INTRODUÇÃO
A Amazônia brasileira é uma região com 4.196.943 km2 de extensão, correspondendo a 49,5% do território nacional. É reconhecida mundialmente pela vastidão de sua floresta, pela robustez e diversidade da vegetação e pela beleza de suas flores e sabores de frutos. Desempenha papel decisivo na regulação do clima global ao absorver dióxido de carbono (CO2) - principal gás responsável pelo efeito estufa - e ao liberar vapor d'água que forma os chamados "rios aéreos", responsáveis por levar chuvas a outras regiões do Brasil e da América do Sul. Além disso, constitui um dos maiores reservatórios de água doce do planeta e abriga recursos valiosos para a medicina e a economia.
Detém também a maior biodiversidade do mundo, albergando uma grande quantidade de micro-organismos, como vírus, bactérias, fungos e parasitos, que causam graves doenças endêmicas à sua população. Foi nesse cenário que nasceu uma "guerreira" no combate a esses patógenos: a pioneira e futura cientista Gilberta Bensabath (Figura 1).

Fonte: Acervo arquivístico do Fundo Gilberta Bensabath - IEC.
Figura 1 - Doutora Gilberta Bensabath (1924-2024)
"Neste mês de Julho Amarelo, no ano de 2024, nós, profissionais da saúde coletiva, da medicina tropical, da hepatologia, da virologia e do Instituto Evandro Chagas, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde do Brasil, comemoramos juntos o centenário de nascimento da Dra. Gilberta Bensabath. Dessa forma, nos cabe por ora, relembrar e enfatizar os aspectos da vida dessa médica, sanitarista, pesquisadora e virologista, no campo das hepatites virais."
(Manoel do Carmo Pereira Soares - médico e pesquisador do IEC)
A SUA ORIGEM
A Dra. Gilberta Bensabath nasceu nos barrancos do Alto Rio Juruá, no município de Cruzeiro do Sul, estado do Acre, em 30 de julho de 1924. Filha dos imigrantes Marcos Bensabath e Nautilia Costa Bensabath, era a primogênita entre três irmãos - seu irmão e Gilka, a caçula (Figura 2A). Costumava autodeclarar-se paraense por adoção e, com grande carinho, cidadã bocacrense1,2.
Permaneceu em Cruzeiro do Sul até os cinco anos de idade, quando, devido a problemas de saúde de sua mãe, acometida por crises de malária refratárias ao quinino, a família mudou-se, a pedido de sua tia Esmeralda Martins, para a cidade de Belém, estado do Pará1-5. A viagem fluvial, realizada em uma embarcação de baixo calado popularmente chamada "chatinha", durou cerca de um mês e percorreu os rios Juruá e Solimões (também denominado Rio Amazonas) até Belém1. Foi uma travessia arriscada e considerada, à época, uma verdadeira odisseia.
A Sra. Marlene dos Santos Alves (Figura 2B), natural do interior do Pará, mudou-se para Belém em 1978, aos 16 anos, para estudar e auxiliar nos serviços domésticos. Por 42 anos conviveu com a Dra. Gilberta Bensabath, a quem considerava parte de sua família, atuando como cuidadora e governanta. Tornou-se, acima de tudo, uma grande amiga, desempenhando papel fundamental na organização do lar e no acompanhamento de sua rigorosa dieta alimentar, baseada principalmente no consumo de peixes.

Fonte: (A) Arquivo Familiar; (B) Acervo arquivístico do Fundo Gilberta Bensabath - IEC.
Figura 2 - (A) Senhora Nautília (mãe), Gilberta e Gilka Bensabath (irmã), registro datado da década de 1950; (B) Senhora Marlene Alves e doutora Gilberta Bensabath, 2013
Em razão de sua dedicação irrestrita e paixão pelo trabalho como médica e pesquisadora, a Dra. Gilberta Bensabath optou por não contrair matrimônio nem ter descendentes biológicos. Considerava como família as equipes de trabalho que chefiou, em especial os profissionais da Seção de Hepatologia do Instituto Evandro Chagas (SEHEP/IEC), da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS), com quem manteve vínculos de amizade e respeito ao longo de sua trajetória.
