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Revista Pan-Amazônica de Saúde

versão On-line ISSN 2176-6223

Rev Pan-Amaz Saude v.7 n.1 Ananindeua mar. 2016

 

http://dx.doi.org/10.5123/S2176-62232016000100011

OBITUÁRIO | OBITUARY | OBITUARIO

 

Mário Augusto Pinto de Moraes: as múltiplas facetas de um cientista amazônico que bem serviu a Região, ao País e a Ciência

 

Mário Augusto Pinto de Moraes: the multiple facets of an Amazon scientist that served a Region, a Country and Science

 

Mário Augusto Pinto de Moraes: las múltiples facetas de un científico amazónico que sirvió bien a la Región, al País y a la Ciencia

 

 

Gilberta Bensabath

Editora Associada da Rev Pan Amaz Saude, Instituto Evandro Chagas/SVS/MS, Ananindeua, Pará, Brasil

 

 

No início da segunda metade do século XX, considerado por muitos o século da Biologia e de seu tremendo avanço tecnológico, para ser um pesquisador em ciências de saúde na Amazônia era necessário ter múltiplas qualificações e desenvolver diversas atividades; assim foi Mário Augusto Pinto de Moraes, pesquisador de campo e de laboratório. No campo, com trabalhos sobre oncocercose (parasitose que causa alterações na pele e, em grau menor, cegueira) na fronteira do Brasil com a Venezuela e em outras áreas remotas da Amazônia. No laboratório, com os aspectos peculiares da hepatite de Lábrea e, como didata, sendo professor de Anatomia Patológica e Histológica em pelo menos três universidades brasileiras bem o demonstraram. Atuou também como administrador, com visão voltada para as necessidades da área de saúde, e ainda fez parte da fundação da Faculdade de Medicina da Universidade do Amazonas.

Para situar no tempo e no espaço todas essas atividades, esboçamos a seguir sua biografia:

Nasceu a 2 de junho de 1926 em Belém, Estado do Pará, filho de Francisco Antonio de Moraes, português, e Tereza Pinto de Moraes, brasileira filha de portugueses. Fez toda sua formação de início cultural em Belém: curso primário e o ginasial no Colégio Nazaré, dos irmãos Maristas, e o pré-médico no Colégio Estadual Paes de Carvalho segundo a estrutura educacional então vigente no Brasil nos anos de 1942 e 1943.

Prestou vestibular em 1944 na então Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará que foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA), criada em 1950, ano de sua graduação. Ele trancou a matrícula do curso por um período para ficar junto aos pais e irmãos em Portugal e, por esse motivo, seu curso se estendeu por sete anos, embora sempre se sentisse ligado à turma que iniciou o curso de medicina em 1944.

Estudioso incansável, já formado, ingressou na Faculdade de Farmácia do Pará na década de 1950, período que dedicou a sua formação profissional com ênfase no avanço do conhecimento.

Em 9 de abril de 1951, iniciou como estagiário no Laboratório de Anatomia Patológicas do Serviço Nacional do Câncer em Belém, passando a ser responsável por este a partir de 14 de julho do mesmo ano até a sua saída em 5 de março de 1952, quando foi admitido como instrutor de ensino da Faculdade de Medicina da Universidade do Pará, ocupando a cadeira de Anatomia Patológica.

Em 1953 foi admitido como médico leprologista do Serviço de Profilaxia da Lepra no Estado do Pará, cargo que exerceu até dezembro de 1956. Ainda em 1953, fez o Curso de Lepra do Departamento Nacional de Saúde.

Como médico-técnico especializado em hanseníase foi chefe do Laboratório do Dispensário Souza Araújo em Belém, exercendo o cargo em conjunto com o de médico-técnico do Laboratório de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado do Pará, o qual exerceu por três meses (dezembro de 1956 a fevereiro de 1957), quando foi transferido para Manaus, no Estado do Amazonas.

Casou-se com Maria Ligia Sampaio a 5 de outubro de 1956, tendo três filhos, dos quais um seguiu a sua profissão.

