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Epidemiologia e Serviços de Saúde

versão impressa ISSN 1679-4974versão On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.31 no.1 Brasília  2022  Epub 01-Abr-2022

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-49742022000100012 

ARTIGO ORIGINAL

Custos das autorizações de internação hospitalar por quedas de idosos no Sistema Único de Saúde, Brasil, 2000-2020: um estudo descritivo

Costos de las autorizaciones de ingresos hospitalarios por caídas de ancianos en el Sistema Único de Salud, Brasil, 2000-2020: estudio descriptivo

Juliana da Silva Lima (orcid: 0000-0001-5361-8814)1  , Deise Vacario de Quadros (orcid: 0000-0001-6442-2649)1  , Sabrina Letícia Couto da Silva (orcid: 0000-0001-6791-9036)2  , Juliana Petri Tavares (orcid: 0000-0003-4121-645X)3  , Daiane Dal Pai (orcid: 0000-0002-6761-0415)3 

1Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil

2Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

3Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Porto Alegre, RS, Brasil

Resumo

Objetivo:

Descrever os custos das autorizações de internação hospitalar (AIHs) por quedas de idosos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.

Métodos:

Estudo descritivo de custos, realizado a partir do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, por meio das AIHs decorrentes de quedas de idosos (60 anos ou mais), no período de 2000 a 2020. Foram realizadas análises descritivas e mensurados os custos, por macrocusteio.

Resultados:

Foram registradas 1.746.097 AIHs por quedas de idosos, somando custos de R$ 2.315.395.702,75. A proporção de custos de internações foi maior entre aqueles com 80 anos ou mais (36,9%), sexo feminino (60,4%) e região Sudeste do país (57,3%). A média de permanência das internações variou de 5,2 a 7,5 dias.

Conclusão:

Os elevados custos identificados revelam a necessidade de investimentos em medidas mais efetivas, para prevenir e mitigar os danos decorrentes das quedas em idosos.

Palavras-chave: Acidentes por Quedas; Custos Hospitalares; Hospitalização; Idoso; Epidemiologia Descritiva; Custo e Análise de Custo.

Resumen

Objetivo:

Describir los costos de Autorizaciones de Admisión Hospitalaria (AAH) por caídas de ancianos dentro del Sistema Único de Salud (SUS) de Brasil.

Métodos:

Estudio descriptivo de costos a partir de datos del Sistema de Información Hospitalaria del SUS, mediante las AAH por caídas de ancianos de 60 años y más, en el período 2000 a 2020. Se realizaron análisis descriptivos y la medición de costos mediante microcosteo.

Resultados:

Se registraron 1.746.097 AAH por caídas de ancianos, con un costo de R$ 2.315.395.702,75. La proporción de costos de hospitalización fue mayor entre los ancianos de 80 años o más (36,9%), entre el sexo femenino (60,4%) y en la región Sudeste (57,3%). La duración media de la estancia hospitalaria osciló entre 5,2 y 7,5 días.

Conclusión:

Los altos costos revelan la necesidad de invertir en medidas más efectivas para prevenir y mitigar los daños derivados de las caídas de ancianos.

Palabras clave: Accidentes por Caídas; Costos de Hospital; Hospitalización; Anciano, Epidemiología Descriptiva; Costos y Análisis de Costo.

Contribuições do estudo

Principais resultados

Registraram-se 1.746.097 autorizações de internação hospitalar por quedas de idosos, com permanência média de 5,2 a 7,5 dias. O custo total das internações foi de R$ 2.315.395.702,75, maior entre ≥80 anos, sexo feminino e região Sudeste.

Implicações para os serviços

Os achados possibilitam dimensionar o impacto financeiro das quedas em idosos, subsidiando políticas públicas e ações prioritárias para essa população.