A ALFABETIZAÇÃO, O ENSINO FUNDAMENTAL, O ENSINO MÉDIO E A FORMAÇÃO ACADÊMICA
A pequena Gilberta foi alfabetizada por sua mãe e ingressou no primeiro ano escolar já sabendo ler, na escola particular da professora Laura Batista, onde estudou até o quarto ano, em 1935. Concluiu o ensino primário no Grupo Escolar José Veríssimo, localizado na rua Presidente Pernambuco, nº 573, esquina com a avenida Conselheiro Furtado, bairro Batista Campos. Em 1936, no quinto ano do curso primário, recebeu uma medalha de mérito como "Melhor Aluna". O ensino secundário foi cursado no Colégio Estadual Paes de Carvalho, situado na praça Saldanha Marinho, nº 10, bairro da Campina, ambos colégios públicos da cidade de Belém, estado do Pará1-5.
Em 1944, apesar das dificuldades financeiras e por mérito próprio, ingressou no Curso de Medicina da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, que foi federalizada em 3 de janeiro de 1950 e, posteriormente, integrada à Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2 de julho de 19556-7.
Participou de uma turma composta por 50 alunos, entre os quais havia apenas quatro mulheres; destas, somente duas concluíram o curso em 8 de dezembro de 1949: a Dra. Gilberta Bensabath (Figura 3A) e sua grande amiga Maria da Graça Ferreira, de quem foi madrinha de casamento com o Sr. José Batista e de seu primeiro filho, Artur Ferreira Batista. As outras duas estudantes, uma natural do Ceará e a outra da Bahia, solicitaram transferência antes da conclusão do curso e graduaram-se em suas respectivas faculdades de origem1-5.
No mês seguinte à formatura da turma, cujo paraninfo foi o professor de Parasitologia da Faculdade de Medicina e renomado pesquisador do Instituto Evandro Chagas, Dr. Orlando Rodrigues da Costa, seis recém-graduados, entre eles a jovem médica Gilberta Bensabath, foram indicados por ele para contratação remunerada pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), como médicos e bolsistas para o curso de sanitarista. A contratação foi efetivada em 16 de janeiro de 1950 (Figura 3B)1-5.

Fonte: Acervo Arquivístico do Fundo Gilberta Bensabath - IEC.
Figura 3 - (A) Formatura em Medicina pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, turma de 1945 a 1949; (B) Carteira de identidade funcional do Ministério da Educação e Saúde, Serviço Especial de Saúde Pública (SESP)
Entre 1950 e 1959, cursou Especialização em Saúde Pública na Faculdade de Higiene de São Paulo e no Departamento Nacional da Criança, respectivamente. Em 1963, concluiu Especialização em Microbiologia no Instituto Nacional de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)2-5.
A ATUAÇÃO PROFISSIONAL, O PIONEIRISMO E O LEGADO
Após a conclusão do primeiro curso de Especialização em Saúde Pública, que durou oito meses, ao retornar a Belém foi designada pelo SESP para atuar como médica nos municípios de Alenquer e, posteriormente, em Igarapé-Açu, no estado do Pará.
Em Alenquer, localizado na região do Baixo Amazonas, trabalhou entre fevereiro de 1951 e fevereiro de 1954. Nesse município faleceu e foi sepultado seu pai, fato que lhe causou grande consternação, mas alcançou feitos que a deixariam licitamente orgulhosa. Preocupada com os altos índices de gastrenterites e outras doenças de transmissão fecal-oral, solicitou pessoalmente ao governador do estado, coronel Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, que visitava o posto do SESP no município, a implantação de um sistema de abastecimento de água, inexistente à época. A construção foi iniciada e concluída após sua saída da cidade, deixando o sistema implantado - um feito notável diante das dificuldades daquele período1-5.
Em Igarapé-Açu, situado na região nordeste paraense, atuou como médica de março de 1954 a 30 de novembro de 1958. Relatou o atendimento diário e laborioso de cerca de 90 pacientes, facilitado pela localização geográfica do município, que na época era ponto de cruzamento rodoviário e ferroviário, o que causava muitos acidentes com vítimas. O transporte era feito pelos "paus de arara" (caminhões adaptados para o transporte de pessoas), cujo letreiro indicava o "Posto do SESP" como destino final. Recordava com carinho o atendimento, na Higiene Infantil, de um menino - filho da senhora Guiomar, tia da senhora Irene, atendente do posto, que abria as fichas familiares e coordenava o acolhimento. Esse menino, anos mais tarde, se tornaria um dos maiores jogadores de futebol do mundo e, por coincidência, também médico: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o ilustre "Dr. Sócrates", ídolo do Sport Club Corinthians Paulista e capitão da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1982, realizada na Espanha1-5.
