INTRODUÇÃO
A toxoplasmose, infecção causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, é uma das zoonoses mais frequentes no mundo, afetando aves e mamíferos domésticos (de produção e de companhia) e selvagens, além do homem. No ciclo biológico desse parasito, os felinos são os hospedeiros principais, sendo os únicos animais a excretarem oocistos nas fezes após a primoinfecção. Os demais hospedeiros, incluindo o homem, são intermediários por albergarem cistos do T. gondii em seus tecidos após a fase aguda da infecção1.
Devido às características biológicas do seu agente etiológico, a toxoplasmose é uma doença de transmissão classicamente hídrica ou alimentar, envolvendo o consumo de água e de alimentos contaminados com oocistos esporulados ou de carne contendo cistos teciduais do parasito2,3.
Estima-se que um terço da população humana mundial já tenha tido contato com o T. gondii. As taxas de soroprevalência variam consideravelmente, estando diretamente relacionadas a fatores ambientais, epidemiológicos e comportamentais das populações das diferentes áreas investigadas4,5.
Na maioria dos casos, a infecção aguda pelo T. gondii em humanos é oligossintomática e autolimitada. Contudo, em decorrência da diversidade genética das cepas do parasito e de seus fatores de virulência, podem ocorrer casos graves, com desfecho clínico da infecção ocasionando retinocoroidite com perda progressiva da visão, encefalite fatal em indivíduos imunossuprimidos (ex.: pessoa vivendo com HIV/aids) e abortamento ou malformações congênitas em grávidas primoinfectadas6,7,8.
Em animais, a toxoplasmose tende a ser assintomática, embora possa assumir elevada patogenicidade em espécies de produção, levando a perdas consideráveis em rebanhos, principalmente ovinos, devido à elevada frequência de casos de abortamento. Em determinadas espécies silvestres, como primatas neotropicais, a toxoplasmose tem potencial de alta letalidade, podendo levar à emergência de surtos com múltiplos óbitos, sobretudo quando mantidos em cativeiro1,9,10.
Na Região Amazônica, apesar de os dados sobre a infecção por T. gondii ainda serem limitados, sabe-se que as condições ambientais e características epidemiológicas favorecem a manutenção do parasito, resultando em prevalências elevadas, frequentemente superiores a 60% em humanos e diferentes espécies animais11,12,13. Os registros de surtos de toxoplasmose aguda têm sido associados, entre outros fatores, ao consumo do suco de açaí, alimento de grande importância socioeconômica e amplamente consumido na região14,15.
O clima quente e úmido da Amazônia favorece a esporulação, a dispersão e a persistência do potencial infectante dos oocistos no meio ambiente. A diversidade da fauna hospedeira e a presença de várias espécies de felídeos silvestres da região podem ter contribuído para a emergência de novas cepas de T. gondii, caracterizadas por perfil genético recombinante ou atípico. O ciclo selvagem do T. gondii ainda não foi completamente elucidado; porém, sabe-se que, na Amazônia, assim como em outras áreas de florestas tropicais, há registros de circulação de cepas que, devido ao seu perfil de virulência, podem ser responsáveis por casos graves da doença16,17,18.
Nesse contexto, estudos sugerem que ocorra uma forma única da doença na região, caracterizada por quadros severos, inclusive em indivíduos imunocompetentes, e associada a cepas de elevada virulência, a qual vem sendo denominada "Toxoplasmose Amazônica"19,20. Essa particularidade tem sido atribuída, em parte, à ação do homem no meio ambiente amazônico, influenciando a diversidade genética do parasito e, consequentemente, sua epidemiologia e desfecho clínico da infecção. Nesse processo de antropização, é importante destacar a derrubada das florestas para a formação de pastagens, a abertura de estradas, os grandes projetos agrícolas, as atividades de garimpo e a expansão urbana desordenada, que aproximam progressivamente as interfaces entre os ambientes urbano, rural e florestal21,22.
O objetivo desta revisão é sistematizar e interpretar os principais achados do IEC sobre a toxoplasmose no estado do Pará, Amazônia brasileira, com foco nos efeitos de fatores ambientais e climáticos sobre a ecoepidemiologia da infecção e na integração entre saúde humana, animal e ambiental, segundo o conceito de "Uma Só Saúde".
