INTRODUÇÃO
A Amazônia brasileira representa um dos ecossistemas mais sensíveis às mudanças climáticas globais, cenário que tem exacerbado a incidência de doenças tropicais negligenciadas na região1. As alterações nos padrões de temperatura, umidade e precipitação criam ambientes propícios à proliferação de vetores, aumentando a carga de enfermidades como malária, dengue e leishmaniose2. Nesse contexto, os sistemas tradicionais de vigilância em saúde mostram-se insuficientes para responder à complexidade desses desafios ambientais e epidemiológicos. A enfermagem, como categoria profissional mais presente nos territórios vulneráveis, enfrenta diariamente as consequências dessas lacunas na atenção à saúde. Esse cenário demanda abordagens inovadoras que integrem conhecimentos científicos avançados com práticas de cuidado territorializadas e humanizadas3.
A modelagem climática surge como ferramenta estratégica para antecipar cenários de risco e orientar políticas públicas de saúde na região amazônica4. Estudos recentes demonstram o potencial preditivo desses modelos para identificar áreas de maior vulnerabilidade às doenças tropicais sensíveis ao clima5. No entanto, há uma desconexão evidente entre a produção desses dados científicos e sua aplicação prática nos sistemas locais de vigilância e atenção à saúde. A enfermagem, com seu papel central na detecção precoce e no acompanhamento de casos, poderia ser a ponte entre esses avanços tecnológicos e as necessidades das populações amazônicas6. Essa integração, porém, requer revisão crítica das evidências disponíveis e adaptação às realidades socioculturais da região.
As mudanças climáticas representam não apenas uma ameaça ambiental, mas também um determinante social da saúde que amplia desigualdades históricas na Amazônia7. Enquanto a ciência avança no desenvolvimento de tecnologias preditivas, persiste o desafio de traduzir esses conhecimentos em ações práticas de vigilância e cuidado. A enfermagem, por sua capilaridade e relação próxima com as comunidades, possui potencial único para operacionalizar essas inovações, desde que adequadamente instrumentalizada com evidências científicas robustas8,9.
A literatura existente sobre o tema encontra-se fragmentada, com estudos isolados sobre modelagem preditiva, vigilância epidemiológica e atuação da enfermagem, mas sem uma síntese crítica que articule esses conhecimentos. Há particular escassez de pesquisas que explorem como os profissionais de enfermagem podem utilizar dados climáticos para aprimorar a detecção precoce e a intervenção nas doenças tropicais. Essa lacuna justifica a necessidade de uma revisão sistemática que organize e avalie criticamente as evidências disponíveis, identificando melhores práticas e oportunidades de inovação.
O contexto amazônico impõe desafios específicos à implementação de tecnologias de vigilância baseadas em modelagem climática, demandando abordagens sensíveis às diversidades culturais e geográficas da região10. As inovações científicas na interface clima-saúde precisam ser avaliadas quanto à sua aplicabilidade em áreas remotas, com infraestrutura limitada e populações tradicionais11. A enfermagem, com seu conhecimento tácito dos territórios e sua capacidade de adaptação, emerge como ator fundamental nesse processo de tradução do conhecimento12.
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo sintetizar as evidências científicas sobre a aplicação da modelagem climática na vigilância de doenças tropicais na Amazônia, com ênfase nas práticas inovadoras da enfermagem frente às mudanças globais.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como uma revisão sistemática conduzida segundo as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Prisma)13, com o objetivo de sintetizar evidências científicas sobre modelagem climática aplicada à vigilância de doenças tropicais na Amazônia, com enfoque nas práticas de enfermagem. A estratégia de busca foi desenhada para abranger artigos publicados entre 2013 e 2023 nas bases de dados Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MEDLINE) (acesso via PubMed), Scopus, Web of Science, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), utilizando combinações de descritores controlados (Medical Subject Headings (MeSH)), Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e palavras-chave relacionadas a: (climate modeling OR climatic variables) AND (tropical diseases OR neglected diseases) AND (nursing OR health surveillance) AND (Amazon OR tropical rainforest).
Adicionalmente, foram incluídos termos livres relacionados a inovações científicas e tecnológicas, como technological innovation, digital health e e-health, para capturar estudos que abordassem ferramentas ou abordagens inovadoras, mesmo que não indexados sob os descritores principais.