Perspectivas

O investimento em serviços de base comunitária constitui o foco principal na implementação de estratégias de prevenção, bem como a qualificação nos registros como forma de elucidar custos indiretos e identificar outras ações de investimento social.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um processo natural em que ocorre um declínio geral das capacidades físicas dos indivíduos.1 A presença de doenças crônico-degenerativas, declínio cognitivo, alterações visuais e na mobilidade física, além da polifarmácia, fazem com que os idosos se tornem mais frágeis e vulneráveis a eventos como as quedas.2 Estratégias para prevenir essas quedas poderiam reduzir, substancialmente, os custos com saúde.3

A queda é o acidente doméstico mais frequente entre os idosos. Estima-se que, nessa população, cerca de 60% a 70% das quedas ocorram nos domicílios ou seus arredores, e que 30% das pessoas com mais de 65 anos e 50% daquelas acima de 80 anos sofram ao menos uma queda anual. No Brasil, 22,5% dos óbitos de idosos ocorridos no período de 1996 a 2005 decorreram de quedas.2,4,5 O domicílio é considerado pelo idoso um local seguro, dada a familiaridade e conhecimento do local, e talvez, por esse motivo também, torne-se um ambiente de risco, devido à autoconfiança no deslocamento e realização de atividades rotineiras, e inadequações do ambiente e mobiliário, como presença de tapetes não fixados, obstáculos físicos e ausência de barras de apoio nos banheiros. Somam-se a esses fatores as alterações fisiológicas decorrentes do processo de envelhecimento.4,6

A queda pode acarretar danos graves, lesões de pele, luxações e fraturas, prejudicar a mobilidade física, agravar condição clínica prévia, reduzir progressivamente a capacidade funcional, causar dependência e gerar consequências psicológicas, como ansiedade, insegurança, perda da confiança pelo medo de cair novamente, isolamento social, perda da autonomia e da independência para realização das atividades básicas da vida diária.1,2,4

Os custos econômicos de lesões relacionadas a quedas são substanciais. Na Austrália, o custo médio do atendimento de saúde para idosos com 65 anos ou mais é de US$ 1.049 por queda tratada, enquanto na República da Finlândia, esse valor é de US$ 3.611.3 Esses custos dizem respeito ao diagnóstico, tratamento, recuperação e reabilitação da doença. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos buscou estimar os custos médios diretos para lesões fatais e não fatais em hospitais, prontos-socorros e ambientes ambulatoriais entre os idosos, e identificou a ocorrência de 24.190 lesões fatais e 3,2 milhões de lesões não fatais relacionadas a quedas, tratadas clinicamente, na população idosa daquele país, em 2012. Os custos médicos diretos implicados nesse tratamento totalizaram US$ 616,5 milhões para lesões fatais e US$ 30,3 bilhões para lesões não fatais,7 demonstrando a necessidade de estratégias multimodais que possam, tanto na comunidade quanto nas instituições hospitalares e de longa permanência, fomentar práticas de saúde que possibilitem a mitigação do dano.

A queda é um problema de saúde pública e um evento adverso que afeta de 4% a 16% dos indivíduos hospitalizados em países desenvolvidos. No Brasil, as quedas representam o terceiro evento adverso mais notificado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com risco elevado entre idosos internados e uma prevalência de 28% a 32% fora das instituições de saúde.8-10

Nesse sentido, são necessários estudos que contribuam para uma reflexão sobre o impacto das quedas entre a população idosa e também na economia dos serviços de saúde, além da implementação de medidas para prevenir essa ocorrência.

O objetivo do presente estudo foi descrever os custos das internações por quedas em idosos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.

MÉTODOS

Desenho do estudo

Trata-se de estudo descritivo de custos das autorizações de internação hospitalar (AIHs) por quedas de idosos, realizadas no SUS. O período de observação dos custos foi de 2000 a 2020. Para condução do estudo, adotou-se o documento ‘Diretrizes Metodológicas: Diretriz de Avaliação Econômica’.11

Foram utilizados dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), postos à disposição, pelo Departamento de Informática do SUS (Datasus), para consulta pública. No SIH/SUS são registradas todas as AIHs financiadas pelo SUS, para fins de reembolso.12

A mensuração dos custos das internações foi realizada por macrocusteio,12 a partir de dados disponibilizados pelo Datasus. Para lidar com as incertezas metodológicas do estudo, como a escolha do método de valoração dos custos, foram utilizadas diretrizes nacionais.13

Contexto

O aumento da população com idade acima de 60 anos no Brasil tem se intensificado nas últimas décadas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),14 os idosos brasileiros, no ano 2000, eram 15,5 milhões, 8,6% da população do país. Já em 2020, passaram para 29,9 milhões, o que representa 14% dos brasileiros.

