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Epidemiologia e Serviços de Saúde

versión impresa ISSN 1679-4974versión On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.32 no.3 Brasília  2023  Epub 22-Sep-2023

http://dx.doi.org/10.1590/s2237-96222023000300004.en 

ARTIGO ORIGINAL

Tendência temporal da taxa de abandono e da cobertura da vacina tríplice viral no Brasil, 2014-2021

Lívia de Lima Moura (orcid: 0000-0002-5192-6060)1  , Mercedes Neto (orcid: 0000-0001-7529-9535)2  , Reinaldo Souza-Santos (orcid: 0000-0003-2387-6999)3 

1Fundação Instituto Oswaldo Cruz, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

2Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Enfermagem de Saúde Pública, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

3Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Contribuições do estudo

Principais resultados

As coberturas vacinais anuais estiveram abaixo de 95% no Brasil. A segunda dose da vacina apresentou tendências estacionárias e decrescentes nas Unidades da Federação. A taxa de abandono manteve-se com alta variação, em todo o período do estudo.

Implicações para os serviços

Os resultados encontrados acerca das tendências servem de subsídio e apontam para a urgência no planejamento de ações que visem melhorar a cobertura da vacina tríplice viral no território nacional.

Perspectivas

São necessários investimentos na qualificação de profissionais da vigilância epidemiológica e em sistemas informatizados, com vistas ao monitoramento contínuo, que subsidiem ações de promoção de melhores coberturas vacinais em tempo oportuno.

Palavras-chave: Vacinação da Criança; Cobertura Vacinal; Esquema de Vacinação; Estudos de Séries Temporais

Resumo

Objetivo:

analisar a tendência temporal da cobertura e da taxa de abandono da vacina tríplice viral no Brasil, nas Unidades da Federação (UFs) e grandes regiões nacionais, entre 2014 e 2021.

Métodos:

estudo ecológico de série temporal, sobre dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações e do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos; foram utilizados modelos de regressão por pontos de inflexão.

Resultados:

as coberturas vacinais anuais, no Brasil como um todo, estiveram abaixo de 95%, variando de 92,3% (2015) a 54,4% (2021); a segunda dose da vacina apresentou tendência temporal decrescente no período (variação média no período = -5,8; IC95% -10,5;-0,8); as tendências temporais foram estacionárias e decrescentes nas UFs; a taxa de abandono variou de 22,2% (2014) a 37,4% (2021).

Conclusão:

houve tendência de queda da cobertura vacinal e aumento da taxa de abandono, no Brasil como um todo e nas UFs.

Palavras-chave: Vacinação da Criança; Cobertura Vacinal; Esquema de Vacinação; Estudos de Séries Temporais

INTRODUÇÃO

A vigilância epidemiológica, quando integrada às ações de imunização, possibilita o controle, a erradicação e a eliminação de doenças imunopreveníveis, promovendo melhoria na saúde da população.1),(2 Contudo, os benefícios da imunização são desigualmente distribuídos: em populações mais pobres, mais marginalizadas e mais vulneráveis, o acesso e esses benefícios é limitado aos serviços de imunização.3

A agenda Imunização 2030 (IA2030) tem a finalidade de melhorar o acesso da população global a cuidados de saúde primária e alcançar a cobertura universal de produtos vacinais. Nesse sentido, a vacinação infantil é imprescindível ao fortalecimento das políticas de saúde pública, implementação e progresso dos programas de imunização, em todo o mundo.3

Vários países alcançaram melhora na cobertura vacinal de crianças, no período de 1980 a 2010.4 Entretanto, na década de 2010, com a introdução e ampliação de novas vacinas, particularmente na América Latina e no Caribe, foram observadas reduções nas coberturas vacinais, sendo menor o número de países dessas regiões das Américas a atingir 90% de cobertura para cinco das nove vacinas infantis, entre 2013 e 2017: apenas 61% dos países latino-americanos e caribenhos alcançaram 90% de cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral, no ano de 2017.4),(5

As dificuldades para se atingir ou manter a meta da cobertura vacinal são recorrentes. No ano de 2020 especialmente, durante os estágios iniciais da pandemia do novo coronavírus (covid-19), serviços rotineiros de imunização infantil chegaram a ser interrompidos por conta de medidas de distanciamento social, tomadas com o propósito de prevenir a transmissão do vírus SARS-CoV-2. Consequentemente, campanhas preventivas de vacinação em massa contra doenças como sarampo, meningite e poliomielite deixaram de ser executadas.6

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil é mundialmente reconhecido, dada a dimensão geográfica e a complexidade das operações envolvidas nas campanhas de vacinação, vacinação de rotina e bloqueios vacinais, no país.7),(8

O PNI oferta, gratuitamente, uma variedade de imunobiológicos para diferentes faixas etárias, da infância à velhice. Com a adesão da população à vacinação e a vigilância oportuna, houve a interrupção da transmissão do sarampo nas Américas.9),(10 O sarampo é uma doença extremamente contagiosa, pode ocasionar complicações graves e até mortes, principalmente em menores de 5 anos de idade e crianças desnutridas.11 Não obstante, a circulação do sarampo em outras regiões do mundo levou à reintrodução do vírus no Brasil, em 2018,12 associada à queda da cobertura vacinal no país.10),(13),(14

