INTRODUÇÃO
O câncer de tireoide é a neoplasia maligna endócrina mais prevalente, acometendo principalmente mulheres. Quando ocorre em homens, tende a apresentar comportamento mais agressivo e prognóstico pior1. Entre seus subtipos, o carcinoma papilífero é o mais comum, seguido pelos carcinomas folicular e medular. Apesar dos avanços diagnósticos, a etiologia permanece multifatorial e não completamente elucidada.
No cenário global, o câncer de tireoide ocupa a nona posição entre os mais incidentes, com taxas estimadas de 7,2 casos por 100 mil mulheres e de 2/100 mil homens2,3. Observam-se marcantes disparidades de gênero e diferenças regionais: embora a mortalidade geral seja baixa (0,57/100 mil), as mulheres apresentam maior taxa (0,74/100 mil) do que os homens (0,36/100 mil)4. Em países como a Coreia do Sul, o número de diagnósticos é muito superior à média mundial, alcançando 111,3/100 mil mulheres e 27/100 mil homens, com mortalidade também elevada (6/100 mil)5,6,7.
No Brasil, estimam-se 16.660 novos casos/ano no triênio 2023-2025, sendo 14.160 em mulheres e 2.500 em homens8. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o sétimo câncer mais comum no país, com incidência de 7,68/100 mil habitantes. Há grande variação regional: entre as mulheres, ocupa a terceira posição no Sudeste e no Nordeste (16,53 e 13,54/100 mil, respectivamente), mas apenas a nona na Região Norte (3,28/100 mil), a menor taxa nacional. Entre homens, a menor incidência também ocorre na Região Norte (0,93/100 mil)8. No Pará, ainda há escassez de dados específicos sobre o perfil clínico-epidemiológico, o prognóstico e o tratamento dessa doença, o que reforça a necessidade de estudos locais.
Diversos fatores influenciam o risco e a evolução da doença. A maior incidência ocorre entre 35 e 39 anos9, enquanto pacientes mais idosos apresentam maior risco de estadiamento avançado e menor sobrevida10. O histórico familiar em parentes de primeiro grau aumenta a predisposição11. Variáveis socioeconômicas e demográficas, como etnia e escolaridade, também afetam o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, gerando desigualdades no prognóstico12. Indivíduos com maior nível educacional tendem a ter mais chances de diagnóstico precoce, associado a maior vigilância médica e acesso a exames13.
Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo caracterizar o perfil clínico-epidemiológico, socioeconômico e a procedência geográfica de casos incidentes de câncer de tireoide atendidos em um hospital de referência oncológica do Pará, entre 2018 e 2022. Foram analisadas variáveis clínicas, sociodemográficas e de procedência, buscando identificar padrões regionais e subsidiar estratégias de saúde pública voltadas ao diagnóstico precoce e à redução das desigualdades.
MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo observacional, descritivo, retrospectivo e quantitativo, realizado com base na análise de 529 prontuários físicos de pacientes atendidos na Clínica de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Ophir Loyola, em Belém, entre 2018 e 2022. Este hospital é o principal Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia do estado do Pará, referência no diagnóstico e no tratamento oncológicos na Região Norte. Aproximadamente 90% dos atendimentos oncológicos realizados na instituição são provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto cerca de 10% correspondem a pacientes oriundos da saúde suplementar, o que reforça sua importância para a cobertura populacional e a equidade de acesso.
Foram incluídos prontuários de pacientes com diagnóstico histopatológico confirmado de câncer de tireoide (CID-10: C73), selecionados com base em informações do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) da instituição, que registra casos recém-diagnosticados encaminhados para atendimento médico. Além disso, foram excluídos aqueles que não continham o exame histopatológico e os com diagnóstico fora do período estabelecido (anteriores a 2018 ou posteriores a 2022).
Foram analisados exclusivamente casos incidentes (novos) de câncer de tireoide, conforme a definição proposta por Szklo e Nieto14, que distinguem incidência (novos eventos de saúde diagnosticados em um intervalo) de prevalência (casos existentes em um ponto ou período). Incluíram-se casos atendidos na instituição para assistência médica, diagnóstico histopatológico e definição de conduta terapêutica. Dessa forma, os resultados devem ser interpretados como uma série hospitalar, representativa do perfil dos pacientes atendidos no serviço, não correspondendo a medidas de incidência ou prevalência populacional, uma vez que não se trata de Registro de Câncer de Base Populacional.
