INTRODUÇÃO
A esquistossomose é uma das doenças parasitárias mais prevalentes no mundo, comumente relatada em áreas onde o acesso ao saneamento básico e à água potável é precário ou inexistente1. Estima-se que a transmissão ativa da doença persista em 78 países de diferentes continentes, reforçando sua condição de grave problema de saúde pública1-3. Seis espécies do gênero Schistosoma (Trematoda/Schistosomatidae) estão envolvidas na infecção humana; contudo, no Brasil, apenas Schistosoma mansoni (Sambon, 1907) foi relatada1.
A esquistossomose mansoni figura entre as principais endemias parasitárias de veiculação hídrica, conferindo ao Brasil o papel de principal área endêmica das Américas4. Sua transmissão ocorre em 18 estados brasileiros e no Distrito Federal, sendo que a maioria dos casos se concentra nas regiões Nordeste e Sudeste5-11. No estado do Pará, os primeiros casos autóctones foram registrados em 1951, na localidade de Fordlândia, município de Aveiro12. Em Belém, capital do estado, Galvão13 identificou e documentou casos autóctones no bairro do Reduto, e, posteriormente, Paraense e colaboradores14 detectaram o primeiro foco de transmissão de S. mansoni no bairro do Telégrafo. De acordo com o Departamento de Informação e Informática do SUS (DATASUS), no âmbito do Programa de Controle da Esquistossomose (PCE), entre 2000 e 2016 foram confirmados 5.974 casos no estado, sendo 1.171 em Belém15,16.
Por se tratar de uma parasitose de transmissão vetorial, a esquistossomose está relacionada a fatores ambientais e às transformações decorrentes das atividades humanas, sendo influenciada por aspectos biológicos, naturais e socioeconômicos17,18. A presença de moluscos do gênero Biomphalaria suscetíveis à infecção por S. mansoni - Biomphalaria glabrata (Say, 1818), Biomphalaria tenagophila (Orbigny, 1835) e Biomphalaria straminea (Dunker, 1848) (Gastropoda/Planorbidae) - constitui condição indispensável para a manutenção do ciclo biológico do parasito19. Na capital paraense, há registros das três espécies, embora B. glabrata tenha sido a única encontrada naturalmente infectada por S. mansoni20-22.
Esses dados evidenciam a persistência de condições favoráveis à manutenção do ciclo de S. mansoni em Belém e reforçam a importância do fortalecimento da vigilância malacológica e das ações de controle da esquistossomose. Tal necessidade torna-se ainda mais relevante diante da realização da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP30), prevista para ocorrer na capital em novembro de 2025. O evento, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), reunirá milhares de visitantes nacionais e estrangeiros, ampliando significativamente o fluxo populacional e as interações humanas com o ambiente urbano durante o período da conferência.
Fatores como vulnerabilidade social, mudanças ambientais e presença de moluscos hospedeiros são interdependentes e contribuem para a manutenção da transmissão ativa de S. mansoni. Embora levantamentos malacológicos anteriores tenham sido realizados em diferentes contextos, torna-se necessária a produção de análises atualizadas, integradas e espacializadas, capazes de orientar estratégias mais efetivas de vigilância23,24. Nesse sentido, o uso de ferramentas de geoprocessamento, que permitem a criação de mapas temáticos e análises espaciais, pode fornecer subsídios relevantes para as ações de vigilância em saúde humana, animal e ambiental1,25-27.
Populações que residem em áreas com infraestrutura sanitária precária ou insuficiente tendem a estar expostas a cenários de vulnerabilidade que favorecem a disseminação de doenças relacionadas à água, como a esquistossomose28,29. Além disso, as mudanças climáticas têm se mostrado fator determinante na dinâmica de transmissão de S. mansoni: a elevação das temperaturas pode influenciar o sucesso da infecção de B. glabrata pelo parasito30, enquanto alterações no regime de chuvas e o aumento das inundações contribuem para a dispersão dos moluscos Biomphalaria e o contato humano com águas contaminadas31,32.
