INTRODUÇÃO
As infecções causadas por Dengue virus (DENV), Zika virus (ZIKV) e Chikungunya virus (CHIKV) representam ameaças significativas à saúde pública do Brasil devido ao elevado potencial epidêmico desses vírus. Também pertencem à categoria dos arbovírus, que são aqueles transmitidos por artrópodes, cujo principal vetor é a fêmea do mosquito Aedes aegypti1. Esse mosquito é altamente adaptado às condições urbanas e desempenha papel crucial na disseminação de arboviroses, o que aumenta ainda mais o risco de surtos epidêmicos.
Em conjunto, a dengue, a infecção pelo ZIKV (Zika) e a febre chikungunya são comumente referidas como a "tríplice epidemia" das arboviroses, devido à sua relevância sanitária e social e à relação com as condições de vida da população. A propagação dos arbovírus está intrinsecamente ligada às desigualdades sociais e à falta de infraestrutura e de cuidados adequados, tornando seu enfrentamento uma questão complexa, uma vez que exige ações integradas e políticas públicas eficazes2.
Ressalta-se que essas doenças apresentam uma série de sinais e sintomas comuns, como febre, artralgia e mialgia, o que dificulta o diagnóstico clínico preciso e a implementação de um manejo adequado pelos profissionais de saúde1,3. Esse cenário pode gerar desafios no diagnóstico e no tratamento das arboviroses, visto que podem ser facilmente confundidas com outras infecções.
O DENV e o ZIKV são estrutural e geneticamente muito próximos, ambos pertencem à família Flaviviridae. Eles apresentam um genoma de RNA de fita simples de senso positivo (ssRNA+) e possuem características biológicas semelhantes. A infecção pelo ZIKV tende a ser mais curta do que a pelo DENV. Além disso, o ZIKV apresenta peculiaridades na transmissão, podendo ser transmitido não apenas pela picada do mosquito Ae. aegypti, mas também pela via sexual e, em casos raros, de mãe para filho durante a gestação (transmissão transplacentária). Esses aspectos tornam o ZIKV um arbovírus particularmente complexo no que tange à sua disseminação e aos possíveis impactos em diferentes grupos populacionais4.
Por outro lado, o CHIKV, embora seja um arbovírus de ssRNA+, pertence à família Togaviridae e se distingue dos outros dois pela natureza de suas manifestações clínicas. As infecções pelo CHIKV são caracterizadas por processos inflamatórios que afetam principalmente as articulações, ocasionando dores intensas que podem perdurar por semanas ou até meses e resultar em quadros de incapacidade física nos indivíduos acometidos. Esse aspecto inflamatório diferencia a febre chikungunya das outras arboviroses, que, apesar de provocarem dores nas articulações, não apresentam a mesma intensidade e duração nas manifestações articulares5.
Historicamente, o Brasil registra a maior proporção de casos suspeitos de arboviroses. Até o último Boletim Epidemiológico de 2024, quase 7 milhões de casos de infecção por DENV, ZIKV e CHIKV já haviam sido registrados no país. Nos últimos anos, anomalias nos padrões de temperatura e de chuvas também contribuíram para a disseminação do vetor e, consequentemente, dessas infecções6. Nesse contexto, o interesse global pela preservação na Amazônia tem se acentuado devido à necessidade de mitigar as mudanças climáticas e a devastação ambiental, que favorecem o aumento de doenças vetoriais, incluindo as arboviroses7.
Na Europa, a circulação de Ae. aegypti encontra-se restrita a algumas áreas. Porém, as mudanças climáticas configuram um importante fator de risco para a ocorrência de potenciais invasões do mosquito em regiões até então não ocupadas por esse artrópode8. No Brasil, a elevação da temperatura, inclusive em áreas frias, tem favorecido a infestação de insetos vetores, cuja faixa de temperatura ideal para reprodução corresponde a 18 e 33 °C, potencializando, consequentemente, a transmissibilidade de arboviroses. Logo, as mudanças climáticas constituem um fator de manutenção e de estabilidade duradoura da transmissão das arboviroses9.