A coleta foi realizada presencialmente no Departamento de Arquivo Médico e Estatística do hospital, em espaço reservado para essa finalidade, por meio de formulário estruturado desenvolvido pelos pesquisadores e aplicado na plataforma RedCap®, com armazenamento em servidor da Sociedade Brasileira de Cabeça e Pescoço. As variáveis avaliadas incluíram sexo, faixa etária, etnia, renda mensal, escolaridade, ocupação, estado civil, história familiar de câncer de tireoide, história pessoal de outros tipos de câncer, procedência geográfica de residência e estadiamento por faixa etária. A análise estatística foi conduzida no softwareSPSS®v20.0, por meio da distribuição de frequências absolutas (n) e relativas (%).
Adicionalmente, com base no endereço de residência dos pacientes (considerado como procedência), realizou-se o georreferenciamento por meio da plotagem em mapa temático, utilizando a base cartográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a projeção SIRGAS 2000 (EPSG 4674). Inicialmente, representou-se a procedência dos pacientes no estado do Pará e, em um segundo momento, analisou-se a distribuição daqueles oriundos da Região Metropolitana de Belém.
O estudo seguiu os preceitos da Declaração de Helsinque e a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Ophir Loyola, sob o parecer nº 6.219.563. Todos os dados foram utilizados de forma confidencial, garantindo o anonimato dos participantes, com armazenamento por cinco anos, conforme as normas vigentes, e posterior descarte.
RESULTADOS
Dos 529 prontuários analisados, a maioria dos pacientes era do sexo feminino (n = 447; 84,5%), com média de idade de 45,3 anos. A faixa etária predominante foi 40-49 anos (25,1%), seguida de 30-39 anos (23,1%) e 50-59 anos (20,2%). Quanto à raça/cor, 31,6% declararam-se brancos, 18,5% pardos e 5,3% negros, enquanto em 21,6% não havia informação registrada. Em relação ao estado civil, 42,5% eram casados e 34,6% solteiros (Tabela 1).
Sobre a escolaridade, 27,2% dos pacientes possuíam ensino fundamental incompleto e 25,1% possuíam ensino médio completo. Quanto à ocupação, destacaram-se "do lar" (23,3%) e autônomos (14,4%). Em relação à renda, 37,6% recebiam entre um e dois salários mínimos, 24,0% menos de um salário mínimo e 33,6% não informaram essa variável (Tabela 1).
Tabela 1 - Distribuição dos pacientes com câncer de tireoide, segundo características sociodemográficas, atendidos no Hospital Ophir Loyola, em Belém, estado do Pará, entre 2018 e 2022
| Variável | n = 529 | % |
|---|---|---|
| Sexo | ||
| Feminino | 447 | 84,5 |
| Masculino | 82 | 15,5 |
| Faixa etária (anos) | ||
| < 20 | 8 | 1,5 |
| 20-29 | 72 | 13,6 |
| 30-39 | 122 | 23,1 |
| 40-49 | 133 | 25,1 |
| 50-59 | 107 | 20,2 |
| 60-69 | 58 | 11,0 |
| ≥ 70 | 29 | 5,5 |
| Raça/Cor | ||
| Branca | 167 | 31,6 |
| Parda | 98 | 18,5 |
| Negra | 28 | 5,3 |
| Amarela | 21 | 4,0 |
| Indígena | 101 | 19,1 |
| Sem informação | 114 | 21,6 |
| Estado civil | ||
| Casado(a) | 225 | 42,5 |
| Solteiro(a) | 183 | 34,6 |
| União estável | 56 | 10,6 |
| Viúvo(a) | 26 | 4,9 |
| Divorciado(a) | 20 | 3,8 |
| Sem informação | 19 | 3,6 |
| Escolaridade | ||
| Não alfabetizado | 33 | 6,2 |
| Ensino fundamental incompleto | 144 | 27,2 |
| Ensino fundamental completo | 37 | 7,0 |
| Ensino médio incompleto | 32 | 6,1 |
| Ensino médio completo | 133 | 25,1 |
| Ensino superior incompleto | 25 | 4,7 |
| Ensino superior completo | 58 | 11,0 |
| Sem informação | 67 | 12,7 |
| Ocupação principal | ||
| Do lar | 123 | 23,3 |
| Autônomo(a) | 76 | 14,4 |
| Lavrador(a) | 42 | 7,9 |
| Aposentado(a) | 38 | 7,2 |
| Outras* | 192 | 36,3 |
| Sem informação | 58 | 11,0 |
| Renda mensal | ||
| < 1 salário mínimo | 127 | 24,0 |
| 1 a 2 salários mínimos | 199 | 37,6 |
| ≥ 3 salários mínimos | 25 | 4,7 |
| Sem informação | 178 | 33,6 |
* "Outras" agrupa diversas ocupações com frequência inferior a 3% cada.