Esse crescimento acelerado da população idosa aumenta a preocupação quanto às quedas, um evento mais frequente entre essa população, inclusive no próprio domicílio. A queda pode causar danos físicos graves e resultar em hospitalizações, e seu tratamento contribui significativamente para onerar os sistemas de saúde.6

Cada hospitalização gera uma AIH. Trata-se de um instrumento de registro, utilizado por todos os gestores e prestadores de serviços do SUS para habilitação das internações e geração de valores para pagamento. Na AIH, são registrados (i) os dados das instituições hospitalares, (ii) a identificação do indivíduo, (iii) o diagnóstico principal e secundário, de acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), (iv) os procedimentos realizados e (v) os valores pagos. O pagamento é realizado por valores pré-fixados para os procedimentos médico-hospitalares, que contemplam os materiais a serem utilizados, os procedimentos realizados, os profissionais de saúde envolvidos e a estrutura de hotelaria. Portanto, os custos pagos pelas internações dependem do preenchimento adequado da AIH.15

Participantes

Entre as internações hospitalares registradas por instituições hospitalares vinculadas ao SUS,14 foram incluídas as internações de idosos a partir dos 60 anos, por causas externas, classificadas com os códigos da CID-10 W00-W19, referentes a quedas.

Variáveis

Foram analisadas as variáveis descritas a seguir:

  1. sexo (feminino; masculino);

  2. faixa etária (em anos: 60 a 69; 70 a 79; 80 ou mais);

  3. região do país (Norte; Nordeste; Centro-Oeste; Sudeste; Sul);

  4. média de permanência hospitalar (em dias);

  5. letalidade hospitalar (razão entre o total de óbitos por quedas e o total de internações por quedas, multiplicada por 100);

  6. valor total das internações hospitalares pagas (em R$ milhões).

Realizou-se o cálculo da letalidade hospitalar por queda, considerando-se que a queda é um evento prevenível e que sua ocorrência pode ocasionar danos graves ou até mesmo levar a óbito. Ademais, o cálculo do indicador permite traçar um panorama da gravidade dos acidentes por quedas nesse perfil de indivíduos, e seus custos para o sistema público de saúde.

Fonte de dados e mensuração

O Datasus divide seu banco de dados com informações dos períodos ‘1998 até 2007’ e ‘a partir de 2008’. O caminho seguido no sítio eletrônico para obtenção dos dados foi: Acesso à informação > Informações de Saúde (TABNET) > Epidemiológicas e Morbidade > Morbidade Hospitalar do SUS > Causas externas, por local de internação de 1998 a 2007, ou Causas externas, por local de internação a partir de 2008 > Abrangência geográfica: Brasil por região e unidade da federação > Conteúdo: Internações, Valor Total, Média de Permanência e Taxa de Mortalidade > Períodos disponíveis: Jan/2000 a Dez/2007; e Jan/2008 a Dez/2020 > Grupo de Causas: W00-W19 Quedas > Faixa Etária 1: 60 a 69 anos, 70 a 79 anos e 80 anos e mais.12 Os dados foram extraídos no mês de maio de 2021.

Análise de dados

As análises estatísticas dos dados foram realizadas utilizando-se os softwares Microsoft Excel 365 e SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 18.0 para Windows.

