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<publisher-name><![CDATA[Instituto Evandro Chagas. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Ministério da Saúde]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uso abusivo de drogas: da subjetividade à legitimação através do poder psiquiátrico]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Drug abuse: from subjectivity to legitimacy through psychiatric discourse]]></article-title>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[El abuso de drogas: de la subjetividad a la legitimación a través del poder psiquiátrico]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Tecnológica Federal do Paraná Núcleo de Estudos Sociais ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Drug abuse has been considered a medical issue by practitioners of medicine since the 20th century. Several explanatory theories and practices directed at both the treatment of addicted individuals and the minimization of the damage caused by the use of such substances have been developed. However, medical discourse is still dominated by the theory that the mere use of psychoactive substances a problem, even though there have been several attempts to understand the phenomena related to the use of drugs through theoretical models associated with cultural issues. The views imposed by modern medicine continue to expand because of value judgments based on the discourse on drug abuse. In this paper, we analyze the impositions of the medical discourses on other fields of knowledge, including the social sciences and humanities, regarding the relationship between psychoactive substance use (cultural practices) and addiction (disease). We advance a thesis that the examination of drug use can and must be focused from other points of view that do not reduce the issue to the assessment of the disease but that rather analyze the relevant social and cultural issues.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[La cuestión del uso excesivo de drogas ha sido considerada por la medicina como un problema médico desde el siglo pasado. A pesar del desarrollo de teorías explicativas y prácticas dirigidas tanto al tratamiento de personas adictas, como al planteamiento que reduce al mínimo los daños causados por el uso de dichas sustancias, se observa que predomina el discurso médico. Aunque haya intentos de comprender los fenómenos relacionados con el uso de las drogas mediante modelos teóricos relacionados con cuestiones culturales, por ejemplo, vemos que el enfoque médico, a menudo erróneamente, acaba considerando el simple uso de sustancias psicoactivas como un problema. Esta relación de poder impuesta por la medicina moderna se amplía a medida que se impone un juicio de valor regido por el discurso referente al llamado uso excesivo de drogas. En este trabajo se desarrolla un análisis sobre las imposiciones de los discursos médicos a los demás campos del conocimiento, entre ellas las ciencias sociales y humanas, en cuanto a la relación entre el consumo de sustancias psicoativas (práctica cultural) y la adicción química (enfermedad). Así, desarrollamos la tesis de que el uso de drogas puede y debe analizarse desde otros puntos de vista distintos, que no lo reduzcan a la óptica de la enfermedad, pero a procesos de creación de sociabilidad.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b><font size="2" face="verdana"><a name="topo"></a>ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL       ARTICLE | ART&Iacute;CULO ORIGINAL</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Uso abusivo de drogas: da subjetividade  &agrave; legitima&ccedil;&atilde;o   atrav&eacute;s do poder psiqui&aacute;trico </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Drug abuse: from subjectivity to legitimacy through psychiatric discourse</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>El abuso de drogas: de la subjetividad a       la legitimaci&oacute;n a trav&eacute;s   del poder psiqui&aacute;trico </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Pablo Ornelas Rosa</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">N&uacute;cleo de Estudos Sociais, Universidade Tecnol&oacute;gica       Federal do     Paran&aacute;, Ponta Grossa, Paran&aacute;, Brasil </font></p>     <p><font size="2"><a href="#endereco"><font face="verdana">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia    <br>   Correspondence    <br> Direcci&oacute;n para correspondencia</font></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><b><font size="2" face="verdana">RESUMO</font></b></p>     <p><font size="2" face="verdana">A quest&atilde;o do uso abusivo de drogas tem sido assumida pela medicina   como um problema m&eacute;dico desde o s&eacute;culo passado.   Apesar do desenvolvimento de teorias explicativas e de pr&aacute;ticas direcionadas   tanto ao tratamento dos indiv&iacute;duos   dependentes como &agrave; abordagem da minimiza&ccedil;&atilde;o dos danos   provocados pelo uso de tais subst&acirc;ncias, percebemos a   hegemonia do discurso m&eacute;dico; por mais que haja tentativas de compreender   os fen&ocirc;menos relacionados ao uso de   drogas atrav&eacute;s de modelos te&oacute;ricos ligados &agrave;s quest&otilde;es   culturais, por exemplo, percebemos que a abordagem m&eacute;dica   muitas vezes acaba considerando equivocadamente o simples uso das subst&acirc;ncias   psicoativas como um problema. Esta   rela&ccedil;&atilde;o de poder imposta pela medicina moderna se amplia na medida   em que &eacute; imposto um ju&iacute;zo de valor pautado no   discurso sobre chamado uso abusivo. Neste trabalho desenvolveremos uma an&aacute;lise   sobre as imposi&ccedil;&otilde;es dos discursos   m&eacute;dicos &agrave;s demais &aacute;reas do conhecimento, dentre elas as   ci&ecirc;ncias sociais e humanas, no que se refere &agrave; rela&ccedil;&atilde;o   entre uso   de subst&acirc;ncias psicoativas (pr&aacute;tica cultural) e depend&ecirc;ncia   qu&iacute;mica (doen&ccedil;a). Assim, desenvolveremos a tese de que o uso   de drogas pode e deve ser analisado sob outros pontos de vista que n&atilde;o   o reduzem ao foco da doen&ccedil;a, mas a processos de   instaura&ccedil;&atilde;o de sociabilidades.