No estadiamento (Tabela 2), entre pacientes com menos de 55 anos (n = 387), houve predomínio do estádio I (95,1%), seguido do estádio II (2,6%). Entre aqueles com 55 anos ou mais (n = 142), observou-se maior dispersão entre os estádios I (39,4%) e II (28,9%), com ocorrência os estádios III (9,9%), IV A (0,7%) e IV B (8,5%). Alguns prontuários não apresentavam o estadiamento de forma clara, o que impossibilitou a coleta desses dados.
Tabela 2 - Estadiamento dos pacientes com câncer de tireoide, segundo faixa etária, atendidos no Hospital Ophir Loyola, em Belém, estado do Pará, entre 2018 e 2022
| Estadiamento clínico | < 55 anos de idade | ≥ 55 anos de idade | ||
|---|---|---|---|---|
| n = 387 | % | n = 142 | % | |
| Estádio I | 368 | 95,1 | 56 | 39,4 |
| Estádio II | 10 | 2,6 | 41 | 28,9 |
| Estádio III | - | - | 14 | 9,9 |
| Estádio IV A | - | - | 1 | 0,7 |
| Estádio IV B | - | - | 12 | 8,5 |
| Sem doença no histopatológico | - | - | 13 | 9,2 |
| Sem informação | 9 | 2,3 | 5 | 3,5 |
Percentuais calculados com base nos totais por faixa etária. Sinal convencional utilizado: - dado numérico igual a zero, não resultante de arredondamento.
Quanto à procedência, 70,3% (n = 372) dos pacientes eram oriundos do interior do Pará, 23,4% (n = 124) da capital e 6,2% (n = 33) de outros estados. A análise espacial revelou maior frequência de casos na Região Metropolitana de Belém (42,1%; n = 209), seguida do Nordeste Paraense (29,8%; n = 148) (Tabela 3). A figura 1 ilustra a distribuição espacial dos casos segundo o município paraense de residência dos pacientes.
Tabela 3 - Distribuição dos pacientes com câncer de tireoide por mesorregião paraense (município de residência), atendidos no Hospital Ophir Loyola, em Belém, estado do Pará, entre 2018 e 2022
| Mesorregião | n = 496 | % |
|---|---|---|
| Metropolitana de Belém | 209 | 42,1 |
| Nordeste Paraense | 148 | 29,8 |
| Sudeste Paraense | 87 | 17,5 |
| Baixo Amazonas | 24 | 4,8 |
| Sudoeste Paraense | 18 | 3,6 |
| Marajó | 10 | 2,0 |

Figura 1 - Distribuição espacial dos casos novos de câncer de tireoide atendidos no Hospital Ophir Loyola, entre 2018 e 2022, segundo o município de residência dos pacientes no estado do Pará
O mapeamento geográfico dos casos ocorridos na Região Metropolitana de Belém evidenciou maior concentração nos municípios de Belém e Ananindeua, enquanto municípios como Benevides, Santa Bárbara do Pará, e Santa Izabel do Pará apresentaram menor número de registros (Figura 2).