Pode-se considerar a sua permanência no Amazonas de grande relevância para a saúde pública brasileira tanto na área de pesquisa como ensino, administração e cultura geral (literatura).

Atuou de março de 1957 a dezembro de 1959 como médico leprologista e chefe do Setor Técnico do Serviço de Profilaxia de Lepra do Estado do Amazonas e, em abril de 1957, filiou-se como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde chegou a diretor da Divisão de Pesquisas Biológicas passando, em 11 de marco de 1960, a ficar à disposição do INPA pelo Serviço Nacional de Lepra do Ministério da Saúde. Nesse intervalo de tempo, em 1958, fez Curso de Parasitologia no INPA de Manaus e, em junho do mesmo ano, fez o Curso de Histologia Patológica da Pele, no Estado do Rio de Janeiro, na Escola de Aperfeiçoamento Médico da Policlínica Geral do Rio de Janeiro. De setembro de 1963 a setembro de 1964, fez estágio no Departamento de Medicina Tropical da Universidade Tulane em New Orleans, Estados Unidos, como bolsista da Fulbright Comission.

Devido a sua disposição para as atividades didáticas, em 1952 foi instrutor de ensino da Faculdade de Medicina do Pará, atuando na cadeira de Anatomia Patológica, passando a assistente de ensino em 1953, cargo que exerceu até 1955, ajudando na implantação da Faculdade de Medicina do Amazonas, da qual foi diretor até 1969 e professor titular de Histologia e Anatomia Patológica.

É desse período o início de sua participação nos problemas de pesquisa que viriam a se consolidar na década seguinte com seu retorno a Belém em 1970, quando foi lotado como professor assistente no Centro de Ciências Biológicas, Departamento de Biologia da Universidade do Pará. Por ser médico do Ministério da Saúde foi cedido para a Fundação SESP, lotado no Instituto Evandro Chagas (IEC) como histopatologista, auxiliando na implantação das atividades nessa Instituição. Esse período foi marcado por intensas atividades científicas e didáticas. A primeira inclui a histopatologia da hepatite de Lábrea, seguida pela identificação da oncocercose no Brasil, em missionários e contatos que haviam se infectado durante convívio com índios Yanomami no extremo norte dos Estados do Amazonas e Roraima, nos quais foi constatada a doença de forma endêmica e estudou também a transmissão por simulídeos. Das atividades didáticas destacam-se: professor assistente da cadeira de Citologia e Embriologia da UFPA, da qual foi diretor do Centro de Ciências Biológicas de janeiro de 1972 a dezembro de 1978; e professor da disciplina de Histopatologia da Faculdade de Medicina do Estado do Pará, depois incluída na Universidade Estadual do Pará. Em 1979 concluiu a sua especialização em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz.

No início da década de 1980, transferiu-se para Brasília, onde ocupou a cadeira de Anatomia Patológica na Universidade de Brasília (UnB) e exerceu o cargo de médico anatomopatologista do Hospital Universitário, atividade que desempenhou até sua aposentadoria. A partir dessa década e nas seguintes, deu ênfase a atividades didáticas de nível universitário, abrangendo graduação e pós-graduação, quer como orientador ou participando de bancas examinadoras. Por essa atuação, a UnB concedeu-lhe o título de professor emérito em 25 de novembro de 2004, honraria até então concedida somente a 31 professores por aquela Universidade. Além desta, recebeu ainda o título de membro do Colégio de Professores Emérito da UnB, cadeira 39, patrono Alfredo da Mata, Academia Amazonense de Letra, além de outras.

Sentia-se perfeitamente realizado em exercer suas atividades de médico, estudar, ensinar e produzir conhecimento. Escreveu 120 trabalhos, 16 capítulos de livros e teve 41 participações como conferencista em encontros científicos. A partir de 2012, suas atividades foram diminuindo, mas ainda contratado como médico anatomopatologista, trabalhou no Hospital Universitário até agosto de 2013, quando sofreu fratura de fêmur.

Mário Augusto Pinto de Moraes faleceu em Brasília em 24 de janeiro de 2016, deixando um verdadeiro legado à pesquisa e ao ensino em saúde pública do país, principalmente da Amazônia.