A Região Norte do Brasil está entre as mais afetadas por doenças infecciosas, e algumas delas estão diretamente relacionadas a instalações sanitárias inadequadas e problemas socioeconômicos10,11. Por esse motivo, é importante compreender quais áreas e populações estão sendo mais atingidas por arboviroses e quais fatores podem estar associados a esse perfil, destacando as vulnerabilidades presentes na região e contribuindo para a vigilância epidemiológica dessas doenças.
A pesquisa em questão é justificada pela necessidade de estimar a carga dessas arboviroses na Região Norte do Brasil, despertar discussões sobre seu impacto e orientar cientistas e formuladores de políticas públicas na elaboração de estratégias de controle e prevenção de infecções arbovirais12. Assim, o objetivo deste estudo é analisar a epidemiologia da dengue, da Zika e da febre chikungunya na Região Norte do Brasil, no período de 2017 a 2024.
MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo do tipo ecológico descritivo, com abordagem quantitativa, que avalia a incidência de casos em nível agregado e identifica tendências populacionais. Foram consultados e analisados dados epidemiológicos sobre os casos de dengue, Zika e febre chikungunya presentes no Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS)13, bem como foram acessadas informações populacionais disponibilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)14.
Por se tratar de uma pesquisa baseada em dados secundários disponíveis publicamente, sem utilização de materiais clínicos humanos ou prontuários de pacientes, a apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) foi dispensada. Contudo, esses dados podem apresentar limitações, como subnotificação de casos e registros incompletos.
A área de estudo compreende a Região Norte do Brasil, composta pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, com uma extensão territorial de 3.850.593,22 km² e uma população residente de 17.354.884 habitantes, conforme o último censo de 202215. A análise temporal abrange o período de 2017 a 2024.
Os dados epidemiológicos das três arboviroses foram consultados no DATASUS, por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), considerando as variáveis: estado, casos prováveis por ano, sexo, faixa etária, escolaridade, casos em gestantes, confirmação, evolução e classificação final. Além disso, foram consultadas as projeções populacionais por estado no site do IBGE.
Como critérios de inclusão, foram considerados todos os casos prováveis de dengue, Zika e febre chikungunya registrados entre 2017 e 2024, por estado da Região Norte do Brasil. Foram excluídos do estudo os dados de outras regiões ou fora desse intervalo temporal.
Para a tabulação dos dados e a construção de gráficos e tabelas, foi utilizado o software Microsoft Excel 365. Os mapas da Região Norte brasileira foram gerados no software QGIS v.3.34, com o objetivo de visualizar a incidência de cada arbovirose em nível estadual. A base vetorial utilizada nos mapas foi obtida no portal do IBGE16, e os dados foram classificados em categorias, com incrementos de 100 unidades na incidência entre as classes.
A incidência média anual foi estimada dividindo-se o número médio de casos registrados em cada estado, entre 2017 e 2024, pela população residente no ponto médio do período, expressando-se os resultados por 100.000 habitantes.
Foram ainda aplicados testes estatísticos complementares. Para a análise temporal dos casos de arboviroses, realizada no Microsoft Excel 365, utilizou-se a regressão linear simples (R²), segundo a fórmula y = a + bx, que permitiu observar a intensidade das variações ao longo do tempo. Já para a análise dos dados qualitativos no software BioEstat 5.3, aplicou-se o teste qui-quadrado de aderência (X²), que verificou se a distribuição dos casos apresentava diferença significativa em relação à distribuição esperada, adotando-se o valor de p ≤ 0,05 como critério de significância estatística.
RESULTADOS
Na Região Norte do Brasil, entre 2017 e 2024, foram registrados 424.956 casos prováveis de arboviroses, sendo 283.228 de dengue, 35.515 de Zika e 106.213 de febre chikungunya. O maior número de casos de dengue e de Zika ocorreu em 2024, enquanto o de febre chikungunya ocorreu em 2023. A análise de regressão linear simples indicou tendência crescente em todas as doenças, sendo mais evidente na dengue, que apresentou R² = 0,673 (p= 0,013), demonstrando que 67,3% da variação dos casos pode ser explicada pela tendência linear. A febre chikungunya (R² = 0,0721, p= 0,520) e a Zika (R² = 0,0279, p= 0,693) também apresentaram coeficientes angulares positivos, embora menos expressivos (Figura 1).

