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Revista Pan-Amazônica de Saúde

versão impressa ISSN 2176-6223versão On-line ISSN 2176-6223

Rev Pan-Amaz Saude v.5 n.3 Ananindeua set. 2014

 

http://dx.doi.org/10.5123/S2176-62232014000300009

OBITUÁRIO | OBITUARY | OBITUARIO

 

Ciro de Quadros, herói da saúde pública das Américas e do mundo

 

Ciro de Quadros, hero of public health in the Americas and the world

 

Ciro de Quadros, héroe de la salud pública de las Américas y del mundo

 

 

Francisco de Paula Pinheiro

Membro do Conselho Técnico-Científico e ex-Diretor do Instituto Evandro Chagas, Ananindeua, Pará, Brasil
Ex-Virologista da Organização Pan-Americana da Saúde, Organização Mundial da Saúde, Washington, D.C., EUA

 

 

O falecimento de Ciro de Quadros, em 28 de maio de 2014, em Washington, D.C., EUA, certamente causou imenso pesar em todos os que admiravam e respeitavam esse extraordinário e corajoso médico gaúcho nascido em 1940 em Rio Pardo, Rio Grande do Sul. Seus excepcionais feitos foram destacados nas páginas da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS) e do Instituto de Vacinas Sabin, entre outras, bem como em vários jornais, dentre eles o Washington Post e New York Times, Global Health (Dr. Orin Levine) e em diversas redes sociais, onde foram postadas numerosas mensagens enaltecendo o trabalho de Ciro. Acresça-se a isso recentes referências ao seu extraordinário trabalho no campo da saúde pública em prestigiosos periódicos médico-científicos, como o The Lancet e o Journal of Public Health Policy. A imprensa escrita do Rio Grande do Sul, Estado onde nasceu, também enalteceu sua incomensurável contribuição à saúde pública.

Ciro de Quadros graduou-se médico em 1966, pela Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica, em Porto Alegre. Em 1967, trabalhou na Unidade de Saúde de Altamira, Estado do Pará, da Fundação SESP. Naquele ano, Ciro e três funcionários da Unidade vacinaram todos os 5 mil habitantes da cidade, demonstrando, já então, o seu ímpeto pelas imunizações, o que viria a ser reafirmado por toda sua vida. No ano seguinte, obteve o título de mestre em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública. Em seguida, foi trabalhar na Campanha de Erradicação da Varíola no Estado do Paraná. Neste Estado utilizou, com grande êxito, a estratégia de "vigilância e bloqueio" da varíola e, em menos de um ano, o Paraná ficou livre da virose. Convém destacar que a estratégia oficial da Campanha era a vacinação em massa, sem dúvida muito mais trabalhosa e onerosa.

O trabalho de Ciro chamou atenção do Dr. Donald Ainslie Henderson, diretor da Campanha Mundial de Erradicação da Varíola, conduzida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que contratou Ciro como epidemiologista para erradicar a varíola da Etiópia. Ciro e seu time detectaram dezenas de milhares de casos de varíola no país, mas tiveram de enfrentar enormes obstáculos num país que vivia uma guerra civil sangrenta e, ainda, com a resistência de certos grupos populacionais para serem vacinados. Em uma ocasião, o helicóptero em que viajavam foi sequestrado. O piloto do helicóptero, mesmo refém, conseguiu vacinar os rebeldes, usando a vacina que ficara na aeronave... e Ciro negociou com êxito a libertação de sua equipe. Às vezes, caminhavam durante muitos dias pelas montanhas da Etiópia para detectar um caso de varíola e, quando encontravam, os moradores recusavam receber a vacinação, e ainda atiravam pedras e atiçavam cachorros contra Ciro e sua equipe. Ele contratou, então, agentes locais de saúde e assim o problema foi solucionado.

Em 1977, quando ocorreu o último caso de varíola no mundo, na Somália, Ciro foi contratado pela OPAS, em Washington, EUA, para gerenciar o programa de imunizações. Na OPAS, organizou o EPI (Expanded Program of Immunizations) que havia sido aprovado em 1974 pelo Conselho Diretor da OMS, em Genebra, mas, no entanto, ainda não havia sido implementado. Além disso, foi elemento chave na criação do Revolving Fund for Vaccine Procurement, em 1979, permitindo aos países da América Latina e do Caribe comprarem vacinas a menores preços.

Em 1986, Ciro idealizou, organizou e liderou a execução do Programa de Erradicação do Poliovírus Selvagem na América Latina e no Caribe. Foi um desafio extraordinário, levando em conta os grandes obstáculos a serem enfrentados, dentre eles a existência de grupos guerrilheiros na Colômbia e no Peru, e de guerra civil em El Salvador. No entanto, foram feitos "acordos" com os guerrilheiros e rebeldes para deporem as armas por um dia, a fim de se vacinarem as crianças. Ciro chegou, inclusive, a se reunir com um grupo de rebeldes de El Salvador em um bar de Georgetown, Washington D.C., capital dos Estados Unidos. Ciro chamava esses dias de "dias de tranquilidade". Felizmente, os recursos financeiros necessários para implementar o Programa foram obtidos de várias fontes externas, tais como, dentre outras, USAID, Rotary Club, Banco Inter Americano de Desenvolvimento, UNICEF, Governo do Canadá. O último caso de pólio por vírus selvagem nas Américas foi diagnosticado no Peru, em 1991. Em seguida, Ciro comandou os esforços para interromper a transmissão do sarampo - o que ocorreu em 2002 - e da rubéola nas Américas.

Após se aposentar da OPAS, em 2002, Ciro assumiu o cargo de vice-presidente executivo do Instituto de Vacinas Sabin, onde permaneceu até seu falecimento. Nesse Instituto desenvolveu atividades para aumentar a imunização contra pneumonia, diarreia por rotavírus (inclusive atuou como co-chairman do ROTA Council -Rotavirus Organization of Technical Allies) e febre tifoide em países com baixas coberturas vacinais, objetivando reduzir o impacto causado por essas doenças. Como parte deste objetivo, reunia representantes do Legislativo e dos Ministérios da Saúde e da Fazenda desses países com o fim de conseguir apoio integrado, para melhorar os índices de vacinações. Era o que chamava de Advocacia e Educação. Além disso, participou ativamente na preparação do Plano de Ação Global de Vacinas, objetivando evitar milhões de mortes até 2020, através de vacinações em todas as comunidades. Este Plano foi endossado por 194 países membros da Assembleia da OMS, em maio de 2012.

Não há dúvida de que todos esses esforços gigantescos salvaram um número incalculável de vidas e evitaram sofrimentos desnecessários e de sequelas em milhões de pessoas.

Por fim, é importante ressaltar que, no campo das vacinações no Brasil (e, talvez, da América Latina), Ciro foi seguramente o vulto mais eminente depois de Oswaldo Cruz. Não é por acaso que, no setor Saúde, Ciro foi com certeza o brasileiro mais premiado em todos os tempos pelo mundo afora. Inegavelmente, um luminar excepcional da saúde pública, em âmbito global. Apenas cinco semanas antes de sua morte, em 25 de abril, ele recebeu da OPAS o título de "Herói da Saúde Pública das Américas", a maior premiação da organização, "em reconhecimento à sua extraordinária liderança na área".

Ciro deixa viúva a senhora Suzana de Quadros; e, ainda, duas filhas, Julia e Cristina; e dois enteados, Marcelo e Álvaro Boggio.