A cobertura vacinal é um dos indicadores aptos a avaliar o desempenho das estratégias de vacinação, ao mensurar o efeito da intervenção em uma população elegível. Outro indicador de cobertura vacinal é a taxa de abandono, que estima a adesão da população ao calendário de vacinação proposto pelo PNI brasileiro, ou seja, quantos iniciaram e não completaram o esquema vacinal. A cobertura vacinal também estima a efetividade das intervenções, frente às ações programadas. (3),(15

A vigilância dos indicadores de imunização é imprescindível para o alcance e a manutenção das metas de cobertura estabelecidas, visando proteger a população das doenças imunopreveníveis, principalmente daquelas que acometem crianças.15),(16

O Brasil oferta a vacina tríplice viral - contra sarampo, caxumba e rubéola - no calendário de vacinação infantil, com uma primeira dose aos 12 meses de idade; e aos 15 meses de idade, a segunda dose da mesma vacina tríplice ou, substitutivamente, uma dose da vacina tetraviral - contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela. Assim preconiza o PNI, desde 2014.

O objetivo deste estudo foi analisar a tendência temporal da cobertura e da taxa de abandono da vacina tríplice viral no Brasil, segundo Unidades da Federação (UFs) e macrorregiões do país, nos anos de 2014 a 2021.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo ecológico de série temporal, utilizando-se de dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI)17 e do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc),18 relativas ao período de 2014 a 2021, tendo como unidades de análise o território brasileiro, as UFs e as grandes regiões nacionais.

O SI-PNI agrega informações relativas aos registros das doses aplicadas, por período de tempo e área geográfica de aplicação;17 e o Sinasc, informações referentes aos nascimentos registrados no território nacional.18 Os dois bancos de dados são de livre acesso, disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).17),(18

Os registros do SI-PNI e do Sinasc foram consultados e seus dados processados utilizando-se o Tabulador de Informações em Saúde (TabNet), aplicativo disponibilizado pelo Datasus.17),(18 Os dados de ambos os sistemas foram acessados em 25 de outubro de 2022 e filtrados utilizando-se o TabNet, da seguinte forma:

a) Doses aplicadas - SI-PNI

- período (2014 a 2021);

- UF;

- imunobiológico (vacina tríplice viral e vacina tetraviral); e

- dose (1ª dose e 2ª dose);

b) População de nascidos vivos - Sinasc

- período (2014 a 2021);

- UF;

- ano do nascimento; e

- nascimento por residência da mãe.

O cálculo da cobertura vacinal foi realizado utilizando-se a seguinte fórmula:

Cobertura vacinal da primeira dose %=nº de doses aplicadas emcrianças com 12 mesespopulação de nascidos vivosx100

Cobertura vacinal da segunda dose %=nº de doses aplicadas emcrianças com 15 mesespopulação de nascidos vivosx100

Para a seleção da variável “segunda dose”, foram comparados os quantitativos da vacina tríplice viral e da tetraviral, optando-se pelo imunobiológico com o maior número de doses aplicadas na UF. Este procedimento foi necessário porque houve variação na logística de distribuição dessas vacinas no território brasileiro, ao longo do período analisado.19 No cálculo das coberturas vacinais por regiões, utilizou-se a mediana.

A taxa de abandono foi calculada com base nas primeiras doses aplicadas da vacina tríplice viral e nas segundas doses aplicadas da vacina tríplice viral ou tetraviral, tendo como critério de escolha o mesmo definido para o cálculo de cobertura vacinal. A taxa de abandono foi calculada utilizando-se a seguinte fórmula:

Taxa de abandono %=(nº de primeiras doses aplicadas-nº de segundas doses aplicadasnº de primeiras doses aplicadasx100

As taxas de abandono em UFs que apresentaram inconsistências, tais como valores < 1% ou valores negativos, foram substituídas pelo valor da taxa de abandono do ano anterior.

Na análise temporal da cobertura vacinal e da taxa de abandono, foram aplicados modelos de regressão por pontos de inflexão (joinpoint regression analysis) baseados no método de permutação de Monte Carlo. O modelo de regressão verificou se uma linha com múltiplas interrupções é estatisticamente melhor para descrever a evolução temporal da cobertura vacinal e da taxa de abandono, comparada a uma linha reta. A classificação da tendência temporal como não significante (p-valor > 0,05), positiva (p-valor < 0,05 e coeficiente da regressão positivo) ou negativa (p-valor < 0,05 e coeficiente da regressão negativo) permitiu calcular a variação percentual anual (VPA) e a variação média no período (VMP). No modelo de regressão, foram excluídos os anos com taxa de abandono < 1, por UF.20),(21) Para todas as análises de tendências temporais, considerou-se o intervalo de confiança de 95% (IC95%).

Foram gerados mapas temáticos das VMPs das coberturas vacinais e da taxa de abandono, segundo UF. Os estratos de valores das VMPs utilizados nos mapas temáticos foram obtidos adotando-se o procedimento de quebras naturais no programa QGIS.

A malha digital do Brasil e suas UFs foi obtida da página do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na internet (https://www.ibge.gov.br/geociencias/downloads-geociencias.html), acessada em 29 de dezembro de 2022.

