<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0103-460X</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Boletim de Pneumologia Sanitária]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Bol. Pneumol. Sanit.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0103-460X</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Referência Prof. Hélio Fraga , Secretaria de Vigilância emSaúde, Ministério da Saúde]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0103-460X2004000100007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A tuberculose, o suicídio e a doutora Petitflor]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Melo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fernando Augusto Fiuza de]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Doutor em Medicina pela EPM-UNIFESP Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo Diretor do Instituto Clemente Ferreira]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>12</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>57</fpage>
<lpage>58</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-460X2004000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0103-460X2004000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0103-460X2004000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>CR&Ocirc;NICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>A tuberculose, o suic&iacute;dio e a doutora    Petitflor</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Fernando Augusto Fiuza de Melo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"> Diretor do Instituto Clemente Ferreira - Secretaria    de Estado da Sa&uacute;de de S&atilde;o Paulo - Doutor em Medicina pela EPM-UNIFESP    <br>   e-mail: <a href="mailto:fernandofiuza@terra.com.br">fernandofiuza@terra.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Percebemos que estamos maduros (aqui sem nenhuma    conota&ccedil;&atilde;o com senilidade ou envelhecimento) quando viramos av&oacute;s,    encanecemos os cabelos, atendemos o filho com a mesma idade que consultamos    a m&atilde;e pela primeira vez, somos chamados de tio por aquela jovem interessante,    nos congressos ficamos em grupo admirando a beleza das novas residentes ou quando    o diagn&oacute;stico da doen&ccedil;a que mais curtimos (no meu caso a tuberculose)    acaba sendo conclu&iacute;do mais pelo cheiro do doente e menos pelos recursos    complementares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta reflex&atilde;o inicial vem &agrave; guisa    de uma quest&atilde;o levantada por uma colega fant&aacute;stica e por quem    tenho o maior respeito e admira&ccedil;&atilde;o - a dra. Petitflor, evidentemente    um pseud&ocirc;nimo, que acrescenta mais uma vari&aacute;vel de amadurecimento,    dentre as quais enumero acima.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Petitflor &eacute; t&atilde;o quanto grande quanto    pequena. Pequena na estatura, grande pela maneira como exerce a cl&iacute;nica,    pela seriedade investiga a doen&ccedil;a, como diagnostica e trata. Grande ainda    mais, pelo respeito como aborda o doente, a ele dedicando um sentimento que    s&oacute; os grandes cl&iacute;nicos conseguem dedicar. Tal grandeza foi por    mim testemunhada nas in&uacute;meras vezes que a acompanhei atendendo seus pacientes.    Durante a consulta valoriza o doente, moderando o seu padecimento. Era rigorosa    na proped&ecirc;utica. Discutia comigo a doen&ccedil;a e suas peculiaridades    apenas depois que o mesmo se retirava da sala. Com ela vivenciei o humano da    rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-paciente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Trocamos sempre muitas mensagens, via <i>internet</i>.    D&uacute;vidas, conceitos e, principalmente, discutindo nossos casos complicados.    Numa destas, relatou-me o caso de um jovem de 17 anos, portador de uma tuberculose    pulmonar com s&eacute;rios problemas terap&ecirc;uticos. Era mais um cr&ocirc;nico    que um multirresistente, com a doen&ccedil;a e suas mazelas se arrastando por    anos, sempre com sensibilidade presente &agrave;s drogas anti-tuberculosas usuais.    Por mais que colocasse seu conhecimento e sua experi&ecirc;ncia, que n&atilde;o    s&atilde;o poucos, n&atilde;o conseguia curar o mesmo. De minha parte, tentei    orient&aacute;-la com alternativas que apliquei no trato de casos similares,    algo mais emp&iacute;rico do que resultado de evid&ecirc;ncias, pois na cl&iacute;nica,    nos casos excepcionais e dif&iacute;ceis, predomina mais a experi&ecirc;ncia    pessoal do que a evid&ecirc;ncia significativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o sei o quanto Petitflor dedicou e lutou    por um resultado favor&aacute;vel ou pelo menos para minorar o sofrimento do    jovem. Sendo quem &eacute;, com certeza deu tudo de si e quanto deve ter sido    o tudo dado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Pois bem, dia destes, recebo uma mensagem de    Petitflor me comunicando que iria abandonar a lide tisiol&oacute;gica. Era por    demais frustante e pesarosa, escreveu ela. Seu jovem paciente havia se suicidado,    cansado de esperar por uma almejada cura n&atilde;o conseguida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao ler sua mensagem, passou pelo meu pensar,    v&aacute;rios dos pacientes que acompanhei e tamb&eacute;m n&atilde;o consegui    a cura de sua consup&ccedil;&atilde;o. Meditei sobre a aten&ccedil;&atilde;o    ao paciente tuberculoso que me passaram antigos tisiologistas nos tempos pr&eacute;-quimioterapia,    onde a morte era a conclus&atilde;o natural para mais da metade dos doentes.    