A partir de janeiro de 1960, passou a integrar a equipe de pesquisadores do IEC (Figura 4), atuando no staff do Belém Vírus Laboratory (BVL), vinculado à Fundação Rockefeller, em parceria com o IEC, em investigações sobre viroses regionais1-5. Nesse período inicial, recebeu treinamento do técnico de laboratório Joaquim Medeiros Contente, sob a orientação dos Drs. Ottis Causey e Robert Shope, em atividades de inoculação em animais de laboratório. No laboratório de sorologia foi instruída pela farmacêutica - e, posteriormente, sua grande amiga - Dra. Amélia Homobono Paes de Andrade, que de janeiro de 1959 a dezembro de 1998 trabalhou e chefiou a Seção de Arbovirologia, contribuindo para a identificação de mais de uma centena de novos vírus para a ciência1,4,5.
Respondeu interinamente pela direção do IEC de julho de 1975 a 17 de junho de 1976, assumindo a diretoria desse renomado centro de estudos de doenças tropicais no período de 18 de junho de 1976 a 14 de junho de 1979, tornando-se a primeira mulher pesquisadora a ocupar tal função. Como legado de sua gestão, foi responsável pela aquisição do terreno do campus do IEC em Ananindeua (Figura 5A), e pela criação do Centro Nacional de Primatas (Figura 5B). Criou ainda as seções científicas de Patologia e de Biotério, atuais Seção de Patologia Clínica e Experimental (SEPEX) e Seção de Criação e Produção de Animais (SECPA)2-5.

Fonte: (A) Kelvin Santos, Seção de Comunicação e Memoria Institucional - IEC; (B) CENP, foto de divulgação.
Figura 5 - (A) Vista aérea do campus do Instituto Evandro Chagas, Ananindeua, estado do Pará; (B) Campus do Centro Nacional de Primatas (CENP), Ananindeua, estado do Pará, década de 1970
Enquanto pesquisadora, entre 1960 e 1975, sua área de atuação esteve vinculada aos estudos pioneiros sobre arboviroses (febre amarela, febre do oropouche e outras) e hepatites virais, então em fase inicial de investigação etiológica, tanto em trabalhos de laboratório como em campo. Destacam-se os estudos realizados ao longo das rodovias Transamazônica (Figura 6) e Belém-Brasília, no Projeto Humboldt, na Síndrome Hemorrágica de Altamira, e nas regiões de Mayaro e Rio Negro2,4,5,8, além das pesquisas nos municípios de Sena Madureira, no estado do Acre, e Boca do Acre, no estado do Amazonas, no alto rio Purus, Amazônia ocidental brasileira9-11. Tornou-se, assim, uma das pioneiras nas atividades de pesquisa em campo na Amazônia. O hepatopatologista Dr. Leônidas Braga Dias foi seu grande colaborador nesses estudos2.

Fonte: Acervo arquivístico do Fundo Gilberta Bensabath - IEC.
Figura 6 - Doutora Gilberta Bensabath, senhor Admar Sousa (laboratorista) e equipe na rodovia Transamazônica, década de 1970
O mês de maio de 1964 pode ser considerado o marco inicial das atividades sistematizadas do IEC voltadas ao esclarecimento da etiologia das hepatopatias da Amazônia ocidental, com a ida do Dr. Robert Shope e da Dra. Gilberta Bensabath à cidade de Lábrea, estado do Amazonas. A expedição fluvial, realizada com o apoio do técnico Guilherme Brígido Nunes, foi motivada pela ocorrência de cinco óbitos de crianças - um em fevereiro, outro em março e três em abril daquele ano - na vizinhança da cidade11.
Na condição de pesquisadora visitante, desenvolveu atividades de diagnóstico laboratorial das hepatites virais na Universidade de Yale, Estados Unidos, em 1970, oportunidade em que examinou, por meio da técnica de imunodifusão em gel, as primeiras amostras de soro provenientes de inquérito na Amazônia brasileira (região do Purus) para o então denominado "antígeno Austrália"2,4,5.
Após treinamento no Centers for Disease Control and Prevention (CDC), em Atlanta, Estados Unidos, implantou no IEC, na década de 1980, o diagnóstico de outros marcadores sorológicos das hepatites virais, utilizando a técnica de enzimaimunoensaio (ELISA)2,4,5.
