INTRODUÇÃO
A crise climática, compreendida como a expressão máxima da determinação social da saúde no século XXI1,2, é fruto de um modelo extrativista-colonial que converte territórios biodiversos em zonas de sacrifício3. Na Amazônia brasileira, onde avançam garimpos ilegais, grilagens e projetos como Belo Monte, os povos indígenas enfrentam a mercantilização radical da vida4. A contaminação de rios, o desmatamento e o epistemicídio (o apagamento dos saberes tradicionais) revelam a face de um capitalismo que adoece corpos e ecossistemas5. Nesse contexto, o "capitalismo verde"6 se manifesta ao impor soluções de mercado que privatizam a natureza, enquanto o "racismo ambiental"7 evidencia como os impactos ecológicos recaem de forma desproporcional sobre populações historicamente marginalizadas.
A teoria da determinação social da saúde, conforme Breilh1 e Laurell2, nos permite ir além da visão individualista da biomedicina hegemônica, que frequentemente reduz tais violências a "fatores de risco"8, desterritorializando o sofrimento e naturalizando injustiças. A crítica ao "pensamento abissal"5, que separa o conhecimento científico dos saberes ancestrais, torna-se central para descolonizar a medicina e reconhecer os saberes indígenas como sistemas epistemológicos completos e essenciais para a saúde ecossocial.
É nesse contexto de crítica e busca por novas práticas que a roda de conversa "Crise Climática, Saúde e Territórios: Aprendizados Indígenas para a Medicina de Família e Comunidade" emerge como um ato político-pedagógico. Fundamentada nos princípios da educação popular9,10 e da interculturalidade crítica11,12, a roda de conversa é compreendida como uma tecnologia social, um método dialógico que valoriza saberes locais e promove a emancipação. Organizada pela Liga Amazonense Multidisciplinar de Saúde Indígena (LAMSI) durante o 18º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade (CBMFC), em junho de 2025, em Manaus, estado do Amazonas, a atividade reuniu cerca de 20 participantes, entre indígenas, estudantes, médicos e lideranças comunitárias.
O objetivo da ação foi desvelar as relações estruturais entre o capitalismo verde, o racismo ambiental e o adoecimento coletivo dos povos da floresta, além de cocriar, a partir de saberes ancestrais indígenas, estratégias para uma prática médica antirracista e ecocidadã, que se traduz no compromisso com a justiça socioambiental e com a defesa dos direitos dos territórios. Este relato de experiência descreve e defende a roda de conversa como uma tecnologia social urgente para repensar a formação em saúde diante do colapso climático12.
DESCRIÇÃO METODOLÓGICA
O relato é de autoria de Johnnata Silva dos Santos, indígena Anapurú-Muypura e graduando de Medicina pela Escola Superior de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas. Como presidente da LAMSI e membro da organização do CBMFC, o autor possui uma relação direta e ativa com o campo de estudo, atuando na interface entre formação acadêmica, pesquisa e promoção da saúde indígena na Região Amazônica.
Trata-se de um relato de experiência descritivo e analítico, com abordagem qualitativa e participativa, fundamentado nos princípios da educação popular freiriana9, na perspectiva da interculturalidade crítica11,12 e nas bases da Medicina de Família e Comunidade (MFC). A atividade foi realizada durante o 18º CBMFC, ocorrido de 5 a 8 de junho de 2025, em Manaus, compondo a programação da Tenda Puxirum, espaço autogestionado e tradicionalmente dedicado à vivência de práticas dialógicas e emancipadoras dentro do Congresso, que reforça o compromisso com a horizontalidade e a troca de saberes.
Participaram da roda de conversa estudantes indígenas e não indígenas de diversas regiões do Brasil, médicos de família e comunidade, lideranças indígenas e profissionais da Atenção Primária à Saúde. A condução ficou sob responsabilidade do presidente da LAMSI, adotando-se uma estratégia metodológica inspirada nas práticas de escuta sensível, horizontalidade e problematização, conforme Freire9 e Brandão13.
A roda foi estruturada em cinco momentos, com duração aproximada de 5 a 10 min para cada etapa:
Acolhimento e disparadores de reflexão (5 min): buscou promover vínculo entre os participantes e estimular a escuta de múltiplas realidades vividas a partir das perguntas "O que é território para você?" e "Como a crise climática atinge sua realidade?".
Compartilhamento de vivências do Programa Ajuri na Floresta (10 min): breve exposição oral de experiências de promoção da saúde e justiça ambiental em comunidades indígenas, abordando saberes tradicionais, resistência territorial e práticas ancestrais de cuidado.
Atividade corpo-território (10 min): em pequenos grupos, os participantes utilizaram papel e materiais gráficos para desenhar o corpo humano e representaram marcas deixadas pela crise climática em seus corpos e territórios, compartilhando as construções com o coletivo para promover trocas e conexões entre experiências distintas.
Análise de situações concretas (10 min): discussão de situações vivenciadas em comunidades indígenas na Amazônia, como os impactos da seca histórica de 2023, a contaminação por mercúrio em territórios ribeirinhos e a insegurança alimentar, permitindo identificar relações entre determinantes sociais e ambientais do processo saúde-doença.
Construção coletiva de propostas (5 min): proposição de estratégias para fortalecer a atuação da MFC e dos movimentos estudantis em defesa dos povos indígenas e dos territórios, com destaque para a valorização das epistemologias indígenas nos currículos da área da saúde.
Durante a atividade, as reflexões e contribuições emergentes foram cuidadosamente registradas em diário de campo, no qual o autor, como membro da organização e participante ativo, documentou os principais pontos debatidos. A roda de conversa foi conduzida em um ambiente de confiança e respeito mútuo, onde o convite à participação foi feito de forma aberta, garantindo que todas as falas seriam acolhidas e utilizadas apenas para fins de registro e reflexão sobre a experiência. Posteriormente, os conteúdos dos pontos emergentes e das propostas cocriadas foram sistematizados com base na escuta ativa e no respeito ao anonimato das contribuições.
