O Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos em 2025, contados a partir da sanção da Lei Orgânica da Saúde, em meio a um dos maiores desafios contemporâneos e a uma oportunidade histórica1. As evidências sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde são robustas e incontestáveis, não apenas em relação aos riscos futuros, mas também quanto aos efeitos imediatos já observados na saúde das populações2.
Nesse contexto, o Brasil reassume papel de destaque global ao sediar, mais de 30 anos após a ECO-923, um novo marco na agenda internacional da sustentabilidade — a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). Esta nova etapa é ainda mais simbólica por ocorrer na Amazônia brasileira, evidenciando tanto o território, com suas potências e vulnerabilidades, quanto as instituições que nele atuam. Destaca-se, em especial, o protagonismo histórico do Instituto Evandro Chagas (IEC), um polo de produção científica essencial para a saúde pública na Amazônia brasileira. Este número especial é exemplo dessa relevância.
Para os gestores do SUS, o IEC tem sido um parceiro estratégico, mobilizando seu capital humano e estrutura institucional para apoiar decisões baseadas em evidências. Essa colaboração tem sido fundamental em diversas frentes — desde estudos entomológicos realizados em parceria com programas de enfrentamento à malária até pesquisas que documentam os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde4, especialmente no contexto das doenças tropicais sensíveis ao clima, como a doença de Chagas, entre outras5.
Importa destacar as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) sobre mudanças climáticas e saúde. Ambas as instituições vêm reiterando a necessidade de adaptação dos sistemas de saúde, com políticas específicas e mecanismos de resposta aos riscos climáticos. Aprovadas em Assembleias Mundiais da Saúde, as Resoluções WHA61.19, WHA77.2 e WHA77.14 tratam de mudanças climáticas, saúde e participação social na governança. Em maio de 2025, o primeiro Plano Global em Mudanças Climáticas e Saúde (2025-2028) foi adotado durante a Assembleia Mundial da Saúde6. Complementarmente, diversas iniciativas têm buscado integrar os sistemas de saúde ao enfrentamento das mudanças climáticas, como a Aliança para a Ação Transformadora em Clima e Saúde (ATACH, por sua sigla em inglês)7, cujo secretariado está sediado na OMS, e os compromissos firmados com a Coalizão de Baku para Saúde e Clima8, formada pelos países que exerceram as presidências das COP de 26 a 30 — Reino Unido, Egito, Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão e Brasil.
No Brasil, o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima no Setor Saúde, conhecido como AdaptaSUS9, foi elaborado de forma participativa, com a colaboração de áreas técnicas do Ministério da Saúde, especialistas, instituições de pesquisa, gestores estaduais e municipais, além de representantes da sociedade civil. O Plano tem a equidade como princípio norteador e busca fortalecer a integração federativa e intersetorial. Está alinhado às diretrizes nacionais de adaptação coordenadas pelo Ministério do Meio Ambiente, garantindo coerência com a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a Agenda 2030 e o Acordo de Paris e aponta soluções de adaptação que vão muito além das respostas técnicas emergenciais, abordando riscos como aumento da morbimortalidade, da demanda por serviços e de emergências em saúde pública, com ações em vigilância, atenção, promoção e educação em saúde, além de ciência, tecnologia, inovação e produção.
O AdaptaSUS foi construído com base em experiências concretas de adaptação e resiliência diante de crises que desafiam o SUS, incluindo o cotidiano da reorganização e preparação dos serviços de saúde para enfrentar impactos já perceptíveis. Um exemplo dessas experiências é a criação do Centro de Operações e Resiliência SUS, na cidade do Rio de Janeiro — parceria entre a Prefeitura Municipal, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde10. Também são emblemáticas as respostas da saúde pública às enchentes no Rio Grande do Sul11 e às secas severas na Amazônia12, que ilustram a importância de estratégias intersetoriais baseadas em ciência.
Em âmbito internacional, o Brasil reafirma seu compromisso de colocar a saúde no centro da agenda climática global durante a COP30, por meio do Plano de Ação em Saúde de Belém13, proposta que articula esforços internacionais, regionais e nacionais para promover a adaptação e resiliência dos sistemas de saúde, em consonância com o Objetivo 16 da Agenda de Ação da COP. Como documento de adesão voluntária pelos países, o Plano propõe medidas concretas de adaptação do setor saúde às mudanças climáticas, com apoio de organizações multilaterais, fundações filantrópicas e bancos de desenvolvimento. Considera, em particular, as necessidades dos países em desenvolvimento, reconhecendo que os impactos climáticos ampliam desigualdades e vulnerabilidades.
O Plano de Ação em Saúde de Belém também está alinhado ao 14º Programa Geral de Trabalho da OMS (GPW14), ao Plano de Ação Global sobre Mudança Climática e Saúde (2025-2028)6, à Meta Global de Adaptação e ao Programa de Trabalho UAE-Belém. Apoia-se, ainda, no progresso alcançado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), especialmente nas iniciativas lançadas desde a COP26.
Com dois eixos transversais — Equidade e Justiça Climática, e Governança com Participação Social —, o Plano de Ação em Saúde de Belém organiza-se em três linhas de ação:
(1) Vigilância e monitoramento;
(2) Políticas baseadas em evidências e capacitação; e
(3) Inovação, produção e saúde digital.
O documento, construído com ampla participação social, por meio de consultas e eventos nacionais e internacionais — como a Assembleia Mundial da Saúde, a Assembleia Geral da ONU e a Conferência Global de Clima e Saúde —, reforça a liderança do Brasil na promoção de um mutirão internacional voltado a resultados concretos para a agenda de saúde e clima.
É nesse cenário que se insere a importância deste fascículo e de sua temática. As contribuições acadêmicas aqui reunidas oferecem valiosa reflexão sobre o papel da ciência, das políticas públicas e da saúde coletiva diante do atual momento histórico. Trata-se de um compromisso que requer continuidade, profundidade e, sobretudo, responsabilidade na formulação e implementação de políticas públicas orientadas por evidências científicas.