Diante desse contexto, é fundamental que Belém esteja preparada para responder a possíveis demandas ampliadas em saúde pública, por meio do fortalecimento das ações de vigilância, prevenção e controle de agravos. A identificação e o monitoramento de áreas críticas para doenças como a esquistossomose assumem papel estratégico não apenas para proteger a população residente, mas também para garantir a segurança sanitária dos visitantes durante um evento de grandes proporções, como a COP3033.
Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a distribuição das espécies do gênero Biomphalaria e identificar áreas de risco para a transmissão de S. mansoni no município de Belém, de modo a subsidiar ações de vigilância em saúde pública no contexto da COP30.
MATERIAIS E MÉTODOS
TIPO DE ESTUDO E COLETA DE DADOS
Trata-se de um estudo retrospectivo, observacional, descritivo e analítico, baseado em dados secundários provenientes do banco de dados do Laboratório de Malacologia (LABMAL), da Seção de Parasitologia (SEPAR) do Instituto Evandro Chagas (IEC). Os dados analisados referem-se a coletas de moluscos límnicos realizadas no município de Belém entre 2020 e 2024, incluindo informações registradas sobre a ocorrência de moluscos do gênero Biomphalaria, determinação da espécie, presença de cercárias e localização geográfica das amostras.
Os registros utilizados foram obtidos a partir de atividades de rotina do laboratório, conduzidas conforme procedimentos padronizados, integrando as ações de vigilância em saúde executadas pelo IEC. Este estudo não envolveu novas coletas nem análises laboratoriais, limitando-se à sistematização, análise estatística e geoespacial das informações previamente registradas.
ÁREA DE ESTUDO
O estudo foi realizado no município de Belém, localizado na região Norte do Brasil, com população estimada em 1,3 milhão de habitantes34. A cidade apresenta condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento de moluscos límnicos, como clima equatorial úmido, elevada pluviosidade e extensa rede hidrográfica composta por valas, canais, igarapés e poços.
Belém é subdividida em oito distritos administrativos: Belém (DABEL), Benguí (DABEN), Entroncamento (DAENT), Guamá (DAGUA), Icoaraci (DAICO), Mosqueiro (DAMOS), Outeiro (DAOUT) e Sacramenta (DASAC) (Figura 1).

Figura 1 - Localização geográfica do município de Belém (ponto em vermelho), estado do Pará, Brasil, com destaque para seus distritos administrativos: Belém (DABEL), Benguí (DABEN), Entroncamento (DAENT), Guamá (DAGUA), Icoaraci (DAICO), Mosqueiro (DAMOS), Outeiro (DAOUT) e Sacramenta (DASAC)
Historicamente, Belém apresenta registros da presença de Biomphalaria spp. e de focos de transmissão ativa de esquistossomose, especialmente em bairros periféricos e áreas de ocupação irregular20,21,35. Nesse contexto, a seleção dos pontos de coleta malacológica pelo LABMAL baseou-se em critérios específicos, como a existência prévia de casos da doença, a proximidade de corpos hídricos propícios à manutenção do ciclo parasitário e a viabilidade logística de acesso às áreas.
COLETA DE MOLUSCOS
As coletas foram conduzidas pela equipe técnica do LABMAL. Para isso, dois agentes realizaram visitas aos pontos amostrais, seguindo protocolos padronizados de coleta ativa, com tempo fixo estabelecido para cada ponto19. Após a coleta, os moluscos foram acondicionados em sacos plásticos contendo água do próprio local e devidamente identificados com os dados de campo.
Em seguida, foi preenchida uma ficha de campo contendo informações como endereço, data da visita, responsáveis pela coleta, presença ou ausência de moluscos, coordenadas geográficas do ponto e observações pertinentes. Esses dados foram posteriormente compilados na planilha utilizada neste estudo, assegurando a sistematização e padronização das informações coletadas.
