INTRODUÇÃO
A Pan-Amazônia, com mais de 6 milhões de km² distribuídos entre nove países sul-americanos, constitui a maior floresta tropical do planeta e abriga cerca de 25% da biodiversidade global1. No Brasil, a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 5,5 milhões de km2, abrangendo nove estados, entre os quais o estado do Pará se destaca por concentrar a maior população da região e apresentar expressivos índices de desmatamento e queimadas2,3. De acordo com dados do Projeto de Estimativa do Desflorestamento da Amazônia (PRODES), entre 2013 e 2023 o Pará perdeu 35.701 km2 de cobertura florestal4, situando-se entre os principais responsáveis pela supressão florestal amazônica.
Historicamente, o uso do fogo consolidou-se como prática recorrente no manejo agrícola e pecuário, associada à abertura e renovação de pastagens, bem como à limpeza de áreas cultiváveis5,6. Nas últimas décadas, entretanto, a combinação entre desmatamento, fragmentação florestal e eventos de seca tem intensificado a frequência e a severidade dos incêndios na região do chamado "arco do desmatamento", especialmente no sudeste e sudoeste do Pará. A fragmentação resultante da expansão agropecuária aumenta a suscetibilidade das bordas florestais ao fogo, enquanto anos de seca extrema ampliam os episódios de queimadas associados à conversão de áreas para pastagens e lavouras7-9.
Em 2023, foram registrados 90.147 focos de queimadas na Amazônia Legal, correspondendo a 47,5% do total nacional, sendo o estado do Pará responsável por cerca de 41 mil focos, seguido pelo Amazonas, com mais de 19 mil, e por Tocantins, com aproximadamente 9.50010. Esse cenário evidencia o avanço da degradação ambiental e a crescente exposição das populações amazônicas à poluição atmosférica decorrente da fumaça dos incêndios, frequentemente associada ao aumento de atendimentos e internações por doenças respiratórias e cardiovasculares11-13.
A exposição à fumaça proveniente de incêndios florestais tem sido amplamente relacionada a efeitos deletérios sobre o sistema respiratório, incluindo crises de asma e agravamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), além de impactos cardiovasculares e neurológicos que afetam especialmente crianças e idosos. Esses efeitos contribuem para o aumento da morbidade por doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por cerca de 17,9 milhões de casos e 3,9 milhões de mortes anuais em todo o mundo11,12,14.
Nesse contexto, a Amazônia Legal e, em particular, o estado do Pará, desempenham papel central nas discussões sobre os efeitos socioambientais e sanitários do desmatamento e das queimadas na região. A investigação das inter-relações entre degradação florestal, fogo e saúde coletiva é essencial não apenas para compreender os riscos locais, mas também para avaliar os impactos em escalas nacional e global, uma vez que os processos de destruição da Amazônia influenciam diretamente a regulação climática e a saúde pública14,15.
Com base nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar a relação entre desmatamento, queimadas e internações por doenças respiratórias e circulatórias no estado do Pará, com ênfase nos oito municípios líderes em desmatamento entre 2013 e 2023. Foram analisadas a temporalidade dos focos de incêndio e a expansão do desmatamento, considerando sua associação com hospitalizações por doenças respiratórias e circulatórias. As análises buscaram identificar tendências temporais e potenciais associações entre a degradação ambiental e os agravos à saúde, contribuindo para o entendimento dos impactos das queimadas sobre a saúde coletiva na Amazônia e para o aprimoramento de políticas públicas voltadas ao controle do desmatamento, à prevenção de queimadas e à proteção das populações vulneráveis.
MATERIAIS E MÉTODOS
ÁREA DE ESTUDO
Foram selecionados os oito municípios com maior histórico de desmatamento no estado do Pará16: Altamira, Anapu, Itaituba, Novo Progresso, Novo Repartimento, Pacajá, Portel e São Félix do Xingu (Figura 1). Juntos, esses municípios ocupam mais de 25% da área total do estado17 e somam aproximadamente 583 mil habitantes18. Suas economias são predominantemente baseadas na agropecuária, no extrativismo e na pesca (Tabela 1).