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras-chave:</b> Transtornos Relacionados ao     Uso de Subst&acirc;ncias; Drogas   Il&iacute;citas.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Drug abuse has been considered a medical issue by practitioners of medicine   since the 20<sup>th</sup> century. Several explanatory   theories and practices directed at both the treatment of addicted individuals   and the minimization of the damage caused by   the use of such substances have been developed. However, medical discourse   is still dominated by the theory that the mere   use of psychoactive substances a problem, even though there have been several   attempts to understand the phenomena   related to the use of drugs through theoretical models associated with cultural   issues. The views imposed by modern   medicine continue to expand because of value judgments based on the discourse   on drug abuse. In this paper, we analyze   the impositions of the medical discourses on other fields of knowledge, including   the social sciences and humanities,   regarding the relationship between psychoactive substance use (cultural practices)   and addiction (disease). We advance a   thesis that the examination of drug use can and must be focused from other   points of view that do not reduce the issue to the   assessment of the disease but that rather analyze the relevant social and cultural   issues.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Keywords:</b> Substance-Related Disorders; Street Drugs.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana"><b>RESUMEN</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">La cuesti&oacute;n del uso excesivo de drogas ha sido considerada por la medicina   como un problema m&eacute;dico desde el siglo   pasado. A pesar del desarrollo de teor&iacute;as explicativas y pr&aacute;cticas   dirigidas tanto al tratamiento de personas adictas, como   al planteamiento que reduce al m&iacute;nimo los da&ntilde;os causados por   el uso de dichas sustancias, se observa que predomina el   discurso m&eacute;dico. Aunque haya intentos de comprender los fen&oacute;menos   relacionados con el uso de las drogas mediante   modelos te&oacute;ricos relacionados con cuestiones culturales, por ejemplo,   vemos que el enfoque m&eacute;dico, a menudo   err&oacute;neamente, acaba considerando el simple uso de sustancias psicoactivas   como un problema. Esta relaci&oacute;n de poder   impuesta por la medicina moderna se ampl&iacute;a a medida que se impone un   juicio de valor regido por el discurso referente al   llamado uso excesivo de drogas. En este trabajo se desarrolla un an&aacute;lisis   sobre las imposiciones de los discursos m&eacute;dicos a   los dem&aacute;s campos del conocimiento, entre ellas las ciencias sociales   y humanas, en cuanto a la relaci&oacute;n entre el consumo   de sustancias psicoativas (pr&aacute;ctica cultural) y la adicci&oacute;n qu&iacute;mica   (enfermedad). As&iacute;, desarrollamos la tesis de que el uso de   drogas puede y debe analizarse desde otros puntos de vista distintos, que no   lo reduzcan a la &oacute;ptica de la enfermedad,   pero a procesos de creaci&oacute;n de sociabilidad.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palabras clave:</b> Trastornos Relacionados con Sustancias; Drogas Il&iacute;citas. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>ENTRE VENENOS E MEDICAMENTOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Existem dois tipos de subst&acirc;ncias que, quando   introduzidos em nossos corpos por quaisquer vias &ndash;  oral,   epid&eacute;rmica, venosa, retal, intramuscular, subcut&acirc;nea  &ndash;,   podem ser assimiladas e convertidas em mat&eacute;ria para   novas c&eacute;lulas, mesmo resistindo a uma assimila&ccedil;&atilde;o   imediata. Chamamos de &quot;alimentos&quot; tudo aquilo que,   introduzido em nosso corpo, &eacute; assimilado de forma   imediata, possibilitando a renova&ccedil;&atilde;o e conserva&ccedil;&atilde;o   de   nossa condi&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica. Entretanto, dentre as   subst&acirc;ncias que n&atilde;o s&atilde;o assimiladas de imediato pelo   nosso corpo, devemos distinguir dois tipos b&aacute;sicos:   aquelas que, como o cobre ou a maioria dos pl&aacute;sticos, por   exemplo, s&atilde;o expulsas intactas sem exercer efeito algum   sobre a massa corporal ou o estado de &acirc;nimo, e aquelas   que provocam uma intensa rea&ccedil;&atilde;o<Sup>6</Sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Estes segundos tipos s&atilde;o chamados de     drogas e atuam de modo not&aacute;vel, mesmo quando absorvidas em   quantidades &iacute;nfimas se comparadas &agrave;s quantidades de alimentos   ingeridas diariamente. Contudo, ainda dentro   deste grupo de subst&acirc;ncias, &eacute; preciso distinguir os   compostos que atuam somaticamente (como a cortisona,   as sulfamidas ou a penicilina) e os que atuam n&atilde;o apenas   somaticamente, mas que tamb&eacute;m provocam as nossas   emo&ccedil;&otilde;es, alterando nossos est&aacute;gios de consci&ecirc;ncia.   Segundo Escohotado<sup>6</sup>, o consumo sistem&aacute;tico de   subst&acirc;ncias psicoativas, ou seja, de subst&acirc;ncias que de   alguma forma agem no sistema nervoso, na consci&ecirc;ncia   ou na psique humana, sempre esteve presente na hist&oacute;ria   das civiliza&ccedil;&otilde;es humanas, existindo uma bibliografia   bastante extensa e diversificada que enumera as diversas   maneiras como estas subst&acirc;ncias eram colhidas,   produzidas, usadas e representadas por diferentes   sociedades ao longo de toda a hist&oacute;ria. Estes &uacute;ltimos,   considerados por diversas culturas antigas e modernas   como milagrosos, s&atilde;o, em sua maioria, parentes carnais   das subst&acirc;ncias que trocam mensagens com o sistema   nervoso (os chamados neurotransmissores), recebendo o   nome vulgar de drogas<sup>7</sup>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Chamados de drogas ou medicamentos &ndash; de acordo   com a conveni&ecirc;ncia &ndash; esses componentes podem lesar e   matar em quantidades relativamente pequenas. Eles   tamb&eacute;m podem ser chamados de venenos, j&aacute; que &eacute;   caracter&iacute;stica de todas as drogas serem t&oacute;xicas ou   venenosas. A aspirina, por exemplo, pode ser mortal para   adultos a partir de 3 g. