INTRODUÇÃO
A saúde indígena no Brasil, historicamente marcada pela vulnerabilidade e pela iniquidade, busca na autonomia local e na formação de recursos humanos estratégias de superação. Nesse contexto, a educação em saúde constitui uma estratégia fundamental, capacitando profissionais indígenas para atuar em suas próprias comunidades, promovendo a melhoria das condições sanitárias, a valorização das identidades culturais e o fortalecimento da autonomia comunitária.
A MALÁRIA NA AMAZÔNIA E A CRISE CLIMÁTICA
A malária é a endemia que mais aflige os povos indígenas na Pan-Amazônia, representando um importante indicador de vulnerabilidade territorial. Sua incidência está diretamente relacionada a determinantes ambientais, entre os quais se destacam as alterações climáticas e o desmatamento como fatores de risco crescentes. Estudos recentes indicam que mudanças nos regimes de chuva e temperatura podem modificar o ciclo de vida do vetor (Anopheles) e expandir as áreas de transmissão. A intervenção humana na floresta, especialmente o desmatamento, está associada ao aumento do risco de malária por alterar o hábitat e intensificar o contato entre vetor e população humana1,2.
Nesse cenário, a capacitação em diagnóstico laboratorial configura-se como uma estratégia de adaptação, voltada à vigilância ativa e à interrupção precoce da cadeia de transmissão, contribuindo para a resiliência das comunidades.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE COMO ESTRATÉGIA DE CONTROLE
A educação em saúde dialógica, fundamentada na troca de saberes e no fortalecimento local, é reconhecida pelo Ministério da Saúde (MS) como componente essencial no controle de doenças tropicais em comunidades tradicionais3. Essa abordagem permite que profissionais indígenas atuem como multiplicadores, integrando conhecimento técnico e saberes tradicionais, promovendo tanto a melhoria das condições sanitárias quanto o fortalecimento da autonomia.
A metodologia baseada na educação dialógica de Paulo Freire3, associada à valorização da interculturalidade de Gamelo e Sampaio4, é amplamente reconhecida na literatura como estratégia eficaz para sustentabilidade e empoderamento em saúde indígena2.
O relato de experiência desenvolvido em Jacareacanga, Pará, sobre a certificação de profissionais indígenas em microscopia, é apresentado como uma contribuição para o fortalecimento das ações de saúde indígena, destacando a importância de práticas que integrem saberes tradicionais e conhecimentos técnicos em prol da equidade e da justiça social e como resposta científica e de resistência frente aos determinantes ambientais e climáticos na Pan-Amazônia.
CONTEXTO DA SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL E NO PARÁ
O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, e a atenção à saúde indígena é assegurada como um subsistema especializado do Sistema Único de Saúde (SUS), denominado Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). O estado do Pará, com sua vasta área territorial e diversidade étnica, representa um desafio singular. Apesar dos esforços, a malária permanece como um problema crítico, agravado pela invasão de terras indígenas por garimpeiros e madeireiros, o que intensifica a transmissão da doença. Além disso, o desmatamento cria ambientes favoráveis à reprodução do mosquito vetor5.
Estudos recentes apontam que a coinfecção por malária e COVID-19 elevou as taxas de mortalidade em comunidades indígenas paraenses, evidenciando a necessidade de estratégias integradas6.
A saúde indígena no Pará, embora marcada por avanços como a ampliação do acesso aos serviços e a valorização da interculturalidade, ainda enfrenta obstáculos significativos no controle de doenças como a malária. Observa-se a necessidade de esforços governamentais, participação comunitária e respeito às práticas tradicionais, de modo a reduzir desigualdades históricas e garantir um sistema de saúde equitativo e culturalmente sensível às populações indígenas do Pará e do Brasil.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo adota uma abordagem narrativa e descritiva, baseada nas observações e registros de campo de uma profissional do Laboratório Central do Estado do Pará (LACEN-PA) durante uma capacitação realizada no município de Jacareacanga, estado do Pará, em 2023. A atividade teve como foco a certificação de profissionais indígenas no diagnóstico laboratorial de malária e hemoparasitos, incluindo Trypanosoma cruzi e microfilárias, com carga horária total de 160 horas.