Para as análises, foram utilizados os aplicativos Join Point Regression Program, versão 4.9.1.0, de abril de 2022 (Statistical Research and Applications Branch, National Cancer Institute), e o Sistema de Informação Geográfica QGIS.22

Foram consultadas apenas fontes de dados secundários, de domínio público e livre acesso, e, portanto, não foi necessário submeter o projeto do estudo a um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

RESULTADOS

No Brasil a cobertura da vacina tríplice viral variou de 92,3% a 54,4% entre os anos de 2015, 2017, 2018, 2020 e 2021. Quanto à segunda dose, a cobertura da vacina tríplice viral ou da tetraviral manteve-se abaixo de 95% no período estudado. A taxa de abandono manteve-se alta, ao longo de todo o período, com variação de 22,2% (2014) a 37,4% (2021) (Figura 1).

Figura 1 Cobertura vacinal (1ª dose e 2ª dose) e taxa de abandono, Brasil, 2014-2021 

Para o Brasil como um todo, a tendência temporal, no modelo de regressão de cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral, revelou-se não significante, tanto no primeiro período, de 2014 a 2019 (VPA = -2,4; IC95% -8,6;4,2), como no segundo período, de 2019 a 2021 (VPA = -6,7; IC95% -30,3;25,1) (Tabela 1).

Tabela 1 Tendências temporais das coberturas das vacinas tríplice viral (1ª dose), e tríplice viral ou tetraviral (2ª dose), por joinpoint regression, nas grandes regiões nacionais e Unidades da Federação, Brasil, 2014-2021 

