SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.1 número4Avaliação microbiológica do processo de manipulação de antineoplásicos em um hospital de referência no tratamento de câncer no Estado do Pará, BrasilEstado da arte da brucelose em humanos índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

  • Não possue artigos citadosCitado por SciELO

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Pan-Amazônica de Saúde

versão On-line ISSN 2176-6223

Rev Pan-Amaz Saude v.1 n.4 Ananindeua dez. 2010

http://dx.doi.org/10.5123/S2176-62232010000400011 

ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE | ARTÍCULO ORIGINAL

 

Caracterização da resistência antimicrobiana de amostras de Shigella spp. isoladas em Belém, Estado do Pará, Brasil (1990-2000)

 

Characterization of antimicrobial resistance of samples of Shigella spp. isolated in Belém, Pará State, Brazil (1990-2000)

 

Caracterización de la resistencia antimicrobiana de muestras de Shigella spp. aisladas en Belém, Estado de Pará, Brasil (1990-2000)

 

 

Flávia Corrêa BastosI; Edvaldo Carlos Brito LoureiroII

IInstituto Evandro Chagas/SVS/MS, Ananindeua, Pará, Brasil. Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil
IIInstituto Evandro Chagas/SVS/MS, Ananindeua, Pará, Brasil

Endereço para correspondência
Correspondence
Dirección para correspondencia

 

 


 RESUMO

Avaliou-se a resistência antimicrobiana de amostras de Shigella spp. isoladas de membros da população com faixa etárias de 6 meses a 81 anos, habitantes da Cidade de Belém, Estado do Pará, no período de 1990 a 2000. Foram analisadas 50 amostras de Shigella spp. identificadas no Laboratório de Enteroinfecções Bacterianas da Seção de Bacteriologia e Micologia do Instituto Evandro Chagas e mantidas na bacterioteca da referida seção. Na caracterização fenotípica, 32 (64%) dos isolados foram identificados como S. flexneri e 18 (36%) como S. sonnei. Resistência a cefalotina, cefazolina, cefuroxima, cefuroxima axetil e tobramicina foi observada em 100% das amostras, embora elas apresentassem 100% de sensibilidade a cefpodoxima, ceftriaxona, levofloxacina e norfloxacina. Das amostras, 2% apresentaram resistência a ticarcilina/ácido clavulânico, 8% a cefoxitina e 44% a ticarcilina. Os resultados obtidos evidenciaram a acentuada resistência a diversos antimicrobianos desta enterobactéria causadora de graves infecções em humanos.

Palavras-chave: Diarreia; Shigella; Resistência Microbiana a Medicamentos. 


ABSTRACT

We evaluated the antimicrobial resistance of Shigella spp. samples isolated from inhabitants of the City of Belém, Pará State, Brazil, aged between 6 months and 81 years, from 1990 to 2000. We analyzed 50 samples of Shigella spp. that had been identified in the Laboratory of Enterobacterial Infections at the Bacteriology and Mycology Section of the Instituto Evandro Chagas and stored in its bacteria bank. After the phenotypic characterization, 32 (64%) isolates were identified as S. flexneri and 18 (36%) as S. sonnei. Resistance to cephalothin, cefazolin, cefuroxime, cefuroxime axetil and tobramycin was observed in 100% of the samples. However, they presented 100% susceptibility to cefpodoxime, ceftriaxone, levofloxacin and norfloxacin. Of the samples, 2% showed resistance to ticarcillin/clavulanic acid, 8% to cefoxitin and 44% to ticarcillin. The results showed a marked resistance to various antibiotics in these enterobacteria that cause serious infections in humans.

Keywords: Diarrhea; Shigella; Drug Resistance, Microbial.


RESUMEN

Se evaluó la resistencia antimicrobiana de muestras de Shigella spp. aisladas de miembros de la población en una franja etaria de 6 meses a 81 años, habitantes de la Ciudad de Belém, Estado de Pará, Brasil, en el período de 1990 a 2000. Fueron analizadas 50 muestras de Shigella spp. identificadas en el Laboratorio de Enteroinfecciones Bacterianas de la Sección de Bacteriología y Micología del Instituto Evandro Chagas y mantenidas en la bacterioteca de la referida sección. En la caracterización fenotípica, 32 (64%) de los aislados fueron identificados como S. flexneri y 18 (36%) como S. sonnei. Se observó resistencia a la cefalotina, cefazolina, cefuroxima, cefuroxima axetil y tobramicina en 100% de las muestras, aunque las mismas presentaran 100% de sensibilidad a la cefpodoxima, ceftriaxona, levofloxacina y norfloxacina. De las muestras, 2% presentaron resistencia a la ticarcilina/ácido clavulánico, 8% a la cefoxitina y 44% a la ticarcilina. Los resultados obtenidos evidenciaron la acentuada resistencia a diversos antimicrobianos de esta enterobacteria causadora de graves infecciones en humanos.