MÉTODOS
Trata-se de uma revisão narrativa baseada em artigos científicos (disponíveis nas bases de dados SciELO e PubMed), relatórios técnicos institucionais, teses, dissertações, registros laboratoriais e outros documentos produzidos pelo Laboratório de Toxoplasmose do Instituto Evandro Chagas (LABTOXO/IEC), no estado do Pará, entre 1997 e 2025.
A análise dos materiais enfocou a epidemiologia da toxoplasmose na Região Amazônica, a vigilância laboratorial, a caracterização de cepas isoladas de T. gondii, além de investigações de surtos e análises ambientais sob a abordagem de "Uma Só Saúde". Foram considerados dados produzidos exclusivamente pelo IEC, complementados por informações públicas disponíveis em fontes científicas pertinentes.
SÍNTESE DA CONTRIBUIÇÃO DO INSTITUTO EVANDRO CHAGAS
O LABTOXO/IEC atua, desde a década de 1990, em estudos sobre a infecção por T. gondii na Amazônia brasileira, desenvolvendo inquéritos soroepidemiológicos, investigações de surtos de toxoplasmose aguda e, mais recentemente, abordagens integradas de "Uma Só Saúde", com foco na correlação entre os impactos ambientais e a epidemiologia da doença.
Entre 1997 e o início dos anos 2000, estudos epidemiológicos realizados em diferentes grupos humanos da Região Metropolitana de Belém (RMB) demonstraram elevada soroprevalência da infecção, com índices superiores a 70%, e associaram a elevada transmissão à ingestão de carne de diferentes origens23. Esses achados revelam um cenário de intensa circulação do parasito em meio urbano e periurbano, refletindo condições sanitárias precárias e hábitos alimentares que favorecem a manutenção da endemicidade.
Uma década depois, novas investigações conduzidas pelo LABTOXO/IEC envolvendo humanos e animais domésticos (cães, gatos e aves) da RMB confirmaram essa elevada taxa de infecção e destacaram a importância da transmissão via ingestão de oocistos esporulados. Nesse contexto, galinhas e cães errantes ou semidomiciliados atuam como sentinelas da contaminação ambiental, uma vez que a elevada soroprevalência observada nesses grupos reflete diretamente o nível de contaminação do solo e das fontes hídricas por oocistos do parasito. Essa relação ecológica indica que humanos que coabitam com esses animais partilham as mesmas fontes de infecção, demonstrando a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental24.
No mesmo período, a elevada prevalência de infecção observada em bovídeos de corte, cuja carne e derivados abastecem a RMB, reforça o risco de transmissão da toxoplasmose por meio do consumo inadequado de carne bovina nessa área. Esses animais, geralmente criados em sistemas semiextensivos característicos da Amazônia, têm acesso direto a pastagens naturais e cursos d'água, além de áreas próximas à floresta, ambientes frequentemente contaminados por oocistos eliminados nas fezes de felinos domésticos e silvestres. Nessas condições, a ausência de barreiras físicas entre as áreas de criação e o ambiente natural favorece a ingestão acidental de oocistos esporulados presentes no solo, na vegetação ou na água, perpetuando o ciclo do T. gondii nos rebanhos. Além disso, a expansão da fronteira agropecuária e o desmatamento para conversão de áreas florestais em pastagens intensificam a sobreposição entre rebanhos bovinos e os habitats de felídeos silvestres, aumentando a probabilidade de circulação de cepas atípicas e potencialmente mais virulentas do parasito24,25. Esse cenário traduz, de forma concreta, como as pressões antrópicas sobre o ambiente influenciam a ecoepidemiologia da toxoplasmose ao promover maior contato entre hospedeiros, alterar o equilíbrio ecológico e favorecer a persistência ambiental dos oocistos.