ÁREA DE ESTUDO
Jacareacanga está localizada no sudoeste do estado do Pará, na Mesorregião do Baixo Amazonas, às margens do rio Tapajós, a cerca de 1.149 km de Belém. O município é o quinto maior do estado em extensão territorial e abriga uma expressiva população indígena, estimada em 14.216 habitantes7, majoritariamente das etnias Munduruku e Kayapó, vinculadas ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tapajós. A economia local é caracterizada pela exploração madeireira e, ilegalmente, pela atividade garimpeira, fatores que intensificam o desmatamento e os conflitos territoriais, aumentando a exposição a vetores de doenças.
METODOLOGIA DA CAPACITAÇÃO
O curso, realizado entre 15 e 29 de junho de 2023, seguiu as diretrizes técnicas do Sistema de Controle de Qualidade do Diagnóstico Laboratorial da Malária para a Região Amazônica (SCDLMRA)8. O conteúdo foi adaptado à realidade local, incluindo o diagnóstico de T. cruzi e microfilárias. O treinamento utilizou a Educação em Saúde Dialógica, conforme o referencial pedagógico de Freire3, valorizando o saber prévio dos participantes.
Recursos: foram utilizados microscópios binoculares, lâminas de referência, corantes (Giemsa), materiais de coleta padronizados e material didático adaptado, com linguagem acessível e recursos visuais voltados à realidade amazônica (Figura 1).

Fonte: Kérzia Thais N Bulhões.
Figura 1 - Microscópio óptico e desenhos manuais confeccionados pelos participantes para memorização e diferenciação das formas evolutivas de Plasmodium spp. (Jacareacanga, 2023)
Abordagem prática: a etapa prática incluiu coleta padronizada, confecção da gota espessa e do esfregaço (padrão ouro para malária), coloração e identificação microscópica das espécies de Plasmodium e T. cruzi. Também foram aplicadas dinâmicas de grupo para reforçar o aprendizado sobre o ciclo dos parasitos (Figura 2).

Fonte: Kérzia Thais N Bulhões.
Figura 2 - Dinâmica participativa "O Caminho do Parasita". Profissionais indígenas de saúde durante dinâmica participativa que representa o ciclo evolutivo do parasita, reforçando a compreensão técnica por meio da metodologia dialogada e intercultural (Jacareacanga, 2023)
Metodologia de certificação: a certificação dos oito profissionais de saúde indígenas da etnia Munduruku baseou-se em avaliações teóricas e prática, seguindo critérios definidos. A prova teórica, de múltipla escolha, exigiu média igual ou superior a 6,0. A prova prática envolveu a leitura de 20 lâminas com resultados positivos e negativos, exigindo 90% de concordância na identificação da presença do parasito, da espécie e de suas formas evolutivas, além de 50% de concordância na quantificação da densidade parasitária.
Estratégia pedagógica sensível: a técnica de "acolhimento com palmas" foi incorporada como estratégia de quebra de barreiras e construção de confiança entre instrutores e participantes.
RELATO DA EXPERIÊNCIA: CIÊNCIA, TERRITÓRIO E INTERCULTURALIDADE
Em Jacareacanga, tive a honra de conduzir uma capacitação transformadora voltada a oito profissionais indígenas, entre agentes e microscopistas, oriundos de diversas aldeias do DSEI Tapajós. O treinamento foi promovido pela Coordenação Estadual de Malária da Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA), em parceria com o LACEN-PA e o 9º Centro Regional de Saúde, contando ainda com o apoio da Secretaria Municipal de Saúde de Jacareacanga e do DSEI Tapajós. O número reduzido de participantes foi intencional, a fim de garantir a qualidade da supervisão individualizada exigida pelas atividades de diagnóstico laboratorial.