Palabras clave: Diarrea; Shigella; Farmacorresistencia Microbiana.


 

 

INTRODUÇÃO

A shigelose é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos principais problemas mundiais de saúde pública. A doença é causada por quatro espécies do gênero Shigella e está entre as principais causas de diarreia em crianças, principalmente nos países em desenvolvimento, porém também é responsável por diarreia nos países desenvolvidos. Com relação ao modo de transmissão, o risco de contrair a shigelose está associado à falta de saneamento básico e/ou de higiene pessoal1,2.

Estima-se que Shigella é responsável por aproximadamente 500 mil casos de diarreia, causando aproximadamente 6.231 casos de internações e 70 óbitos nos Estados Unidos, anualmente. O gênero Shigella ficou em terceiro lugar entre os patógenos de origem alimentar em 2004, segundo a Foodborne Diseases Active Surveillance Network (Foodnet) do Centers for Disease Control and Prevention (CDC)3.

No Brasil, dentre os vários estudos realizados, salienta-se aquele em que Peirnano et al4, analisando isolados de Shigella no período de 1 999 a 2004, reconheceram a prevalência de S. flexneri (52,7%) sobre S. sonnei (4,2%). As taxas mais elevadas de isolamento deste enteropatógeno foram observadas na Região Sudeste (39%), seguida da Região Nordeste (34%), havendo discreta ocorrência na Região Sul (3%) do país.

O uso indiscriminado de antimicrobianos possibilita a seleção de micro-organismos resistentes, reduzindo, por conseguinte, a eficácia dos medicamentos. Como medida de controle da resistência é fundamental instituir um sistema permanente de análise laboratorial sobre o nível de resistência de bactérias isoladas de pacientes hospitalizados e ambulatoriais portadores de processos infecciosos5.

A análise da resistência a antimicrobianos tem sido muito aplicada, juntamente com outros métodos, com a finalidade de caracterizar diversos patógenos, entre os quais o gênero Shigella. Tal caracterização tem sido desenvolvida tanto no Brasil2 quanto em outros países, como Chile1, África do Sul6, Bangladesh7 e Bélgica8.

Na Cidade de Belém, Estado do Pará, Brasil, pouco se conhece sobre a resistência de Shigella spp. aos antimicrobianos. Neste estudo, caracterizamos a resistência de amostras de Shigella spp. isoladas de pacientes com diarreia aguda, no período de 1990 a 2000 nessa cidade.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Para este estudo analisou-se um total de 50 amostras (que se apresentavam viáveis) de Shigella spp. isoladas no período de 1990 a 2000. Todas as amostras foram isoladas pelo método de coprocultura de pacientes apresentando clinicamente o quadro agudo de diarreia, tanto do sexo feminino como do masculino, dentro de uma faixa etária de 0 a 81 anos.

O isolamento dos enteropatógenos foi realizado por meio da semeadura da suspensão do material fecal em meios seletivos indicadores (ágar MacConkey - MC, ágar Salmonella Shigella - SS) (Difco) e em meio de enriquecimento (Caldo Selenito Cistina) (Difco). As colônias suspeitas foram então semeadas em meio de triagem (Triple Sugar Iron - TSI) (Difco). Posteriormente a caracterização bioquímica foi realizada em sistema automatizado (Vitek 2 Compact - bioMérieux), utilizando-se o cartão GN Test, e a identificação sorológica seguiu as recomendações de Kauffmann9 e Ewing10 utilizando-se os antissoros (Bio-Rad Laboratories) referentes a Shigella flexneri (Grupo B), Shigella boydii (Grupo C), Shigella dysenteriae (Grupo A) e Shigella sonnei (Grupo D).

Para caracterizar a resistência das amostras de Shigella spp. recorreu-se ao sistema automatizado (Vitek 2 Compact - bioMérieux) utilizando o cartão AST- GN05.

 

RESULTADOS

Entre as 50 amostras de Shigella isoladas, 32 (64%) foram identificadas como S. flexneri, 18 (36%) como S. sonnei, independentemente do período de isolamento e da idade dos pacientes. Salienta-se que na amostragem não foram detectadas as espécies S. dysenteriae e S. boydii. S. flexneri predominou em 1991 (46,8%) e reduziu seu aparecimento nos anos seguintes. Já S. sonnei apresentou taxas semelhantes em todo o período de dez anos (Tabela 1).