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Certamente, o t&oacute;xico ou o veneno de uma subst&acirc;ncia   nunca ter&aacute; essa qualifica&ccedil;&atilde;o abstrata, mas as determinadas   propor&ccedil;&otilde;es usadas por e em cada indiv&iacute;duo. Por isso,   mesmo sob risco de vida utilizamos com frequ&ecirc;ncia a   aspirina, a quinina e o cianureto de pot&aacute;ssio. A propor&ccedil;&atilde;o   entre a quantidade necess&aacute;ria para se atingir o efeito   desejado (dose ativa m&eacute;dia) e a quantidade suficiente para   causar a morte (dose mortal m&eacute;dia) &eacute; denominada de   margem de seguran&ccedil;a de cada uma destas subst&acirc;ncias   chamadas de drogas ou subst&acirc;ncias psicoativas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Fundamentalmente, dentro da margem de seguran&ccedil;a, o   uso de t&oacute;xicos levanta duas quest&otilde;es: o custo dos benef&iacute;cios   e a capacidade do organismo de se adaptar ao estado de   intoxica&ccedil;&atilde;o. O custo depende dos efeitos colaterais ou   indesejados, tanto em n&iacute;vel org&acirc;nico quanto mental, pois a   capacidade do organismo de afrontar o intruso depende do   chamado fator de toler&acirc;ncia, ligado a cada composto.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A toler&acirc;ncia e o custo psicof&iacute;sico se prestam a   julgamentos subjetivos comparados &agrave; objetividade da   matem&aacute;tica da margem de seguran&ccedil;a. Ainda que as   diferen&ccedil;as individuais sejam muito importantes, n&atilde;o se   pode dizer que a margem da hero&iacute;na seja inferior a 1 por   20, do LSD a 1 por 650 e da aspirina a 1 por 15. Ao se falar   de custo, &eacute; usual sublinhar certos aspectos em detrimento   de outros, apresentando um lado do assunto como se fosse   a totalidade. Assim, por exemplo, durante d&eacute;cadas a   medicina oficial negou qualquer utilidade terap&ecirc;utica  &agrave;   coca&iacute;na devido a quadros de hiperexcita&ccedil;&atilde;o, ins&ocirc;nia   e at&eacute;   les&otilde;es cerebrais, enquanto receitava generosamente   anfetaminas como revigorantes, antidepressivos e   anorex&iacute;genos (no combate &agrave; obesidade). As anfetaminas   podem ser estimulantes consideravelmente mais custosos   que a coca&iacute;na em curto, m&eacute;dio e longo prazos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">At&eacute; meados do s&eacute;culo XX, os farmacologistas   entendiam que a familiaridade com estas subst&acirc;ncias   decorreria na diminui&ccedil;&atilde;o da intoxica&ccedil;&atilde;o, fazendo   com que   o uso mais razo&aacute;vel dos t&oacute;xicos passasse por um costume   gradativo. Entretanto, a partir da cria&ccedil;&atilde;o de leis mais   repressivas, viu-se o contr&aacute;rio, pois se deixou de   compreender que o fator de toler&acirc;ncia possu&iacute;a como   caracter&iacute;stica a capacidade de uma droga entrar em   contato com o organismo sem causar graves efeitos   nocivos &ndash; e se passou a perceber como medida apenas a   propens&atilde;o ao abuso, ou seja, deixou-se de perceber que a   frequ&ecirc;ncia no uso possibilitaria uma melhor adequa&ccedil;&atilde;o ao   organismo, entendendo agora que esta frequ&ecirc;ncia   tornaria o indiv&iacute;duo cada vez mais dependente e que   necessitaria consumir quantidades cada vez maiores da   droga para obter o mesmo efeito.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uma droga com a qual o indiv&iacute;duo pode ir se   familiarizando (com um fator de toler&acirc;ncia alto, como o   caf&eacute; ou o &aacute;lcool) apresenta riscos muito menores de   intoxica&ccedil;&atilde;o aguda do que uma droga com um fator de   toler&acirc;ncia baixo (como os barbit&uacute;ricos e outros son&iacute;feros),   cujo uso cont&iacute;nuo n&atilde;o amplia significativamente a   margem de seguran&ccedil;a. Ao mesmo tempo, &eacute; certo tamb&eacute;m   que existe a possibilidade de amplia&ccedil;&atilde;o de doses para   alcan&ccedil;ar a mesma ebriedade, meio pelo qual o risco de   intoxica&ccedil;&atilde;o aguda resvala no risco de intoxica&ccedil;&atilde;o   cr&ocirc;nica.   Entretanto, o uso cr&ocirc;nico de certas drogas &eacute; muito mais   nocivo &ndash; para o sistema nervoso, f&iacute;gado, rins, e outros &ndash; que   o uso cr&ocirc;nico de outras. Finalmente, o certo &eacute; que   cada droga apresenta um sistema particular de vantagens   e inconveni&ecirc;ncias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>DISCURSOS SOBRE AS DROGAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No decorrer da hist&oacute;ria ocidental moderna,     vimos v&aacute;rios discursos constru&iacute;dos em torno das drogas que   permitiram n&atilde;o somente a cria&ccedil;&atilde;o de leis que proibiam   o   uso de algumas destas subst&acirc;ncias e autorizavam outras,   mas tamb&eacute;m a cria&ccedil;&atilde;o dos estere&oacute;tipos dos sujeitos   envolvidos com tal consumo. Zorrilla<sup>15</sup> nos apresentou tr&ecirc;s   tipos de normativas produtoras destes estere&oacute;tipos, que   servem como fator de coes&atilde;o e de consenso em torno do   bem e do mal, no que se refere ao controle das drogas: o   discurso dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, o discurso pol&iacute;tico-jur&iacute;dico   e o discurso m&eacute;dico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O discurso dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o apresenta o   usu&aacute;rio de drogas como o &quot;drogado&quot; sempre jovem,   criando o estere&oacute;tipo cultural. Qualifica este sujeito de   viciado e ocioso, e a droga como prazer proibido, veneno   da alma ou flagelo, difundindo tamb&eacute;m o estere&oacute;tipo   moral que tem sua origem n&atilde;o apenas no discurso dos   meios de comunica&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m no discurso jur&iacute;dico   (produto da difus&atilde;o do modelo &eacute;tico-jur&iacute;dico).