Para a seleção dos estudos, foram estabelecidos critérios de inclusão: (1) artigos originais ou revisões sistemáticas; (2) estudos que abordassem a aplicação de modelagem climática na vigilância de doenças tropicais; (3) pesquisas que incluíssem a atuação da enfermagem ou estratégias de vigilância em saúde aplicáveis à prática profissional; e (4) estudos realizados total ou parcialmente na região amazônica. Foram excluídos editoriais, relatos de caso e artigos sem metodologia definida.
Os dados extraídos foram organizados em uma matriz predeterminada, contendo autor, ano, desenho do estudo, objetivos, população ou área de estudo, variáveis climáticas analisadas, técnicas de modelagem utilizadas, principais resultados e contribuições para a enfermagem.
A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada de forma independente por dois revisores, utilizando instrumentos validados internacionalmente e adaptados para contemplar as especificidades da interface clima-saúde. Para estudos observacionais, aplicou-se a escala Newcastle-Ottawa Scale (NOS)14, versão adaptada para estudos ecológicos e transversais, que avalia três dimensões: (i) seleção dos grupos de estudo (atribuição de até quatro estrelas); (ii) comparabilidade dos grupos (atribuição de até duas estrelas); e (iii) mensuração da exposição ou do desfecho (atribuição de até três estrelas). Estudos com pontuação ≥ 7 estrelas foram considerados de alta qualidade; 5-6 estrelas, qualidade moderada; e ≤ 4 estrelas, baixa qualidade. Para revisões sistemáticas, utilizou-se o Joanna Briggs Institute (JBI) Critical Appraisal Checklist15, que consiste em 11 itens dicotômicos (yes/no/not applicable), sendo estudos que atendiam a ≥ 80% dos critérios classificados como de alta qualidade; 50-79%, qualidade moderada; e < 50%, baixa qualidade.
Para assegurar uma recuperação abrangente e sensível da literatura pertinente, foram elaboradas estratégias de busca específicas e meticulosas para cada uma das bases de dados consultadas. Utilizaram-se combinações de descritores controlados, provenientes dos vocabulários especializados MeSH e DeCS, complementados por termos livres relevantes para a temática. Todas as estratégias foram adaptadas às particularidades sintáticas e funcionais de cada plataforma, empregando operadores booleanos (AND, OR, NOT) e truncamentos (*) para refinar a abrangência e a precisão dos resultados. As buscas abrangeram o período de janeiro de 2013 a dezembro de 2023, incluindo artigos publicados nos idiomas inglês, português e espanhol.
No PubMed/MEDLINE, a estratégia foi construída para capturar a intersecção entre os conceitos centrais do estudo. Partiu-se dos descritores MeSH mais abrangentes, como climate change e meteorological factors, combinados com termos textuais como climate modeling e climatic variables, para garantir a inclusão de estudos ainda não indexados. Para o eixo das doenças, utilizou-se o termo geral tropical diseases e seus específicos, malaria, dengue e leishmaniasis, selecionados por serem as doenças tropicais negligenciadas mais frequentes e climaticamente sensíveis na Amazônia, conforme evidenciado pela literatura prévia. Por fim, para o componente de enfermagem e vigilância, combinou-se o descritor nursing com public health surveillance e termos textuais como health surveillance e nursing care. A restrição por data e idioma foi aplicada por meio dos filtros disponíveis na plataforma.
Para a base Scopus, conhecida por sua ampla cobertura de literatura multidisciplinar, a estratégia foi adaptada para buscar os termos no título, resumo e palavras-chave dos artigos. A lógica booleana manteve-se similar, porém explorando a sintaxe específica da plataforma (usando TITLE-ABS-KEY). Incluíram-se variações de sinônimos e termos correlatos para cada conceito, como rainfall para precipitação e vector-borne diseases para doenças tropicais, assegurando uma busca mais completa. A filtragem por período e idioma foi realizada diretamente na interface de busca avançada.
Na Web of Science, plataforma que indexa periódicos de alto impacto, a estratégia replicou a sensibilidade da busca realizada na Scopus, utilizando o campo TS (Topic), que abrange título, resumo e palavras-chave autorais. Atenção especial foi dada à inclusão de termos relacionados à Amazônia, como Amazon rainforest e Amazon basin, para contextualizar geograficamente os resultados, embora este filtro tenha sido aplicado de forma branda, a fim de incluir pesquisas metodologicamente relevantes conduzidas em outras regiões tropicais que pudessem oferecer informações transferíveis para o contexto amazônico.