AVALIAÇÃO E ANÁLISE ESTATÍSTICA DA INFECÇÃO NATURAL NOS MOLUSCOS
Após a entrada no LABMAL, os moluscos foram acondicionados individualmente em frascos contendo água desclorada e expostos à luz artificial por um período de duas horas, com o objetivo de estimular a liberação de cercárias36. Em seguida, cada amostra foi examinada sob microscópio estereoscópico binocular para avaliação da atividade cercariana.
As cercárias observadas foram classificadas em morfotipos, considerando características como padrão de nado, forma corporal e presença de estruturas específicas36. A partir do total de moluscos analisados e registrados na planilha, calculou-se a taxa de infecção natural por S. mansoni, utilizando a equação 1, conforme diretriz técnica do Ministério da Saúde6:

Para avaliar a significância da frequência de moluscos infectados, foi construída uma tabela de contingência com o número de indivíduos positivos e negativos para S. mansoni em cada espécie de Biomphalaria. Essa tabela serviu de base para o teste estatístico que verificou se a proporção de infecção diferia do esperado sob a hipótese nula de ausência de infecção.
As diferenças entre as proporções de infecção foram analisadas pelo teste do qui-quadrado de independência (χ²), complementado pelo teste exato de Fisher para comparações par a par entre B. glabrata e as demais espécies. Para avaliar a presença de infecção, a proporção de moluscos infectados em B. glabrata e no conjunto total de espécimes foi testada em relação à hipótese nula de ausência de infecção (p = 0) por meio do teste binomial unicaudal.
As análises foram realizadas utilizando os programas OpenEpi 3.0137 e BioEstat 5.338.
IDENTIFICAÇÃO DOS MOLUSCOS
A identificação dos moluscos foi realizada com base em métodos morfológicos e, quando necessário, moleculares. A identificação morfológica seguiu os critérios estabelecidos na literatura19,39-41.
Nos casos de morfologia inconclusiva, empregou-se a técnica de reação em cadeia da polimerase com polimorfismo de comprimento de fragmentos de restrição (PCR-RFLP) para identificação molecular, e os perfis gerados foram comparados com padrões descritos na literatura42.
ANÁLISE ESPACIAL E DELIMITAÇÃO DAS ÁREAS DE RISCO
Os dados de ocorrência, localização geográfica, infecção e identificação das espécies foram organizados em um banco de dados georreferenciado e importados para um Sistema de Informações Geográficas (SIG). As bases cartográficas e os limites administrativos foram obtidos junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e os mapas temáticos foram gerados para visualização e interpretação dos focos críticos de transmissão de S. mansoni.
Foi elaborado um mapa de distribuição geral das espécies de Biomphalaria nos diferentes distritos de Belém, no qual a densidade combinada foi representada em tons de azul, classificados por quartis no software ArcGIS 10.4 (https://www.arcgis.com/). O estimador de densidade Kernel (EDK) foi aplicado aos dados de distribuição espacial dos moluscos infectados por S. mansoni para identificação de áreas de risco de ocorrência de esquistossomose43.
O EDK foi executado com o programa TerraView 5.7.1 (http://www.dpi.inpe.br/terralib5/wiki/doku.php), e os mapas foram elaborados no ArcGIS.
ASPECTOS ÉTICOS
Este estudo dispensa submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e ao Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA), conforme as Resoluções nº 466/12 e nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde e a Lei nº 11.794/2008 (Lei Arouca).
A dispensa é justificada por envolver exclusivamente dados secundários de moluscos invertebrados, não abrangidos pelas normas do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), que se aplicam apenas a vertebrados vivos não humanos.
RESULTADOS
COLETA E IDENTIFICAÇÃO DE MOLUSCOS
Nos oito distritos administrativos estudados foram registrados 273 pontos com ocorrência de Biomphalaria spp., totalizando 6.207 espécimes. Entretanto, a análise parasitológica e a identificação específica foram possíveis apenas em 5.736 (92,4%) moluscos vivos, provenientes de seis distritos: DABEN, DAGUA, DAICO, DAMOS, DAOUT e DASAC.