Região/ Unidade da Federação 1ª dose 2ª dose
Período VPAa (IC95% b) Tendênciac Período VPAa (IC95% b) Tendênciac
Norte 2014-2019 -4,3 (-8,6;0,1) Não significante 2014-2019 -1,1 (-10,5;9,3) Não significante
2019-2021 -7,9 (-24,8;12,7) 2019-2021 -23,2 (-50,8;20,0)
RO 2014-2016 -9,7 (-36,0;27,4) Não significante 2014-2019 -5,0 (-11,1;1,5) Não significante
2016-2021 -3,9 (-11,0;3,8) 2019-2021 -23,5 (-43,1;2,9)
AC 2014-2019 -2,5 (-6,8;2,0) Não significante 2014-2019 6,0 (-6,0;19,5) Não significante
2019-2021 -11,2 (-27,4;8,7) 2019-2021 -38,9 (-64,3;4,5)
AM 2014-2016 -9,0 (-37,0;31,5) Não significante 2014-2019 -0,9 (-10,2;9,4) Não significante
2016-2021 -2,4 (-10,1;6,0) 2019-2021 -23,5 (-50,8;18,8)
RR 2014-2019 -9,4c (-13,4;-5,1) Negativa 2014-2019 -4,0c (-7,6;-0,3)
2019-2021 -0,3 (-18,8;22,5) Não significante 2019-2021 -27,5c (-38,7;-14,2) Negativa
PA 2014-2016 -16,0 (-49,0;38,4) Não significante 2014-2019 5,4 (-11,5;25,5) Não significante
2016-2021 -0,6 (-11,1;11,2) 2019-2021 -32,4 (-69,1;47,8)
AP 2014-2019 -5,9 (-15,1;4,3) Não significante 2014-2019 -4,2 (-16,6;10,0) Não significante
2019-2021 -9,9 (-43,0;42,5) 2019-2021 -28,6 (-61,6;32,6)
TO 2014-2017 -4,9 (-17,2;9,2) Não significante 2014-2019 1,7 (-16,9;24,4) Não significante
2017-2021 -0,4 (-8,8;8,6) 2019-2021 -20,1 (-67,6;97,0)
Nordeste 2014-2019 -2,5 (11,2;7,1) Não significante 2014-2019 -3,4 (-9,8;3,5) Não significante
2019-2021 -9,1 (-40,2;38,2) 2019-2021 -17,9 (-39,6;11,5)
MA 2014-2016 -15,1 (-43,8;28,2) Não significante 2014-2016 -18,8 (-59,2;61,7) Não significante
2016-2021 -3,6 (-12,1;5,7) 2016-2021 -4,2 (-17,9;11,8)
PI 2014-2016 -4,9 (-31,6;32,0) Não significante 2014-2019 0,6 (-9,4;11,7) Não significante
2016-2021 0,7 (-6,4;8,4) 2019-2021 -14,7 (-46,6;36,3)
CE 2014-2019 -4,2 (-14,5;7,3) Não significante 2014-2019 -5,7 (-16,3;6,2) Não significante
2019-2021 -11,1 (-46,5;47,9) 2019-2021 -14,3 (-49,6;45,7)
RN 2014-2019 -2,4 (-11,4;7,5) Não significante 2014-2016 -17,4 (-71,0;135,1) Não significante
2019-2021 -8,3 (-40,4;41,3) 2016-2021 -2,6 (-22,9;23,0)
PB 2014-2019 -2,0 (-10,9;7,9) Não significante 2014-2019 1,0 (-11,7;15,5) Não significante
2019-2021 -12,7 (-43,1;33,9) 2019-2021 -23,3 (-57,9;39,7)
PE 2014-2019 -1,0 (-11,9;11,2) Não significante 2014-2019 -3,9 (-4,5;-3,3) Não significante
2019-2021 -15,7 (-49,9;41,9) 2019-2021 -20,5 (-22,8;-18,1)
AL 2014-2019 -1,5 (-7,2;4,5) Não significante 2014-2019 -4,8 (-10,4;1,2) Não significante
2019-2021 -12,9 (-33,1;13,4) 2019-2021 -14,9 (-35,1;11,5)
SE 2014-2019 -0,7 (-6,4;5,4) Não significante 2014-2019 -2,5 (-6,2;1,4) Não significante
2019-2021 -7,8 (-29,1;20,1) 2019-2021 -7,6 (-22,3;10,0)
BA 2014-2016 -13,5 (-45,8;38,0) Não significante 2014-2016 -16,1 (-58,5;69,6) Não significante
2016-2021 -2,0 (-11,7;8,8) 2016-2021 -3,8 (-17,8;12,6)
Sudeste 2014-2019 -1,5 (-8,1;5,6) Não significante 2014-2019 -1,5 (-4,4;1,5) Não significante
2019-2021 5,6 (-30,8;28,7) 2019-2021 -9,0 (-20,4;4,1)
MG 2014-2019 -1,2 (-6,2;4,1) Não significante 2014-2019 1,8 (-11,2;16,8) Não significante
2019-2021 -4,3 (-24,3;20,8) 2019-2021 -11,1 (-51,9;64,2)
ES 2014-2019 -1,7 (-11,2;8,8) Não significante 2014-2019 -1,8 (-8,0;4,9) Não significante
2019-2021 -4,6 (-39,4;50,3) 2019-2021 -7,8 (-31,2;23,5)
RJ 2014-2019 -1,8 (-9,1;6,2) Não significante 2014-2019 -4,5 (-6,8;-2,2) Não significante
2019-2021 -23,7 (-46,2;8,1) 2019-2021 -27,8 (-35,2;-19,6)
SP 2014-2019 -1,1 (-4,5;2,5) Não significante 2014-2019 -2,4 (-5,0;0,2) Não significante
2019-2021 -4,3 (-18,4;12,4) 2019-2021 -9,4 (-19,7;2,3)
Sul 2014-2017 -5,1 (-14,2;4,9) Não significante 2014-2019 1,2 (-9,8;13,5) Não significante
2017-2021 0,6 (-5,6;7,2) 2019-2021 -9,6 (-46,0;51,2)
PR 2014-2017 -5,6 (-13,1;2,5) Não significante 2014-2019 1,7 (-7,9;12,3) Não significante
2017-2021 0,9 (-4,2;6,3) 2019-2021 -11,1 (-42,9;38,5)
SC 2014-2017 -5,3 (-15,8;6,4) Não significante 2014-2019 0,9 (-9,8;12,9) Não significante
2017-2021 0,0 (-7,1;7,7) 2019-2021 -9,3 (-45,1;49,8)
RS 2014-2016 -5,7 (-32,9;32,6) Não significante 2014-2019 3,4 (-10,0;18,8) Não significante
2016-2021 0,2 (-7,1;8,2) 2019-2021 -17,9 (-55,9;53,1)
Centro-Oeste 2014-2017 -7,0 (-23,3;12,7) Não significante 2014-2019 0,2 (-14,0;16,6) Não significante
2017-2021 - 0,5 (-11,9;12,3) 2019-2021 -23,2 (-61,1;51,7)
MS 2014-2016 -12,6 (-47,1;44,5) Não significante 2014-2019 -0,2 (-17,1;20,1) Não significante
2016-2021 -3,0 (-13,3;8,6) 2019-2021 -32,8 (-70,7;54,1)
MT 2014-2017 -7,1 (-20,7; 8,9) Não significante 2014-2019 -1,5 (-11,9;10,1) Não significante
2017-2021 -1,0 (-10,4;9,5) 2019-2021 -23,2 (-53,4;26,6)
GO 2014-2016 -11,5 (-28,2;9,1) Não significante 2014-2019 0,5 (-13,6;17,0) Não significante
2016-2021 -0,7 (-5,3;4,0) 2019-2021 -18,1 (-58,4;61,1)
DF 2014-2016 5,2 (-12,3;26,3) Não significante 2014-2016 14,0 (-41,9;123,8) Não significante
2016-2021 -1,9 (-5,9;2,2) 2016-2021 -8,9 (-21,6;6,0)
Brasil 2014-2019 -2,4 (-8,6;4,2) Não significante 2014-2019 -1,6 (-7,0;4,2) Não significante
2019-2021 -6,7 (-30,3;25,1) 2019-2021 -15,4 (-34,4;9,0)

a) VPA: Variação percentual anual; b) IC95%: Intervalo de confiança de 95%; c) Teste de significancia pelo metodo de permutacao de Monte Carlo.

Na cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral ou sua substituição por uma dose da vacina tetraviral, o modelo de regressão apontou os mesmos períodos das tendências temporais não significantes da cobertura vacinal da primeira dose. Contudo, para o período como um todo, de 2014 a 2021, observou-se tendência negativa (VMP = -5,8; IC95% = -10,5;-0,8), de 91,0% (2014) para 54,4% (2021) (Figura 1).

A tendência temporal no modelo de regressão de taxa de abandono foi considerada não significante, tanto no período 2014-2019 como no período 2019-2021.

Grandes regiões nacionais

Os resultados da análise de tendência temporal da primeira dose da cobertura da vacina tríplice viral, segundo grandes regiões do país, revelaram-se não significantes para as regiões Norte, Nordeste e Sudeste, no período de 2014 a 2019 (Tabela 1).