Na LILACS, base essencial para a literatura latino-americana e do Caribe, a estratégia foi construída prioritariamente com os descritores extraídos do DeCS em português e espanhol. Foram também incluídos descritores nas três línguas, como: modelagem climática, variáveis climáticas, enfermagem, vigilância em saúde, doenças negligenciadas, malária, dengue, leishmaniose, inovação tecnológica e saúde digital, garantindo maior sensibilidade na captura de estudos regionais.
Por fim, na SciELO, biblioteca virtual que concentra periódicos científicos de acesso aberto, publicados por instituições da América Latina, Caribe, Espanha, Portugal e África do Sul, a estratégia priorizou uma abordagem mais simplificada, utilizando os principais termos em português, espanhol e inglês conectados pelo operador AND, com foco em capturar a produção científica local aplicada ao contexto amazônico.
Em todas as bases, os resultados iniciais foram exportados para o gerenciador de referências Rayyan, onde duplicatas foram identificadas e removidas eletronicamente antes do início do processo de triagem. A triagem inicial por título e resumo foi realizada de forma independente por dois revisores utilizando a plataforma Rayyan, com eventuais conflitos resolvidos por um terceiro revisor. A ferramenta Parsifal foi empregada para auxiliar no gerenciamento do fluxo de trabalho Prisma e na documentação transparente do processo de seleção, permitindo o acompanhamento sistemático das etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão de estudos, conforme recomendado para revisões sistemáticas16.
Para a análise dos dados, empregou-se a síntese narrativa com abordagem temática, seguindo três etapas: (1) categorização dos estudos em eixos temáticos (aplicações da modelagem climática, desafios na integração de dados e práticas de enfermagem); (2) avaliação crítica das evidências com base em critérios predefinidos (consistência metodológica, relevância para a Amazônia e aplicabilidade na enfermagem); e (3) triangulação dos achados com literatura cinzenta, como dissertações, teses, relatórios técnicos e documentos de políticas públicas locais. A heterogeneidade metodológica, por exemplo, variação nos desenhos de estudo, métricas de impacto e populações analisadas, impossibilitou a meta-análise, conforme recomendações do Prisma para revisões com alta diversidade de métodos13 optou-se, portanto, pela síntese narrativa, permitindo a integração de evidências qualitativas e quantitativas e priorizando a contextualização dos resultados à realidade amazônica.
O estudo foi conduzido com rigor ético, seguindo princípios de integridade científica. Como se trata de revisão de literatura, não houve necessidade de submissão a Comitê de Ética em Pesquisa; contudo, todos os artigos incluídos foram avaliados quanto à menção de aprovação ética em seus métodos originais. Para garantir transparência, o protocolo desta revisão foi registrado na plataforma PROSPERO sob o número CRD42025107746317, e todo o processo de seleção e análise foi documentado em fluxograma Prisma, detalhando as razões para exclusão de estudos.
Os limites do método incluem possíveis vieses de publicação, dada a escassez de estudos sobre enfermagem nesse contexto específico e a restrição a artigos em inglês, português e espanhol. Para mitigar essas limitações, realizou-se busca manual nas referências dos artigos selecionados e consulta a especialistas da área.
RESULTADOS
A busca sistemática nas bases de dados identificou 1.235 registros, sendo 482 duplicados. Após triagem por título e resumo, 187 artigos foram selecionados para leitura na íntegra, dos quais 48 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a análise final (Quadro suplementar S1). A maioria dos estudos (32; 66,7%) foi publicada entre 2018 e 2023, com predominância de desenhos observacionais (35; 72,9%), seguidos por modelos preditivos (9; 18,8%) e revisões sistemáticas (4; 8,3%).
O fluxograma (Figura 1) detalha o processo de seleção dos estudos, no qual 566 registros foram excluídos durante a etapa de triagem por título e resumo. O principal motivo foi a desconformidade com o escopo geográfico da revisão, com 212 estudos eliminados por abordarem outras regiões tropicais sem apresentar dados transferíveis ou aplicabilidade direta ao contexto amazônico. Adicionalmente, 187 trabalhos foram excluídos por não estabelecerem vínculo entre a modelagem climática e as práticas de vigilância em saúde ou de enfermagem, limitando-se a aspectos puramente climatológicos ou ecológicos.