As três espécies hospedeiras de S. mansoni registradas no Brasil foram encontradas: B. glabrata (65,0%; 3.727/5.736), B. straminea (34,1%; 1.960/5.736) e B. tenagophila (0,9%; 49/5.736). Os espécimes foram coletados em áreas urbanas com infraestrutura de saneamento deficiente, em corpos d'água estagnados ou de fluxo lento.
Nos distritos DABEN, DAGUA, DAMOS, DAOUT e DASAC foi registrada B. glabrata; B. tenagophila ocorreu nos distritos DASAC e DAGUA; e B. straminea foi observada em DABEN, DAGUA, DAICO, DAMOS, DAOUT e DASAC.
AVALIAÇÃO E ANÁLISE ESTATÍSTICA DA INFECÇÃO NATURAL NOS MOLUSCOS
A análise dos dados laboratoriais revelou que 67 moluscos eliminaram cercárias de S. mansoni, resultando em uma taxa geral de infecção natural de 1,2% (67/5.736). Dentre as três espécies analisadas, apenas B. glabrata apresentou exemplares positivos para S. mansoni (Tabela 1).
Tabela 1 - Taxa de infecção natural por S. mansoni, segundo a espécie de molusco.
| Espécie | Número de moluscos positivos | Número de moluscos analisados | Percentual de positivos (%) |
|---|---|---|---|
| B. glabrata | 67 | 3.727 | 1,8 |
| B. tenagophila | - | 49 | - |
| B. straminea | - | 1.960 | - |
| Total | 67 | 5.736 | 1,2 |
Sinal convencional utilizado: - dado numérico igual a zero, não resultante de arredondamento.
A análise estatística indicou diferença significativa na ocorrência de moluscos infectados entre as espécies de Biomphalaria (χ² = 36,54; p < 0,001). Apenas B. glabrata apresentou infecção natural por S. mansoni (1,8%; 67/3.727), com resultado significativo em relação a B. straminea (teste exato de Fisher, p < 0,001). O teste binomial confirmou que as taxas observadas em B. glabrata e no total de moluscos (1,2%; 67/5.736) foram significativamente maiores que zero (p < 0,001).
DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL, ÁREAS DE RISCO E SOBREPOSIÇÃO COM ÁREAS DE INTERESSE TURÍSTICO
A partir do georreferenciamento e da análise dos dados de coleta e infecção, foi possível mapear a distribuição espacial de Biomphalaria spp. no município de Belém, evidenciando a presença dos caramujos em diversas áreas urbanas e periurbanas. Observou-se ampla ocupação territorial por essas espécies, especialmente B. glabrata e B. straminea.
A espécie B. glabrata foi registrada nos distritos DABEN, DAGUA, DAMOS, DAOUT e DASAC; B. straminea, em DABEN, DAGUA, DAICO, DAMOS, DAOUT e DASAC; e B. tenagophila apresentou ocorrência restrita aos distritos DASAC e DAGUA (Figura 2).

A e B, B. glabrata; C e D, B. straminea; E e F, B. tenagophila; G, distribuição geral e densidade combinada das três espécies. A coloração branca representa locais onde não foram encontrados moluscos, e o azul intenso indica áreas de alta densidade.
Figura 2 - Distribuição espacial das espécies de Biomphalaria nos distritos administrativos de Belém
A análise espacial revelou distribuição heterogênea de Biomphalaria spp. nos distritos administrativos, variando da ausência até concentrações elevadas de moluscos, com destaque para DAGUA e DASAC (Figura 2).
Ao integrar as áreas críticas de risco para esquistossomose com o mapeamento dos principais pontos turísticos de Belém, observou-se sobreposição espacial em regiões de grande circulação de pessoas, como orlas, praças, parques e áreas de lazer frequentadas por moradores e turistas. Essa sobreposição amplia o potencial de exposição da população local e de visitantes ao contato com ambientes favoráveis à manutenção do ciclo do parasito.