Investigações em áreas rurais do estado também demonstraram elevada prevalência da infecção e que, além do consumo de carne de animais de produção, foi observada também associação entre o consumo de carne de caça e o aumento do risco de infecção por T. gondii26. Essa prática, profundamente ligada ao modo de vida e ao sustento alimentar das comunidades amazônicas, expõe o homem ao ciclo selvagem do parasito, no qual circulam cepas geneticamente atípicas e frequentemente mais virulentas. O abate, o manuseio e o preparo da carne de animais selvagens, sem medidas adequadas de higiene e cocção, favorecem a transmissão oral de cistos teciduais viáveis. A penetração humana em ambientes florestais para atividades de caça ou coleta aumenta o contato direto com o solo e com fontes hídricas contaminadas por oocistos, intensificando a interface entre homem, fauna silvestre e ecossistema florestal. Essa dinâmica bidirecional permite que felinos domésticos, ao ingerirem carne de caça contaminada, tornem-se hospedeiros definitivos e disseminem cepas provenientes do ciclo silvestre em ambientes rurais e urbanos.
Dessa forma, tanto as práticas produtivas associadas à pecuária semiextensiva quanto o consumo de carne de caça constituem elos importantes na cadeia de transmissão do T. gondii na Amazônia. Juntas, refletem a complexa interligação entre fatores ecológicos, socioeconômicos e culturais que moldam a dinâmica epidemiológica da toxoplasmose na região, reforçando a necessidade de políticas integradas de vigilância baseadas no conceito de "Uma Só Saúde".
Esse conjunto de fatores também ajuda a compreender a ocorrência recorrente de surtos de toxoplasmose aguda na região, que representam a face mais visível da interação entre o ambiente, os hábitos alimentares e as condições sanitárias locais. Dentro da realidade epidemiológica da toxoplasmose na Amazônia, esses surtos são considerados eventos esporádicos, porém de considerável impacto, especialmente em comunidades onde o saneamento é precário ou inexistente, o convívio com animais domésticos é intenso e as características alimentares e comportamentais são singulares.
Em 2004, o IEC relatou o primeiro surto de toxoplasmose aguda no distrito de Monte Dourado, no município de Almeirim, oeste do Pará, região marcada por intenso fluxo de trabalhadores de diferentes áreas e hábitos diversos, incluindo pesca, caça e criação de animais domésticos. Durante a investigação, foram registrados aproximadamente 40 casos com perfil clínico e sorológico compatíveis com toxoplasmose aguda. Observou-se elevada densidade populacional de gatos, resultado da criação sem controle reprodutivo e do abandono frequente de animais. A proliferação de felinos errantes e semidomiciliados, favorecida pela ausência de políticas públicas de manejo e de saneamento ambiental, levou ao estabelecimento de populações com hábitos ferais que penetravam na floresta em busca de alimento. Essa dinâmica ampliou a interface entre os ciclos urbano e silvestre do parasito, expondo os gatos a cepas mantidas na fauna silvestre e possibilitando o retorno dessas variantes ao ambiente antrópico por meio da excreção de oocistos em solos e fontes hídricas próximas às moradias humanas. O episódio evidencia como a transformação ambiental, impulsionada por atividades antrópicas, desmatamento, expansão urbana desordenada e manejo inadequado de resíduos e fauna doméstica, atua como fator determinante na ecoepidemiologia da toxoplasmose na região. O registro de um caso de paciente com lesão cicatrizada de retinocoroidite toxoplásmica, associado a quadro clínico-laboratorial de infecção aguda, reforçou a hipótese de reinfecção por cepas atípicas e mais virulentas de T. gondii, resultado provável do contato contínuo entre o homem e um ambiente ecologicamente em desequilíbrio27.