Fonte: Elaborado pelos autores. Adaptado de Page et al.13
Figura 1 - Fluxograma Prisma da seleção de estudos
Outros 98 registros correspondiam a formatos não elegíveis, como editoriais, revisões narrativas não sistemáticas ou relatos de caso, que não atendiam aos critérios de desenho de estudo estabelecidos. Por fim, 69 estudos foram removidos por abordarem doenças fora do escopo, como enfermidades não tropicais ou tropicais não negligenciadas, sem alinhamento ao objeto de investigação. Esse processo de triagem assegurou que apenas a literatura mais pertinente e metodologicamente robusta avançasse para a fase de leitura na íntegra, garantindo a validade interna dos resultados e sua relevância para o tema central da revisão.
Quanto às variáveis climáticas analisadas, 29 estudos (60,4%) utilizaram dados de temperatura, 25 (52,1%) de precipitação e 18 (37,5%) de umidade relativa do ar. Sete artigos (14,6%) incorporaram indicadores de desmatamento ou mudanças no uso do solo. Os modelos mais frequentes foram de regressão logística (15; 31,3%), sistemas de informação geográfica (SIG) (12; 25%) e aprendizado de máquina (6; 12,5%). A Tabela 1 resume as técnicas de modelagem por doença investigada, destacando-se malária (22; 45,8%), dengue (14; 29,2%) e leishmaniose (8; 16,7%).
Tabela 1 - Técnicas de modelagem climática por doença tropical investigada nos estudos incluídos
| Doença Tropical | Estudos N (%) | Variáveis Climáticas Principais (N) | Técnicas de Modelagem (N) | |
|---|---|---|---|---|
| Malária | 22 | 45,8% | Temperatura (18), Precipitação (16), Umidade (12) | Regressão logística (9), SIG (7), Aprendizado de máquina (3) |
| Dengue | 14 | 29,2% | Temperatura (11), Precipitação (9), Desmatamento (4) | Séries temporais (5), SIG (4), Redes neurais (2) |
| Leishmaniose | 8 | 16,7% | Umidade (6), Temperatura (5) | Bayesianos (3), Regressão logística (3) |
| Outras | 4 | 8,3% | Precipitação (3) | Análise de clusters (2) |
SIG: sistemas de informação geográfica
Sobre a integração com a vigilância em saúde, apenas 11 estudos (22,9%) descreveram sistemas operacionais que vinculavam dados climáticos a alertas epidemiológicos. Dentre esses, seis (54,5%) mencionaram a participação de profissionais de enfermagem na coleta ou interpretação dos dados, porém sem detalhamento das ações específicas.
As barreiras mais frequentemente relatadas nos 48 estudos analisados foram: fragmentação de bancos de dados (27; 56,3%), deficiência em capacitação técnica (19; 39,6%) e baixa resolutividade dos alertas (14; 29,2%).
Quanto às práticas de enfermagem, nove artigos (18,8%) descreveram intervenções baseadas em evidências climáticas, sendo: protocolos de notificação ampliada (4), educação em saúde com comunidades (3) e monitoramento de casos suspeitos (2). Desses, sete estudos forneceram localização geográfica definida, cuja distribuição é ilustrada na Figura 2, com concentração em Manaus (3), Belém (2) e áreas rurais do Acre (2). Os demais estudos (39; 81,3%) limitaram-se a recomendar a inclusão da enfermagem em futuras estratégias, sem apresentar resultados concretos.

Figura 2 - Distribuição geográfica das intervenções de enfermagem baseadas em evidências climáticas na Amazônia
No contexto das inovações tecnológicas aplicadas à enfermagem, sete estudos (14,6%) avaliaram ferramentas digitais, incluindo aplicativos de notificação baseados em previsões climáticas (3), plataformas de telemonitoramento de sintomas (2) e modelos espaço-temporais de risco com alertas para unidades básicas (2) (Tabela 2).