Tabela 1 - Perfil dos municípios analisados por mesorregião do estado do Pará
| Mesorregião | Município | Área (km2) | População | Principais atividades econômicas | Pessoas (10+ anos) ocupadas na seção de atividade (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Marajó | Portel | 25.386,158 | 66.898 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 47,58 |
| Sudeste paraense | São Félix do Xingu | 84.212,901 | 65.957 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 46,22 |
| Novo Repartimento | 15.398,736 | 63.754 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 47,64 | |
| Sudoeste paraense | Altamira | 159.533,306 | 136.982 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 19,40 |
| Anapu | 11.895,270 | 34.947 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 48,25 | |
| Itaituba | 62.042,472 | 133.684 | Comércio reparação de veículos automotores, objetos pessoais e domésticos | 20,27 | |
| Novo Progresso | 38.162,003 | 36.518 | Agricultura, Pecuária, Silvicultura, Exploração florestal e pesca | 26,74 | |
| Pacajá | 11.832,323 | 43.594 | Agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca | 52,05 |
Fonte: IBGE (2024); FAPESPA (2025)
DADOS AVALIADOS
Foram analisados, para cada município, os dados de desmatamento, focos de queimadas e internações hospitalares entre os anos de 2013 e 2023. A escolha dessas variáveis decorre da relevância estratégica da Amazônia no contexto ambiental global e dos impactos diretos que os processos de degradação florestal exercem sobre a saúde das populações locais.
Os dados anuais de incremento do desmatamento (km2) foram obtidos no PRODES4, que utiliza imagens da série LANDSAT, com resolução espacial entre 20 e 30 metros e ciclo de revisita de 16 dias, combinadas para reduzir interferências de cobertura de nuvens e garantir interoperabilidade entre satélites. O incremento anual do desmatamento é determinado por interpretação visual das imagens de satélite, considerando cada "fração" da Amazônia, isto é, cada cena individual que, em conjunto, cobre toda a área de interesse4.
Os dados anuais de focos de queimadas (contagem) foram obtidos no Banco de Dados de Queimadas (BDQueimadas)10. Já as informações sobre internações hospitalares por doenças do aparelho circulatório (Classificação Internacional de Doenças - CID-10, capítulo IX) e respiratório (CID-10, capítulo X) foram extraídas do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), por meio da plataforma TabNet19. Desde sua criação, o DATASUS tem como objetivo estruturar e integrar sistemas de informação em saúde, apoiando a gestão e o planejamento em todos os níveis de atenção20.
As internações foram estratificadas por sexo (masculino e feminino) e por faixa etária, distribuídas nas categorias: 0-4 anos, 5-14 anos, 15-29 anos, 30-49 anos, 50-69 anos, 70-79 anos e 80 anos ou mais.
ANÁLISE DOS DADOS
Para avaliar as tendências temporais e as associações entre os indicadores ambientais e de saúde, foram empregadas abordagens complementares baseadas em séries anuais agregadas e estratificadas.
Os dados de focos de queimadas, área desmatada e número de internações hospitalares (totais, por sexo e por faixa etária) foram organizados de duas formas: (i) Séries agregadas - obtidas pela soma dos valores anuais dos oito municípios, representando o comportamento global do conjunto; e (ii) Séries estratificadas - analisadas separadamente para cada município, permitindo comparações locais e avaliação individualizada das tendências.
A evolução temporal dos indicadores ambientais e de saúde foi examinada por meio de regressões lineares simples, considerando o ano como variável preditora e cada indicador (focos de queimadas, área desmatada ou número de internações) como variável dependente. As regressões foram aplicadas tanto às séries agregadas quanto às estratificadas por município.
Para investigar as associações entre exposição ambiental e saúde, foram conduzidas análises transversais anuais, nas quais as regressões lineares foram realizadas separadamente para cada ano (2013-2023), tendo os municípios como unidade de análise (n = 8). Avaliou-se como as diferenças nos níveis de desmatamento e queimadas, em um mesmo ano, se relacionaram às variações no número de internações hospitalares.
Também foram realizadas análises temporais por município, considerando a variação anual como unidade de análise (n = 11 anos), a fim de estimar, dentro de cada localidade, o efeito do desmatamento e das queimadas sobre as internações ao longo do tempo.
Adicionalmente, ajustaram-se modelos lineares com efeitos fixos de dois fatores (two-way fixed effects) — município e ano —, utilizando todas as observações disponíveis (n = 88). O número total de internações foi considerado variável dependente, enquanto os focos de queimadas e a área desmatada foram alternadamente utilizados como preditores principais.
Como análises de robustez, foram ajustados modelos log-transformados [log1p()] para lidar com distribuições assimétricas e modelos com coeficientes padronizados (z-score), possibilitando comparar magnitudes entre preditores em diferentes escalas. Valores ausentes foram tratados por exclusão de pares completos nas regressões.