 

 

A resistência das amostras de Shigella spp. a todos antimicrobianos testados está apresentada na tabela 2. Todas as amostras analisadas apresentaram resistência à cefalotina, cefazolina, cefuroxima, cefuroxima axetil e tobramicina. Entretanto, 100% das amostras foram sensíveis à cefpodoxima, ceftriaxona, levofloxacina e norfloxacina. Nenhuma amostra apresentou sensibilidade a todos antimicrobianos testados.

 

 

Em relação ao total de amostras analisadas, 22 (44%) amostras foram resistentes à ticarcilina, das quais 21 eram S. flexneri e um S. sonnei. Com relação ao antimicrobiano ticarcilina/ácido clavulânico, apenas uma amostra (2%) foi resistente, sendo esta S. sonnei. Apenas quatro (8%) amostras apresentaram resistência à cefoxitina, sendo todas S. sonnei.

 

DISCUSSÃO

Shigella spp. é uma das enterobactérias mais comumente isoladas de processos entéricos em todo o Brasil11,12,13, incluindo a Região Norte.

Tendo em vista os estudos epidemiológicos da shigelose na Região Norte, além dos aspectos bacteriológicos na caracterização das espécies prevalentes, é importante avaliar o comportamento da sensibilidade   antimicrobiana   por  meio  de  análises permanentes14,15,16.

A análise da resistência das amostras de Shigella spp. indicou que esta enterobactéria é mais dificilmente tratada com cefalotina, cefazolina, cefuroxima e cefuroxima axetil, já que todas as amostras apresentaram resistência a estes antimicrobianos. Em contrapartida, os resultados mostram outras opções para o tratamento por meio de cefpodoxima, ceftriaxona, levofloxacina e norfloxacina, pois não foi detectada nenhuma resistência a estes antimicrobianos. Outras opções também podem ser sugeridas,  utilizando-se cefoxitina  e ticarcilina,  pois apresentaram baixa resistência: 8% e 44%, respectivamente (Tabela 1).

Os dados apresentados neste estudo estão concordantes com dados apresentados em outros Estados do Brasil4,13,17,18, assim como em outros países da América Central, América do Norte, África, Oriente Médio e Índia, como descrito por Drews et al19.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo demonstraram que a avaliação contínua da resistência antimicrobiana de amostras de Shigella spp. é extremamente importante para a determinação do tratamento adequado para shigelose, que apresenta grande importância em saúde pública.

 

AGRADECIMENTOS

Aos técnicos da Seção de Bacteriologia e Micologia do Instituto Evandro Chagas: Madalena Lobato, Maria Odete Arouche, José Caetano Silva e Raimundo Nonato Araújo, pelo apoio técnico.

 

REFERÊNCIAS

1 Fullä N, Prado V, Duron C, Lagos R, Levine MM. Surveillance for antimicrobial resistance profiles among Shigella species isolated from a semirural community in the northern administrative area of Santiago, Chile. Am J Trop Med Hyg. 2005 Jun;72(6):851-4. [Link]

2 Penatti MP, Hollanda LM, Nakazato G, Campos TA, Lancellotti M, Angellini M, et al. Epidemiological characterization of resistance and PCR typing of Shigella flexneri and Shigella sonnei strains isolated from bacillary dysentery cases in Southeast Brazil. Braz J Med Biol Res. 2007 Nov;40(2):249-58. Doi: 10.1590/S0100-879X2006005000069 [Link]

3 Center for Disease Control and Prevention. National Antimicrobial Resistance Monitoring System for Enteric Bacteria: human isolates final report 2004. Atlanta: Center for Disease Control and Prevention (US), Department of Health and Human Services; 2007. [Link]

4 Peirano G, Souza FS, Rodrigues DP. Shigella Study Group. Frequency of serovars and antimicrobial resistance in Shigella spp. from Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2006 May;101(3):245-50. Doi: 10.1590/S0074-02762006000300003 [Link]

5 Niyogi SK. Increasing antimicrobial resistance-an emerging problem in the treatment of shigellosis. Clin Microbiol Infect. 2007 Oct;13(12):1141-3. DOI: 10.1111/j.1469-0691.2007.01829.x [Link]

6 Yah CS. Plasmid-encoded multidrug resistance: a case study of Salmonella and Shigella from enteric diarrhea sources among humans. Biol Res. 2010 May;43:141-8.