Essa abordagem metodológica, vivenciada e refletida pelo autor, reafirma o território como espaço político, de cuidado e de produção de vida e reforça a urgência de práticas formativas interculturais e ambientalmente comprometidas no campo da saúde.
RESULTADOS
A roda de conversa estabeleceu um espaço horizontal de escuta ativa e reflexão dialógica, no qual as experiências compartilhadas pelos participantes revelaram a crise climática como determinante estrutural da saúde. Essa abordagem, fundamentada na "ecologia de saberes"5, desafiou hierarquias cognitivas ao validar epistemologias indígenas como sistemas completos de conhecimento. A dinâmica demonstrou a potência pedagógica do formato na formação médica, sobretudo ao reconhecer os saberes indígenas como fundamento para práticas de cuidado territorializadas e culturalmente sensíveis. O processo coletivo de construção de propostas reforçou o compromisso da MFC com a justiça socioambiental nos territórios.
Nesse diálogo, os saberes indígenas emergiram como respostas concretas à crise climática, apresentando alternativas sustentáveis enraizadas em modos de vida tradicionais. A noção de "corpo-território"1 materializou-se quando pajés relataram como a contaminação dos rios por mercúrio se manifesta como neuropatias em crianças, evidenciando a inseparabilidade entre degradação ambiental e adoecimento.
A soberania alimentar foi afirmada como ato político de resistência, com destaque para as sementes crioulas e roçados tradicionais que atuam como antídotos à desnutrição imposta pelo agronegócio. Paralelamente, a medicina da floresta, expressa em rituais de cura integral com plantas sagradas, constitui uma crítica viva ao "pensamento abissal"5 que fragmenta a relação entre humanos e natureza.
A juventude indígena destacou-se na articulação entre saberes ancestrais e contemporâneos, utilizando plataformas digitais para combater o epistemicídio por meio da visibilização de práticas como o manejo agroflorestal. Esse conhecimento, quando integrado à Atenção Primária à Saúde, pode reverter processos de insegurança alimentar.
A partir das discussões e da síntese dos saberes, o grupo elaborou três propostas de ação para a MFC diante da emergência climática: 1) formação médica descolonizadora com estudos de caso amazônicos; 2) prática clínica territorializada com imersão em territórios indígenas e escuta ativa de pajés; e 3) advocacia internacional da MFC em fóruns globais de saúde e clima.
DISCUSSÃO
A MFC se distingue por ser uma especialidade que atua na Atenção Primária à Saúde, focada no cuidado integral e longitudinal de pessoas, famílias e comunidades, considerando os determinantes sociais da saúde. A experiência da roda de conversa, ao valorizar os saberes indígenas e a relação indissociável entre saúde, território e justiça ambiental, demonstra a materialização de uma MFC que vai além do consultório. Ela se estabelece como uma prática anticolonial e engajada, em que o cuidado clínico se expande para a defesa dos direitos dos povos tradicionais e dos ecossistemas, reforçando o compromisso com a equidade e a integralidade.
A potência pedagógica do formato dialógico e intercultural reside na capacidade de transcender as abordagens hegemônicas, permitindo que a medicina da floresta e a soberania alimentar, por exemplo, sejam compreendidas não apenas como práticas culturais, mas como respostas eficazes e políticas à crise climática. O protagonismo juvenil indígena, ao articular saberes tradicionais com ferramentas contemporâneas, exemplifica a resiliência e a adaptabilidade desses povos na construção de estratégias de saúde e resistência.
O comprometimento da MFC com a justiça socioambiental, reforçado pelas propostas construídas coletivamente durante a roda, aponta para a necessidade de uma prática que integre o cuidado clínico à defesa dos territórios e dos direitos. A cura dos territórios, portanto, é indissociável da cura dos corpos, exigindo uma prática anticolonial que reconheça e valorize a voz e o conhecimento dos povos tradicionais para uma saúde verdadeiramente integral e ecossocialmente justa.
Por fim, registra-se que a experiência enfrentou desafios significativos, principalmente em relação ao tempo da atividade. Embora intenso, o formato de 35 a 50 min (conforme os cinco momentos da metodologia) impediu o aprofundamento necessário de temas complexos, como a tradução intercultural de conceitos de saúde, e demonstrou a urgência de espaços formativos mais longos e dedicados. Observou-se, ainda, tensão epistemológica quando alguns profissionais de saúde interpretaram os saberes tradicionais por meio de categorias biomédicas. Além disso, a ausência de gestores municipais limitou o alcance político das propostas elaboradas, dificultando a articulação entre a prática comunitária e a formulação de políticas públicas.
CONCLUSÃO
Este relato reafirma a relevância do encontro entre os saberes indígenas e a MFC para a construção de práticas de saúde ecossocialmente justas. A proposta de uma "clínica territorializada" materializa a ecologia de saberes ao integrar diagnósticos ambientais e a voz de pajés ao ato clínico, fortalecendo o protagonismo indígena diante da crise climática.
A roda de conversa evidenciou que a crise climática não é um desastre natural, mas sim um projeto político de morte. Para a MFC, esse reconhecimento exige o abandono da suposta neutralidade científica para se assumir um compromisso com práticas anticoloniais.
Compreende-se, assim, que curar territórios é indissociável de curar corpos, como lembra o ancião Diakara Desana: "Sem demarcação, não há saúde.". A atuação da MFC deve, portanto, engajar-se na defesa dos territórios e dos direitos dos povos indígenas como condição fundamental para a promoção da saúde e da justiça socioambiental.