Em 2013, o IEC participou de uma nova investigação de surto de toxoplasmose aguda em humanos no município de Ponta de Pedras, no arquipélago do Marajó, estado do Pará, que acometeu mais de 70 pessoas. Na Amazônia, onde fatores ambientais e socioeconômicos se conectam, a população está constantemente exposta a diferentes vias de infecção pelo T. gondii. Inicialmente, a análise epidemiológica não identificou com precisão a fonte do surto; contudo, a integração de dados clínicos, laboratoriais e geoespaciais permitiu inferir o consumo do suco de açaí, alimento amplamente consumido e de alta relevância socioeconômica regional, como provável via de transmissão que desencadeou o surto. O episódio ocorreu durante a entressafra local do fruto, sugerindo que um lote contaminado proveniente de áreas florestais mais distantes, onde a safra permanecia ativa, teria sido comercializado no município15. Essa hipótese foi reforçada por estudos pós-surto, que não registraram novos casos durante o período da safra local, indicando que a contaminação não se originara da produção tradicional da região. A investigação revelou, entretanto, uma dimensão ambiental mais ampla. A crescente demanda e expansão da cadeia produtiva do açaí têm levado ao aumento da coleta em áreas florestais não manejadas, transporte inadequado e ao processamento artesanal em condições sanitárias precárias, frequentemente próximas a ambientes contaminados por fezes de felinos domésticos e silvestres. A combinação entre pressão antrópica sobre ecossistemas florestais, ausência de infraestrutura adequada de saneamento e controle de qualidade e interação estreita entre fauna, alimentos e populações humanas cria um cenário propício à contaminação do fruto por oocistos do parasito. Assim, o surto de Ponta de Pedras ilustra como as mudanças no uso do solo, a intensificação de atividades extrativistas e a vulnerabilidade sanitária das comunidades amazônicas atuam como fatores determinantes na ecoepidemiologia da toxoplasmose. Sob a ótica do conceito de "Uma Só Saúde", esse evento reforça a necessidade de estratégias integradas de vigilância e educação em saúde, associadas à promoção de práticas sustentáveis e seguras de manejo e processamento do açaí13,28.
Mais recentemente, seguindo as diretrizes da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde brasileiro, as investigações vêm sendo direcionadas às populações tradicionais em situação de vulnerabilidade, como as comunidades ribeirinhas. Estudo em humanos e cães da Ilha de Cotijuba, área de proteção ambiental pertencente ao município de Belém, revelou um padrão epidemiológico semelhante para a infecção pelo T. gondii, com elevada soroprevalência, reflexo da transmissão frequente. No entanto, por se tratar de uma área com forte potencial para o ecoturismo, ainda que com infraestrutura e saneamento básico deficientes, a ilha vem sofrendo com intenso fluxo de pessoas e animais domésticos, manejo florestal inadequado com consequente ocupação desordenada e uso indiscriminado dos recursos naturais, em especial as fontes hídricas, dessa maneira a ilha de Cotijuba pode ser considerada como de alto risco para a emergência de cepas atípicas de T. gondii29.
Para melhor compreensão da influência das características biológicas do parasito na saúde humana e animal, nos últimos anos, o LABTOXO/IEC vem isolando cepas de T. gondii em amostras de tecidos de animais de produção e silvestres mantidos em cativeiro. O biobanco atualmente abriga diversas cepas, e análises genéticas indicam que as circulantes no Pará compartilham padrões de diversidade genética observados em cepas isoladas em outros estados da Região Norte e em países amazônicos, algumas apresentando alta virulência em modelos animais (dados não publicados). Esses achados sugerem que a diversidade genotípica e fenotípica do T. gondii pode estar intimamente relacionada às alterações ambientais que afetam os hospedeiros e, por conseguinte, a própria biologia do parasito. Nesse contexto, a crise climática emerge como um determinante crítico: o aumento da temperatura, as mudanças no regime de chuvas e as variações nos níveis de umidade podem prolongar a viabilidade de oocistos no solo e na água, favorecendo sua persistência e dispersão, potencializando a transmissão. Essa relação reforça a necessidade de integrar a vigilância ambiental e a modelagem climática e sanitária à agenda global de "Uma Só Saúde", promovida pela Organização Mundial da Saúde, pela Food and Agriculture Organization e pela Organização Mundial de Saúde Animal, articulando também a vigilância genômica das cepas regionais, a modelagem preditiva e a conservação da biodiversidade.
A figura 1 apresenta o mapa-síntese dos resultados obtidos pelo LABTOXO/IEC no estado do Pará ao longo de três décadas de atuação.

Fonte: Adaptado de suporte geográfico online, 2019 (https://www.suportegeografico.online/2019/07/mapa-mesorregioes-do-para.html).
TA: Toxoplasmose aguda; Prev. Prevalência; N: Número total de amostras; RMB: Região Metropolitana de Belém; DNP: Dados não publicados.