Fonte: DATASUS, 2025.
Figura 1 - Casos prováveis de dengue, Zika e febre chikungunya na Região Norte do Brasil, de 2017 a 2024
Entre 2017 e 2024, a Região Norte apresentou distribuição heterogênea dos casos prováveis de dengue, febre chikungunya e Zika. A dengue predominou em todos os estados, com destaque para Tocantins, Acre e Pará, que registraram as maiores proporções estaduais. A febre chikungunya apresentou maior número de casos no Pará, responsável por 44,1% dos registros. A Zika apresentou concentração de casos no Tocantins, com 43,3% dos registros estaduais.
Em todas as arboviroses, a maioria dos casos ocorreu em mulheres, principalmente de 20 a 39 anos de idade, sendo frequentes os registros sem informação sobre escolaridade e gestação. A dengue foi confirmada sobretudo por critério clínico-epidemiológico, evoluiu majoritariamente para cura e foi classificada como dengue clássica. Já a febre chikungunya e a Zika apresentaram maior proporção de confirmações laboratoriais, com evolução para cura e classificação final como descartadas. Ressalta-se que, para todas as variáveis analisadas, o teste do qui-quadrado indicou significância estatística (p≤ 0,0001), confirmando diferenças relevantes na distribuição dos casos de acordo com os grupos estudados (Tabela 1).
Tabela 1 - Perfil epidemiológico dos casos prováveis de dengue, Zika e febre chikungunya na Região Norte do Brasil, de 2017 a 2024
| Variáveis | Dengue | Febre chikungunya | Zika | |||
|---|---|---|---|---|---|---|
| N | % | N | % | N | % | |
| Estado | ||||||
| Acre | 59.239 | 20,92 | 3.428 | 3,23 | 3.588 | 10,10 |
| Amapá | 14.472 | 5,11 | 2.809 | 2,64 | 1.081 | 3,04 |
| Amazonas | 45.327 | 16,00 | 3.084 | 2,90 | 2.714 | 7,64 |
| Pará | 59.178 | 20,89 | 44.131 | 41,55 | 5.245 | 14,77 |
| Rondônia | 40.181 | 14,19 | 7.134 | 6,72 | 5.117 | 14,41 |
| Roraima | 3.604 | 1,27 | 9.910 | 9,33 | 2.386 | 6,72 |
| Tocantins | 61.227 | 21,62 | 35.717 | 33,63 | 15.384 | 43,32 |
| Sexo | ||||||
| Masculino | 132.899 | 46,92 | 43.098 | 40,58 | 14.159 | 39,87 |
| Feminino | 150.138 | 53,01 | 63.060 | 59,37 | 21.352 | 60,12 |
| Ignorado/Branco | 191 | 0,07 | 55 | 0,05 | 4 | 0,01 |
| Faixa etária* | ||||||
| 0 a 9 | 35.369 | 12,49 | 10.362 | 9,76 | 5.513 | 15,52 |
| 10 a 19 | 54.345 | 19,19 | 15.556 | 14,65 | 5.818 | 16,38 |
| 20 a 39 | 108.079 | 38,16 | 40.477 | 38,11 | 14.102 | 39,71 |
| 40 a 59 | 62.848 | 22,19 | 29.285 | 27,57 | 7.541 | 21,23 |
| 60 ou mais | 22.487 | 7,94 | 10.506 | 9,89 | 2.534 | 7,14 |
| Ignorado/Branco | 92 | 0,03 | 26 | 0,02 | 7 | 0,02 |