O Norte e o Nordeste apresentaram os mesmos comportamentos temporais da primeira dose da cobertura da vacina tríplice viral que o Brasil, entre 2014 e 2021. A tendência foi negativa (VMP = -5,4; IC95% -9,2;-1,4), reduzindo-se de 105,0% (2014) para 71,0% (2021) na região Norte (Tabela 2 e Figura 2A). Para a segunda dose da cobertura da vacina tríplice viral ou uma dose da vacina tetraviral, predominou tendência temporal não significante nas regiões brasileiras. Para a região Sudeste, observou-se tendência negativa (VMP = -3,7; IC95% -6,3;-1,1), de 92% (2014) para 66,6% (2021) (Tabela 2 e Figura 2B). A taxa de abandono foi não significante em qualquer das regiões brasileiras, em todo o período do estudo (Tabela 3).

Tabela 2 Coberturas das vacinas tríplice viral (1ª dose), e tríplice viral ou tetraviral (2ª dose), nas grandes regiões nacionais e Unidades da Federação, Brasil, 2014-2021 

Região/ Unidade da Federação 1ª dose 2ª dose
Período População < 1 ano Doses aplicadas Cobertura (%) Período População < 1 ano Doses aplicadas Cobertura (%)
Norte 2014-2019 316.408 277.688 87,7 2014-2019 316.408 213.955 67,6
2019-2021 305.655 234.748 76,8 2019-2021 305.655 173.553 56,7
RO 2014-2016 27.739 34.208 123,3 2014-2019 27.534 24.929 90,5
2016-2021 26.803 26.703 99,6 2019-2021 26.208 17.165 65,4
AC 2014-2019 16.559 13.941 84,1 2014-2019 16.559 10.089 60,9
2019-2021 15.521 11.294 72,7 2019-2021 15.521 7.955 51,2
AM 2014-2016 80.621 81.868 101,5 2014-2019 78.819 59.222 75,1
2016-2021 76.958 64.709 84,0 2019-2021 76.297 46.129 60,4
RR 2014-2019 11.798 10.820 91,7 2014-2019 11.798 9.811 83,1
2019-2021 14.047 9.133 65,0 2019-2021 14.047 7.627 54,2
PA 2014-2016 143.580 129.723 90,3 2014-2019 141.068 79.391 56,2
2016-2021 137.067 98.221 71,6 2019-2021 134.739 70.573 52,3
AP 2014-2019 15.761 14.049 89,1 2014-2019 15.761 11.598 73,5
2019-2021 14.874 10.416 70,0 2019-2021 14.874 7.472 50,2
TO 2014-2017 24.641 23.828 96,7 2014-2019 24.641 19.113 77,5
2017-2021 24.464 21.041 86,0 2019-2021 24.464 17.422 71,2
Nordeste 2014-2019 825.948 808.278 97,8 2014-2019 825.948 605.616 73,3
2019-2021 782.217 656.844 83,9 2019-2021 782.217 480.680 61,4
MA 2014-2016 117.317 123.694 105,4 2014-2016 117.317 92.323 78,6
2016-2021 111.018 82.263 74,0 2016-2021 111.018 59.086 53,2
PI 2014-2016 48.597 41.195 84,7 2014-2019 48.444 31.034 64,0
2016-2021 47.236 38.943 82,4 2019-2021 46.130 27.876 60,4
CE 2014-2019 129.346 148.190 114,5 2014-2019 129.346 118.188 91,3
2019-2021 124.331 113.893 91,6 2019-2021 124.331 90.104 72,4
RN 2014-2019 47.381 43.787 92,4 2014-2016 48.605 38.896 80,0
2019-2021 43.697 37.013 84,7 2016-2021 45.131 26.386 58,4
PB 2014-2019 58.081 56.730 97,6 2014-2019 58.081 39.092 67,3
2019-2021 56.819 48.964 86,1 2019-2021 56.819 35.275 62,0
PE 2014-2019 138.699 145.678 105,0 2014-2019 138.699 105.147 75,8
2019-2021 130.107 112.742 86,6 2019-2021 130.107 80.129 61,5
AL 2014-2019 51.028 53.423 104,6 2014-2019 51.028 37.963 74,3
2019-2021 48.828 43.961 89,4 2019-2021 48.828 29.147 59,6
SE 2014-2019 33.925 30.955 91,24 2014-2019 33.925 25.193 76,5
2019-2021 32.088 27.006 84,1 2019-2021 32.088 21.777 67,8
BA 2014-2016 205.344 212.162 103,3 2014-2016 205.344 172.157 83,8
2016-2021 197.404 160.343 81,2 2016-2021 197.404 119.084 60,3
Sudeste 2014-2019 1.161.104 1.131.875 97,4 2014-2019 1.161.104 944.673 81,3
2019-2021 1.069.265 955.463 89,3 2019-2021 1.069.265 783.218 73,2
MG 2014-2019 262.710 258.335 98,3 2014-2019 262.710 209.693 79,8
2019-2021 250.429 234.775 93,7 2019-2021 250.429 198.811 79,3
ES 2014-2019 55.893 53.727 96,1 2014-2019 55.893 44.143 78,9
2019-2021 54.153 48.820 90,1 2019-2021 54.153 41.405 76,4
RJ 2014-2019 226.679 236.052 104,1 2014-2019 226.679 174.434 76,9
2019-2021 202.079 156.917 77,6 2019-2021 202.079 112.494 55,6
SP 2014-2019 615.819 583.761 94,7 2014-2019 615.819 516.401 83,8
2019-2021 562.603 514.951 91,5 2019-2021 562.603 430.507 76,5
Sul 2014-2017 398.260 387.959 97,4 2014-2019 397.648 327.646 82,3
2017-2021 385.891 346.834 89,8 2019-2021 378.665 308.262 81,4
PR 2014-2017 158.642 158.753 100,0 2014-2019 157.966 134.750 85,3
2017-2021 151.990 138.624 91,2 2019-2021 148.683 124.132 83,4
SC 2014-2017 95.256 94.730 99,4 2014-2019 96.742 79.433 82,1
2017-2021 98.361 87.673 89,1 2019-2021 97.954 81.162 82,8
RS 2014-2016 145.837 136.896 93,8 2014-2019 142.940 113.462 79,3
2016-2021 136.517 122.054 89,4 2019-2021 132.026 102.967 77,9
Centro-Oeste 2014-2017 242.517 248.493 102,4 2014-2019 243.529 197.818 81,2
2017-2021 238.425 205.532 86,2 2019-2021 234.009 160.762 68,6
MS 2014-2016 44.100 54.160 122,8 2014-2019 43.930 39.112 89,0
2016-2021 42.960 48.429 112,7 2019-2021 42.103 28.936 68,7
MT 2014-2017 55.567 56.248 101,2 2014-2019 56.524 44.894 79,4
2017-2021 57.769 48.429 83,8 2019-2021 57.642 37.442 64,9
GO 2014-2016 100.235 101.854 101,6 2014-2019 98.485 73.892 75,0
2016-2021 95.600 81.222 84,9 2019-2021 93.882 63.809 67,9
DF 2014-2016 45.421 37.856 83,3 2014-2016 45.421 34.629 76,2
2016-2021 42.207 40.226 95,3 2016-2021 45.207 37.010 81,8

