A Medicina de Viagem (MV) surgiu nos países europeus e na América do Norte em resposta ao crescente deslocamento de pessoas dessas regiões para áreas consideradas tropicais, e para atender às necessidades de prevenção, diagnóstico e manejo dos riscos à saúde associados às viagens.
A MV consolidou-se nas últimas décadas como uma área interdisciplinar estratégica para a saúde global, a vigilância em saúde e a prevenção de doenças. Em um contexto marcado pela intensificação da mobilidade humana, pelas migrações, pelos grandes eventos internacionais, pelas pandemias e, mais recentemente, pelos eventos climáticos extremos.
Sua prática fundamenta-se na redução dos riscos de adoecimento individual e coletivo, uma vez que desempenha importante papel nas ações de controle da importação e exportação de doenças. A MV expandiu-se progressivamente para a América Latina, acompanhando as transformações relacionadas às migrações, ao turismo e à circulação de doenças infecciosas emergentes e reemergentes1,2,3.
Dados oficiais da Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas e da IATA indicam que a demanda global por passageiros aéreos atingiu um recorde em 2024, com um aumento de 13,6% em comparação com 2023. Nesse período, o número de passageiros aéreos ultrapassou 9,5 bilhões, um recorde histórico4.
O aumento exponencial das viagens no mundo, associado à rápida circulação de pessoas entre diferentes contextos epidemiológicos, amplia o risco de disseminação de doenças infecciosas e desafia os sistemas tradicionais de vigilância (Tabela 1). Este cenário reforça o papel do viajante como sentinela epidemiológica, aspecto exemplificado pelos surtos de hantavírus entre passageiros do navio de expedição holandês Hondius e pelos casos de Ebola na República Democrática do Congo e Uganda, é evidenciada a importância da vigilância em viajantes para a identificação oportuna de ameaças sanitárias, o monitoramento da disseminação de doenças e o fortalecimento das estratégias de preparação e resposta em saúde global5,6,7,8.
Tabela 1 - Eventos associados à mobilidade humana: o papel dos viajantes como sentinelas na introdução e reintrodução de doenças infecciosas e parasitárias.
| Evento/Doença | Papel do viajante como sentinela epidemiológica | Relevância para vigilância em saúde | Referência |
|---|---|---|---|
| SARS (2003) | Viajantes internacionais contribuíram para a identificação da disseminação global inicial do SARS-CoV | Fortalecimento das medidas de vigilância aeroportuária e RSI | Wilson ME25 |
| Influenza A(H1N1)pdm09 | Casos importados em viajantes permitiram rastrear a disseminação pandêmica precoce | Ampliação da vigilância global de influenza | Centers for Disease Control and Prevention27 Brown AB, Miller C, Hamer DH, Kozarsky P, Libman M, Huits R, et al28 |
| COVID-19 | Viajantes foram fundamentais para a identificação precoce de transmissão internacional em diferentes países | Consolidação da vigilância genômica e monitoramento em fronteiras | Brown AB, Miller C, Hamer DH, Kozarsky P, Libman M, Huits R, et al28 |
| Chikungunya nas Américas | Casos em viajantes auxiliaram no reconhecimento da introdução e da circulação do vírus nas Américas | Antecipação do risco de disseminação vetorial no continente | Chaves TSS, Pellini ACG, Mascheretti M, Jahnel MT, Ribeiro AF, Rodrigues SG, et al23 |
| Zika vírus | Viajantes retornando da América do Sul contribuíram para alertas internacionais sobre transmissão e as complicações neurológicas | Expansão da vigilância para síndrome congênita associada ao Zika | European Centre for Disease Prevention and Control29 World Health Organization30 |
| Mpox (2022) | Casos identificados em viajantes permitiram identificar cadeias internacionais de transmissão | Implementação de vigilância ampliada e rastreamento de contatos | World Health Organization31 |
| Hantavirose em cruzeiro marítimo | Viajantes e tripulantes possibilitaram a detecção de evento incomum associado à mobilidade internacional | Discussão sobre RSI, evacuação e investigação em ambientes confinados | World Health Organization6 Rodriguez-Morales AJ, Mattar S, Rodríguez-Sabogal IA, Álvarez-Moreno C, Porras-Pedroza BE, Faccini-Martínez ÁA, et al7 |
| Febre amarela | Casos identificados em viajantes não vacinados funcionaram como alerta para áreas de transmissão ativa | Reforço das recomendações vacinais internacionais | Chaves TSS, Orduna T, Lepetic A, Macchi A, Verbanaz S, Risquez A, et al32 |