Figura 1 - Mapa-resumo dos principais resultados de investigações epidemiológicas, surtos e ensaios biológicos conduzidos pelo LABTOXO/IEC no estado do Pará, Brasil, entre 1997 e 2025
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de quase três décadas, o LABTOXO/IEC tem desempenhado um papel central no avanço do conhecimento sobre a toxoplasmose na Amazônia, sobretudo no estado do Pará, contribuindo com a vigilância, a pesquisa científica e a formação de recursos humanos especializados. Esses esforços são essenciais para compreender os novos cenários epidemiológicos definidos pelo impacto ambiental e climático, além de fornecer subsídios técnicos e científicos para o fortalecimento de políticas públicas de saúde voltadas ao controle e prevenção da infecção por T. gondii.
Em relação à situação epidemiológica, os resultados obtidos pelo LABTOXO/IEC no Pará demonstram que, assim como em outras áreas amazônicas, a infecção pelo T. gondii permanece endêmica, com padrões epidemiológicos relativamente equilibrados entre a transmissão nos ambientes urbano-rural e o ciclo selvagem. Contudo, a intensa pressão antrópica observada nas últimas décadas, marcada por desmatamento, expansão agropecuária, extrativismo mineral, ecoturismo e outras atividades, tem aumentado a vulnerabilidade das populações humanas e animais à exposição a cepas atípicas e potencialmente mais virulentas de T. gondii. Essas transformações ambientais alteram o equilíbrio ecológico e as interações entre hospedeiros e o parasito, criando novos nichos de exposição que ampliam o risco de infecção e a ocorrência de surtos.
Apesar dos avanços na vigilância da toxoplasmose no Brasil, a doença ainda é considerada negligenciada, sobretudo na Amazônia, onde constitui um problema de saúde pública, principalmente entre gestantes, recém-nascidos e indivíduos imunocomprometidos. A gravidade clínica associada ao parasito reforça a necessidade de vigilância epidemiológica contínua, integrada ao conceito de "Uma Só Saúde", contemplando seres humanos, animais e o meio ambiente.
As alterações ambientais e climáticas, em especial as variações de temperatura, umidade e pluviosidade, modificam diretamente a ecoepidemiologia do T. gondii, influenciando a sobrevivência, a persistência e a dispersão dos oocistos no solo e na água. Essas mudanças intensificam o contato entre populações humanas, domésticas e silvestres, evidenciando a interface crítica entre saúde e meio ambiente. Aprimorar a compreensão dos efeitos das mudanças climáticas sobre a infecção pelo T. gondii na Amazônia é essencial para antecipar áreas de maior risco e orientar políticas públicas eficazes. Contudo, ainda persistem lacunas importantes quanto à diversidade genética das cepas circulantes e à integração de dados ambientais e epidemiológicos.
Diante desse cenário, recomenda-se o fortalecimento da vigilância epidemiológica, com melhor integração das informações clínicas, ambientais e genéticas, de modo a permitir respostas rápidas a surtos e a mudanças na dinâmica da transmissão da toxoplasmose. É fundamental também o investimento em pesquisas interdisciplinares que enfoquem a interação entre T. gondii, seus hospedeiros e os fatores climáticos regionais, com foco na modelagem preditiva de áreas de risco e na caracterização molecular de cepas amazônicas, além da padronização e implementação de metodologias para identificação do parasito em amostras ambientais e alimentos, principalmente em situações de surto da doença aguda.
Adicionalmente, recomenda-se o aperfeiçoamento das práticas agropecuárias e extrativistas, com ênfase no saneamento ambiental, no manejo sustentável e no controle de populações de felinos domésticos e errantes, a fim de reduzir a contaminação do solo e das fontes hídricas. Por fim, deve-se ampliar as ações de educação e comunicação em saúde, priorizando comunidades tradicionais e populações em situação de maior vulnerabilidade social. Dessa maneira, somente por meio da integração entre pesquisa científica, gestão ambiental e políticas públicas participativas e eficazes será possível mitigar o impacto da toxoplasmose na Amazônia diante das mudanças climáticas globais.











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