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Os tr&ecirc;s estere&oacute;tipos apresentados por Zorrilla<sup>15</sup>    dirigem-se fundamentalmente ao sujeito que faz uso destas   subst&acirc;ncias, refor&ccedil;ando o discurso jur&iacute;dico que designa   todas as drogas &ndash; agrupadas em estupefacientes e   psicotr&oacute;picos &ndash;, assim como quem as consome e as trafica,   como perigosas, minimizando suas importantes diferen&ccedil;as.   Ao mesmo tempo, legitima a diferen&ccedil;a entre o bem e o mal   ao declarar ilegal apenas as condutas que sejam referentes   aquelas drogas definidas por esse mesmo discurso como   ilegais<sup>14</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Zorrilla<sup>15</sup> ainda percebeu um quarto     tipo chamado de estere&oacute;tipo criminoso, presente desde o surgimento     das legisla&ccedil;&otilde;es sobre drogas, mas que atualmente se   converteu em estere&oacute;tipo pol&iacute;tico-criminoso, na medida   em que recorreu ao discurso pol&iacute;tico para legitimar-se   como discurso jur&iacute;dico (produto da difus&atilde;o do modelo   geopol&iacute;tico). Para o modelo geopol&iacute;tico, a droga &eacute;  vista   como inimiga, e o traficante &ndash; objeto central de interesse   desse discurso &ndash; como invasor, conquistador, ou mais   especificamente como narcoterrorista e narcoguerrilheiro,   apesar de o traficante poder ser n&atilde;o apenas um indiv&iacute;duo,   mas um pa&iacute;s ou uma na&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Karam<sup>12</sup>, foi a partir da guerra contra     as drogas que se adicionou &agrave; express&atilde;o &quot;tr&aacute;fico&quot; o     uso radical da   palavra inglesa <i>narcotics</i>, que, estando presente tamb&eacute;m   em outros idiomas, permitiu, ao mesmo tempo, uma   uniformiza&ccedil;&atilde;o de linguagens e uma maior carga   emocional, referida &agrave;s atividades de produ&ccedil;&atilde;o e   distribui&ccedil;&atilde;o das drogas qualificadas de il&iacute;citas. A express&atilde;o   &quot;narcotr&aacute;fico&quot; passou, ent&atilde;o, a ser acriticamente repetida   e   interiorizada, sem que se perceba &ndash; ou se queira perceber &ndash;   o descompromisso com a realidade e com a ci&ecirc;ncia   embutido em tal distorcido e funcional uso da linguagem.   Para criar o &uacute;til e exacerbado clima emocional, passa-se   tranquilamente por cima do fato de que o alvo principal da   pol&iacute;tica proibicionista era e continua sendo a coca&iacute;na, que,   como n&atilde;o se pode ignorar, n&atilde;o &eacute; um narc&oacute;tico (subst&acirc;ncia   psicoativa depressora do sistema nervoso), tratando-se, ao   contr&aacute;rio, de um evidente e conhecido estimulante.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O discurso pol&iacute;tico-jur&iacute;dico, mais conhecido como   geopol&iacute;tico, difundido fortemente no continente   americano a partir da d&eacute;cada de 80, concorda com a   incorpora&ccedil;&atilde;o dos postulados de Seguran&ccedil;a Nacional,   identificando quem s&atilde;o os inimigos e buscando   veementemente combat&ecirc;-los.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">J&aacute; o discurso m&eacute;dico (produto da difus&atilde;o do modelo   m&eacute;dico-sanit&aacute;rio), ao considerar o sujeito que faz uso de   subst&acirc;ncias psicoativas um &quot;drogado&quot; ou doente e a droga   um &quot;v&iacute;rus&quot;, uma &quot;epidemia&quot; ou uma  &quot;praga&quot;,   cria o   estere&oacute;tipo m&eacute;dico, mais especificamente o estere&oacute;tipo   da   depend&ecirc;ncia ou da doen&ccedil;a, centrando o problema na   sa&uacute;de p&uacute;blica. Ser&aacute; sobre o discurso m&eacute;dico, e   mais   especificamente sobre o poder m&eacute;dico e psiqui&aacute;trico,   extremamente presente no interior deste discurso, que   desenvolveremos este trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Foucault<sup>9</sup>, o poder psiqui&aacute;trico se apresenta como   um poder no qual e pelo qual a verdade n&atilde;o &eacute; posta em   jogo. Sendo assim, o saber psiqui&aacute;trico n&atilde;o tem por fun&ccedil;&atilde;o   fundamentar em verdade uma pr&aacute;tica terap&ecirc;utica, mas, em   vez disso, a de marcar, acrescentar uma marca suplementar   ao poder do psiquiatra; em outras palavras, o saber do   psiquiatra &eacute; um dos elementos pelos quais os dispositivos   organizam em torno da loucura o sobrepoder da realidade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nas sociedades tradicionais, as representa&ccedil;&otilde;es da   doen&ccedil;a acabavam se relacionando mais com as   concep&ccedil;&otilde;es do universo, dos deuses, da pessoa, das   rela&ccedil;&otilde;es dentro de uma mesma linhagem, etc. nas quais as   pr&aacute;ticas dos diagn&oacute;sticos e tratamentos acabavam   incluindo sempre elementos m&aacute;gico-religiosos: sess&otilde;es de   adivinha&ccedil;&atilde;o para a identifica&ccedil;&atilde;o das causas do   problema,   sacrif&iacute;cio aos deuses ou g&ecirc;nios, exorcismos para expulsar   da pessoa o dem&ocirc;nio ou a entidade causadora da doen&ccedil;a.   Quase sempre o terapeuta era tamb&eacute;m feiticeiro ou   sacerdote e, em certos casos, esses tr&ecirc;s sujeitos eram   considerados como igualmente capazes de tratar ou curar   as doen&ccedil;as que tanto perturbavam.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Com o desenvolvimento da medicina cient&iacute;fica   moderna, percebemos uma mudan&ccedil;a paradigm&aacute;tica   caracterizada por uma orienta&ccedil;&atilde;o crescentemente emp&iacute;rica,   pela especializa&ccedil;&atilde;o do papel do m&eacute;dico e pela busca de   um saber racional bastante sofisticado. Todas as medicinas   das sociedades antigas ou tradicionais inclu&iacute;am elementos   emp&iacute;ricos; por conseguinte, na medicina ocidental tamb&eacute;m   &eacute; poss&iacute;vel notarmos remanescentes de aspectos religiosos.   