| Escolaridade | ||||||
| Analfabeto | 2.786 | 0,98 | 1.003 | 0,94 | 345 | 0,97 |
| Ensino Fundamental incompleto | 45.455 | 16,05 | 17.620 | 16,59 | 5.762 | 16,22 |
| Ensino Fundamental completo | 13.095 | 4,62 | 4.947 | 4,66 | 1.380 | 3,89 |
| Ensino Médio incompleto | 18.986 | 6,70 | 8.389 | 7,90 | 2.729 | 7,68 |
| Ensino Médio completo | 46.409 | 16,39 | 22.817 | 21,48 | 6.990 | 19,68 |
| Ensino Superior incompleto | 5.823 | 2,06 | 3.634 | 3,42 | 1.297 | 3,65 |
| Ensino Superior completo | 12.769 | 4,51 | 7.804 | 7,35 | 2.771 | 7,80 |
| Ignorado/Branco/Não se aplica | 137.905 | 48,69 | 39.999 | 37,66 | 14.241 | 40,10 |
| Investigação em gestantes | ||||||
| 1º trimestre | 744 | 0,26 | 653 | 0,61 | 916 | 2,58 |
| 2º trimestre | 1.052 | 0,37 | 1.054 | 0,99 | 1.250 | 3,52 |
| 3º trimestre | 911 | 0,32 | 912 | 0,86 | 1.100 | 3,10 |
| Idade gestacional ignorada | 490 | 0,17 | 272 | 0,26 | 83 | 0,23 |
| Não grávida | 101.640 | 35,89 | 43.674 | 41,12 | 12.179 | 34,29 |
| Ignorado/Branco/Não se aplica | 178.391 | 62,98 | 59.648 | 56,16 | 19.987 | 56,28 |
| Critério de confirmação | ||||||
| Laboratorial | 117.771 | 41,58 | 63.219 | 59,52 | 21.487 | 60,50 |
| Clínico-epidemiológico | 121.178 | 42,78 | 34.324 | 32,32 | 11.333 | 31,91 |
| Em investigação | 3.508 | 1,24 | 855 | 0,80 | - | - |
| Ignorado/Branco | 40.771 | 14,40 | 7.815 | 7,36 | 2.695 | 7,59 |
| Evolução | ||||||
| Cura | 228.003 | 80,50 | 81.210 | 76,46 | 27.976 | 78,77 |
| Óbito pelo agravo notificado | 190 | 0,07 | 12 | 0,01 | 4 | 0,01 |
| Óbito por outra causa | 115 | 0,04 | 179 | 0,17 | 120 | 0,34 |
| Óbito em investigação | 18 | 0,01 | 13 | 0,01 | - | - |
| Ignorado/Branco | 54.902 | 19,38 | 24.799 | 23,35 | 7.415 | 20,88 |
| Classificação final | ||||||
| Dengue clássica | 235.527 | 83,16 | ¨ | ¨ | ¨ | ¨ |
| Dengue com sinais de alarme | 3.692 | 1,30 | ¨ | ¨ | ¨ | ¨ |
| Dengue grave | 341 | 0,12 | ¨ | ¨ | ¨ | ¨ |
| Febre chikungunya | ¨ | ¨ | 35.993 | 33,89 | ¨ | ¨ |
| Zika | ¨ | ¨ | ¨ | ¨ | 4.682 | 13,18 |
| Inconclusivo | 42.987 | 15,18 | - | - | 1.856 | 5,23 |
| Descartado | - | - | 62.072 | 58,44 | 28.230 | 79,49 |
| Ignorado/Branco | 681 | 0,24 | 8.148 | 7,67 | 747 | 2,10 |
Fonte: DATASUS, 2025.
Para todas as variáveis analisadas, o teste qui-quadrado obteve resultado significativo (p ≤ 0,0001).
Sinais convencionais utilizados: * Variável na dengue e febre chikungunya que não foi compatível ao total de casos por divergências da própria base de dados; - Dado numérico igual a zero, não resultante de arredondamento; ¨ Não se aplica dado numérico.