Foram elaboradas tabelas de frequências (simples e cruzadas) e gráficos de linhas. Calculou-se o número total de internações, o tempo médio de permanência hospitalar, a letalidade hospitalar e os valores totais despendidos pelo SUS nos períodos de 1998-2007 e 2008-2020. O cálculo dos custos foi realizado dividindo-se o custo agregado das internações [em reais (R$)], no período, pelo número de AIHs.16 Foram geradas estatísticas descritivas (tabelas de frequências, gráficos de linhas, cálculo de médias e desvio-padrão). A média das internações e a média do custo total, por região do Brasil, foram calculadas dividindo-se os somatórios dos valores obtidos no SIH/SUS pelo número de anos do período de estudo (21 anos: 2000 a 2020).

Além disso, foram apresentados os custos totais, ajustados segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do período do estudo.

O recorte temporal do estudo permitiu verificar a evolução da ocorrência de quedas nessa população específica, registradas no SIH/SUS; e incluiu o ano de 2013, quando foi criado o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), no intuito de prevenir e reduzir a incidência de eventos adversos relacionados à assistência nos serviços de saúde, e incentivar as instituições de saúde a desenvolver e implementar protocolos que garantam uma assistência mais segura aos usuários da Saúde.17

Considerações éticas

O projeto do estudo atendeu às determinações descritas na Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) no 466, de 12 de dezembro de 2012.18 Não houve submissão do projeto à avaliação de um Comitê de Ética em Pesquisa, pois foram utilizados dados de domínio público, que não permitem a identificação dos sujeitos.

RESULTADOS

No SIH/SUS, foram registradas 1.746.097 AIHs por quedas em idosos no Brasil, no período de 2000 a 2020, o que correspondeu a um custo de R$ 2.315.395.702,75 para o sistema de saúde, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 - Frequências absoluta (N) e relativa (%), média de permanência, letalidade hospitalar e custos, segundo faixa etária e sexo, das autorizações de internação hospitalar por quedas entre a população idosa, Brasil, 2000-2007 e 2008-2020 

Características Período
2000-2007 2008-2020
Faixa etária (anos) Sexo N (%) Média de permanência (dias) Letalidade hospitalar (%) Custo (R$) (%) Custo-a (R$)a N (%) Média de permanência (dias) Letalidade hospitalar (%) Custo (R$) (%) Custo-a (R$)a N total (%) Custo total (R$) (%) Custo-a total (R$)a
60-69 Masculino 88.775 (13,5) 6,2 3,9 71.210.621,44 (10,1) 181.606.293,06 238.306 (36,2) 6,1 3,7 310.603.500,11 (44,2) 407.228.826,39 327.081 (49,7) 381.814.121,55 (54,3) 588.835.119,45
Feminino 88.693 (13,5) 5,2 1,6 65.665.838,23 (9,4) 167.795.454,52 242.484 (36,8) 5,2 1,4 254.747.242,75 (36,3) 334.294.757,11 331.177 (50,3) 320.413.080,9 (45,7) 502.090.211,63
Total 177.468 (27,0) - - 136.876.459,67 (19,5) 349.401.747,58 480.790 (73,0) - - 565.350.742,86 (80,5) 741.523.583,50 658.258 (37,7) 702.227.208,53 (30,3) 1.090.925.331,08
70-79 Masculino 59.219 (10,6) 7,0 6,0 57.751.976,69 (7,6) 141.841.581,90 150.666 (26,8) 7,5 11,4 243.040.470,22 (32,1) 320.571.075,71 209.885 (37,4) 300.792.446,91 (39,7) 462.412.657,61
Feminino 97.916 (17,4) 6,4 2,8 95.064.156,09 (12,5) 233.955.428,37 254.139 (45,2) 7,4 7,2 362.382.945,39 (47,8) 478.453.069,54 352.055 (62,6) 457.447.101,48 (60,3) 712.408.497,91
Total 157.135 (28,0) - - 152.816.132,78 (20,1) 375.797.010,27 404.805 (72,0) - - 605.423.415,61 (79,9) 799.024.145,25 561.940 (32,2) 758.239.548,39 (32,8) 1.174.821.155,52
80-89 Masculino 39.442 (7,5) 7,3 9,1 44.789.748,16 (5,2) 109.631.518,89 114.915 (21,9) 7,5 11,4 213.932.613,33 (25,0) 279.822.337,95 154.357 (29,4) 258.722.361,49 (30,2) 389.453.856,84
Feminino 92.798 (17,6) 7,3 5,6 107.464.653,41 (12,6) 263.326.248,13 278.744 (53,0) 7,4 7,2 488.741.930,93 (57,2) 639.717.858,52 371.542 (70,6) 596.206.584,34 (69,8) 923.044.106,65
Total 132.240 (25,1) - - 152.254.401,57 (17,8) 372.957.767,02 393.659 (74,9) - - 702.674.544,26 (82,2) 919.540.196,47 525.899 (30,1) 854.928.945,83 (36,9) 1.292.497.963,49
Total 466.843 (26,7) - - 441.946.994,02 (19,1) 1.098.156.524,85 1.279.254 (73,3) - - 1.873.448.702,73 (80,9) 2.460.087.925,23 1.746.097 (100,0) 2.315.395.702,75 (100,0) 3.558.244.450,08