Em latim, o termo <i>professio</i>, origem da palavra profiss&atilde;o,   designando o exerc&iacute;cio da medicina, tem este sentido:   realiza uma <i>professio </i>aquele que afirma a sua f&eacute; e emite votos   ao assumir o estado eclesi&aacute;stico ou monacal<sup>1</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A doen&ccedil;a pode e deve ser definida tamb&eacute;m em termos   sociais, porque cada sociedade reconhece doen&ccedil;as   espec&iacute;ficas. As sociedades sempre buscaram desenvolver   respostas diferentes ao infort&uacute;nio que constitui a doen&ccedil;a e   as variadas formas de atendimento e tratamento dos   doentes. Entretanto, foi somente nas sociedades modernas   que a doen&ccedil;a acabou dando lugar &agrave; emerg&ecirc;ncia de   pap&eacute;is, de profiss&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es extremamente   diversificadas e complexas, como os da medicina cient&iacute;fica. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim, o estudo das intera&ccedil;&otilde;es entre os doentes e as   pessoas saud&aacute;veis comporta uma diversidade de aspectos   que nos possibilita estimar a import&acirc;ncia das atividades   fundamentadas sobre a ci&ecirc;ncia e a t&eacute;cnica nas sociedades   industriais, fazendo-nos assistir ao surgimento de uma   forma diferenciada de organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho: a da   profiss&atilde;o, acompanhada da autoridade espec&iacute;fica do   especialista. Sob esta &oacute;tica, o caso da medicina tem um   valor geral cujo alcance transcende a simples quest&atilde;o do cuidado dedicado   aos fen&ocirc;menos org&acirc;nicos<sup>1</sup>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Na medida em que foi adquirindo plena autoridade   sobre as doen&ccedil;as e monop&oacute;lio sobre seus tratamentos, a   medicina cient&iacute;fica moderna, tribut&aacute;ria do ativismo m&eacute;dico,   foi conquistando poder. A essa evolu&ccedil;&atilde;o acrescentou-se a   conquista de uma posi&ccedil;&atilde;o privilegiada, ainda hoje em   efeito, que a sociologia designou pelo termo de ascens&atilde;o   &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de profiss&atilde;o. S&atilde;o os m&eacute;dicos   que determinam   o curr&iacute;culo dos chamados estudos m&eacute;dicos e foram eles   pr&oacute;prios que redigiram os c&oacute;digos de &eacute;tica m&eacute;dica   reconhecidos pelos Estados, ou seja, eles dependem de   suas pr&oacute;prias associa&ccedil;&otilde;es (Conselhos de Medicina).   Portanto, sua regulamenta&ccedil;&atilde;o &eacute; essencialmente uma   autorregulamenta&ccedil;&atilde;o que faz com que eles imperem no   campo da sa&uacute;de, pois as outras atividades desenvolvidas,   como a dos enfermeiros e fisioterapeutas, por exemplo,   dependem diretamente da atividade m&eacute;dica e s&atilde;o   considerados de categoria inferior.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A mobiliza&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos, a sua luta coletiva, &eacute;,   portanto, tamb&eacute;m determinante: em cada circunst&acirc;ncia,   eles souberam valorizar, junto &agrave;s elites e &agrave;s camadas   populares, o progresso de seu saber, a import&acirc;ncia de seus   servi&ccedil;os e apresent&aacute;-los como superiores aos dos   concorrentes, conseguindo afast&aacute;-los ou reduzi-los a uma   posi&ccedil;&atilde;o subordinada. Por fim, resta o papel crucial do   Estado: no final do s&eacute;culo, o interesse pela sa&uacute;de da   popula&ccedil;&atilde;o o torna sens&iacute;vel &agrave;s reivindica&ccedil;&otilde;es   dos m&eacute;dicos.   Mas este interesse, por sua vez, aumenta pela percep&ccedil;&atilde;o   de que o desenvolvimento m&eacute;dico e cient&iacute;fico pode trazer   respostas eficientes.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nas sociedades industriais contempor&acirc;neas, a doen&ccedil;a   implica um contato direto com a medicina, pois consultar   um m&eacute;dico e seguir suas prescri&ccedil;&otilde;es &eacute; uma atitude   quase   que imediata de quem se percebe doente ou sente algo   diferente em seu organismo. Antes da Segunda Guerra   Mundial, o m&eacute;dico era procurado apenas em situa&ccedil;&otilde;es   consideradas graves. Entretanto, a evolu&ccedil;&atilde;o para a atual   situa&ccedil;&atilde;o de uma sociedade &quot;medicalizada&quot;  levou s&eacute;culos,   pressupondo a rejei&ccedil;&atilde;o da vis&atilde;o da doen&ccedil;a como   mal   incontorn&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A partir do s&eacute;culo XX, a no&ccedil;&atilde;o de medicaliza&ccedil;&atilde;o   da   sociedade traduz o fato de que o modelo m&eacute;dico,   fortemente marcado pelos conhecimentos psicol&oacute;gicos, se   imp&ocirc;s na defini&ccedil;&atilde;o e no tratamento de outros numerosos   problemas sociais e p&uacute;blicos contempor&acirc;neos. Conrad e Schneider<sup>5</sup>   mostraram como a designa&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas   compreendendo: alcoolismo, homossexualidade, doen&ccedil;as   mentais, abusos de crian&ccedil;as, drogas, dentre outras, foram   transferidas, ao longo do tempo, de condena&ccedil;&otilde;es   religiosas ou criminais para registros m&eacute;dicos. Assim, o que   era considerado ato conden&aacute;vel (<i>badness</i>) passou a ser   considerado como doen&ccedil;a (<i>sickness</i>). </font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Foi desta forma que o saber m&eacute;dico conquistou valor   normativo diante dos demais setores, cada vez mais   variados, da vida individual e coletiva, definindo e   avaliando n&atilde;o somente quest&otilde;es referentes &agrave; sa&uacute;de   f&iacute;sica,   mas tamb&eacute;m aos problemas sociais. Esta situa&ccedil;&atilde;o,   permeada pelo ponto de vista das rela&ccedil;&otilde;es entre os   m&eacute;dicos e os pacientes individuais, produziu como   consequ&ecirc;ncia a concep&ccedil;&atilde;o de que ser&aacute; o m&eacute;dico   quem   definir&aacute; que necessidades do doente ser&aacute; poss&iacute;vel e   leg&iacute;timo responder. Entretanto, foi exatamente esta   diferen&ccedil;a entre os saberes e as compet&ecirc;ncias   especializadas que se transformaram, concomitantemente,   em distanciamento e em domina&ccedil;&atilde;o sobre os