DESAFIOS LOGÍSTICOS E FINANCEIROS
A jornada até Jacareacanga foi uma verdadeira odisseia, totalizando mais de 20 horas de viagem a partir de Belém. Parti da capital em um voo de aproximadamente uma hora e vinte minutos até Santarém, onde precisei pernoitar. De lá, segui em viagem fluvial de sete horas até Itaituba e, em seguida, enfrentei um percurso terrestre de cerca de 12 horas (aproximadamente 300 km) pela Rodovia Transamazônica (BR-230). Essa estrada, com longos trechos não pavimentados e em condições precárias (Figura 3), estava marcada por poeira, buracos e pontes deterioradas — um lembrete constante da fragilidade da infraestrutura amazônica.

Fonte: Kérzia Thais N Bulhões.
Figura 3 - Trecho não pavimentado da Rodovia Transamazônica (BR-230) em direção a Jacareacanga, Pará. A precariedade da estrada ilustra os desafios logísticos enfrentados no acesso à área de estudo
Os participantes indígenas também enfrentaram grandes distâncias, vindos de aldeias remotas, e tiveram seus custos de transporte, hospedagem e alimentação integralmente custeados pelo DSEI Tapajós, um esforço logístico e financeiro significativo para garantir a equidade de acesso à formação. Ao longo do trajeto, a devastação ambiental causada pelo desmatamento e pela exploração predatória era visível, reforçando a urgência dessa ação como resposta concreta à vulnerabilidade territorial.
DESAFIOS CULTURAIS E SUPERAÇÃO
Como mulher facilitadora, deparei-me com barreiras culturais iniciais, especialmente ao trabalhar com os homens indígenas da turma, cujos idiomas e costumes diferiam dos meus. Para criar um ambiente acolhedor e de respeito mútuo, adaptei o material didático utilizando uma linguagem clara, recursos visuais e exemplos práticos que refletiam a realidade local.
Introduzi uma dinâmica chamada "acolhimento com palmas", em que os participantes que chegavam com atraso eram recebidos com palmas coletivas. Essa prática trouxe leveza e confiança ao grupo. Dediquei atenção especial a aprender a pronunciar corretamente os nomes indígenas, um gesto simples, mas poderoso, para construir respeito mútuo. Um dos momentos mais marcantes foi quando um participante, ao ouvir seu nome pronunciado com cuidado, abriu um sorriso tímido, mas genuíno, criando conexões que transcenderam as barreiras iniciais.
APRENDIZADOS ADQUIRIDOS
Um dos maiores aprendizados foi a demonstração de que a integração entre tradição e modernidade é a chave para o processo de ensino-aprendizagem. Os alunos, altamente engajados, absorviam a técnica laboratorial, mas utilizavam os intervalos sob a mangueira para acessar a rede Wi-Fi, buscando informações ou comunicando-se com suas aldeias (Figura 4). Isso sublinha a necessidade de políticas de saúde que respeitem essa complexidade e invistam em tecnologias adaptadas ao contexto amazônico.

Fonte: Kérzia Thais N Bulhões.
Figura 4 - Participantes indígenas da capacitação em momento de descanso sob a árvore, utilizando dispositivos móveis para comunicação e acesso à informação, simbolizando a integração entre saberes tradicionais e modernidade durante o treinamento
A dedicação dos participantes foi inspiradora: eles absorviam cada explicação, praticavam as técnicas com precisão (Figura 5) e superavam todas as expectativas, demonstrando não apenas habilidade, mas também um compromisso profundo com a saúde de suas comunidades. Essa experiência comprovou que o investimento em capital humano indígena é a forma mais eficaz de fortalecimento da saúde local.
