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Revista Pan-Amazônica de Saúde

versão impressa ISSN 2176-6223versão On-line ISSN 2176-6223

Rev Pan-Amaz Saude v.6 n.2 Ananindeua jun. 2015

 

http://dx.doi.org/10.5123/S2176-62232015000200012

OBITUÁRIO | OBITUARY | OBITUARIO

 

Obituário: Professor Ralph Lainson

 

Obituary: Professor Ralph Lainson

 

Obituário: Profesor Ralph Lainson

 

 

Fernando Tobias Silveira

Coordenador do Laboratório de Leishmanioses "Prof. Dr. Ralph Lainson", Seção de Parasitologia, Instituto Evandro Chagas/SVS/MS, Ananindeua, Pará, Brasil
Editor Associado da Rev Pan-Amaz Saude, Ananindeua, Pará, Brasil

 

 

É com enorme tristeza e pesar que comunicamos aos leitores da Revista Pan-Amazônica de Saúde o falecimento de nosso Editor Associado, um dos mais reconhecidos parasitologistas que o mundo científico atual conheceu, o Professor Ralph Lainson FRS OBE, ocorrido no dia 5 de maio de 2015, em Belém, capital do Estado do Pará, Brasil, vítima de úlcera gástrica perfurada, aos 88 anos de idade.

É importante registrar que, embora de origem britânica (Inglaterra), nascido em 12 de fevereiro de 1927, o Professor Ralph Lainson dedicou mais da metade da sua carreira científica, exatamente 50 anos, ao estudo da Parasitologia, mais precisamente da Protozoologia (parasitos unicelulares), na Amazônia brasileira. Antes, porém, de decidir-se pelo Brasil, o Professor Ralph Lainson esteve por três anos - de 1959 a 1962 -, logo após ganhar o seu título de doutor na London School of Hygiene and Tropical Medicine, estudando a ecologia da leishmaniose cutânea em Belize (antiga Honduras Britânica), na América Central, também conhecida naquele país como "ulcera de los chicleros", em razão de acometer, principalmente, lavradores responsáveis pela coleta de um tipo de látex, o "chicle", usado na preparação da goma de mascar. Depois desse período, voltou à Inglaterra por pouco tempo e, em 1965, recebeu da Fundação Wellcome Trust um suporte financeiro ("Grant") para dirigir, por três anos, em Belém, Estado do Pará, a Unidade de Parasitologia da Wellcome Trust, objetivando, principalmente, o estudo da ecoepidemiologia da leishmaniose cutânea no norte do Brasil; nunca mais voltou em definitivo ao país de origem, a não ser para visitas temporárias, visando rever filhos e amigos e receber honrarias. Para se ter ideia do quanto representou sua trajetória na Amazônia brasileira, ele e seus colegas descreveram mais de 100 espécies novas de parasitos protozoários, incluindo Haemosporidia, Coccidia, Leishmania e Trypanosoma.

Desse modo, não obstante sua obra ter grande abrangência no contexto da Protozoologia, foram exatamente os seus estudos sobre a taxonomia e a ecoepidemiologia das leishmanias e leishmanioses do Novo Mundo que o projetaram definitivamente no cenário científico mundial, proporcionando-lhe honrarias das mais significativas, tais como, sua indicação como "Fellow of the Royal Society (1982)", o maior prêmio concedido a um cientista pela Sociedade Real Britânica, e o "OBE (1996)", maior honraria em nome da ciência concedida diretamente pela Rainha da Inglaterra. Entre nós, o Professor Ralph Lainson recebeu da Universidade Federal do Pará o mais elevado título universitário, Honoris causa, em 1986.

