INTRODUÇÃO
Enquanto os esforços de conservação ambiental se chocam com o avanço do desmatamento e das alterações climáticas, a saúde pública na Amazônia se vê ameaçada por problemas crônicos e complexos. A leishmaniose, com suas formas clínicas mais frequentes (cutânea, mucosa e visceral), é um desses problemas, e sua crescente incidência na região é um sintoma da interligação entre a saúde humana e a saúde planetária.
A Amazônia concentra atualmente a maior parte dos novos casos de leishmaniose do Brasil, segundo dados recentes do Ministério da Saúde1. Estudos têm associado o aumento da doença à expansão de atividades econômicas que alteram a paisagem, com as áreas de pecuária apresentando a maior incidência de leishmaniose cutânea2.
Essa escalada não é apenas resultado da pressão econômica, mas também da influência decisiva de fenômenos naturais e climáticos. Pesquisas destacam a correlação entre eventos de El Niño e La Niña e o aumento da incidência de leishmaniose, já que alteram o regime de chuvas e a direção dos ventos, impactando diretamente a dispersão dos flebótomos (Psychodidae: Phlebotominae), vetores do protozoário Leishmania3,4. Essas flutuações climáticas criam condições ideais para a proliferação de insetos transmissores de patógenos em novas áreas, aproximando-os das populações humanas.
Para além de uma doença negligenciada, a leishmaniose tem, na Amazônia, uma dimensão distinta da observada em outras regiões do país. Isso surpreendeu o médico e cientista Carlos Chagas, que, em visita ao vale amazônico, no início do século XX, escreveu: "Essas feridas do nariz, que perduram indefinidamente, constituem banalidade clinica em toda a Amazonia, sendo alli observadas com extrema frequencia, infelicitando numerosos individuos."5. De fato, o caráter endêmico e histórico da leishmaniose na Amazônia e em outras regiões da América do Sul é tão profundo que evidências arqueológicas, como cerâmicas pré-colombianas da cultura Moche, datadas do século V, já retratam lesões faciais desfigurantes compatíveis com a forma mucosa da doença6.
A falta de diagnóstico e tratamento precoce da leishmaniose cutânea pode levar a sérias complicações. Além do envolvimento das mucosas, a doença pode progredir para quadros de difícil manejo, incluindo a forma disseminada e a forma difusa anérgica, na qual a resposta ao tratamento é precária e os casos de cura são raros7. As lesões extensas ou numerosas na pele e nas mucosas desfiguram o paciente, causando estigma e absenteísmo. Florestas nativas e áreas de desmatamento são as de maior risco de adquirir essa forma da doença8.
A leishmaniose visceral, por sua vez, é uma enfermidade febril e sistêmica que afeta principalmente baço, fígado e medula óssea. Associada a uma alta letalidade que pode chegar a 10% mesmo com tratamento adequado, a doença acomete principalmente crianças. Seu vetor, Lutzomyia longipalpis, é sinantrópico, o que significa que se adapta e prolifera no peridomicílio. Nesses locais, o cão se torna um reservatório do parasita Leishmania infantum, o agente etiológico da leishmaniose visceral nas Américas, facilitando a transmissão para os humanos9.
Os fármacos disponíveis para o tratamento da leishmaniose são conhecidos por sua elevada toxicidade. Além disso, a falha terapêutica com o medicamento de primeira escolha, o antimoniato de meglumina, tem se tornado um problema recorrente na Amazônia, principalmente em regiões onde a espécie Leishmania guyanensis, causadora de leishmaniose cutânea/mucosa, é predominante10. A carência de medicamentos menos tóxicos e mais eficazes e a dificuldade de acesso a centros especializados na região só agravam essa situação, resultando na interrupção do tratamento e na crescente taxa de falhas11.
No vasto bioma amazônico, de biodiversidade inigualável, a epidemiologia da leishmaniose é particularmente complexa, com agentes etiológicos e insetos transmissores variados e peculiares aos microambientes de áreas endêmicas. O caráter espectral das manifestações clínicas é mais frequente do que se imagina, com quadros inusitados e severos que, muitas vezes, ocorrem em áreas remotas e afetam populações vulneráveis.
LEISHMANIOSE, DESMATAMENTO E CLIMA
Apesar dos esforços nacionais de vigilância e controle, a leishmaniose segue avançando na Amazônia. A meta heroica dos serviços de saúde de vigiar e prevenir a doença nas áreas endêmicas dessa vasta região enfrenta dois desafios cruciais.
O primeiro refere-se às frequentes alterações na paisagem, que afetam a distribuição e adaptação de insetos transmissores de Leishmania a novos ecótopos, inclusive artificiais. Essa mudança de comportamento altera a composição da fauna, o que pode levar ao surgimento de novos focos de transmissão do parasito próximos às populações humanas. A fragmentação florestal na Amazônia brasileira está diretamente associada ao aumento de casos de leishmaniose cutânea, e a perda de hábitat natural força os vetores a buscarem novas áreas, aproximando-se das comunidades rurais e urbanas12.