Tabela 2 - Características das inovações tecnológicas em enfermagem e avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos
| Categoria | Subcategoria | Estudos (N) | Principais achados/limitações |
|---|---|---|---|
| Ferramentas digitais | Aplicativos climáticos | 3 | Alertas para surtos baseados em dados meteorológicos |
| Telemonitoramento de sintomas | 2 | Redução de visitas hospitalares para crônicos | |
| Modelos de risco espaço-temporal | 2 | Otimização de recursos em atenção primária | |
| Qualidade metodológica | Alto risco de viés | 31 | Estudos com limitações metodológicas que comprometem a validade |
| Amostras não representativas | 23 | Validade externa comprometida | |
| Falta de ajuste para covariáveis | 17 | Viés de confusão não controlado | |
| Rigor científico pleno | 5 | Pontuação ≥8 (NOS) ou atendimento a ≥80% dos critérios JBI |
NOS: Newcastle-Ottawa Scale; JBI: Joanna Briggs Institute.
A avaliação metodológica, sintetizada na Tabela 2, revelou que 31 artigos (64,6%) apresentaram alto risco de viés, com limitações frequentes de representatividade amostral (23) e ajuste insuficiente para covariáveis (17), enquanto apenas cinco estudos (10,4%) atenderam integralmente aos critérios de rigor metodológico (NOS/JBI).
DISCUSSÃO
O estudo revelou um cenário complexo e multifatorial sobre a relação entre mudanças climáticas, doenças sensíveis ao clima e práticas de enfermagem na Amazônia. Os estudos analisados demonstram que enfermidades como malária, dengue e leishmaniose são fortemente influenciadas por variáveis ambientais, como temperatura, precipitação e umidade relativa do ar18,19,20. Essa correlação é intensificada por eventos climáticos extremos, como El Niño e La Niña, que alteram os padrões de transmissão dessas doenças21.
A leishmaniose, por exemplo, tem apresentado expansão territorial em áreas de baixa endemicidade, inclusive fora da Amazônia, como discutido por Curtin e Aronson22. No Brasil, Mendes et al.23 destacam o impacto direto das mudanças climáticas sobre a incidência da doença, reforçando a necessidade de estratégias de vigilância adaptadas às novas realidades ambientais. Já a doença de Chagas, embora menos abordada, é influenciada por fatores socioambientais na Amazônia, como apontado por Cabral et al.24, ampliando o escopo das doenças tropicais sensíveis ao clima.
Apesar da relevância desses achados, observa-se uma lacuna significativa na valorização da atuação da enfermagem frente aos desafios climáticos. Estudos como os de Lima et al.25 e Ferreira et al.26 evidenciam o papel estratégico dos agentes comunitários de saúde e dos profissionais de enfermagem na construção de respostas locais, especialmente em territórios vulneráveis. No entanto, a maioria das pesquisas ainda sub-representação esses profissionais, negligenciando sua contribuição para a vigilância epidemiológica e o cuidado adaptado às mudanças ambientais, como apontam Machado et al.27 e Silva e Machado28.
Outro aspecto pouco explorado é o potencial das tecnologias emergentes para apoiar o trabalho da enfermagem e fortalecer os sistemas de saúde. A aplicação de inteligência artificial e aprendizado de máquina para o diagnóstico de arboviroses é promissora, como demonstrado por da Silva Neto et al.29. Iniciativas como o aplicativo Saúde-Pará30 e os esforços da Fiocruz em Manaus31 exemplificam como a inovação pode ser aliada da vigilância hospitalar e comunitária. No entanto, como alertam Cristóvam e Sousa32 e Bezerra et al.33, é necessário cuidado para que essas tecnologias não reproduzam lógicas de colonialidade digital e epistemológica.
Quando se contrastam as inovações tecnológicas identificadas neste estudo, majoritariamente aplicativos de notificação e plataformas de telemonitoramento em fase inicial com o cenário global de saúde digital, evidencia-se um significativo potencial de avanço para a enfermagem na Amazônia34. Estudos realizados em outras regiões endêmicas demonstram que a integração de sistemas de alerta precoce baseados em inteligência artificial com a atuação de enfermeiros na atenção primária pode otimizar a alocação de recursos e antecipar respostas a surtos35. Da mesma forma, ferramentas de apoio à decisão clínica, que processam dados climáticos em tempo real e os traduzem em recomendações para a prática, têm se mostrado eficazes para aprimorar a vigilância de doenças sensíveis ao clima em contextos de poucos recursos36.