a) Custo ajustado (custo-a) pela inflação, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Na faixa etária de 60 a 69 anos, ocorreu a maior proporção participativa de internações por quedas em idosos (37,7%), o que correspondeu a 30,3% do custo total dessas internações; observou-se um valor 5,5% menor (32,2%) no número de internações na faixa etária de 70 a 79 anos, embora os custos correspondentes a esta idade fossem mais elevados, 32,8% do valor total dessas internações; e, finalmente, o custo dessas internações aos 80 anos ou mais de idade representou 36,9% do valor total do custo das hospitalizações de idosos por essa causa (Tabela 1).

Houve maior proporção de internações por quedas entre o sexo feminino: 60,4% do total de internações, sendo 50,3% na idade de 60 a 69 anos, 62,6% para as de 70 a 79 anos, e 70,6% no contigente de 80 anos ou mais (Tabela 1).

O custo de R$ 702.227.208,53 referiu-se a internações por quedas na população de 60 a 69 anos, sendo 54,3% desse valor destinados às internações do sexo masculino. Para a mesma faixa etária, a média de permanência hospitalar foi de 6,2 dias para o sexo masculino e de 5,2 dias para o feminino; além disso, a letalidade hospitalar masculina nessa idade foi maior que o dobro da feminina: 3,9% contra 1,6%, entre os anos de 2000 e 2007; e 3,7% contra 1,4% entre 2008 e 2020 (Tabela 1).

Nas faixas etárias de 70 a 79 e 80 anos ou mais, a letalidade hospitalar também foi mais elevada para o sexo masculino. Entre os idosos de 70 a 79 anos, nos períodos 2000-2007 e 2008-2020, a letalidade hospitalar para o sexo masculino foi de 6,0% e 11,4% respectivamente, contra 2,8% e 7,2% para o feminino. Entre os idosos de 80 anos ou mais, para os mesmos períodos, a letalidade hospitalar foi de 9,1% e 11,4% para o sexo masculino contra 5,6% e 7,2% para o feminino. Contudo, a maioria das internações por quedas entre toda a população idosa, ao longo de ambos os períodos, foi do sexo feminino (Tabela 1).

No período de 2000 a 2019, houve um aumento de 162,2% no número de hospitalizações por quedas em idosos, logo seguido de um decréscimo de 12,6% entre 2019 e 2020, conforme dados e linhas de tendência apresentados na Figura 1.

Figura 1 - Número de autorizações de internação hospitalar por quedas entre a população idosa, por regiões, Brasil, 2000-2020 

Em relação ao valor total pago pelas internações, observa-se na Figura 2 uma tendência de elevação dos custos entre os anos 2000 e 2019, e logo, também, uma queda no custo total das internações em 2020, relativamente ao ano anterior.