Em 1973, publicou em coautoria com Jorge Boshell (Figura 7) estudo que identificou a região do Purus como área hiperendêmica para o antígeno Austrália, posteriormente denominado antígeno de superfície do vírus da hepatite B8. Em Boca do Acre, coordenou, por mais de 15 anos, estudos sobre etiologia, epidemiologia e aspectos clínico-epidemiológicos da hepatite de Lábrea, além de pesquisas sobre a profilaxia das hepatites virais2-5.

Fonte: Revista do Instituto de Medicina Tropical, 1973.
Figura 7 - Publicação de 1973 da doutora Gilberta Bensabath, ao lado de Jorge Boshell, sobre a presença do antígeno Austrália ao longo do rio Purus, estado do Amazonas
Em novembro de 1975, com apoio financeiro da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), por meio do Projeto Polamazônia, implantou, em uma área sentinela, o primeiro posto avançado de pesquisa de campo do IEC-FSESP no município de Sena Madureira, estado do Acre (Figura 8A). O posto foi transferido em janeiro de 1979 para Boca do Acre, estado do Amazonas (Figura 8B), sendo mantido quase que exclusivamente pelo IEC até 1991. A partir de 1992, a Prefeitura Municipal passou a custear a equipe de pessoal, excetuando-se a supervisão técnica, e o posto permaneceu em funcionamento ininterrupto até dezembro de 1994. Em 29 de julho de 1995, foi totalmente repassado à administração municipal. Ainda hoje encontra-se em pleno funcionamento sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Saúde, renomeado como Laboratório Municipal Evandro Chagas, localizado na Avenida Getúlio Vargas, s/n, praça Assem Mustafá, bairro Centro, em Boca do Acre, estado do Amazonas1-5,11.

Fonte: Seção de Hepatologia - IEC.
Figura 8 - (A) Primeiro posto sentinela de pesquisa de campo do IEC-FSESP, município de Sena Madureira, estado do Acre (1975-1979); (B) Segundo posto sentinela de pesquisa de campo do IEC/SAHEP, município de Boca do Acre, estado do Amazonas (1979-1989)
Nesses postos, contou com a colaboração dos técnicos de pesquisa do IEC Lindomar de Souza Vasconcelos - que atuou como coordenador nos trabalhos de campo por mais de 60 anos, sendo considerado por ela seu "braço direito" -, Guilherme Brígido Nunes, Carlos Alberto Tenório da Silva, Tibúrcio da Silva Melo, Antônio José Miranda Silva, Bernardo Farias da Conceição, Jeomedeks de Moraes Neves, Admar Sousa, Manuel Nazareno de Freitas, Orlando Vaz da Silva e Jorge Maia do Nascimento. Também contribuíram nos trabalhos os laboratoristas Manuel Barbosa de Lima e Artêmio Vaz da Silva, formados no curso de laboratorista do IEC, em Belém, e o auxiliar de laboratório Sebastião Gomes da Silva (Jair), residente em Boca do Acre, estado do Amazonas.
Em 1979, fundou e chefiou a Seção de Epidemiologia (SEEPI) do IEC, posteriormente denominada Coordenação de Hepatopatias (COHEP), Seção de Hepatopatias (SEHEP), e, a partir de 1994, Seção de Hepatologia (SAHEP), denominação mantida até hoje. Permaneceu à frente da seção até sua aposentadoria compulsória em agosto de 1994, quando transmitiu a chefia ao médico e pesquisador Manoel do Carmo Pereira Soares, seu ex-estagiário e parceiro em diversas pesquisas e publicações científicas2-5.
Em 1985, como visitante do Hepatitis Branch do CDC, em Atlanta, desenvolveu estudos sobre técnicas de enzimaimunoensaio aplicadas às hepatites B e Delta. Dessa colaboração resultaram publicações de 1987 (Figura 9), em coautoria com Stephen C. Hadler, Manoel C. P. Soares, Howard Fields, Leonidas B. Dias, Hans Popper e James E. Maynard, que confirmaram a importância das infecções pelo vírus da hepatite Delta e definiram o perfil etiológico da "Febre Negra de Lábrea" e das hepatites fulminantes da Amazônia Ocidental. O estudo é considerado pioneiro na descrição da infecção pelo vírus da hepatite Delta na região2,4,5,10.