A análise da taxa média de incidência de casos prováveis de arboviroses por 100.000 habitantes revelou que alguns estados apresentaram níveis expressivamente elevados. Para a dengue, os maiores índices foram observados no Acre (856,59) e em Tocantins (496,82). Para a febre chikungunya, os maiores índices foram observados no Tocantins (289,82) e em Roraima (192,39). Para a Zika, os picos concentraram-se em Tocantins (124,83) e no Acre (51,88). Esses dados evidenciam que a distribuição das arboviroses na Região Norte apresenta grande heterogeneidade, com determinados estados enfrentando risco particularmente elevado de transmissão (Figura 2).
DISCUSSÃO
A disseminação do Ae. aegypti, vetor das arboviroses dengue, Zika e febre chikungunya, ocorre em ambientes domiciliares e comunitários, sendo influenciada por determinantes ambientais e sociais, o que representa um desafio para a saúde pública nacional e global17,18. Atualmente, as mudanças climáticas também têm permitido a expansão do vetor em regiões temperadas, como no continente europeu, indicando uma tendência preocupante de disseminação dessas doenças em áreas menos suscetíveis9.
Ainda assim, a Pan-Amazônia configura-se como uma das áreas mais críticas do mundo para a expansão de arboviroses associadas às mudanças climáticas, o que reforça a necessidade de políticas regionais integradas de vigilância e controle vetorial, articuladas entre os países que compartilham esse bioma8,19. Nesse contexto, a Região Norte do Brasil, por abranger grande parte da Floresta Amazônica, com sua diversidade de arbovírus, vetores e reservatórios, é particularmente propícia à transmissão dessas doenças20.
Esta pesquisa evidenciou que os casos prováveis de dengue foram os mais numerosos entre as arboviroses analisadas, em consonância com a literatura, que aponta a persistência dessa doença em todos os estados brasileiros3,18. O ano de 2024 apresentou o maior número de casos registrados, conforme o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde daquele ano6, que alertou para o aumento contínuo observado desde 2022.
Mesmo com dados incompletos, 2024 apresentou percentuais superiores aos de 2023, especialmente no caso da dengue, que registrou um aumento de 344,5%. Esse cenário epidêmico pode ser atribuído a uma série de determinantes socioambientais, como urbanização desordenada, mobilidade urbana, alterações climáticas, degradação ambiental, disponibilidade e gestão inadequada de recursos hídricos, desigualdade social e limitações no acesso aos serviços de saúde6.
A tendência linear revelou um aumento nos casos de dengue, enquanto Zika e febre Chikungunya apresentaram um comportamento estacionário. Embora esse aumento de casos tenha sido observado, notou-se uma diminuição em 2020, seguido de novo crescimento nos anos subsequentes, o que também foi relatado em outros estudos. Tal fato associa-se ao período da pandemia de COVID-19, em que as notificações de outras doenças ficaram comprometidas. Dessa forma, os anos de 2020 a 2021 podem não ser representativos da real situação das arboviroses3,21,22.
Quanto ao perfil epidemiológico, observou-se que a maioria dos casos de dengue ocorreu no Tocantins, embora a maior incidência tenha sido no Acre. Para a febre chikungunya, o maior número de casos foi registrado no Pará, com maior incidência no Tocantins. Os casos de Zika concentraram-se no Tocantins, tanto em número absoluto quanto em incidência. Estudos indicam que esses três estados figuram entre aqueles com os maiores índices de casos de dengue na Região Norte do Brasil, destacando-se o Tocantins por apresentar também altas taxas de Zika e febre chikungunya3,21,23.
Uma pesquisa apontou uma possível relação entre os casos de arboviroses e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que abrange aspectos como distribuição de renda, saúde e educação, fundamentais para o desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o Pará e o Acre apresentam os menores IDH da região, além de uma alta prevalência de arboviroses. Embora o Tocantins possua IDH médio (0,699) e cobertura de saneamento considerada intermediária (78,2%), isso não significa que tais problemas não possam estar associados aos casos dessas doenças, pois o estado ainda figura entre aqueles com as maiores lacunas de IDH e saneamento básico no Brasil. Assim, é importante compreender que, além desses fatores, outros podem estar favorecendo esse cenário na região18.