Figura 2 - Custo total (em R$ milhões) das autorizações de internação hospitalar por quedas entre a população idosa, por regiões, Brasil, 2000-2020 

A região com maior proporção de internações por quedas foi a Sudeste, responsável por 54,4% do total do país, seguido pela Sul (18,6%) e Nordeste (17,8%). Sobre os custos registrados, a região Sudeste confirmou a maior proporção no valor total das internações por quedas em idosos no país (57,3%), aqui também seguida pelas regiões Sul (19,2%) e Nordeste (16,1%), conforme apresenta a Tabela 2.

Tabela 2 - Frequências absoluta (N) e relativa (%) das autorizações de internação hospitalar por quedas entre a população idosa, e custo total (em R$ milhões), por regiões, Brasil, 2000-2020 

Região Internações Custo das internações
N % Média Desvio-padrão Custo total (R$) Custo total (%) Médiaa Desvio-padrão Custo-a totalb
Norte 46.266 2,7 2.203,1 682,1 37.905.660,13 1,8 1,8 0,9 59.325.076,40
Nordeste 306.734 17,8 14.606,4 6.273,5 370.425.099,31 16,1 17,6 10,8 550.379.755,43
Centro-Oeste 112.967 6,5 5.379,4 2.106,8 126.915.524,12 5,6 6,0 3,3 194.815.054,77
Sudeste 950.227 54,4 45.248,9 11.746,1 1.322.905.588,79 57,3 63,0 29,4 2.063.901.180,94
Sul 325.065 18,6 15.479,3 5.190,3 441.674.214,73 19,2 21,8 12,1 689.823.382,54
Total 1.746.097 100,0 16.583,4 16.561,6 2.315.395.729,75 100,0 110,3 26,4 3.558.244.450,08

a) Valores apresentados em R$ milhões; b) Custo total ajustado (custo-a total) pela inflação, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

DISCUSSÃO

O custo total das internações hospitalares por quedas na população idosa foi diretamente proporcional à idade, ou seja, progressivamente maior na medida do crescimento da faixa etária. Além disso, maior número de internações foi observado entre o sexo feminino e na região Sudeste do país.

Apesar de os idosos com 80 anos ou mais terem o menor número de internações, em comparação aos das demais faixas etárias, seu maior custo para o sistema de saúde relaciona-se com a superior média de permanência das internações. Ainda que não tenha sido o foco deste estudo, de acordo com a literatura, as comorbidades, a polifarmácia e as complicações associadas podem contribuir para o aumento dos custos e da média de permanência das internações nessa população.19

Outro estudo, que analisou as internações por quedas em idosos e seus custos no âmbito do SUS entre 2005 e 2010,19 evidenciou que a média de permanência hospitalar subiu com o aumento da idade, e que os idosos com 80 anos ou mais obtiveram a maior média de permanência, atribuída à maior frequência de comorbidades quando comparada à mesma média para outras faixas etárias. Entretanto, o mesmo estudo observou que o número de internações decresceu à medida que aumentou a idade dos idosos.

A identificação de uma maior frequência de internações entre idosos do sexo feminino, em comparação ao masculino, percebida no presente estudo, corrobora os resultados de pesquisa semelhante, realizada com base no banco de dados do Datasus para o Brasil, sobre o período de 2005 a 2010,19 quando foram identificadas 59,7% das internações por quedas de idosos em pessoas do sexo feminino. Fatores como a maior incidência de osteoporose, alterações relacionadas à menopausa, que podem interferir no equilíbrio hormonal, assim como a redução da massa muscular e a maior expectativa de vida para as mulheres, frente aos homens, são possíveis causas para uma maior prevalência de quedas nesse grupo populacional.1,20

Apesar de o número de internações ter sido mais elevado entre o sexo feminino, o tempo de permanência hospitalar e a letalidade hospitalar foram maiores para o masculino. Estes achados corroboram os resultados de um estudo que analisou a tendência da morbimortalidade por quedas em idosos no Brasil, no período de 1996 a 2012, atribuídos por seus autores, Abreu et al., ao fato de os homens se envolverem em atividades físicas mais perigosas, que ocasionariam quedas com maior gravidade.21