RESULTADOS
As avaliações teóricas e práticas, aplicadas com rigor ao final da capacitação, certificaram os oito participantes da etnia Munduruku, que foram considerados aptos e demonstraram domínio técnico na confecção, coloração e leitura da gota espessa. O êxito da capacitação é evidenciado pelos resultados apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 - Síntese avaliações teóricas e práticas para certificação dos profissionais indígenas
| Critério de avaliação | Índice mínimo exigido | Desempenho dos participantes | Observações |
|---|---|---|---|
| Média teórica | ≥ 6,0 | Média de 8,6 (variação: 7,0 a 10,0) | Confirmação do domínio teórico. |
| Concordância prática (identificação) | ≥ 90% | 100% de concordância | Superação do mínimo exigido. |
| Quantificação parasitária | ≥ 50% | Média de 78% de concordância | Habilidade de estimar a carga parasitária. |
| Total de profissionais certificados | - | Oito profissionais Munduruku | Aptos a realizar o diagnóstico. |
A percepção de autonomia diagnóstica dos participantes foi evidenciada pela capacidade de: gerenciar o próprio fluxo de trabalho, organizando a rotina do laboratório da aldeia; solucionar questões técnicas complexas sem necessidade de intervenção externa; demonstrar confiança na identificação de espécies parasitárias de baixa densidade.
DISCUSSÃO
A experiência vivenciada em Jacareacanga confirma o que preconiza a literatura quanto à importância da formação de Agentes Indígenas de Saúde e microscopistas como pilares do SasiSUS, conforme preconizado pelo MS8. A dificuldade em conduzir estudos e formações com povos originários na Amazônia, apontada por Garnelo e Sampaio9, representa um desafio que foi superado nesta iniciativa por meio da parceria institucional entre a SESPA e o LACEN-PA, aliada ao respeito pedagógico.
O sucesso na capacitação dos oito profissionais constitui uma forma concreta de resistência diante do ciclo de vulnerabilidade imposto pela crise territorial. O impacto imediato dessa autonomia manifesta-se na capacidade de diagnosticar e iniciar o tratamento antimalárico diretamente nas aldeias remotas, em tempo hábil, reduzindo a carga parasitária na comunidade e fortalecendo a vigilância epidemiológica no território. Assim, o fortalecimento do diagnóstico laboratorial nas próprias comunidades garante que estas não permaneçam dependentes do sistema de saúde não indígena em momentos críticos, como durante surtos de doenças potencialmente agravados por eventos climáticos extremos.
Essa estratégia está em consonância com as diretrizes do MS sobre a atenção à saúde indígena, que enfatizam a necessidade de programas descentralizados, o fortalecimento do controle social e a ampliação da participação indígena10. Além disso, os profissionais agora certificados para o diagnóstico de malária deverão ser acompanhados pelos revisores regionais, conforme as normas do Sistema de Controle de Qualidade do Diagnóstico Laboratorial da Malária para a Região Amazônica (SCDLMRA)11.
CONCLUSÃO
A experiência em Jacareacanga demonstrou, de forma inequívoca, que a adaptação de práticas educativas às realidades culturais dos povos indígenas é imprescindível para o êxito das capacitações. Essa abordagem permitiu que os profissionais indígenas se tornassem agentes de mudança efetivos em suas comunidades, contribuindo significativamente para o diagnóstico precoce e a interrupção da transmissão de doenças.
A construção de uma didática inclusiva, baseada no respeito mútuo, na valorização das vivências dos participantes e na compreensão profunda das dinâmicas culturais locais, foi fundamental para o sucesso da capacitação, reforçando a importância da diversidade cultural e o papel do educador como mediador no processo de aprendizagem.
Nesse sentido, a experiência reafirmou a convicção de que a educação em saúde deve ser um processo dialógico e participativo, que valorize a sabedoria e a experiência dos povos indígenas e fortaleça a capacidade de autogestão e autonomia das comunidades.
Como resumo, acrescento este provérbio indígena: "Caminhe ao meu lado, e juntos construiremos o caminho." É essencial caminhar ao lado das comunidades indígenas, respeitando suas sabedorias e experiências e trabalhando em parceria para juntos, construirmos um caminho de saúde, bem-estar e desenvolvimento sustentável, e de resistência frente às ameaças da crise climática e da degradação territorial.