corpos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">N&atilde;o &eacute; a primeira vez, certamente, que o corpo &eacute; objeto   de investimentos t&atilde;o imperiosos e urgentes: em qualquer   sociedade, o corpo est&aacute; preso no interior de poderes muito   apertados, que lhe imp&otilde;em limita&ccedil;&otilde;es, proibi&ccedil;&otilde;es   e   obriga&ccedil;&otilde;es. Muitas coisas, entretanto, s&atilde;o novas nessas   t&eacute;cnicas. A escala, em primeiro lugar, n&atilde;o se trata de cuidar   do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma   unidade indissoci&aacute;vel, mas de trabalh&aacute;-lo detalhadamente;   de exercer sobre ele uma coer&ccedil;&atilde;o sem folga, de mant&ecirc;-lo   ao n&iacute;vel mesmo da mec&acirc;nica &ndash; movimentos, gestos, atitude,   rapidez: poder infinit&eacute;sima sobre o corpo ativo<sup>5</sup>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>A NO&Ccedil;&Atilde;O DE USO ABUSIVO DE DROGAS   NA MEDICINA</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A quest&atilde;o referente ao uso abusivo de subst&acirc;ncias   psicoativas tem sido assumida pela medicina como um   problema m&eacute;dico desde o s&eacute;culo passado, refor&ccedil;ando a   id&eacute;ia de controle sobre os corpos, conforme as an&aacute;lises de Foucault<sup>10</sup>.   Apesar do desenvolvimento de teorias   explicativas e de pr&aacute;ticas direcionadas tanto ao tratamento   dos indiv&iacute;duos dependentes como &agrave; abordagem da   minimiza&ccedil;&atilde;o dos danos provocados pelo uso de tais   subst&acirc;ncias, percebemos a hegemonia do discurso m&eacute;dico   e psiqui&aacute;trico, que prop&otilde;e a nega&ccedil;&atilde;o da autonomia   dos   sujeitos em detrimento da id&eacute;ia de cura; por mais que haja   tentativas de compreender os fen&ocirc;menos relacionados ao   uso de drogas por meio de modelos te&oacute;ricos ligados &agrave;s   quest&otilde;es culturais, por exemplo, percebemos que a   abordagem m&eacute;dica e psiqui&aacute;trica, muitas vezes, acaba   considerando, equivocadamente, o simples uso das   subst&acirc;ncias psicoativas como um problema. Esta rela&ccedil;&atilde;o   de poder imposta pela medicina cient&iacute;fica moderna se   amplia na medida em que h&aacute; uma imposi&ccedil;&atilde;o de ju&iacute;zos   de   valor do profissional m&eacute;dico ou psiquiatra sobre o   chamado uso abusivo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao diagnosticar uma doen&ccedil;a, enfim, o m&eacute;dico   simplesmente decodifica um estado org&acirc;nico. Ao declarar   que uma pessoa est&aacute; doente, ele faz um julgamento que   transcende seu estado org&acirc;nico e que, repercutindo sobre   sua identidade, lhe determina um lugar na sociedade. Pelo   estudo das institui&ccedil;&otilde;es e profiss&otilde;es m&eacute;dicas e   de seu   funcionamento, podemos perceber, portanto, como uma   ci&ecirc;ncia, colocada diariamente em pr&aacute;tica por profissionais, interfere   na sociedade<sup>1</sup>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Assim, a utiliza&ccedil;&atilde;o do termo &quot;uso abusivo de drogas&quot;   acaba sendo bastante problem&aacute;tica na medida em que   percebemos que o ju&iacute;zo de valor est&aacute; fortemente presente   nas pr&aacute;ticas e diagn&oacute;sticos propostos pelos m&eacute;dicos, que    atribuem uma doen&ccedil;a, geralmente chamada de   depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica, &agrave;queles que muitas vezes fazem   apenas um uso eventual de subst&acirc;ncias psicoativas,   gerando uma interven&ccedil;&atilde;o na vida destes sujeitos, que   acabam sendo considerados desviantes ou problem&aacute;ticos   por n&atilde;o se adequarem a certa normalidade subjetivada   pelos pr&oacute;prios m&eacute;dicos ou psiquiatras, e legitimada pelo   poder que estes profissionais det&ecirc;m.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Quando se diagnostica que uma pessoa tem problemas   decorrentes do uso abusivo de drogas, percebe-se que a   mensura&ccedil;&atilde;o feita nesta imputa&ccedil;&atilde;o decorre, em grande   parte, de forma subjetiva, na qual o m&eacute;dico atribuiu um   problema ao sujeito a partir do que considera   (subjetivamente) simples uso ou uso abusivo e problem&aacute;tico.   Desta forma podemos reconhecer enormes equ&iacute;vocos,   pautados na cria&ccedil;&atilde;o de poss&iacute;veis problemas onde de fato   n&atilde;o existem. Os limites das medidas que distinguem um   simples uso eventual de um uso abusivo est&atilde;o centradas no   poder m&eacute;dico ou psiqui&aacute;trico, que pressup&otilde;e a   subjetividade do profissional da medicina no diagn&oacute;stico   da doen&ccedil;a chamada de depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">De forma alguma estamos querendo dizer que n&atilde;o   exista uso problem&aacute;tico de subst&acirc;ncias psicoativas.   Concordamos plenamente que existem numerosos casos   de descontrole no uso de tais subst&acirc;ncias. O que estamos   afirmando &eacute; que o termo &quot;uso abusivo de drogas&quot; possui   uma enorme lacuna, na medida em que se utiliza da   subjetividade ou do ju&iacute;zo de valor do profissional da   medicina &ndash; do m&eacute;dico ou psiqui&aacute;trico na mensura&ccedil;&atilde;o   do   que seria um simples uso eventual, de um uso abusivo de   drogas e assim, uma patologia. Al&eacute;m disso, este termo se   mostra insuficiente porque, de fato, n&atilde;o apresenta   necessariamente os sintomas sentidos pelos indiv&iacute;duos,   mas sim as representa&ccedil;&otilde;es que os m&eacute;dicos ou os   psiquiatras fazem em suas an&aacute;lises subjetivas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em toda cultura, em um determinado momento,   privilegia-se um certo n&uacute;mero de representa&ccedil;&otilde;es (que   podem ser chamadas de dominantes), em detrimento de   outras representa&ccedil;&otilde;es que nem por isso est&atilde;o ausentes,   mas   s&atilde;o marginalizadas com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s precedentes e,   algumas   delas, descartadas (definitiva ou momentaneamente), ou   seja, eliminadas do campo