Unidades da Federação

Os resultados da análise de tendência temporal da primeira dose da cobertura da vacina tríplice viral segundo UF apontou tendência negativa em Roraima (VPA = -9,4; IC95% -13,4;-5,1), de 105,0% (2014) para 65,1% (2019) (Tabelas 1 e 2). Em relação à tendência temporal no período como um todo, de 2014 a 2021, o Acre e o Rio de Janeiro referiram tendências negativas (Figura 2A).

As UFs que compõem a região Sudeste apresentaram os mesmos comportamentos temporais da primeira dose da cobertura da vacina tríplice viral de sua região (Tabela 1).

Na segunda dose da cobertura da vacina tríplice viral, ou na opção de uma dose da tetraviral, Roraima apresentou tendência negativa nos períodos de 2014-2019 (VPA = -4,0; IC95% -7,6;-0,3) e 2019-2021 (VPA = -27,5; IC95% -38,7;-14,2), com variação de 85,6% a 37,0% no período como um todo, de 2014 a 2021. Neste período mais amplo, também foram observadas tendências negativas para Rondônia, Amapá, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Rio de Janeiro (Tabelas 1 e 2; Figura 2B).

As tendências temporais de taxa de abandono não foram avaliadas em Roraima e no Distrito Federal, porque foram menores que 1% entre os anos de 2017 e 2019 (Tabela 3).

Tabela 3 Tendência temporal da taxa de abandono, por joinpoint regression, nas grandes regiões nacionais e Unidades da Federação, Brasil, 2014-2021 

