismo de solos lateríticos e latossolos, com influência sazonal significativa, embora com menor impacto antrópico direto53-55. Santana13 encontrou Fe e Mn abaixo dos limites legais, enquanto Vasconcelos Junior et al.32 reportaram Fe acima do VMP em 81% das amostras, principalmente nos meses de março e maio, e Mn acima do limite em uma única amostra, destacando a influência do regime pluviométrico e do transporte de metais pelas marés. Altas concentrações de Fe e Mn podem ter implicações tóxicas, afetando organismos aquáticos e a saúde das populações locais que utilizam o recurso hídrico56,57.
Por fim, o Zn apresentou as menores concentrações médias entre os metais analisados. A literatura aponta que sua presença está associada à adsorção em matéria orgânica e à lixiviação natural58, com picos temporais atribuídos a episódios de escoamento superficial59. Santana13 também reportou Zn abaixo dos limites legais, e Vasconcelos Junior et al.32 não indicaram valores críticos, sugerindo predominância de processos naturais na determinação desse metal em águas superficiais.
PADRÕES MULTIVARIADOS E IMPLICAÇÕES AMBIENTAIS
O gradiente de mineralização da água observado na PC1 está provavelmente associado à salinização e ao transporte de íons dissolvidos por escoamento superficial60. Os processos refletidos na PC2 indicam oxirredução e disponibilidade de metais, nos quais a diminuição do OD pode favorecer a mobilização de Mn, enquanto Ba e Zn podem apresentar maior solubilidade sob determinadas condições de pH e oxigenação61-64. Na PC3, Fe tende a precipitar ou se associar à matéria particulada em condições mais oxidadas (maior ORP), reduzindo sua concentração na fase dissolvida65. Já a PC4 evidencia que os processos físico-químicos são modulados por variações térmicas e interações entre metais no sedimento e na coluna d'água66.
O cluster formado por CE, STD, Na e pH indica forte influência antrópica67, especialmente nos pontos MA01 a MA06. As concentrações elevadas de Na, principalmente nos pontos MA09 a MA11, podem estar associadas às intervenções urbanas ao longo da bacia, como a canalização de trechos do rio. Segundo Mesquita et al.68, tais alterações comprometem o equilíbrio hidrodinâmico do sistema, podendo favorecer a penetração de água salgada mesmo em áreas distantes da foz.
Esse comportamento também é compatível com a dinâmica estuarina da região amazônica, onde a amplitude das marés e a redução da vazão diminuem a resistência ao avanço da água salgada em períodos de baixa precipitação69. Esses resultados apontam potencial de exposição para comunidades locais, destacando a necessidade de ações de monitoramento e educação sanitária.
O cluster composto por T, Fe, OD e Mn refletiu processos ambientais comuns, sobretudo relacionados à dinâmica redox e à influência de fatores físico-químicos na mobilidade dos metais70. Observou-se correlação moderada entre T e Fe, indicando que o aumento da temperatura pode favorecer a mobilização do metal a partir dos sedimentos, o que está de acordo com Liao et al.71, que demonstraram que concentrações de Fe dissolvido tendem a aumentar em temperaturas acima de 15 °C, favorecendo sua liberação. De forma semelhante, a associação entre Mn e OD aponta para a sensibilidade desse metal às condições de oxirredução, já que tanto Mn quanto Fe apresentam comportamento redox dependente e são mobilizados em ambientes com baixa disponibilidade de oxigênio70. Essas dinâmicas sugerem impacto direto sobre a saúde ambiental, afetando a qualidade da água, os habitats aquáticos e as comunidades que dependem desse recurso.
Esse padrão reforça a hipótese de que a composição desse agrupamento é influenciada por processos sazonais, nos quais a estratificação térmica e o aporte pluviométrico modulam a disponibilidade de oxigênio e, consequentemente, a dinâmica geoquímica de metais redox-sensíveis72,73.
O cluster formado por ORP, Al, Ba e Zn, apesar da baixa similaridade geral, indicou a atuação de fatores ambientais específicos que, em determinados pontos, influenciam conjuntamente a mobilidade e a distribuição desses parâmetros. Gad et al.74 demonstraram que Ba e Zn apresentam comportamento conjunto em ambientes impactados por efluentes industriais e atividades agrícolas e, embora em outros contextos esses elementos apareçam em agrupamentos distintos, a correlação observada no presente estudo reforça a hipótese de que fontes pontuais ou difusas de contaminação influenciam simultaneamente a distribuição desses metais-traço.
Por fim, a correlação moderada entre ORP e Al sugere que o estado redox exerce influência sobre a mobilização do metal no ambiente aquático. Em águas superficiais, o Al tende a formar naturalmente camadas de óxidos que afetam sua solubilidade; entretanto, sua reatividade e disponibilidade são fortemente moduladas por variáveis físico-químicas, como pH e potencial de oxirredução75. Nesses contextos, processos como a degradação da matéria orgânica e o aporte de efluentes podem alterar o equilíbrio redox, promovendo mudanças na especiação química e na biodisponibilidade de metais no ambiente estuarino76-78. O monitoramento desses elementos é fundamental para prevenir riscos à saúde humana e ao ecossistema, orientando a gestão de recursos hídricos e políticas públicas.
Os resultados evidenciam a necessidade de ações de remediação voltadas à mitigação dos impactos antrópicos na bacia do rio Maguari-Açu, com ênfase na ampliação do saneamento básico, no controle de efluentes e na recuperação de áreas ripárias. A presença de Fe, Al, Mn e Na em concentrações elevadas indica potenciais riscos à saúde das comunidades que utilizam a água para consumo e recreação. Essas evidências reforçam a importância de políticas públicas integradas de monitoramento e gestão hídrica sustentável em ambientes urbanos amazônicos.
CONCLUSÃO
A qualidade da água na bacia do rio Maguari-Açu é fortemente influenciada pela sazonalidade e por pressões antrópicas, especialmente em áreas urbanas sem saneamento. Os parâmetros físico-químicos refletiram variações sazonais, com maiores concentrações no período seco e diluição natural durante o período chuvoso.
A PCA evidenciou gradientes distintos, destacando a salinização, a influência de efluentes urbanos e a dinâmica redox como fatores determinantes para a variação dos parâmetros físico-químicos e dos metais. A HCA identificou clusters específicos de amostras, indicando pontos mais impactados por atividades urbanas e áreas de menor renovação hídrica, o que reforça a importância do monitoramento espacial para a gestão ambiental.
A dinâmica redox (ORP, OD, Fe e Mn) destacou-se como fator determinante para a mobilidade e a biodisponibilidade de metais, sendo o Fe o principal contaminante, seguido por Al e Mn, com maior acúmulo em áreas de baixa renovação hídrica.
Os achados evidenciam a vulnerabilidade das bacias urbanas amazônicas e reforçam a necessidade de estratégias integradas para a gestão sustentável dos recursos hídricos. Além disso, indicam potenciais riscos à saúde das comunidades que dependem da água para consumo, pesca ou lazer, especialmente em trechos impactados por esgoto e atividades urbanas.
Os resultados fornecem subsídios técnicos para políticas públicas direcionadas à mitigação da contaminação, ao monitoramento contínuo e a ações de educação ambiental, contribuindo para a resiliência hídrica urbana e para pesquisas futuras voltadas à conservação de ecossistemas aquáticos no contexto das mudanças climáticas.