social atual. Toda sociedade,   toda &eacute;poca &eacute; obcecada pelo que considera causa por excel&ecirc;ncia   da doen&ccedil;a<sup>13</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como em todas as sociedades, as doen&ccedil;as, e   principalmente algumas delas, s&atilde;o interpretadas de   maneira espec&iacute;fica - estando fortemente presente no   imagin&aacute;rio coletivo, como a pr&oacute;pria associa&ccedil;&atilde;o   entre uso e   depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica nas sociedades modernas. A pr&oacute;pria   no&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;a serve tamb&eacute;m de suporte para a   express&atilde;o de cren&ccedil;as e valores mais amplos. Assim, a   interpreta&ccedil;&atilde;o coletiva da doen&ccedil;a efetua-se sempre em   termos que envolvem a sociedade, suas regras e a vis&atilde;o   que dela temos. &Eacute; desta forma que a concep&ccedil;&atilde;o que temos   de sa&uacute;de e doen&ccedil;a manifesta a nossa rela&ccedil;&atilde;o com   a ordem   social. Por isso, cada vez mais percebemos uma enorme   dificuldade em desconstruir os paradigmas t&atilde;o   consolidados da medicina cient&iacute;fica moderna, que   reivindicam e possuem a posi&ccedil;&atilde;o de deten&ccedil;&atilde;o da   maior   verdade cient&iacute;fica, no que se refere &agrave;s quest&otilde;es sobre   os   usos e/ou abusos de subst&acirc;ncias psicoativas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Bourdieu<sup>3</sup> acredita que a inova&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica n&atilde;o   ocorre sem rupturas sociais com os pressupostos em vigor   (sempre correlativos de prerrogativas e de privil&eacute;gios). O   capital cient&iacute;fico &quot;puro&quot;, ainda que esteja em conformidade   com a imagem ideal que o campo quer ter e dar de si   pr&oacute;prio, &eacute;, pelo menos na fase de acumula&ccedil;&atilde;o inicial,   mais   exposto &agrave; contesta&ccedil;&atilde;o e &agrave; cr&iacute;tica, &quot;controversial&quot;,   como   dizem os anglo-sax&otilde;es, do que o capital cient&iacute;fico   institucionalizado, e pode ocorrer, em algumas disciplinas,   que os grandes inovadores (Braudel, L&eacute;vi-Strauss, Dum&eacute;zil,   por exemplo, no caso das ci&ecirc;ncias sociais) sejam   marcados por estigmas de heresia violentamente   combatidos pela institui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Assim como &eacute; percept&iacute;vel que, nas sociedades onde   prevalece a medicina cient&iacute;fica moderna, o saber m&eacute;dico   transmite a todos os conceitos e as explica&ccedil;&otilde;es sobre a   natureza e as causas de grande parte de seus problemas,   tamb&eacute;m se torna percept&iacute;vel o fato de que as   representa&ccedil;&otilde;es criadas acerca da depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica   imputadas ao usu&aacute;rio eventual de drogas poder&atilde;o   produzir estigmas que possivelmente ser&atilde;o mais   prejudiciais do que o pr&oacute;prio uso de tais subst&acirc;ncias.   Desta forma, o poder m&eacute;dico ou psiqui&aacute;trico poder&aacute;   refor&ccedil;ar estigmas que possivelmente produzir&atilde;o efeitos   mais danosos &agrave; sa&uacute;de social do que &agrave; sa&uacute;de f&iacute;sica   dos   sujeitos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para Goffman<sup>11</sup>, &eacute; prov&aacute;vel que o indiv&iacute;duo   estigmatizado sinta que est&aacute; &quot;em exibi&ccedil;&atilde;o&quot;,   e leve sua   autoconsci&ecirc;ncia e controle sobre a impress&atilde;o que est&aacute;   causando a extremos e &aacute;reas de conduta que sup&otilde;e que os   demais n&atilde;o alcan&ccedil;am. Al&eacute;m disso, o indiv&iacute;duo   estigmatizado tamb&eacute;m poder&aacute; sentir que o esquema usual   que utilizava para a interpreta&ccedil;&atilde;o de acontecimentos   di&aacute;rios se encontrasse enfraquecido. Seus menores atos,   ele sente, podem ser avaliados como sinais de   capacidades not&aacute;veis e extraordin&aacute;rias nessas   &nbsp;circunst&acirc;ncias<sup>11</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Por mais que as abordagens das ci&ecirc;ncias humanas e   sociais busquem questionar n&atilde;o somente o poderio da   medicina cient&iacute;fica moderna no que se refere &agrave;  concep&ccedil;&atilde;o   de depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica apenas como doen&ccedil;a &ndash;   desconsiderando muitas vezes aspectos absolutamente   relevantes, tais como as pr&aacute;ticas culturais do uso de   subst&acirc;ncias psicoativas, por exemplo &ndash; mas tamb&eacute;m a   id&eacute;ia de que se deve ampliar a longevidade da vida,   deixando para segundo plano a qualidade desta   longevidade, percebemos a enorme dificuldade de   supera&ccedil;&atilde;o do conflito entre o poder m&eacute;dico e psiqui&aacute;trico   e as interpreta&ccedil;&otilde;es culturais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Foucault<sup>8</sup> n&atilde;o prop&otilde;e o conflito de uma medicina   contra outra, ou contra a medicina, por uma aus&ecirc;ncia de   medicina. O que busca &eacute; extrair da espessura do discurso   as condi&ccedil;&otilde;es de sua hist&oacute;ria. O que conta nas coisas ditas   pelas pessoas n&atilde;o &eacute; tanto o que teriam pensado aqu&eacute;m ou   al&eacute;m delas, mas o que desde o princ&iacute;pio as sistematiza,   tornando-as, pelo tempo afora, infinitivamente acess&iacute;veis a   novos discursos e abertas &agrave; tarefa de transform&aacute;-los.