Figura 2 - Distribuição espacial dos casos de câncer de tireoide atendidos no Hospital Ophir Loyola, de 2018 a 2022, segundo município de residência dos pacientes considerando Belém e região metropolitana
O histórico familiar de câncer de tireoide foi relatado por 2,3% (n = 12) dos pacientes, informação autodeclarada durante o registro em prontuário. A maioria (86,8%; n = 459) negou esse antecedente, e em 11,0% (n = 58) dos casos não havia registro da informação. A história pessoal de outro tipo de câncer foi identificada em 1,1% (n = 6) dos pacientes, estando ausente em 89,6% (n = 474).
DISCUSSÃO
A predominância de casos entre pacientes do sexo feminino, observada neste estudo, é consistente com a literatura, que descreve uma razão aproximada de 3:1 em favor das mulheres para carcinomas diferenciados13,15,16,17. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer18, em 2023, a taxa de incidência estimada para câncer de tireoide no Pará foi de 2,85/100 mil mulheres e 0,98/100 mil homens. Globalmente, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer19 reportou 615 mil casos em mulheres e 206 mil em homens, corroborando a maior incidência no sexo feminino. Esse padrão pode estar associado à influência dos hormônios sexuais femininos e de disruptores endócrinos, como os hidrocarbonetos aromáticos polialogenados, na patogênese da doença20.
Embora mais frequente em mulheres, o câncer de tireoide em homens tende a apresentar tumores de maior tamanho, maior propensão a metástases e diagnóstico em estágios avançados. Tal característica pode estar relacionada a fatores comportamentais, como menor procura por serviços de saúde e baixa adesão terapêutica, influenciados por determinantes socioculturais, contribuindo para maior mortalidade masculina (7,1%) em comparação à feminina (3,5%)21.
A maior incidência concentrou-se na faixa etária de 40-49 anos, em consonância com outros estudos22,23,24. Contudo, a mortalidade tende a se concentrar em idades mais avançadas, especialmente entre 70 e 79 anos25,26, indicando que, embora o diagnóstico ocorra em idades mais precoces, complicações e óbitos são mais comuns em idosos.
A análise da procedência evidenciou que 42,1% dos pacientes residiam na Região Metropolitana de Belém, informação obtida a partir do município de residência registrado em prontuário, e não do local de diagnóstico. A maior concentração de casos nessa área pode refletir tanto a maior densidade populacional quanto a centralização dos serviços de referência oncológica na capital. Municípios vizinhos, como Ananindeua, também apresentaram frequências elevadas devido ao acesso facilitado ao hospital. Um estudo realizado no estado do Ceará encontrou padrão semelhante, com a capital Fortaleza (9,49/100 mil habitantes) e cidades próximas registrando as maiores taxas de incidência26. Essa distribuição espacial reflete desigualdades socioespaciais associadas a fatores socioeconômicos: áreas com melhor estrutura em saúde tendem a registrar mais casos devido à maior capacidade diagnóstica, enquanto regiões distantes podem ter subnotificação.
No presente estudo, pacientes que se autodeclararam brancos foram mais numerosos (31,6%) do que pardos (18,5%), embora o IBGE reporte que 67,2% da população da Região Norte se declare parda27. Essa diferença pode ser explicada pelo elevado percentual de dados faltantes para essa variável (21,6%), seja por falha de registro ou por opção dos pacientes, ressaltando-se também que a casuística representa a população atendida em um único hospital do estado, não tendo, portanto, base populacional.
Quanto à escolaridade, embora alguns estudos sugiram maior incidência de câncer de tireoide em indivíduos com ensino médio ou superior28,29,30,31, possivelmente devido à maior vigilância médica, a amostra analisada foi composta majoritariamente por pacientes com fundamental incompleto (27,2%; n = 144) e ensino médio completo (25,1%; n = 133). Esse achado reflete o perfil sociodemográfico da população atendida pelo Hospital Ophir Loyola, predominantemente do SUS, reforçando a vulnerabilidade socioeconômica da amostra. Estudos32,33 destacam que a baixa escolaridade está associada a maiores intervalos entre consulta, diagnóstico e início do tratamento, dificultando o acesso oportuno à assistência oncológica. Nesse contexto, destaca-se a Lei nº 12.732/2012, que assegura o início do tratamento oncológico pelo SUS em até 60 dias34.