Região/ Unidade da Federação Período VPAa (IC95% b)
Norte 2014-2016 -35,9 (-86,6;207,0)
2016-2021 26,8 (-10,7;79,9)
RO 2014-2016 -20,0 (-74,4;150,4)
2016-2021 23,2 (-4,5;59,0)
AC 2014-2019 -23,2 (-47,3;11,9)
2019-2021 139,0 (-55,7;1188,5)
AM 2014-2019 -10,8 (-43,0;39,5)
2019-2021 95,1 (-73,6;1341,8)
RR 2014-2021c 9,3 (-24,3;57,8)
PA 2014-2019 -21,5 (-56,0;40,3)
2019-2021 91,4 (-85,7;2465,8)
AP 2014-2016 -33,8 (-82,2;146,3)
2016-2021 27,7 (-4,8;71,3)
TO 2014-2019 -16,1 (-67,3;115,4)
2019-2021 128,5 (-96,6;15419,1)
Nordeste 2014-2019 0,0 (-26,2;35,6)
2019-2021 32,1 (-66,1;414,5)
MA 2014-2019 0,5 (-16,3;20,6)
2019-2021 11,7 (50,6;152,8)
PI 2014-2016 -3,4 (-16,1;11,2)
2016-2021 42,1 (42,1;-24,3)
CE 2014-2016 43,9 (43,9;252,2)
2016-2021 -2,5 (-20,2;19,0)
RN 2014-2016 43,2 (-56,8;374,8)
2016-2021 -2,3 (-25,3;27,7)
PB 2014-2019 -10,9 (-29,2;12,3)
2019-2021 40,1 (-50,1;293,4)
PE 2014-2016 46,9 (-60,0;439,8)
2016-2021 -1,0 (-26,0;32,4)
AL 2014-2016 29,3 (-4,6;75,2)
2016-2021 1,0 (-5,6;8,2)
SE 2014-2018 8,0 (-14,6;36,6)
2018-2021 1,7 (32,2;42,5)
BA 2014-2019 -0,7 (-22,2;26,8)
2019-2021 29,6 (-56,6;286,9)
Sudeste 2014-2019 2,2 (-13,2;20,4)
2019-2021 21,4 (-41,5;152,0)
MG 2014-2017 -35,5 (-85,8;193,2)
2017-2021 25,8 (51,7;227,6)
ES 2014-2019 -6,0 (-35,3;36,5)
2019-2021 27,0 (-76,0;573,4)
RJ 2014-2016 37,8 (-53,6;309,0)
2016-2021 0,4 (-21,3;28,1)
SP 2014-2017 -18,4 (73,2;148,6)
2017-2021 31,9 (-34,8;166,8)
Sul 2014-2018 -23,4 (-62,5;56,5)
2018-2021 45,7 (-52,9;350,8)
PR 2014-2019 -42,1 (-70,8;14,8)
2019-2021 261,0 (-83,1;7609,6)
SC 2014-2019 -35,7 (-61,0;6,1)
2019-2021 93,1 (-79,4;1710,0)
RS 2014-2019 -26,7 (-64,6;51,8)
2019-2021 173,0 (-89,5;6979,6)
Centro-Oeste 2014-2016 -55,3 (-93,9;226,1)
2016-2021 42,9 (-8,4;122,9)
MS 2014-2018 -27,3 (-74,0;102,7)
2018-2021 82,3 (-64,0;823,2)
MT 2014-2019 -16,7 (-35,5;7,6)
2019-2021 132,2 (-26,1;629,7)
GO 2014-2019 -24,3 (-58,8;39,0)
2019-2021 93,1 (-87,2;2822,5)
DF 2014-2021c 29,7 (-26,8;130,1)
Brasil 2014-2019 -3,9 (-15,8;9,7)
2019-2021 49,2 (-17,5;169,9)

a) Variação percentual anual; b) IC95%: Intervalo de confiança de 95%; c) Sem resultados da regressão, devido aos baixos valores.

Nota: Todas as tendências mostraram-se estacionárias.

Os indicadores de cobertura vacinal e taxa de abandono, segundo o período observado, apresentaram tendências diferentes dentro da mesma região do país, evidenciando uma heterogeneidade temporal entre suas UFs (Tabelas 1, 2 e 3; Figura 2C).

a), b) e c) VMP: Variação média no período. d) Taxa de abandono: taxa de vacinados que iniciaram o esquema e não o finalizaram.

Figura 2 Distribuição espacial dos percentuais das variações médias anuais dos indicadores de imunização e classificação da tendência da taxa de abandono nas Unidades da Federação, Brasil, 2014-2021 

DISCUSSÃO

No presente estudo, tanto a cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral quanto sua segunda dose - ou a substituição desta por uma dose da vacina tetraviral - decresceram no Brasil como um todo, no período selecionado para o estudo. As UFs, especialmente, apresentaram tendências estacionárias ou decrescentes nas coberturas vacinais, seja na primeira, seja na segunda dose vacinal, ao longo do período estudado.

Vale enfatizar que os períodos de tendências temporais da cobertura vacinal da segunda dose foram de 2014-2019 e 2019-2021, em todas as regiões brasileiras. Entretanto algumas UFs, como Maranhão, Rio Grande do Norte, Bahia e Distrito Federal, diferem entre si, porque tinham como períodos de tendência 2014-2016 e 2016-2020, divergindo dos períodos de suas regiões. Tais divergências apontam para a possibilidade de diferentes fatores a interferir, em diferentes momentos, nas coberturas vacinais observadas.10

A taxa de abandono, indicativa da parcela da população que não concluiu o esquema vacinal,15 teve uma tendência estacionária, tanto no Brasil como em todas as suas regiões. O Nordeste e o Sudeste tiveram os mesmos períodos de tendências da taxa de abandono (2014-2019 e 2019-2021), em relação ao conjunto do Brasil. Entre as UFs, apenas Rondônia, Maranhão, Pernambuco, Sergipe, Bahia, São Paulo e Santa Catarina referiram os mesmos períodos do Brasil e das regiões Nordeste e Sudeste, no contexto temporal do estudo.

Nas UFs que possuem períodos e comportamentos de tendências diferentes de sua região, percebe-se uma heterogeneidade dentro da região, no que se refere às coberturas vacinais e às taxas de abandono.

As coberturas das vacinas infantis progrediram. Porém, no período de 2010 a 2019, as coberturas da terceira dose da vacina tríplice bacteriana (DTP), primeira dose da vacina tríplice viral e terceira dose da vacina contra a poliomielite estagnaram-se ou reduziram-se. No mundo, 94 países e territórios (46%) registraram reduções nessas coberturas.