A aplicação do EDK evidenciou aglomerações expressivas com registros de moluscos positivos para S. mansoni. Os mapas a seguir (Figuras 3 e 4) ilustram essa relação, destacando as áreas de ocorrência de exemplares de B. glabrata infectados e a interseção com pontos turísticos estratégicos do município.

Figura 3 - Mapa com a identificação dos pontos turísticos de Belém, distribuídos ao longo dos distritos administrativos

A: distribuição espacial dos pontos turísticos por distrito administrativo; B: estimativa de densidade Kernel (EDK) evidenciando as áreas de maior vulnerabilidade para transmissão de S. mansoni, considerando aglomerações de moluscos positivos sobrepostas à localização dos pontos turísticos.
As cores indicam a densidade estimada: verde = baixa densidade (menor risco de transmissão); amarelo = densidade intermediária; vermelho = alta densidade (maior risco de transmissão).
Figura 4 - Mapa de Belém, estado do Pará, Brasil, mostrando a identificação e a distribuição espacial dos pontos turísticos e das áreas de risco potencial para transmissão de S. mansoni
DISCUSSÃO
O presente estudo evidenciou a ocorrência das três espécies do gênero Biomphalaria suscetíveis ao trematódeo S. mansoni no Brasil: B. glabrata, B. straminea e B. tenagophila, conforme previamente relatado na literatura22,44. Entre as espécies hospedeiras identificadas, apenas B. glabrata foi encontrada naturalmente infectada por S. mansoni. Os testes estatísticos confirmaram diferença significativa nas proporções de infecção entre as espécies, indicando maior ocorrência em B. glabrata e reforçando seu papel como principal hospedeira intermediária na região, com relevância epidemiológica para a esquistossomose em Belém21,44,45.
A presença de B. glabrata em áreas classificadas como de alta vulnerabilidade socioambiental representa fator de risco expressivo. Carvalho e colaboradores45, ao realizarem levantamento em municípios das regiões Nordeste e Norte do país, observaram a capacidade dessa espécie de se estabelecer em ambientes antropizados e adaptados à presença humana, sendo frequentemente encontrada em canais urbanos e valas a céu aberto. De forma semelhante, neste estudo, as três espécies registradas foram observadas em ambientes urbanos e periurbanos com saneamento precário, como canais de drenagem e valas de esgoto a céu aberto, evidenciando a ampla adaptação do gênero a locais de acúmulo de águas residuais.
Mesmo que não tenham sido observadas cercárias de S. mansoni, a presença de B. straminea e B. tenagophila em ambientes ecologicamente favoráveis configura risco potencial para o surgimento de novos focos de transmissão. Um estudo conduzido em município endêmico de Pernambuco45 evidenciou ampla dispersão de B. straminea em áreas urbanas, reforçando sua capacidade de adaptação a ambientes antropizados e o papel dessa espécie na manutenção de focos potenciais de transmissão. Padrão semelhante foi observado em Belém, onde a presença de B. straminea em diferentes distritos administrativos indica condições ambientais favoráveis à sua expansão e destaca a importância das ações regulares de vigilância malacológica nesses locais46-49.
Essas observações tornam-se ainda mais relevantes quando associadas ao contexto socioambiental das áreas estudadas, em que fatores estruturais e ambientais influenciam a manutenção do ciclo parasitário. As áreas de ocorrência de moluscos positivos coincidiram com zonas de alta vulnerabilidade social, caracterizadas por baixa cobertura de serviços públicos essenciais, alta densidade populacional e exposição frequente da comunidade a corpos hídricos contaminados1. A sobreposição de fatores ambientais, sociais e biológicos nessas localidades favorece a persistência do ciclo de S. mansoni, evidenciando a necessidade de intervenções integradas e estratégias territoriais de prevenção e controle50.