Outrossim, o estudo de Silva et al.11, realizado na Paraíba, sobre a multifatorialidade da ocorrência das arboviroses, destacou a importância de aspectos socioeconômicos e ambientais na dinâmica da doença. Ainda que o IDH seja comumente associado à qualidade de vida e, teoricamente, à menor vulnerabilidade populacional, o estudo paraibano também identificou alta incidência em áreas com melhores índices. De modo semelhante, tanto nos estados do Norte quanto na Paraíba, foram observadas regiões com baixo IDH e elevada prevalência de arboviroses; entretanto, isso não constitui regra, já que os casos registrados no Tocantins podem estar relacionados à maior densidade populacional e à melhor estrutura de notificação dessas doenças. Ressalta-se, contudo, que esse aspecto não foi explorado neste estudo, mas pode ser considerado em investigações futuras sobre a temática.
O maior número de casos foi registrado entre mulheres de 20 a 39 anos, nas três infecções analisadas, resultado que corrobora achados da literatura3,6,22,23. A dinâmica do vetor Ae. aegypti favorece a transmissão nesse grupo, uma vez que as mulheres tendem a permanecer por mais tempo em ambientes intra e peridomiciliares, locais propícios à proliferação do mosquito. De outro modo, as mulheres também procuram com mais frequência os serviços de saúde, o que contribui para o aumento das notificações24. No quesito idade, nota-se que as arboviroses afetam a população economicamente ativa, podendo ser um empecilho à produtividade25.
Entre as mulheres, particularmente as gestantes infectadas por essas arboviroses, verificou-se que a maioria das informações sobre o período gestacional foi ignorada ou não preenchida, também por abranger o sexo masculino. Porém, nos casos de Zika, algumas delas foram notificadas, sobretudo no 2º trimestre de gravidez, o que pode estar relacionado à maior vigilância sobre infecções por ZIKV, em virtude da associação com a síndrome congênita do Zika vírus (SCZV) e do surto ocorrido entre 2015 e 201626. Essa realidade reforça que essas infecções têm impactos desproporcionais sobre populações vulneráveis, principalmente mulheres em situação de fragilidade socioeconômica, pois a SCZV acarreta consequências crônicas e irreversíveis, impondo uma carga econômica elevada às famílias27. Cabe destacar que a ausência de informações completas sobre o período gestacional também constitui uma limitação desta pesquisa.
Entre os casos de dengue notificados, mais de 2.700 gestantes foram infectadas, com maior incidência no 2º trimestre. Apesar de representarem uma pequena proporção do total, esses casos são preocupantes devido aos riscos obstétricos associados, como parto prematuro, complicações fetais, óbito materno, natimorto e mortalidade neonatal28. A febre chikungunya apresenta maior proporção entre gestantes do que a dengue, especialmente no 2º trimestre. Embora não haja evidências de efeitos teratogênicos ou de complicações gestacionais diretas, a infecção perinatal pode levar à transmissão vertical em cerca de 50% dos casos, com risco de formas graves nos recém-nascidos1,29.
Quanto aos dados de escolaridade, a maioria das informações foi ignorada ou constava em branco nas três infecções, evidenciando o não preenchimento dessa variável no ato da notificação. Embora seja importante para análises epidemiológicas30, a incompletude desses dados constitui uma limitação deste estudo. Em contrapartida, pessoas com Ensino Médio completo foram as segundas mais afetadas pelas três doenças. Pesquisas já demonstraram que a educação é um fator relevante para a adesão a medidas de prevenção contra o vetor, sendo essas práticas, como o uso de repelentes, mais aceitas entre indivíduos com maior escolaridade. Por esse motivo, a orientação de profissionais de saúde sobre as arboviroses é essencial para reduzir a exposição ao vetor na comunidade em que atuam31,32.