No entanto, a literatura também alerta para desafios comuns à implantação dessas inovações em regiões como a Amazônia, como a conectividade irregular, a baixa alfabetização digital de parte da população e dos profissionais, e a necessidade de treinamento contínuo37. Portanto, a adoção de tecnologias na região deve ser pautada por modelos escaláveis, de baixo custo e de fácil apropriação pela comunidade e pelos profissionais de enfermagem, evitando a simples transposição de soluções de contextos distintos38.
A interface entre saúde, clima e território também demanda abordagens intersetoriais. Abreu et al.39 discutem como o uso do solo e as transformações ambientais impactam diretamente a saúde das populações amazônicas. A atuação da enfermagem nesse contexto exige práticas culturalmente sensíveis e integradas aos saberes tradicionais, como propõem Pereira de Araújo et al.40. A tradução do conhecimento científico para a prática cotidiana é essencial para fortalecer a resposta em saúde, como defendem Lorenzini e Schmidt41.
Além disso, a migração e a mobilidade populacional representam fatores de risco adicionais. Agudelo Higuita et al.42 alertam para a propagação de malária resistente à cloroquina entre migrantes em trânsito pela América Central, evidenciando a necessidade de vigilância transfronteiriça. A análise temporal da leptospirose em áreas urbanas sujeitas a inundações43 e os impactos das queimadas sobre problemas respiratórios44 reforçam a urgência de integrar saúde ambiental e vigilância epidemiológica.
Diante dessas evidências, propõe-se o desenvolvimento de estudos interdisciplinares que articulem saúde coletiva, ciência climática, tecnologia e práticas de enfermagem. Investigações futuras devem explorar modelos preditivos que integrem variáveis climáticas, sociais e territoriais45, além de metodologias participativas que valorizem os saberes locais46. A avaliação de políticas públicas voltadas à formação e valorização dos profissionais de enfermagem em contextos de crise climática é igualmente urgente47,48.
Por fim, relatórios institucionais e estudos de base, como os do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação49 e do Ministério da Saúde50, oferecem subsídios importantes para a construção de estratégias integradas. Como sintetiza Artaxo51, saúde, biodiversidade e mudanças climáticas são emergências interligadas que exigem respostas contextualizadas, humanas e sustentáveis. A enfermagem, nesse cenário, emerge como um campo estratégico para a construção de soluções resilientes e comprometidas com a justiça socioambiental.
CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que, embora exista um corpo robusto de evidências sobre a influência de variáveis climáticas na dinâmica de doenças tropicais na Amazônia, com destaque para malária, dengue e leishmaniose, a integração efetiva da modelagem climática às práticas de vigilância e, especialmente, à atuação da enfermagem permanece incipiente e fragmentada. Os resultados demonstram uma clara desconexão entre a precisão dos modelos preditivos e a realidade operacional dos serviços de saúde na região, agravada por barreiras como a fragmentação dos sistemas de informação e a insuficiência de capacitação profissional.
O estudo reforça o papel estratégico que os profissionais de enfermagem podem exercer como elo entre os avanços tecnocientíficos e as necessidades das populações amazônicas. No entanto, para que esse potencial seja concretizado, são necessárias abordagens transdisciplinares que articulem a precisão dos dados climáticos aos saberes tradicionais e às realidades socioculturais locais. A tradução do conhecimento em práticas inovadoras de cuidado exigirá o desenvolvimento de ferramentas participativas e de baixa complexidade tecnológica, a formação crítica e permanente dos profissionais de saúde e a implementação de políticas públicas sensíveis às diversidades e vulnerabilidades da região.
As principais contribuições deste estudo residem na síntese crítica das evidências disponíveis e na identificação de lacunas prioritárias para pesquisa e ação. Investigações futuras devem focar no desenvolvimento e na validação de modelos preditivos que incorporem variáveis sociais e territoriais, na avaliação de intervenções de enfermagem baseadas em alertas climáticos e na análise de custo-efetividade de inovações tecnológicas adaptadas ao contexto amazônico. Conclui-se que a resposta aos desafios impostos pelas mudanças globais na Amazônia depende da construção de sistemas de saúde resilientes, nos quais a enfermagem, devidamente apoiada por evidências e ferramentas adequadas, ocupe um lugar central na promoção de um cuidado territorializado, equitativo e humanizado.