Pacientes atendidos exclusivamente pelo SUS enfrentam maiores barreiras de acesso, com tempo de espera prolongado para diagnóstico e cirurgia, o que resulta em maior volume total da tireoide e maior frequência de metástases regionais quando comparados aos atendidos por planos de saúde35. Esse cenário se relaciona ao perfil da população analisada no presente estudo, na qual mais da metade dos pacientes apresentava renda mensal ≤ 2 salários mínimos e ocupações não remuneradas ou de baixa remuneração, como trabalhadores do lar (23,3%) e autônomos (14,4%).
Apenas 12 pacientes (2,3%) relataram histórico familiar autodeclarado de câncer de tireoide. Embora esse fator seja reconhecido na literatura como um marcador de risco6,10,16,22, ele não foi frequente nesta amostra. Em contrapartida, um estudo sul-coreano reportou maior frequência desse antecedente36. No entanto, tais diferenças não devem ser interpretadas como comparáveis, dada a baixa frequência na presente amostra e as diferenças populacionais.
Como descrito em outros estudos, a maioria dos pacientes foi diagnosticada em estágios iniciais10,12,15,37. Isso se deve menos à agilidade diagnóstica e mais ao caráter indolente da neoplasia. No Brasil, a análise de 52.912 pacientes registrados no RHC, entre 2000 e 2016, mostrou 71,95% em estádio I13, semelhante aos 80,2% de estádios iniciais observados neste estudo.
O mapeamento geográfico evidenciou maior concentração de casos em áreas urbanas, notadamente em Belém e Ananindeua, enquanto municípios como Benevides, Santa Bárbara do Pará e Santa Izabel do Pará registraram menos casos. Esse padrão pode estar relacionado à proximidade de centros especializados, mas também sugere possível subnotificação em áreas periféricas e interioranas26,38.
A concentração urbana reforça a necessidade de descentralização dos serviços oncológicos. Entretanto, entraves são registrados, sobretudo em municípios de grande porte, onde a centralização compromete a eficácia do atendimento39. Para ampliar a equidade, faz-se necessário expandir a rede de diagnóstico e tratamento para regiões mais afastadas, com investimento em infraestrutura, capacitação profissional e políticas públicas voltadas ao acesso40,41.
As limitações deste estudo incluem o preenchimento incompleto dos prontuários, especialmente nas variáveis renda e etnia; o potencial sub-registro de casos; e falhas de codificação morfológica no RHC, que podem ter ocasionado a exclusão indevida de registros. Além disso, trata-se de uma série hospitalar de um único centro de tratamento e não de um Registro de Câncer de Base Populacional, de modo que os resultados refletem o perfil dos pacientes atendidos no serviço e não devem ser extrapolados como medidas de incidência ou prevalência populacional. A análise espacial realizada foi estritamente descritiva, limitando-se à procedência geográfica de residência dos pacientes, sem a aplicação de técnicas de autocorrelação ou de análise de clusters. Ainda assim, os achados são compatíveis com a literatura nacional e internacional e contribuem para o entendimento do perfil clínico-epidemiológico do câncer de tireoide no Pará.
CONCLUSÃO
Neste estudo, foi possível caracterizar o perfil clínico-epidemiológico, socioeconômico e de procedência geográfica de casos incidentes de câncer de tireoide atendidos em um hospital de referência oncológica do Pará, entre 2018 e 2022. Observou-se predominância do sexo feminino, média de idade de 45,3 anos, maior frequência de etnia branca em relação à população da região, baixa escolaridade, renda familiar de até dois salários mínimos, ausência de histórico familiar em grande parte dos pacientes e diagnóstico em estágios iniciais, achados estes consistentes com a literatura nacional e internacional. A maior concentração de casos ocorreu na Região Metropolitana de Belém, refletindo tanto a densidade populacional quanto a centralização dos serviços de referência.
Os resultados obtidos devem ser interpretados como uma série hospitalar e não como incidência ou prevalência populacional. Ainda assim, podem subsidiar o fortalecimento da rede de atenção oncológica no estado, especialmente por meio da descentralização dos serviços e da promoção da equidade no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Reforça-se, ainda, a importância de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades sociais, à ampliação da vigilância em saúde e à qualificação dos RHC, de modo a aprimorar a qualidade das informações disponíveis para a pesquisa e o planejamento em saúde.