Há quase duas décadas, a recorrência de epidemias sazonais no Brasil tem impulsionado a formulação de políticas públicas voltadas à implementação de ações intersetoriais integradas, com o objetivo de fortalecer as estratégias de prevenção e controle das arboviroses. Nesse contexto, destaca-se o Programa Saúde na Escola (PSE), cuja estruturação teórica se baseia no modelo da Promoção da Saúde (PS), direcionando suas iniciativas aos estudantes da rede pública de ensino. Essas ações, portanto, podem promover a articulação entre os setores da educação e da saúde17.
Sobre o critério clínico-epidemiológico, esse foi mais prevalente na confirmação dos casos de dengue, enquanto os critérios laboratoriais foram mais aplicados nos casos de febre chikungunya e Zika, resultado compatível com os achados de outros estudos30,32,33. Essa diferença pode estar relacionada à elevada endemicidade da dengue no país, o que permite o uso mais frequente do critério clínico-epidemiológico, conforme as diretrizes do MS1.
De acordo com as orientações do MS, uma vez confirmada laboratorialmente a circulação de dengue na localidade, pode-se utilizar o critério clínico-epidemiológico para confirmar os casos subsequentes. No entanto, em gestantes, casos graves e óbitos devem ocorrer preferencialmente por critério laboratorial, visando maior precisão diagnóstica e vigilância qualificada, especialmente diante das possíveis complicações clínicas e repercussões sociais1.
Devido à semelhança dos sintomas dessas arboviroses e ao impacto significativo que essas infecções podem causar na saúde pública, especialmente entre gestantes, é fundamental a diferenciação clínica e laboratorial entre os vírus em circulação em determinada região. O maior número de confirmações por critério laboratorial nos casos de Zika e febre chikungunya está em consonância com as diretrizes do MS, refletindo o compromisso das redes de vigilância epidemiológica com a qualificação do diagnóstico e a proteção das populações mais vulneráveis1.
Acerca da evolução do quadro clínico, todas as infecções abordadas tiveram bom desfecho, caracterizado pela cura do paciente, o que pode indicar que as campanhas e o diagnóstico precoce dessas doenças estão ocorrendo na região34. Contudo, ao se avaliar a classificação final dos casos, apenas a dengue obteve confirmação definitiva, sendo a maioria classificada como dengue clássica; em contraste, a Zika e a febre chikungunya apresentaram muitos casos descartados.
O MS preconiza o preenchimento (cumulativo ou não) de alguns critérios para o descarte de um caso: resultado laboratorial não reagente ou negativo; diagnóstico positivo para outra doença; e investigações clínicas e epidemiológicas que indiquem outra etiologia. Nesse aspecto, o diagnóstico diferencial é essencial na atenção primária à saúde, pois os sinais e sintomas de arboviroses são semelhantes entre si e, por vezes, podem coincidir com os de outras doenças infecciosas1.
Portanto, a prevenção das arboviroses e a redução da transmissibilidade dependem da adoção de estratégias integradas entre a comunidade e os setores públicos, visando o manejo do vetor em todas as fases de seu ciclo de vida. Essas ações devem abranger ambientes hospitalares, locais de trabalho e espaços comunitários, destacando-se a necessidade de mudança comportamental da população. Para tanto, é essencial a implementação de medidas coordenadas dentro e fora do setor da saúde, que promovam a conscientização e o engajamento social em práticas preventivas eficazes35.
CONCLUSÃO
Dengue, Zika e febre chikungunya seguem em expansão na Região Norte do Brasil, com maior incidência no Tocantins e predomínio entre mulheres jovens, incluindo gestantes. Embora a maioria dos casos evolua para a cura, falhas de preenchimento em variáveis importantes, como escolaridade, limitam a análise detalhada dos fatores de risco. O aumento dos casos se relaciona não apenas a determinantes sociais, mas também às mudanças climáticas, que alteram a sazonalidade dos surtos e elevam o risco de transmissão. Esses achados reforçam a necessidade de vigilância epidemiológica integrada, saneamento básico e políticas públicas que reconheçam e enfrentem a vulnerabilidade socioambiental da região.