Todas as análises e visualizações foram realizadas no R (RStudio versão 2025.05.1+513), com os pacotes tidyverse, readxl, janitor, broom, sandwich e ggplot2. O nível de significância adotado foi de 5% (p < 0,05).
RESULTADOS
TENDÊNCIAS TEMPORAIS
Entre 2013 e 2023, o estado do Pará registrou mais de 379 mil focos de queimadas, apresentando padrão de variação anual com alternância de aumentos e reduções. As maiores amplitudes foram observadas nos municípios de Altamira, Anapu, Itaituba e Novo Progresso (Figura 2A).
Os municípios de São Félix do Xingu e Altamira concentraram os maiores números absolutos de focos no período, com 36.327 e 35.051 registros, respectivamente.
Quanto ao desmatamento (Figura 2B), foi observada perda acumulada de mais de 35.700 km2 de cobertura florestal, com destaque para o intervalo de 2019 a 2022, responsável por mais de 50% do total desmatado no período. Altamira e São Félix do Xingu responderam por quase metade da área total desmatada.

Figura 2 - Tendência temporal dos focos de queimadas (A) e do desmatamento (B) nos municípios estudados
No que se refere às internações hospitalares por doenças dos aparelhos circulatório e respiratório (CID-10, capítulos IX e X), foram registrados aproximadamente 63 mil casos entre 2013 e 2023. Observou-se redução nas internações entre 2013 e 2017, seguida de estabilidade até 2019. Nova queda ocorreu entre 2020 e 2021, com aumento nos anos de 2022 e 2023 (Figura 3).

Figura 3 - Tendência temporal das internações por doenças dos aparelhos respiratório e cardiovascular (CID-10, capítulos IX e X) nos municípios estudados
Quanto ao sexo, os homens representaram 54% do total de internações, exceto nos municípios de Novo Repartimento e Portel, onde predominou o sexo feminino (Figura 4).

Figura 4 - Tendência temporal das internações por doenças dos aparelhos respiratório e cardiovascular (CID-10, capítulos IX e X), segundo sexo, nos municípios estudados
A análise por faixa etária revelou maior vulnerabilidade entre crianças menores de quatro anos e idosos com 60 anos ou mais, grupos que concentraram a maioria das internações (Figura 5). Todos os municípios apresentaram aumento das internações em crianças de até quatro anos entre 2020 e 2022. Em Pacajá e, especialmente, em Portel, observou-se manutenção da tendência de crescimento em 2023, sendo que Portel registrou incremento de 150% nas internações infantis ao longo da década analisada.
EFEITO DAS QUEIMADAS E DO DESMATAMENTO NA SAÚDE
As regressões lineares que avaliaram as relações entre internações hospitalares e variáveis ambientais, conduzidas de forma transversal anual (8 municípios), indicaram associação significativa entre desmatamento e internações em 2014 (R2= 0,73; p < 0,01) e no período de 2019 a 2021 (R2= 0,70-0,80; p < 0,05) (Tabela 2). Esses intervalos coincidiram com picos de desmatamento e aumento das internações cardiorrespiratórias. Nenhuma associação consistente foi observada entre focos de queimadas e internações nas análises anuais agregadas.