| Malária importada | Trabalhadores migrantes, militares e garimpeiros revelam circulação persistente em áreas fronteiriças amazônicas | Importante para vigilância de resistência e mobilidade populacional | Arisco NJ, Peterka C, Castro MC33 |
| Oropouche e Mayaro | Casos identificados em viajantes e populações móveis podem indicar expansão geográfica silenciosa | Necessidade de integração entre vigilância laboratorial e medicina de viagem | Vasconcelos PFC, Calisher CH21 Forato J, Meira CA, Claro IM, Amorim MR, Souza GF, Muraro SP, et al34 |
No Brasil, a MV surgiu no final da década de 1990, coincidindo com as reformas socioeconômicas, que contribuíram para a ampliação do acesso da população brasileira a bens de consumo, incluindo as viagens. Considerada uma área ainda jovem no Brasil, os serviços de MV estão, em sua maioria, vinculados às faculdades de medicina e aos hospitais de ensino concentrando-se predominantemente na região sudeste do Brasil9,10. Dados da Embratur e do Ministério do Turismo, registraram que mais de 57 milhões de brasileiros realizaram viagens aéreas domésticas, motivadas por turismo de lazer, negócios, eventos e ecoturismo, com crescente busca pela Amazônia, no primeiro semestre de 202511.
Na Amazônia, o conceito de viajante ultrapassa as diferentes atividades turísticas e abrange ampla diversidade de pessoas em deslocamento, incluindo trabalhadores, garimpeiros, pesquisadores, militares, migrantes, missionários e populações, cuja rotina é marcada pela mobilidade territorial e fluvial. Esses movimentos populacionais ocorrem em um contexto particular, caracterizado por elevada biodiversidade, circulação de agentes infecciosos e desigualdades no acesso aos serviços de saúde, configurando desafios específicos para a vigilância e a prevenção de doenças infecciosas e parasitárias na região.
Apesar da relevância epidemiológica da Amazônia brasileira no contexto da saúde global, não existem serviços estruturados de MV na região Norte do país, o que evidencia a necessidade de fortalecer estratégias integradas entre assistência, vigilância e pesquisa neste campo de atuação. Outro aspecto importante é que esse contexto se torna particularmente desafiador na Amazônia, região marcada por intensa mobilidade humana e transfronteiriça, fluxos migratórios, crescimento do turismo ecológico, atividades de mineração e pela implantação de grandes empreendimentos de infraestrutura, incluindo complexos hidrelétricos que atraem trabalhadores de diferentes regiões do Brasil em busca de novas oportunidades de trabalho3,12,13. Estas realidades modificam profundamente os padrões epidemiológicos dos territórios, os ecossistemas e frequentemente estão associados à dispersão e exposição a agravos infecciosos e eventos ambientais, e que representam desafios para a vigilância em saúde e a MV.
Além da reconhecida biodiversidade, a região amazônica apresenta elevada vulnerabilidade à emergência e reemergência de doenças infecciosas, fenômenos potencializados por mudanças ambientais e eventos climáticos extremos14. Nesse contexto, a MV assume papel estratégico não apenas na orientação pré e pós-viagem, mas também como ferramenta estratégica de vigilância em saúde, produção de conhecimento e fortalecimento da capacidade de resposta frente a ameaças sanitárias emergentes. Em meio a esse panorama de desafios relacionados à mobilidade de pessoas na região amazônica e para preencher esta lacuna do conhecimento, foi criado o Núcleo de Orientação ao Viajante (NOV). Implantado em outubro de 2025, o NOV representa uma iniciativa inovadora e pioneira na Amazônia. O NOV é fruto de uma cooperação técnica público-privada entre o Instituto Evandro Chagas (IEC), referência nacional em pesquisa e vigilância em saúde pública, e o Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA), instituição de ensino superior reconhecida pela excelência acadêmica e pela produção de conhecimento científico. A união dessas instituições combina expertise científica, capacidade de formação de recursos humanos e compromisso com a inovação em saúde que fortalecem os objetivos do NOV.
O NOV desenvolve suas atividades no Centro de Especialidades Médicas (CEMEC) do CESUPA, o serviço está inserido em um ambiente de formação e qualificação profissional, atuando como campo de aprendizagem para estudantes de medicina e espaço de treinamento em serviço para médicos residentes de diferentes especialidades da região. Essa integração entre assistência, ensino e vigilância fortalece a formação de recursos humanos e amplia a visibilidade da MV como área estratégica para a saúde pública regional15,16.