O segundo, e mais avassalador, é a emergência climática. A ciência tem demonstrado consistentemente a relação entre o aquecimento global e o aumento de doenças transmitidas por vetores. O aumento da temperatura e as mudanças nos padrões de chuva alteram a distribuição geográfica e a sazonalidade de flebótomos e de outros insetos, expandindo o alcance geográfico de doenças transmitidas por vetores, incluindo a leishmaniose. A elevação da temperatura global, também demonstrada na Amazônia13, favorece a proliferação e a sobrevivência dos flebótomos, permitindo o estabelecimento desses insetos em novas áreas que antes lhes eram inóspitas. O desmatamento, por sua vez, fragmenta os hábitats e força os vetores a se adaptarem a ambientes mais próximos das habitações humanas, aumentando o risco de transmissão. As condições climáticas extremas, como longos períodos de seca ou chuvas intensas, afetam a dinâmica populacional dos vetores e dos reservatórios animais, tornando a vigilância epidemiológica ainda mais complexa.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE, CIÊNCIA NA ESCOLA E CONSERVAÇÃO
A educação em saúde, com foco nos saberes e desafios locais, é a ferramenta mais poderosa para capacitar e fortalecer as comunidades amazônicas. Elas, que tradicionalmente lidavam com a floresta de forma sustentável, têm sido afetadas por práticas não tradicionais e por emergências climáticas. Em meio a tantas transformações, a educação é o caminho mais seguro para devolver autonomia a essas comunidades na prevenção da leishmaniose e de outros agravos.
A integração da comunidade como agente ativo nas atividades de educação e a facilitação de ações integradas, com a participação de empresas locais, governo, escola e comunidade, não apenas fortalecerá a vigilância e prevenção da leishmaniose, mas também elevará a qualidade de vida dos amazônidas. O conhecimento científico deve ser popularizado, unindo-se ao saber tradicional para criar soluções híbridas e mais eficazes. A Organização Mundial da Saúde14 tem defendido essa abordagem, destacando a importância da colaboração intersetorial na promoção da saúde:
Para um impacto sustentável no controle de vetores, é necessária uma maior ação intersetorial e interdisciplinar, vinculando esforços em gestão ambiental, educação em saúde e reorientando programas governamentais relevantes em torno de estratégias proativas para controlar ameaças novas e emergentes [tradução nossa].
O manejo ambiental é uma estratégia central para a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida na floresta, com impactos diretos na prevenção de doenças15. Contudo, ainda precisamos de iniciativas que traduzam o conhecimento científico sobre a crise climática e suas consequências para a saúde pública em linguagem acessível. O objetivo é capacitar as comunidades para que possam se proteger e se tornar agentes de transformação.
Para tanto, é fundamental que as próprias comunidades desenvolvam um senso crítico sobre as práticas de risco e os fatores ambientais que as expõem a doenças, como a leishmaniose. Com essa consciência, será possível estimular ações voluntárias e parcerias com outros atores locais, como empresas que utilizam recursos naturais e secretarias municipais e estaduais, para promover melhorias em infraestrutura e serviços. Nesse sentido, editais de incentivo à educação para comunidades da floresta são recomendados e poderiam prever a obrigatoriedade dessas parcerias.
Para que essa atividade educativa e integradora seja eficaz, propomos um processo participativo de quatro etapas:
1. Levantamento: em áreas de maior endemicidade, a comunidade identifica e prioriza os principais desafios de saúde, com foco na prevenção de doenças;
2. Informações acessíveis: com base no levantamento, a comunidade recebe informações técnico-científicas relevantes traduzidas para uma linguagem simples e direta. O processo deve ser flexível, abordando tanto a leishmaniose quanto outros problemas identificados, para garantir uma ação educativa e intersetorial abrangente;
3. Discussão de soluções: a comunidade discute possíveis soluções para a prevenção dos problemas, definindo as contribuições de cada um dos atores envolvidos (a própria comunidade, o poder público e as empresas); e
4. Plano de ação integrado: um evento final reúne autoridades municipais, representantes de empresas e membros da comunidade para aprimorar e validar um plano de ação conjunto, com metas e responsabilidades claras, focado na prevenção e na assistência em saúde.
Essa abordagem não apenas fortalecerá o combate à leishmaniose e outras endemias, mas também terá um impacto positivo na qualidade de vida das comunidades, reforçando sua autonomia e o desenvolvimento sustentável.
Em paralelo, é fundamental investir nas escolas locais, garantindo que a estrutura física e os recursos mínimos necessários proporcionem dignidade e um ambiente adequado ao aprendizado. Os investimentos em educação para as comunidades da floresta devem ser rigorosamente monitorados.
Essas escolas em áreas remotas da Amazônia, que frequentemente reúnem alunos de diferentes idades em uma mesma classe, são um ponto de partida crucial. As crianças percorrem longas distâncias, num esforço hercúleo, em busca de conhecimento para si e para suas famílias.
Levar ciência às escolas, em linguagem lúdica e acessível, é uma prática já adotada por instituições científicas, tecnológicas e de inovação, como o Instituto Evandro Chagas16,17,18, que tem demonstrado o potencial transformador de conectar o conhecimento científico diretamente ao ambiente escolar. Essa abordagem instiga o senso crítico de professores e alunos sobre os problemas locais e capacita-os a se tornarem agentes de mudança.
Ao apresentar conteúdo científico e inovações tecnológicas de forma interativa, como em exposições que mostram o mundo macro e microscópico, a educação se torna uma experiência mais efetiva e duradoura. Além disso, essa estratégia se mostra mais eficaz na prevenção de doenças, como a leishmaniose, do que abordagens focadas exclusivamente no controle de reservatórios de Leishmania e de vetores, sem o envolvimento da educação.
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em Belém, no estado do Pará, de 10 a 21 de novembro de 2025, é uma oportunidade ímpar para discutir os impactos do clima na saúde dos povos que vivem na região. A conservação desse bioma, que abriga cerca de 30 milhões de pessoas, depende da valorização de suas populações e culturas.
Em tempos de emergência climática, o maior desafio é reduzir a distância entre o conhecimento científico e as comunidades locais. Afinal, levar educação de qualidade e os avanços da ciência aos povos da floresta é o caminho mais efetivo para a conservação do bioma, garantindo que o conhecimento e a sustentabilidade caminhem juntos.