Neste sentido, podemos afirmar que o Professor Ralph Lainson foi o mentor principal da mais importante revisão taxonômica dos parasitos do gênero Leishmania, publicada juntamente com seu colaborador mais próximo, também de origem britânica, o Professor Jeffrey Shaw, na década de 1980 (Lainson & Shaw, 1987), a qual, até os dias atuais, é referenciada por especialistas nos quatro cantos do mundo. Nesta citada revisão taxonômica, os autores redistribuíram as espécies de Leishmania em dois subgêneros, Leishmania e Viannia, o primeiro, com o mesmo nome do gênero e, o segundo, com o nome do mais ilustre pesquisador paraense, Gaspar Vianna, no qual, foram alocadas todas as espécies que antes eram consideradas subespécies de Leishmania braziliensis. Desse modo, são reconhecidas, hoje, na América Latina, nove espécies de Leishmania do subgênero Viannia que atuam como agentes da Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), das quais, cinco foram descritas com sua participação direta: L. (V.) panamensis, L. (V.) lainsoni, L. (V.) shawi, L. (V.) naiffi e L. (V.) lindenbergi. Além destas, a descrição da única espécie do subgênero Leishmania que também é patogênica para o homem no Brasil, a L. (L.) amazonensis, teve também sua participação direta. Portanto, esse trabalho teve grande reflexo não só no conhecimento da biologia desses parasitos no tubo digestivo dos seus flebotomíneos vetores, como também, na interpretação da resposta imunológica e nas manifestações clínicas dos pacientes acometidos por esses dois subgêneros de Leishmania, evidenciando especificidades biológicas e imunopatogênicas próprias de cada subgênero. A título de informação, os parasitos agrupados no subgênero Leishmania apresentam desenvolvimento restrito ao intestino médio e superior (Suprapylaria) dos flebotomíneos vetores, enquanto que aqueles agrupados no subgênero Viannia desenvolvem-se ao longo de todo o tubo digestivo (Peripylaria), desde o piloro (intestino posterior), passando pelo intestino médio (estômago) e intestino superior (esôfago). De outro modo, hoje sabemos que somente espécies do subgênero Viannia, tais como, L. (V.) braziliensis e L. (V.) panamensis, são capazes de induzir à leishmaniose cutâneo-mucosa, enquanto que somente espécies do subgênero Leishmania, como L. (L.) amazonensis e L. (L.) mexicana induzem à leishmaniose cutânea anérgica difusa, duas formas clínico-patológicas de LTA totalmente distintas do ponto de vista imunopatogênico.

Por outro lado, com respeito aos estudos sobre a ecoepidemiologia das leishmanioses, nos limitaremos a alguns dos achados mais relevantes, a saber: i) comprovação da espécie flebotomínica Lutzomyia longipalpis como vetor principal da leishmaniose visceral no Brasil; ii) comprovação do canídeo silvestre (raposa do campo) Cerdocyon thous como reservatório principal da Leishmania (L.) infantum chagasi (agente da leishmaniose visceral) no Brasil; descrição da espécie e identificação do flebotomíneo Psychodopygus wellcomei como vetor principal da L. (V.) braziliensis na Amazônia brasileira; identificação do flebotomíneo Lutzomyia umbratilis como vetor principal da L. (V.) guyanensis na calha norte do rio Amazonas, compreendendo, principalmente, os Estados do Pará e Amazonas; identificação do flebotomíneo Lutzomyia whitmani como vetor principal da L. (V.) shawi no Estado do Pará; identificação do flebotomíneo Lutzomyia ubiquitalis como vetor principal da L. (V.) lainsoni no Brasil; identificação dos flebotomíneos Psychodopygus ayrozai e Lutzomyia paraensis como vetores da L. (V.) naiffi na Amazônia brasileira; identificação da preguiça (Choloepus didactylus) e do tamanduá (Tamandua tetradactyla) como reservatórios primários da L. (V.) guyanensis na Amazônia brasileira; identificação dos primatas não humanos Cebus apella e Chiropotes satanas como reservatórios primários da L. (V.) shawi; identificação da paca (Agouti paca) como reservatório primário da L. (V.) lainsoni; identificação do tatu (Dasypus novemcinctus) como reservatório primário da L. (V.) naiffi.

Portanto, com base nos comentários acima apresentados, não temos dúvida em afirmar que o legado da obra científica deixada pelo Professor Ralph Lainson representa "a chama acesa da Parasitologia na América Latina".

 

"Qualquer parasitologista no mundo daria uma das mãos para estudar parasitologia na Amazônia brasileira."

Ralph Lainson

 

 

Nota do Editor: Em 2012, o Professor Ralph Lainson concedeu entrevista ao Dr. Manoel do Carmo Pereira Soares, a qual foi publicada no fascículo v3n2 da Revista Pan-Amazônica de Saúde. Nesta, o Professor Lainson informa, com grande entusiasmo, que estava produzindo três volumes de uma coletânea intitulada "Atlas de Parasitas Protozoários da Fauna da Amazônia Brasileira", a ser publicada pela Editora do Instituto Evandro Chagas. O primeiro volume, "Haemosporida de répteis", foi publicado em 2012. O segundo estava em fase final de edição até a data de seu falecimento. O professor Ralph Lainson deixou, também, o manuscrito de seu terceiro volume finalizado.