Tabela 2 - Regressões lineares por ano entre as internações e os focos de queimadas, e entre as internações e o desmatamento
| Internações totais vs focos de queimadas | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Ano | N | β | Erro-padrão | t | p | R2 |
| 2013 | 8 | 3,65 | 1,54 | 2,37 | 0,056 | 0,48 |
| 2014 | 8 | 0,75 | 0,53 | 1,42 | 0,205 | 0,25 |
| 2015 | 8 | 0,11 | 0,26 | 0,40 | 0,701 | 0,03 |
| 2016 | 8 | 0,26 | 0,56 | 0,47 | 0,657 | 0,03 |
| 2017 | 8 | 0,02 | 0,09 | 0,27 | 0,799 | 0,01 |
| 2018 | 8 | -0,45 | 0,59 | -0,77 | 0,470 | 0,09 |
| 2019 | 8 | 0,03 | 0,18 | 0,19 | 0,859 | 0,01 |
| 2020 | 8 | -0,01 | 0,10 | -0,10 | 0,925 | 0,00 |
| 2021 | 8 | 0,08 | 0,14 | 0,59 | 0,577 | 0,05 |
| 2022 | 8 | 0,11 | 0,11 | 1,03 | 0,344 | 0,15 |
| 2023 | 8 | 0,21 | 0,21 | 1,00 | 0,355 | 0,14 |
| Internações totais vs desmatamento | ||||||
| Ano | N | β | Erro-padrão | t | p | R2 |
| 2013 | 8 | 7,48 | 4,12 | 1,82 | 0,119 | 0,36 |
| 2014 | 8 | 13,17 | 3,24 | 4,07 | 0,007 | 0,73 |
| 2015 | 8 | 3,75 | 3,73 | 1,01 | 0,353 | 0,14 |
| 2016 | 8 | 2,76 | 2,27 | 1,22 | 0,269 | 0,20 |
| 2017 | 8 | 3,54 | 2,45 | 1,45 | 0,198 | 0,26 |
| 2018 | 8 | 3,65 | 1,82 | 2,01 | 0,091 | 0,40 |
| 2019 | 8 | 3,14 | 0,76 | 4,14 | 0,006 | 0,74 |
| 2020 | 8 | 1,65 | 0,44 | 3,72 | 0,010 | 0,70 |
| 2021 | 8 | 1,44 | 0,29 | 4,98 | 0,003 | 0,80 |
| 2022 | 8 | 2,24 | 0,69 | 3,25 | 0,018 | 0,64 |
| 2023 | 8 | 3,62 | 1,97 | 1,83 | 0,115 | 0,36 |
Desfecho = internações; preditor = focos de queimadas ou desmatamento. n: número de municípios; β: variação média nas internações por 1 unidade do preditor; R²: coeficiente de determinação. Valores em negrito indicam p < 0,05.
As regressões lineares temporais por município, utilizando os anos como unidade de análise (11 anos), revelaram associação positiva e estatisticamente significativa apenas em Portel, onde o aumento no número de focos de queimadas esteve associado a maior número de internações (β = 0,16; R2= 0,65; p = 0,002) (Tabela 3 ). Nos demais municípios, as correlações entre desmatamento ou queimadas e internações não foram significativas, sugerindo heterogeneidade espacial dos efeitos.
Tabela 3 - Regressões lineares por município entre as internações e os focos de queimadas, e entre as internações e o desmatamento
| Internações totais vs focos de queimadas | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Local | n | β | Erro-padrão | t | p | R2 |
| Altamira | 11 | -0.41 | 0.22 | -1.87 | 0.094 | 0.28 |
| Anapu | 11 | -0.11 | 0.08 | -1.37 | 0.203 | 0.17 |
| Itaituba | 11 | -0.40 | 0.49 | -0.81 | 0.439 | 0.07 |
| Novo Progresso | 11 | -0.06 | 0.06 | -0.96 | 0.361 | 0.09 |
| Novo Repartimento | 11 | 0.19 | 0.43 | 0.45 | 0.663 | 0.02 |
| Pacajá | 11 | 0.05 | 0.10 | 0.46 | 0.658 | 0.02 |
| Portel | 11 | 0.16 | 0.04 | 4.12 | 0.002 | 0.65 |
| São Félix do Xingu | 11 | -0.39 | 1.02 | -0.38 | 0.714 | 0.02 |
| Internações totais vs desmatamento | ||||||
| Local | n | β | Erro-padrão | T | p | R2 |
| Altamira | 11 | -2.95 | 1.39 | -2.13 | 0.062 | 0.33 |
| Anapu | 11 | -3.82 | 2.83 | -1.35 | 0.210 | 0.17 |
| Itaituba | 11 | -2.43 | 2.07 | -1.18 | 0.270 | 0.13 |
| Novo Progresso | 11 | -0.54 | 0.38 | -1.42 | 0.189 | 0.18 |
| Novo Repartimento | 11 | 0.40 | 1.15 | 0.35 | 0.734 | 0.01 |
| Pacajá | 11 | -0.27 | 0.33 | -0.80 | 0.442 | 0.07 |
| Portel | 11 | 0.14 | 0.31 | 0.47 | 0.648 | 0.02 |
| São Félix do Xingu | 11 | 0.96 | 1.00 | 0.96 | 0.360 | 0.09 |
Desfecho = internações; preditor = focos de queimadas ou desmatamento. n: anos por município; β: variação média nas internações por 1 unidade do preditor; R²: coeficiente de determinação. Valores em negrito indicam p < 0,05.