Fonte: Journal of the American Medical Association (JAMA), 1987.
Figura 9 - Artigo pioneiro sobre o estudo da hepatite Delta na Amazônia ocidental brasileira, 1987
Entre 31 de agosto de 1989 e 31 de dezembro de 1994, coordenou estudos sobre imunogenicidade, eficácia e efetividade da vacina contra a hepatite B no município de Boca do Acre (Figura 10), em colaboração com os médicos pesquisadores Manoel do Carmo Pereira Soares e Paulo Roberto Brito Cartágenes. A equipe envolveu a secretária Ruth Luiza Ramos Barros, os técnicos Elisabete Maria de Figueiredo Brito, Olglaíze do Socorro da Costa Souza, Domingos Macedo de Souza, Max Moreira Alves, Ilton Leandro de Souza e Raimundo Nonato Oliveira Araújo, entre outros, além dos técnicos Maria Auxiliadora Shaw e Wilson Baía de Souza. A soroteca e o biorrepositório resultantes desses estudos, mantidos no IEC, constituem referência tanto para memória quanto para pesquisas futuras sobre hepatite B na Amazônia2-5.

Fonte: Seção de Hepatologia - IEC.
Figura 10 - (A) Doutora Gilberta Bensabath discursando sobre a vacinação contra o vírus da hepatite B na praça Assem Mustafá, município de Boca do Acre, estado do Amazonas, ladeada por Aguinaldo Souza (prefeito), Rarife Mamede (vereador) e Mário Diogo de Melo (presidente da Câmara Municipal), 22 de outubro de 1989; (B) Cartaz de chamamento à vacinação infantil contra o vírus da hepatite B
Os resultados dessas investigações contribuíram diretamente para o início da vacinação contra o vírus da hepatite B pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, em 14 de novembro de 1995, com a aplicação em uma criança de quatro dias de nascida que recebeu a primeira dose simultaneamente com a BCG; oficialização, pelo Comitê Técnico-Assessor do PNI e pelo Comitê Nacional de Hepatites, da indicação da vacina contra a hepatite B para menores de um ano, em todo o País em 1997; e para a posterior inclusão da vacina no calendário nacional infantil em 199811,12.
Em agosto de 2000, foi convidada a estruturar e chefiar o recém-criado Serviço de Epidemiologia (SEVEP) do IEC, no qual atuou até 2015. Nesse período, concentrou esforços para ampliar a interface entre a pesquisa epidemiológica e as ações de saúde pública. Em 13 de maio de 2013, transmitiu a chefia do SEVEP, atual SEEPI, ao médico pesquisador Francisco Lúzio de Paula Ramos deixando como legado a estruturação e implantação da Central de Recebimento de Amostras Biológicas (CEREC), atual Setor de Gerenciamento de Amostras (SEGEA), vinculado à Seção de Gestão de Biossegurança e Qualidade (SEGBQ) do IEC2,4,5.
Participou ativamente do Conselho Técnico-Científico (CTC) do IEC e da implantação das normas de biossegurança na instituição. Coordenou o projeto "Avaliação de imunogenicidade e segurança de vacinas recombinantes contra a hepatite B em adolescentes e adultos", do Instituto Butantan (Projeto BUTANG), com colaboração das pesquisadoras Heloisa Marceliano Nunes e Cândida Maria Abrahão de Oliveira. Também coordenou o projeto "Avaliação da situação saúde-doença nas áreas de influência do Projeto Salobo e do Parque Zoobotânico de Carajás, Pará, Brasil", em parceria com a mineradora Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), atual Vale (Figura 11)2,4,5.

Fonte: Seção de Comunicação e Memória Institucional - IEC.
Figura 11 - Doutora Gilberta Bensabath acompanhada do doutor Edivaldo Loureiro, do técnico Lindomar Vasconcelos e do senhor José em trabalho de campo na região de Carajás, rio Itacaiúnas, município de Marabá, estado do Pará, 2005
Este último projeto permanece em andamento, atualmente sob o título "Avaliação das alterações ambientais e sua relação com o quadro nosológico nas áreas de influência dos empreendimentos Vale - Projeto Salobo III, Serra Norte e Serra Leste", coordenado pela doutora Lívia Carício Martins, atual diretora do IEC, em parceria com as representantes da Vale, doutoras Cecília Queiroga e Viviane Carolo.