Observou-se incremento no número de internações e seu custo total, durante os anos de 2000 a 2019, seguido de redução em 2020. É possível que a redução nas internações observada no último ano do período de estudo esteja relacionada à recomendação do isolamento social como medida de controle, durante a pandemia do novo coronavírus, e os idosos tenham-se mantido em suas residências, com a consequente redução no risco de acidentes.22 Porém, o isolamento domiciliar dificultou a prática de exercícios físicos nessa população, o que costuma levar à redução da massa e força muscular, potencializando o risco de quedas6 e, por conseguinte, a necessidade - e oportunidade - de instituir medidas de prevenção e promoção da saúde, como exemplo o incentivo à prática de exercícios em casa.23

Os valores da tabela de procedimentos do SUS foram unificados em 2008, quando foi criado o Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS (SIGTAP), que permite a emissão de relatórios sobre os procedimentos diagnósticos, clínicos e cirúrgicos realizados, medicamentos, órteses, próteses e materiais especiais utilizados, além de transplantes e ações de prevenção e promoção da saúde. Em razão da própria data de criação do SIGTAP, não foi possível a obtenção desses dados relativos ao período de 2000 a 2007.

Observou-se que o número de internações por quedas e seus custos foram mais elevados na região Sudeste, seguida pelas regiões Sul e Nordeste. Este resultado pode ser explicado pelo perfil demográfico da população brasileira. Segundo dados do IBGE, a região Sudeste concentra cerca de 50% da população idosa, enquanto as regiões Nordeste e Sul, respectivamente 24,7% e 16,4% dessa população.24 Outros estudos corroboram esses achados e apontam para Sudeste, Sul e Nordeste como as regiões que apresentaram os maiores custos com hospitalizações por quedas de idosos no país. A elevada frequência de comorbidades na população dessas regiões, possivelmente, ainda contribui para sua maior repercussão nos gastos com os serviços prestados pela saúde pública.19,25 Esses dados permitem definir políticas públicas, ações prioritárias e investimentos, particularmente a elaboração de estratégias de prevenção focadas não somente nos grupos vulneráveis, mas também nas regiões com proporção considerável de suscetíveis.10

A variação na qualidade de registro dos sistemas de informações, nas diferentes regiões do país, pode influenciar os resultados observados, tendo por base evidências de que os dados de internações por causas externas, como as quedas, são de maior qualidade no Sul e Sudeste.21

Além dos custos diretos, devem-se considerar, igualmente, os custos indiretos decorrentes do evento, que representam custos econômicos e sociais devidos às mortes precoces, incapacidade laboral, perda ou redução de produtividade por limitações físicas e/ou afastamentos temporários ou definitivos do trabalho, entre indivíduos que sofreram a queda.6,26 Além do impacto social, as quedas em idosos trazem consequências econômicas às famílias, podendo afetar a renda familiar, dada a necessidade de a família arcar com despesas extraordinárias, na atenção e tratamento de possíveis sequelas da queda. Além disso, há o aumento natural da dependência do idoso por problemas decorrentes de queda, o que,27 diante de uma possível sobrecarga da família, pode repercutir na qualidade de vida de todos.

Este estudo tem como limitação a utilização de dados secundários, relativos às AIHs, que podem não representar a totalidade das internações por quedas no SUS, haja vista a possibilidade de registro desses eventos com outros códigos da CID-10, como aqueles que refletem os desfechos e não a queda em si. Além disso, os custos de internação extrapolam os custos da AIH, podendo haver gastos com profissionais não previstos e, portanto, não cobertos pela AIH, procedimentos de tabela especial de alta complexidade e outros itens de custo não incluídos. Adicionalmente, o preenchimento da AIH no SUS é sensível ao conhecimento clínico, desenho dos processos de trabalho e categorização de dados. Outra limitação do estudo encontra-se no fato de novas internações ou transferências do mesmo indivíduo para outros hospitais não serem identificadas pelo SIH/SUS, o que pode resultar em contagens cumulativas.