A cobertura global da primeira dose da vacina tríplice viral estagnou-se, em um nível entre 84% e 86%, no período de 2010-2019, enquanto a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral aumentou de 42% para 71%, refletindo a introdução de segunda dose em muitos países.23

A segunda dose da vacina tríplice viral e/ou tetraviral não está contemplada em todos os calendários de vacinação mundiais.23 No caso do Brasil, a inclusão da segunda dose ocorreu em 2013 e sua cobertura manteve-se abaixo da meta preconizada pelo PNI (< 95%) desde 2014 até 2021.24

A heterogeneidade da cobertura vacinal de nove vacinas do calendário infantil, entre as regiões brasileiras, é mais destacada no Centro-Oeste, onde ela foi maior (90,6%), comparada às demais regiões, nos anos de 2015 a 2019. As UFs que compõem a região Norte também apresentaram heterogeneidade temporal na cobertura vacinal de nove vacinas do calendário infantil, sobressaindo-se Rondônia com a melhor cobertura (100%) e o Pará com a pior cobertura vacinal (69,4%), no mesmo período de 2015 a 2019.25

Estudo desenvolvido na Sérvia, sobre as tendências temporais das coberturas vacinais infantis obrigatórias, entre 2000 e 2017, utilizando-se de métodos estatísticos de regressão linear e joinpoint, obteve como resultado da regressão linear um declínio significativo nas coberturas das primeiras doses das vacinas contra poliomielite, DTP e tríplice viral. No mesmo período, as coberturas de todas as revacinações subsequentes diminuíram significativamente.26

O impacto da pandemia de covid-19 contribuiu para uma redução de 84% na cobertura global da primeira dose da vacina tríplice viral, enquanto a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral ou de uma dose tetraviral manteve-se estável, em valores percentuais médios de 71% em 2019 e 70% em 2020, estimados sobre uma heterogeneidade recorrente entre as diferentes regiões do mundo .27

Altas taxas de abandono se repetem, em nível global: em 2017, 6,2 milhões (31%) de crianças iniciaram mas não completaram o esquema da vacina DTP .28 Vale ressaltar que altas taxas de abandono podem significar redução da imunidade coletiva e aumento de casos de agravos imunopreveníveis.15

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento [United Nations Development Programme (UNDP/UN)] publicou que, de 10,7 bilhões de doses de vacinas distribuídas em todo o mundo, apenas 1% foi administrado em países de baixa renda, até meados de 2022. Sendo assim, a agenda da Imunização 2030 - IA2030 -, com base na equidade vacinal, pode não apenas ajudar a melhorar a qualidade das estimativas de cobertura, mas também ajudar a identificar e alcançar pessoas a serem vacinadas, incluindo aquelas pertencentes a populações deslocadas e marginalizadas, que não estão sendo totalmente imunizadas em tempo hábil.27),(29

As barreiras da equidade vacinal podem estar relacionadas à falta de credibilidade das informações e orientações prestadas por autoridades sanitárias e profissionais de saúde, a respeito da vacinação. “Notícias falsas” diminuem a confiança da população no sistema de saúde e, especialmente, nas ações e campanhas de vacinação. No entanto, à medida que as políticas governamentais ampliam a disponibilidade das vacinas e os profissionais de saúde se engajam no processo de vacinação, é fortalecido o processo de vacinação e, complementarmente, o sistema de saúde como um todo.10

Quanto às limitações do presente estudo, cumpre citar possíveis incertezas/imprecisões no cálculo da cobertura vacinal, quando o denominador de suas taxas contempla estimativas populacionais que subestimam ou superestimam a população menor de 1 ano de idade, além do número insuficiente de observações analisadas. Além disso, as constantes mudanças nos sistemas de informações de imunização podem acarretar erros de digitação e informações que não são migradas de um sistema para o outro e, consequentemente, uma cobertura vacinal subestimada e uma taxa de abandono superestimada.

O estudo em tela avança ao identificar heterogeneidade temporal e os períodos de tendências, além das diferenças na distribuição geográfica dos indicadores, análise que deveria ser incorporada à rotina dos serviços de saúde, ademais de abordar a taxa de abandono, um indicador de imunização pouco discutido na literatura científica.

Conclui-se pela necessidade de novos estudos que caracterizem a heterogeneidade espacial da cobertura da vacina tríplice viral e da taxa de abandono, e fatores possivelmente associados. Outrossim, os serviços de imunização devem acompanhar as tendências temporais nas coberturas vacinais, com o objetivo de intensificar ações educativas direcionadas à maior adesão da população às vacinas em momentos oportunos.

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TRABALHO ACADÊMICO ASSOCIADO Artigo derivado da tese de doutorado intitulada Taxa de abandono e cobertura vacinal da vacina tríplice viral e fatores associados: uma abordagem espacial e temporal, de autoria de Lívia de Lima Moura, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fundação Instituto Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) do Rio de Janeiro, em novembro de 2022, com previsão de defesa para 2024.

Recebido: 01 de Março de 2023; Aceito: 05 de Julho de 2023

Correspondência: Lívia de Lima Moura. E-mail: liviadelimamoura@yahoo.com.br

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

Moura LL, Neto M e Souza-Santos R contribuíram na concepção e delineamento do estudo, análise e interpretação dos resultados, redação e revisão crítica do conteúdo do manuscrito. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito e são responsáveis por todos seus aspectos, incluindo a garantia de sua precisão e integridade.

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declararam não haver conflitos de interesse.

Editora associada:

Doroteia Aparecida Höfelmann - https://orcid.org/0000-0003-1046-3319

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