O NOV amplia a capacidade institucional de identificar, avaliar e responder a riscos epidemiológicos associados à mobilidade humana — um componente crítico na Amazônia, dada a intensa circulação regional, interestadual e transfronteiriça de pessoas. Ao integrar triagem clínica, aconselhamento pré-viagem, comunicação de risco e orientação individualizada, o NOV transcende o modelo tradicional de assistência ao viajante, incorporando ações voltadas à prevenção de doenças e à promoção da saúde em um contexto de crescente mobilidade humana. Essa abordagem permite antecipar riscos, qualificar a tomada de decisão para saúde dos viajantes e fortalecer a cultura da prevenção antes, durante e após os deslocamentos.
Em perspectiva mais ampla, o NOV poderá atuar como plataforma estratégica de vigilância em saúde do viajante, contribuindo para a detecção oportuna de eventos de interesse em saúde pública e para a rápida identificação de agravos emergentes e reemergentes. Seu potencial de articulação com os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) nacional e estadual, bem como com os serviços de vigilância em portos, aeroportos e fronteiras, reforça sua relevância como iniciativa inovadora na interface entre assistência, vigilância, prevenção, ensino e pesquisa em saúde.
Sua existência contribui para a prevenção da introdução e disseminação de doenças, qualifica os fluxos de informação epidemiológica, reforça a preparação e a resposta a emergências de saúde pública e fortalece a atuação do Ministério da Saúde na proteção da saúde da população brasileira e dos viajantes. A criação do NOV representa um avanço estratégico para o fortalecimento da vigilância em saúde no âmbito do SUS, em consonância com as diretrizes do Regulamento Sanitário Internacional (RSI 2005/2024), da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA/MS) e da Política Nacional de Vigilância em Saúde, reforçando a integração entre prevenção, vigilância, mobilidade humana e resposta a eventos de interesse em saúde pública17,18,19.
Além de sua atuação assistencial e de vigilância, o NOV representa espaço estratégico de ensino, pesquisa e formação de recursos humanos. Além da sua integração ao curso de Medicina, o NOV oportuniza mais um campo do conhecimento para o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGC) com o IEC e o CESUPA. Isso fortalece a abordagem de temas estratégicos, como mobilidade humana, saúde global, vigilância integrada em saúde e emergências em saúde pública. Essa integração fortalece uma iniciativa acadêmica já consolidada e contribui para a formação de profissionais melhor preparados para os desafios sanitários contemporâneos. Por seu caráter transversal e com o olhar para o futuro, o NOV apresenta potencial para consolidar-se como centro formador e difusor de práticas em MV para a região Norte do Brasil.
Nesse contexto, os viajantes amazônicos representam sentinelas epidemiológicas internas, revelando a circulação de agravos infecciosos, ambientais e ocupacionais em territórios muitas vezes invisibilizados pela vigilância convencional. A tradição científica do IEC na vigilância laboratorial de doenças infecciosas e/ou parasitárias de relevância em saúde pública reforça a importância da integração entre assistência, pesquisa e vigilância em saúde na região. A emergência e reemergência de arbovírus e zoonoses na Amazônia brasileira têm sido documentadas ao longo de décadas, em um cenário multifatorial e influenciado por mudanças ambientais, mobilidade humana, ocupação territorial e transformação dos ecossistemas20,21,22,23,24,25.
Dessa forma, o NOV surge como componente estratégico nessa complexa e instigante diversidade amazônica. Ao orientar viajantes antes e após deslocamentos, formar profissionais de saúde, estimular pesquisas aplicadas e dialogar com a vigilância epidemiológica e laboratorial já consolidadas, o NOV pode contribuir para respostas mais rápidas, qualificadas e territorialmente sensíveis.
Na Amazônia, onde os rios são vias de circulação de pessoas, as fronteiras são porosas, grandes empreendimentos atraem fluxos populacionais e eventos climáticos extremos intensificam vulnerabilidades, a MV assume papel essencial na construção de uma vigilância integrada, inovadora e culturalmente sensível , capaz de reconhecer o viajante amazônico não apenas como indivíduo em trânsito, mas também como sinalizador de riscos para a saúde coletiva.











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