A despeito dessa limitação, no âmbito do SUS, o Datasus é amplamente utilizado no país em estudos que avaliam custos para os serviços de saúde,11 e os bancos de dados governamentais constituem uma fonte confiável, legitimável, possibilitando intervenções e subsidiando a tomada de decisões.12,25 Outrossim, os valores referenciados no Datasus dizem respeito ao repasse realizado às instituições de saúde, que pode não condizer com os valores investidos de fato para o tratamento das quedas.

Ainda que o aporte financeiro evidenciado diga respeito aos atendimentos de pessoas que sofreram quedas externas às instituições de saúde, a queda em idosos predispõe a novas quedas, consistindo em outra limitação deste estudo, uma vez que não foi possível identificar se as novas quedas aconteceram dentro das instituições de saúde e referem-se a indivíduos que sofreram quedas anteriores em ambientes externos.

Apesar de o estudo ter como foco a análise dos custos econômicos das internações atribuídas a quedas, vale lembrar que, nos ambientes da Saúde, existe o custo humano para o profissional responsável por um idoso. Uma queda do indivíduo quando internado, a depender da gravidade do fato, não só tem repercussão para ele e sua família; uma ocorrência mais grave pode implicar a perda da reputação do profissional encarregado de seus cuidados, levá-lo a ser visto de exemplo para estigmas sociais e causar impacto à sua vida enquanto trabalhador e como pessoa. Além disso, as instituições de saúde podem pagar mais um custo, com sua imagem pública, ante a fragilidade dos processos de trabalho envolvidos na atenção a idosos.

Conclui-se que as hospitalizações por quedas em idosos no SUS aumentaram em todas as regiões no país, no período estudado, gerando custos elevados para o sistema público de saúde do Brasil, à exceção do ano de 2020, quando ocorreu redução dos custos por internações, possivelmente devido às medidas de isolamento durante a pandemia da COVID-19.

Considera-se que as quedas são, na maioria das vezes, acontecimentos evitáveis, cabendo aos gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade em geral estabelecerem estratégias e medidas efetivas voltadas a sua prevenção, com olhar atento à população idosa, naturalmente mais vulnerável, dado o processo de envelhecimento.

São necessários mais investimentos em ações de prevenção e de promoção da saúde, particularmente para o objeto deste estudo - por exemplo, em programas de prevenção de quedas, dirigidos à população idosa. Tais medidas contribuirão para um envelhecimento mais seguro, reduzindo os riscos de quedas e propiciando melhor qualidade de vida, e, como consequência, redução das hospitalizações e fortalecimento dos serviços de base comunitária por meio da atenção primária à saúde. O montante econômico aportado para o tratamento das quedas em idosos justifica o investimento em estratégias de saúde pública, seja na promoção de práticas inclusivas e ações intersetoriais, focadas no envelhecimento com saúde, seja na incorporação de equipamentos e mobiliários mais seguros para uso dos idosos na vida diária.

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Recebido: 27 de Julho de 2021; Aceito: 13 de Dezembro de 2021

Correspondência: Juliana da Silva Lima E-mail: jslima@hcpa.edu.br

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

Lima JS contribuiu na concepção e delineamento do estudo, análise e interpretação dos resultados, redação e revisão crítica do conteúdo do manuscrito. Quadros DV, Silva SLC, Tavares JP e Dal Pai D contribuíram na análise e interpretação dos resultados, redação e revisão crítica do conteúdo do manuscrito. Todas as autoras aprovaram a versão final do manuscrito e são responsáveis por todos os seus aspectos, incluindo a garantia de sua precisão e integridade.

CONFLITOS DE INTERESSE

As autoras declararam não haver conflitos de interesse.

Editora associada:

Isis Polianna Silva Ferreira de Carvalho - https://orcid.org/0000-0002-0734-0783

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