Os modelos lineares com efeitos fixos de dois fatores (município e ano) indicaram ausência de associação significativa entre o total de internações hospitalares e queimadas (β = 0,00004; p = 0,56) ou desmatamento (β = 0,0013; p = 0,26). Ambos os modelos apresentaram bom ajuste (R2≈ 0,69-0,70) e reforçaram a tendência de redução nas internações entre 2015 e 2017 e entre 2020 e 2021, com diferenças significativas entre os municípios.
As análises de robustez, incluindo transformações logarítmicas [log1p()] e padronização dos coeficientes (z-score), confirmaram os padrões observados, corroborando a consistência dos resultados obtidos.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo evidenciam que o desmatamento e as queimadas permanecem fortemente associados na Amazônia paraense, refletindo práticas recorrentes de supressão florestal que utilizam o fogo como etapa do processo de mudança no uso da terra. Esse padrão foi mais evidente em Altamira e São Félix do Xingu, que concentraram as maiores áreas de desmatamento e os maiores números de focos de incêndio, em consonância com estudos anteriores que identificam a região do "arco do desmatamento" como o principal eixo da degradação florestal amazônica21-23.
A degradação florestal no Pará está historicamente vinculada à exploração madeireira, à grilagem de terras e à expansão da pecuária extensiva, fatores que colocam o estado entre os líderes nacionais em perda de cobertura vegetal24,25.
As queimadas na Amazônia tendem a concentrar-se nos períodos menos chuvosos, quando a umidade relativa do ar é reduzida e a vegetação se torna mais suscetível à ignição26,27. Embora este estudo não tenha avaliado diretamente a variação mensal dos focos de incêndio, a flutuação interanual observada reforça essa tendência, independentemente do município analisado, confirmando o papel determinante do regime pluviométrico na dinâmica do fogo na região.
Eventos climáticos extremos ocorridos na última década, como El Niño e La Niña, exerceram influência decisiva sobre a ocorrência de queimadas e, consequentemente, sobre a degradação da qualidade do ar. Em anos de seca intensa, como 2015-2016 e 202328, verificou-se aumento expressivo da atividade de fogo, evidenciando a interação entre pressões antrópicas e variabilidade climática29,30. Essa dinâmica ajuda a explicar os picos de internações observados em 2014 e entre 2019 e 2022, quando períodos de estiagem coincidiram com intensificação da degradação florestal, ampliando a exposição populacional à fumaça.
O ano de 2014 foi caracterizado pela redução das chuvas e elevação das temperaturas na Amazônia oriental, configurando uma pré-condição seca que antecedeu o forte evento El Niño 2015-201629,31. Já o período de 2019 a 2022 apresentou anomalias regionais de temperatura e precipitação no estado do Pará, favorecendo estiagens prolongadas e elevadas ocorrências de queimadas32,33. Em 2023, o El Niño 2023-2024, associado ao aquecimento do Atlântico Norte e às temperaturas globais recordes, resultou em escassez de chuvas, redução do nível dos rios e intensificação dos incêndios28,33.
Esses eventos sucessivos criaram um cenário de exposição prolongada à fumaça e ao material particulado fino (PM2.5), o que possivelmente contribuiu para os aumentos nas internações por doenças cardiorrespiratórias observados nos anos críticos. Com o avanço das mudanças climáticas globais, projeta-se que as secas amazônicas se tornem mais frequentes e severas14,15, ampliando a vulnerabilidade das populações humanas e reforçando a necessidade de estratégias integradas de monitoramento ambiental e epidemiológico.
Do ponto de vista da saúde coletiva, a intensificação das queimadas acende um alerta não apenas para os povos amazônidas, mas também para todo o Brasil. A queima de biomassa representa uma das principais fontes emissoras de PM2.5 no país34, contribuindo para que o Brasil figure entre as nações mais afetadas pela poluição atmosférica35. O Ministério da Saúde36 reconhece que a poluição do ar decorrente das queimadas constitui um grave problema de saúde pública, elevando o número de atendimentos e internações.
No presente estudo, crianças menores de cinco anos e idosos foram os grupos mais vulneráveis, corroborando evidências de que o PM2.5 atravessa barreiras biológicas, induz inflamação sistêmica e agrava doenças respiratórias e cardiovasculares13,14. O aumento expressivo das internações infantis no município de Portel reforça a necessidade de ações específicas de proteção à infância, sobretudo em áreas com acesso limitado a serviços especializados de saúde.