Corpos d'água estagnados, vegetação flutuante, acúmulo de matéria orgânica e o clima equatorial úmido característico de Belém criam condições ideais para a manutenção das populações de Biomphalaria, conforme observado em outros estudos que associam deficiências estruturais e vulnerabilidade ambiental à expansão da esquistossomose na região51,52.
Além das condições locais observadas, fatores como as mudanças climáticas tendem a amplificar esses riscos e emergem como componente adicional que influencia a dinâmica populacional dos moluscos do gênero Biomphalaria e o estabelecimento da esquistossomose. Variações de temperatura e precipitação podem alterar a sobrevivência, a reprodução e a distribuição dos hospedeiros, expandindo zonas de risco, modificando a sazonalidade das populações e elevando a taxa de transmissão em áreas endêmicas.
Na Amazônia, a combinação de alta umidade, temperaturas elevadas e áreas alagadas tende a se intensificar com as mudanças climáticas, o que pode acelerar o ciclo de desenvolvimento do parasito e criar novos microambientes favoráveis à transmissão53,54. Essa vulnerabilidade ambiental também foi relatada em outros contextos urbanos tropicais, como na África Subsaariana, onde o contato frequente com a água e a adaptação dos moluscos hospedeiros intermediários a canais urbanos têm contribuído para a persistência do ciclo de transmissão55,56.
A magnitude desses fatores ambientais pode ser observada também na taxa de infecção registrada neste estudo, que se aproxima de achados de outras localidades amazônicas. Barbosa e colaboradores57, ao analisarem 324 moluscos em 15 bairros de Manaus, estado do Amazonas, identificaram B. glabrata em áreas densamente povoadas e com precária infraestrutura de saneamento, registrando taxas de infecção entre 1,2% e 5,5%. Os autores associaram esses índices à ocupação desordenada do solo urbano e ao contato direto da população com corpos hídricos contaminados.
No presente estudo, a ocorrência de moluscos em canais urbanos situados em regiões com deficiências estruturais e frequente contato humano com a água reforça que centros urbanos não estão isentos de risco quando há presença de hospedeiros e condições ambientais favoráveis à transmissão.
Para ampliar a compreensão da relação entre fatores ambientais e ocorrência dos hospedeiros, o uso de geotecnologias consolidou-se como ferramenta estratégica na vigilância em saúde, permitindo integrar dados ambientais, biológicos e sociais em análises espaciais. Guimarães e colaboradores58, em estudo conduzido em áreas endêmicas de Minas Gerais, demonstraram que o geoprocessamento favorece a alocação precisa de recursos e a definição de estratégias de controle mais direcionadas.
De forma semelhante, neste estudo, a análise espacial por meio do EDK evidenciou áreas críticas de risco para a esquistossomose em Belém, especialmente nos distritos DAGUA e DASAC, caracterizados pela sobreposição de fatores ambientais e sociais que favorecem a manutenção do ciclo parasitário39. A simples presença de hospedeiros em ambientes ecologicamente adequados constitui um sinal de alerta para a vigilância, pois pode viabilizar a instalação de novos focos de transmissão59.
Outro aspecto relevante observado neste estudo foi a sobreposição entre focos positivos de moluscos e áreas de interesse coletivo, como igrejas, feiras e mercados locais. Embora os distritos DAGUA e DASAC não sejam polos turísticos, constituem espaços de grande relevância comunitária e intensa circulação de pessoas, sobretudo durante eventos religiosos e feiras populares, o que reforça a importância da vigilância em saúde.
Locais de uso coletivo, mesmo sem caráter turístico, podem configurar pontos críticos para a disseminação de doenças quando associados a condições ambientais insalubres45,60. Os principais atrativos turísticos de Belém, como o Ver-o-Peso, o Mangal das Garças, a Basílica de Nazaré e a Estação das Docas, concentram-se no distrito central (DABEL), adjacente aos focos positivos identificados. Esses distritos funcionam como corredores urbanos que conectam diferentes regiões da cidade, ampliando o movimento diário de moradores e visitantes.