A PRODUÇÃO TÉCNICO-CIENTÍFICA E AS PRINCIPAIS HONRARIAS RECEBIDAS
A Dra. Gilberta Bensabath deixou como legado uma vasta produção técnico-científica que contribuiu para o avanço do conhecimento e constitui parte da história da hepatologia tropical. Sua obra inclui capítulos de livros e cerca de 70 publicações em periódicos nacionais e internacionais, além de contribuições nos dois volumes do livro 50 anos do Instituto Evandro Chagas, publicado em Belém, estado do Pará2-5,8-11.
De acordo com Britto e Corradi5, somam-se 88 distinções e honrarias recebidas pela Dra. Gilberta Bensabath. Entre as mais relevantes, destacam-se a distinção como Oficial da Ordem do Mérito Médico e a condecoração com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, recebidas em 7 de abril de 1997, outorgadas pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Também recebeu o título de Médico do Ano em 2001, concedido pela Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará, e representou o estado na comemoração dos 50 anos da Associação Médica Brasileira, realizada em 14 de dezembro de 2001, na cidade de São Paulo, onde foi homenageada2-5,13.
Entre as homenagens que mais lhe eram caras, ressaltava-se o título de Cidadã Bocacrense. A honraria foi conferida por meio da Resolução nº 07, de 20 de agosto de 1989, de autoria do vereador Eliézer Salgado, e entregue pessoalmente em plenário pela Câmara Municipal de Boca do Acre, estado do Amazonas, sob a presidência do vereador Mário Diogo de Melo, em 28 de setembro de 1989, em "reconhecimento aos inestimáveis serviços prestados ao município"13.
Em junho de 2005, foi homenageada como Presidente de Honra do VII Simpósio Brasileiro de Vacinas, realizado em Belém, estado do Pará, "em reconhecimento às suas atividades ligadas ao estudo e à implementação da vacina contra a hepatite B na Amazônia"13. No mesmo ano, foi também homenageada pela Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) na publicação Memória da Hepatologia - Os Pioneiros (Figura 12), junto a outros doze renomados hepatologistas: Amaury Domingues Coutinho, Clementino Fraga Filho, Fernando Guerra Alvariz, Jorge de Alkimin Toledo, Jorge Escobar Pereira Lima, José de Laurentys Medeiros, Luís Caetano da Silva, Luiz Carlos da Costa Gayotto, Silvano Mário Atílio Raia, Thomaz de Figueiredo Mendes, Waldomiro Dantas e Zilton de Araújo Andrade. Foi a primeira médica hepatologista brasileira agraciada com essa distinção2,13.

Fonte: Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), 2005.
Figura 12 - Livro da Sociedade Brasileira de Hepatologia Memória da Hepatologia Brasileira - Os Pioneiros, 2005
Em 28 de setembro de 2011, foi novamente homenageada pela Sociedade Brasileira de Hepatologia, durante o XXI Congresso Brasileiro de Hepatologia, realizado em Salvador, estado da Bahia, "pelas suas excelentes contribuições à hepatologia brasileira, especialmente ao conhecimento das hepatites virais na Amazônia"13.
Em 20 de novembro de 2013, por meio da Resolução nº 2620/13-CONSUN, o magnífico reitor da Universidade do Estado do Pará, Dr. Juarez Antônio Simões Quaresma, em cumprimento à decisão do Egrégio Conselho Universitário, promulgou a aprovação e concessão do título de Doutor Honoris Causa à médica e pesquisadora Gilberta Bensabath, "em reconhecimento ao valioso contributo de sua vida profissional à ciência e à saúde do povo brasileiro amazônico". A cerimônia de outorga (Figura 13), conduzida pelo reitor, ocorreu em 20 de dezembro de 2013, no campus do IEC, em Ananindeua, estado do Pará13.

Fonte: Acervo arquivístico do Fundo Gilberta Bensabath - IEC.
Figura 13 - Outorga do grau de Doutor Honoris Causa à doutora Gilberta Bensabath pelo magnífico reitor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), doutor Juarez Antônio Simões Quaresma, em 13 de dezembro de 2013
Durante o discurso de saudação na cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa14, sua amiga e pesquisadora do IEC, Dra. Amélia Paes15 que de janeiro de 1959 a dezembro de 1998 trabalhou e chefiou a Seção de Arbovirologia, contribuindo para a identificação de mais de uma centena de novos vírus para a ciência, declarou: "Desfrute muito esse seu dia especial, porque a senhora é mais do que merecedora: é uma vencedora".