O predomínio masculino nas internações, com exceção dos municípios de Novo Repartimento e Portel, diverge de alguns estudos que apontam maior vulnerabilidade entre mulheres, atribuída à maior exposição domiciliar a poluentes38. No contexto paraense, fatores socioculturais, diferenças de acesso aos serviços de saúde e a menor adesão masculina a medidas preventivas podem explicar esse padrão39. Esses achados sugerem que análises de gênero devem ser aprofundadas em pesquisas futuras, considerando não apenas fatores fisiológicos, mas também determinantes sociais e contextuais.
É importante reconhecer que o presente estudo utilizou números absolutos de internações hospitalares, sem padronização por população residente ou faixa etária. Essa limitação restringe a comparabilidade direta entre municípios e impede estimar a proporção populacional mais afetada pelas queimadas. Ainda assim, as tendências observadas — especialmente o aumento de internações entre crianças menores de cinco anos e idosos com mais de 60 anos — corroboram achados prévios40,41 e reforçam a vulnerabilidade desses grupos frente à poluição atmosférica associada às queimadas. Estudos complementares poderão, futuramente, incorporar taxas ajustadas por população e variáveis demográficas, de modo a refinar as estimativas de risco e ampliar a compreensão dos impactos diferenciais entre faixas etárias.
A análise estratificada por município mostrou que apenas Portel apresentou associação estatisticamente significativa entre queimadas e internações, evidenciando que localidades fora do "arco do desmatamento" também sofrem impactos relevantes. O aumento expressivo das internações infantis em Portel reforça a necessidade de medidas específicas de proteção à infância, especialmente em áreas isoladas e com menor acesso a serviços especializados de saúde.
Estudos prévios conduzidos em outras regiões da Amazônia e do Cerrado apontam que a intensidade local das queimadas, combinada às condições meteorológicas, pode gerar variações na morbidade11,42. A queda abrupta nas internações em 2020-2021, coincidente com a pandemia de COVID-19, reforça as limitações do uso exclusivo de registros hospitalares, uma vez que essa redução pode refletir subnotificações decorrentes da dificuldade de acesso aos serviços de saúde e do receio da população em buscar atendimento43.
Embora os dados analisados não permitam inferências causais em nível individual, a consistência dos padrões observados aponta para a urgência de políticas públicas integradas, que associem a redução do desmatamento ao controle das queimadas, articuladas com medidas de vigilância ambiental e epidemiológica. O fortalecimento do monitoramento da qualidade do ar e a ampliação de programas de saúde direcionados a populações vulneráveis podem reduzir a carga de doenças cardiorrespiratórias na região.
Além disso, considerando a importância global da Amazônia para o equilíbrio climático, os impactos das queimadas transcendem as fronteiras regionais, reforçando a necessidade de soluções cooperativas e integradas em escala nacional e internacional.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo indicam que, na Amazônia paraense, períodos de maior atividade de desmatamento coincidiram com a intensificação das queimadas em anos específicos, com destaque para 2014 e o intervalo entre 2019 e 2022, quando se observaram picos de internações cardiorrespiratórias. Verificou-se heterogeneidade entre municípios, com destaque para Portel, onde a associação entre queimadas e internações foi estatisticamente significativa, enquanto em outras localidades os resultados foram menos consistentes.
Em relação à faixa etária, crianças menores de cinco anos e idosos com mais de 60 anos concentraram a maior proporção de internações no período, padrão compatível com o descrito na literatura, ainda que a ausência de padronização populacional impeça inferências proporcionais diretas.
No agregado espaço-temporal, os modelos com efeitos fixos de município e ano não apontaram associações robustas entre queimadas ou desmatamento e o total de internações, evidenciando a complexidade do fenômeno e a necessidade de recortes espaciais e temporais mais específicos para sua interpretação. Em conjunto, os achados sugerem que interações entre mudanças no uso da terra, variabilidade climática e condições locais podem coincidir com o aumento da morbidade cardiorrespiratória, ainda que de forma não uniforme no território.
Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o monitoramento da qualidade do ar na região amazônica — preferencialmente em tempo real — e de adotar protocolos de proteção a grupos vulneráveis durante episódios de fumaça.
Para pesquisas futuras, recomenda-se estimar taxas ajustadas por população e faixa etária, empregar métricas diretas de exposição, incorporar variáveis meteorológicas e explorar modelos causais e séries temporais de maior resolução, a fim de aprimorar a robustez das inferências e subsidiar respostas mais efetivas em saúde coletiva na Amazônia.