O bairro do Guamá, localizado no DAGUA, destaca-se ainda como o mais populoso de Belém, segundo o último censo do IBGE34, o que reforça a relevância epidemiológica dessa área45,60.
A sobreposição dos hotspots de B. glabrata infectada com áreas de interesse coletivo e de alta circulação evidencia a necessidade urgente de intensificar a vigilância no contexto da COP30. A ampliação das ações de vigilância nesses territórios, considerando suas vulnerabilidades sociais e estruturais, é fundamental para mitigar riscos e proteger a saúde coletiva, sobretudo em cidades que se preparam para sediar grandes eventos internacionais.
Situações semelhantes foram registradas durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil, quando avaliações do European Centre for Disease Prevention and Control61 destacaram que eventos de grande porte podem elevar o risco de introdução e disseminação de doenças infecciosas devido à aglomeração de pessoas, à sobrecarga dos serviços sanitários e à maior pressão sobre os sistemas de vigilância.
Embora esses estudos não abordem especificamente a esquistossomose, demonstram que a combinação entre intensa circulação de visitantes, infraestrutura deficiente e recursos sanitários limitados constitui cenário propício à expansão de doenças endêmicas33,62.
Em Belém, o histórico de vulnerabilidade sanitária, aliado à presença de caramujos suscetíveis a S. mansoni, com ampla distribuição na cidade, e à realização da COP30, pode ampliar o risco de transmissão entre moradores e visitantes. Esse cenário reforça a necessidade de ações articuladas de saneamento, vigilância e educação em saúde.
Os dados obtidos neste estudo também atualizam o panorama malacológico da capital paraense e oferecem subsídios estratégicos para o fortalecimento da vigilância ambiental e a formulação de políticas públicas voltadas à prevenção da esquistossomose.
Portanto, a articulação entre os eixos de vigilância ambiental, saneamento e planejamento urbano reforça que a integração entre dados ambientais, biológicos e sociais é essencial para fortalecer a vigilância em saúde, mitigar riscos e preparar Belém para o cenário da COP30.
CONCLUSÃO
Este estudo identificou a ocorrência das três espécies do gênero Biomphalaria hospedeiras intermediárias naturais de S. mansoni no município de Belém, estado do Pará, além de mapear áreas críticas de risco epidemiológico, evidenciando a presença de focos de transmissão próximos a zonas de intensa circulação populacional e a atrativos turísticos. Esses resultados representam um alerta estratégico para a vigilância em saúde, sobretudo no contexto da realização da COP30.
A persistência de B. glabrata em diferentes habitats demonstra a elevada capacidade adaptativa da espécie, aspecto ainda mais preocupante em um cenário de mudanças climáticas, que pode favorecer sua expansão para novos ambientes urbanos. Nesse contexto, a elaboração de mapas de risco mostrou-se uma ferramenta essencial para compreender a dinâmica de distribuição dos hospedeiros e sua relevância epidemiológica, fornecendo subsídios para identificar precocemente áreas vulneráveis e orientar ações de vigilância e controle de forma mais eficiente.
Os achados deste trabalho reforçam o potencial do uso de bancos de dados laboratoriais como instrumentos de apoio à vigilância e destacam a importância da integração entre informações ambientais, epidemiológicas e geoespaciais. Essa abordagem integrada é fundamental não apenas para subsidiar políticas públicas e ações preventivas direcionadas, mas também para fortalecer o planejamento urbano, promover educação em saúde e garantir proteção coletiva.
Em períodos de grande visibilidade internacional, como o proporcionado pela COP30 em Belém, tais medidas tornam-se ainda mais estratégicas para a prevenção de agravos e para a preparação do sistema de saúde frente a possíveis emergências em saúde pública.