7 Rahman M, Shoma S, Rashid H, El Arifeen S, Baqui AH, Siddique AK, et al. Increasing spectrum in antimicrobial resistance of Shigella isolates in Bangladesh: resistance to azithromycin and ceftriaxone and decreased susceptibility to ciprofloxacin. J Health Popul Nutr. 2007 Jun;25(2):158-67. [Link]

8 Vrints M, Mairiaux E, Meervenne V, Collard JM, Bertrand S. Surveillance of antibiotic susceptibility patterns among Shigella sonnei strains isolated in Belgium during the 18-year period 1990 to 2007. J Clin Microbiol. 2009 May;47(5):1379-85.

9 Ka uffm ann F. E nterobacteria ceae. 2nd E d. Copenhagen: Munksgaard; 1954.

10 Ewing WH. Edward and Ewing's identification of Enterobacteriaceae. 4th ed. New York: Elsevier; 1986. 536 p.

11 Aranda KR, Fabbricotti SH, Fagundes-Neto U, Scaletsky IC. Single multiplex assay to identify simultaneously enteroaggregative, enterotoxigenic, enteroinvasive and Shiga toxin-producing Escherichia coli strains in Brazilian children. FEMS Microbiol Lett. 2007 Feb;267(2):145-50. DOI: 10.1111/j.1574-6968.2006.00580.x [Link]

12 Diniz-Santos DR, Santana JS, Barretto JR, Andrade MGM, Silva LR. Epidemiological and microbiological aspects of acute bacterial diarrhea in children from Salvador, Bahia, Brazil. Braz J Infect Dis. 2005 Jan;9(1):77-83. Doi: 10.1590/S1413-86702005000100013 [Link]

13 Loureiro CBL, Souza CO, Sousa EV, Santos DV, Rocha DCC, Ramos FLP, et al. Detecção de bactérias enteropatogênicas e enteroparasitas em pacientes com diarréia aguda em Juruti, Pará, Brasil. Rev Pan-Amaz Saude. 2010 jan-mar;1(1):143-8. Doi: 10.5123/S2176-62232010000100020  [Link ]

14 Orlandi PP, Magalhães GF, Matos NB, Silva T, Penatti M, Nogueira PA, et al. Etiology of diarrheal infections in children of Porto Velho (Rondonia, Western Amazon region, Brazil). Braz J Med Biol Res. 2006 Apr;39(4):507-17. Doi: 10.1590/S0100-879X2006000400011 [Link]

15 Maroja RC, Lowery WD. Estudos sobre diarréias agudas II. Frequência de Shigella e Salmonella nos casos de diarréias agudas em Santarém-Pará. Rev Fund SESP 1956 dez;8(2):585-9. [Link]

16 Linhares AC, Monção HC, Gabbay YB, Araújo VL, Serruya AC, Loureiro ECB. Acute diarrhoea associated with rotavirus among children living in Belém, Brazil. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1983;77(3):384-90. [Link]

17 Oplustil CP, Nunes R, Mendes C, Resistnet group. Multicenter evaluation of resistance patterns of Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli, Salmonella spp and Shigella spp isolated from clinical specimens in Brazil: resistnet surveillance program. Braz J Infect Dis. 2001 Feb;5(1):8-12. Doi: 10.1590/S1413-86702001000100002 [Link ]

18 Silva T, Nogueira PA, Magalhães GF, Grava AF, Silva LHP, Orlandi PP. Characterization of Shigella spp. by antimicrobial resistance and PCR detection of ipa genes in an infantile population from Porto Velho (Western Amazon region), Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2008 Nov;103(7):731-3. Doi: 10.1590/S0074-02762008000700017  [Link]

19 Drews SJ, Lau C, Andersen M, Ferrato C, Simmonds K, Stafford L, et al. Laboratory based surveillance of travel-related Shigella sonnei and Shigella flexneri in Alberta from 2002 to 2007. Global Health. 2010 Nov;6:20. Doi:10.1186/1744-8603-6-20 [Link]

 

 

Correspondência / Correspondence / Correspondencia:
Flávia Corrêa Bastos
Instituto Evandro Chagas,
Seção de Bacteriologia e Micologia,
Rodovia BR 316, km 7, s/no, Levilândia
CEP:67030-000
Ananindeua-Pará-Brasil
Tel.: + 55 (91) 3214-2122
E-mail:flavia_bastos@hotmail.com

Recebido em / Received / Recibido en: 18/4/2011
Aceito em / Accepted / Aceito en: 16/5/2011