Imaginei tamb&eacute;m, a felicidade de viver os tempos onde a terapia anti-TB,    reduziu drasticamente o &oacute;bito, por pior que ela fosse. A oportunidade    de usar o esquema RHZ, com efic&aacute;cia acima de 95% e alta efetividade,    quando se consegue seduzir o paciente para a ades&atilde;o ao prolongado tratamento.    Para maioria dos pacientes somos magn&iacute;ficos, por cur&aacute;-los. Mas,    como Petitflor, trabalhando em refer&ecirc;ncia, acabamos por acompanhar casos    complicados e de longo curso de adoecimento. A longa dura&ccedil;&atilde;o resulta    numa tamb&eacute;m cr&ocirc;nica liga&ccedil;&atilde;o efetiva e afetiva com    o doente. Ele tem um nome, uma fam&iacute;lia, est&oacute;rias, sentimentos    diversos, alegrias de conv&iacute;vio e temores pelo porvir, al&eacute;m de    seu sofrimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Com este imaginar, sentei diante da tela do computador    e foi isso o que pude escrever:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Minha cara Petitflor:</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Suic&iacute;dios em tuberculose sempre foram    muito mais freq&uuml;entes que na popula&ccedil;&atilde;o geral. Antes da quimioterapia,    relacionavam-se estados depressivos &agrave; emerg&ecirc;ncia da doen&ccedil;a.    Na &eacute;poca rom&acirc;ntica, na verdade quando a tuberculose alcan&ccedil;ou    os mais abonados, frusta&ccedil;&otilde;es amorosas, crises econ&ocirc;micas,    abandono familiar, incapacidade de produ&ccedil;&atilde;o intelectual e temor    pela morte certa, entre outros, constitu&iacute;am fatores que favoreciam o    aparecimento ou ao agravamento da doen&ccedil;a. Hemoptises emocionais ficaram    famosas na literatura e sempre presentes nos relatos de antigos tisiologistas.    Claro que a fome e a mis&eacute;ria sempre foram as principais causas do adoecer.    Infelizmente, como diz Rosemberg, para a pobreza n&atilde;o h&aacute; lirismo,    somente o vivenciar...</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><i>Atualmente, identificam-se correla&ccedil;&otilde;es    entre estados depressivos e queda da imunidade. O teste tubercul&iacute;nico,    por exemplo, torna-se negativo nesses estados, fato j&aacute; relatado em alguns    trabalhos publicados sobre esse tema. Com a quimioterapia, algumas drogas exacerbam    estados depressivos ou psicoses latentes, como &eacute; o caso da isoniazida    e principalmente da etionamida.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>No tempo dos sanat&oacute;rios era comum o    suic&iacute;dio, da&iacute; a presen&ccedil;a de psiquiatras, psicol&oacute;gos    e terapeutas ocupacionais na equipe sanatorial.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Eu mesmo, cara Petit, quando diretor do Hospital    Mandaqui, presenciei seis suic&iacute;dios, uma m&eacute;dia de quase um por    ano, considerando que passei pouco mais de sete anos no cargo, al&eacute;m de    alguns outros em pacientes ambulatoriais, geralmente pacientes portadores de    formas cr&ocirc;nicas, multirresistentes ou graves.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Assim, sua experi&ecirc;ncia com um caso de    suic&iacute;dio, &agrave; parte a sensa&ccedil;&atilde;o de perda inusitada    e dr&aacute;stica de um paciente, habilita-a como mais uma tisiologista experimentada    e do primeiro escal&atilde;o do pa&iacute;s.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Entender o porque do fato, as influ&ecirc;ncias    de fatores psico-emocionais relacionados &agrave; cronicidade ou gravidade da    doen&ccedil;a, as interfer&ecirc;ncias medicamentosas, inclusive das altera&ccedil;&otilde;es    neuro-psiqui&aacute;tricas das novas drogas usadas em cr&ocirc;nicos, pode ser    um mote importante para espantar a inseguran&ccedil;a e o des&acirc;nimo. A    adversidade &eacute; madrasta, mas tamb&eacute;m m&atilde;e ardorosa do conhecimento.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Seja bem-vinda, minha car&iacute;ssima Petitflor,    ao Grupo dos Experimentados Tisologistas Modernos. N&atilde;o desista. Persista.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o sei se consegui influenci&aacute;-la...    mas, continuo revendo com Petitflor d&uacute;vidas, conceitos e, principalmente,    discutindo novos casos complicados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
</article>