Seu contemporâneo e colega de profissão, o patologista e hepatologista Dr. Leônidas Braga Dias, afirmou que "poucas pessoas em nosso país, raras mulheres, terão galgado o seu prestígio científico, o que honra a instituição em que trabalha, honra a Amazônia, mas que não aquebrantou a sua modéstia, que não lhe modificou o espontâneo riso, marca de sua personalidade"2.
Pouco se escreveu sobre sua religiosidade. Apesar de sua origem judaica, pessoas próximas relatam que a Dra. Gilberta Bensabath frequentava missas aos fins de semana, pedindo a Cristo Jesus ajuda para suas aflições pessoais e profissionais (Figura 14). Essa personalidade religiosa também é percebida por meio da leitura de suas agendas pessoais, nas quais não há registro de documentos religiosos específicos5,13.
A SUA PARTIDA
Após encerrar suas atividades junto ao Serviço de Epidemiologia, a Dra. Gilberta Bensabath retornou em 2015 à Seção de Hepatologia, no campus de Belém, sempre auxiliada pela servidora Ederlinda Maria Rodrigues Lopes. Mesmo de forma voluntária, continuou contribuindo ativamente com as pesquisas desenvolvidas, demonstrando a mesma dedicação e lucidez, apesar de seus 90 anos de idade.
Em 13 de maio de 2020, aos 95 anos, faleceu em decorrência de infecção pelo coronavírus, após vários dias de internação no Hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém, estado do Pará. Sua inesperada e lamentável partida foi noticiada por veículos de comunicação locais e nacionais - entre eles o Bom Dia Brasil da TV Globo, jornais impressos e mídias digitais.
A doutora Gilberta Bensabath deixou uma legião de pacientes, admiradores e amigos, bem como uma profunda lacuna de dor, tristeza e saudade. Seu sepultamento foi simples e restrito a poucas pessoas, em virtude dos protocolos sanitários impostos pela pandemia, e ocorreu no Cemitério Parque Recanto da Saudade, em Ananindeua, estado do Pará, onde repousa em jazigo ao lado de sua mãe e de sua irmã. Permanecem seu exemplo de vida, seu legado e a saudade de todos que com ela conviveram.
CONCLUSÃO
O dia 30 de julho de 2024 representa uma data especial para a comunidade do IEC (em especial para a SEHEP) e para a Saúde Pública brasileira, por marcar o centenário de nascimento da médica, sanitarista, virologista, pesquisadora e hepatologista Gilberta Bensabath, uma mulher amazônida que timbrou com ética, profissionalismo, retidão, compromisso e paixão a saúde pública, ao sanitarismo, à virologia (em especial aos arbovírus e aos vírus das hepatites) e à hepatologia brasileira.
Ressaltando e ratificando, foi em sua gestão como diretora que obteve da prefeitura de Ananindeua, estado do Pará, a doação do terreno onde hoje se encontra instalado o campus do IEC, que abriga o novo prédio da SEHEP, inaugurado em 9 de julho de 2024. A solenidade contou com a presença de importantes autoridades, como a ministra da Saúde, Nísia Verônica Trindade Lima; a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente, Ethel Leonor Moia Maciel; o governador do estado do Pará, Helder Zaluth Barbalho; a atual diretora do IEC, Lívia Carício Martins; e o atual chefe da SEHEP, André Antonio Corrêa das Chagas.
Em 2021, por decisão do Conselho Técnico-Científico do IEC, o referido campus, em justa, merecida e digna homenagem, foi rebatizado como "Campus Gilberta Bensabath" (Figura 15).
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à senhora Marlene dos Santos Alves pelo valioso depoimento pessoal e pelo compartilhamento de informações sobre a homenageada; a Olglaíze do Socorro da Costa Souza pelo incentivo e auxílio fundamental nos levantamentos de dados e imagens que compõem este documento histórico; a Augusto César Luiz Britto e ao Arquivo Institucional do IEC pela organização do acervo arquivístico da Dra. Gilberta Bensabath; e aos colegas da SEHEP que confiaram aos autores a missão de registrar a trajetória da nossa "pioneira".
