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">&Eacute; importante entendermos que estes conflitos     intelectuais s&atilde;o tamb&eacute;m, sempre, de algum aspecto, conflitos     de poder. Toda estrat&eacute;gia de um erudito comporta, ao mesmo tempo,   uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica (espec&iacute;fica) e uma dimens&atilde;o   cient&iacute;fica, </font><font size="2" face="verdana">e a explica&ccedil;&atilde;o   deve levar em conta, simultaneamente, esses dois aspectos. Entretanto, o peso   relativo de um e de outro varia muito segundo o campo e a posi&ccedil;&atilde;o   no campo: quanto mais os campos s&atilde;o heter&ocirc;nomos, maior &eacute; a   defasagem entre a estrutura de distribui&ccedil;&atilde;o no campo dos poderes   n&atilde;o-espec&iacute;ficos   (pol&iacute;ticos); por um lado, e por outro, a estrutura   da distribui&ccedil;&atilde;o dos poderes espec&iacute;ficos &ndash; o reconhecimento, o prest&iacute;gio cient&iacute;fico<sup>3</sup>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>CONCLUS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na atual sociedade ocidental contempor&acirc;nea   percebemos que as pol&iacute;ticas de sa&uacute;de t&ecirc;m sido orientadas   pela medicina cient&iacute;fica moderna no sentido de difundir a   informa&ccedil;&atilde;o na busca por mudan&ccedil;as de comportamento   dos indiv&iacute;duos em mat&eacute;ria de alimenta&ccedil;&atilde;o e   principalmente no consumo de &aacute;lcool, cigarro e demais   subst&acirc;ncias psicoativas tanto l&iacute;citas quanto il&iacute;citas.   Entretanto, percebemos que tais mudan&ccedil;as se tornam   objetivos bastante dif&iacute;ceis, al&eacute;m de serem violadores da   individualidade das pessoas, na medida em que imp&otilde;e um   comportamento &quot;normal&quot; ou adequado e um   comportamento &quot;desviante&quot; ou inadequado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Regras sociais s&atilde;o cria&ccedil;&otilde;es de grupos sociais   espec&iacute;ficos. As sociedades modernas n&atilde;o constituem   organiza&ccedil;&otilde;es simples em que todos concordam quanto ao   que s&atilde;o as regras e como devem ser aplicadas em   situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas. S&atilde;o, ao contr&aacute;rio,   altamente   diferenciadas ao longo de linhas de classe social, linhas   &eacute;tnicas, linhas ocupacionais e linhas culturais. Esses   grupos n&atilde;o precisam partilhar as mesmas regras e, de fato,   frequentemente n&atilde;o o fazem. Os problemas que eles   enfrentam ao lidar com o seu ambiente, a hist&oacute;ria e as   tradi&ccedil;&otilde;es que carregam consigo, todos conduzem a   evolu&ccedil;&atilde;o de diferentes conjuntos de regras. &Agrave; medida que   as regras de v&aacute;rios grupos se entrechocam e contradizem,   haver&aacute; desacordo quanto ao tipo de comportamento apropriado em qualquer   situa&ccedil;&atilde;o dada<sup>2</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">As imposi&ccedil;&otilde;es destes princ&iacute;pios permeados pela ideia   de normalidade imposta pelas regras da medicina   cient&iacute;fica moderna acabam por culpabilizar os pr&oacute;prios   indiv&iacute;duos pelos comportamentos prejudiciais &agrave; sua sa&uacute;de,   violando a liberdade de escolha das pessoas. Contudo,   temos visto que o maior interesse desta ci&ecirc;ncia, que tem   sido legitimado pelo poder m&eacute;dico e psiqui&aacute;trico, &eacute; a   longevidade da vida das pessoas e n&atilde;o a qualidade da   vida destas. Isso acaba nos demonstrando que estamos   diante de uma aus&ecirc;ncia absoluta de autonomia, situa&ccedil;&atilde;o   bastante percept&iacute;vel j&aacute; que as nossas vidas acabam sendo   controladas contemporaneamente pelo poder m&eacute;dico e   psiqui&aacute;trico atrav&eacute;s das imposi&ccedil;&otilde;es de estilos   de vida   pautados na subjetividade destes profissionais que, al&eacute;m   de prescreverem os medicamentos que acham mais   adequados para o tratamento das doen&ccedil;as f&iacute;sicas,   prescrevem normalidades na busca do tratamento do que   subjetivamente consideram &quot;doen&ccedil;as sociais&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Portanto, quando a pol&iacute;tica se torna biopol&iacute;tica e toma   a sa&uacute;de e, por extens&atilde;o, a vida como objeto de   interven&ccedil;&atilde;o preventiva total, priva-a de sua dimens&atilde;o   de   abertura, restringindo-a ao ditame do privil&eacute;gio &agrave;   longevidade biol&oacute;gica. Os mecanismos de prote&ccedil;&atilde;o e   preserva&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de passam a consistir na nega&ccedil;&atilde;o   da   vida e na sustenta&ccedil;&atilde;o da sobrevida. Para viver muito tempo,    &eacute; imprescind&iacute;vel a vigil&acirc;ncia extensiva e normalizadora   que   acaba impedindo a possibilidade de transcend&ecirc;ncia. Viver   sob a &eacute;gide biopol&iacute;tica &eacute; perpetuar a vida atrav&eacute;s   do   sacrif&iacute;cio existencial do ser vivente, reduzindo-o ao &acirc;mbito   biol&oacute;gico. Na sa&uacute;de persecut&oacute;ria, vive-se sob o primado   paradoxal da senten&ccedil;a e da condena&ccedil;&atilde;o culposa sem   delito como estrat&eacute;gia de afastamento dos riscos &agrave;   sobrevida, que, para ser mantida sob esta forma, passa a   ser achatada aos limites som&aacute;ticos ao pre&ccedil;o da nega&ccedil;&atilde;o   do mais humano que h&aacute; na vida<sup>4</sup>. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 1 Adam P, Herzlich C. Sociologia da doen&ccedil;a     e da medicina. Bauru: EDUSC; 2001.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 2 Becker H. Outsiders: estudos de sociologia     do desvio. Rio de Janeiro: J. Zahar; 2008.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 3 Bourdieu P. Os usos sociais da ci&ecirc;ncia:     por uma sociologia cl&iacute;nica do campo cient&iacute;fico. S&atilde;o     Paulo: UNESP; 2004.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 4 Castiel LD, &Aacute;lvarez-Dardet C. A sa&uacute;de     persecut&oacute;ria: os limites da responsabilidade. Rio de Janeiro: FIOCRUZ;     2007.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 5 Conrad P, Schneider JW. Deviance and medicalization:     from badness to sickness. Columbus: Merril Publishing; 1985.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 6 Escohotado A. O livro das drogas: usos e     abusos, desafios e preconceitos. S&atilde;o Paulo: Dynamis; 1997.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 7 Fiore M. Uso de drogas: controv&eacute;rsias     m&eacute;dicas e debate p&uacute;blico. Campinas: FAPESP; 2007.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">8 Foucault M. O nascimento da cl&iacute;nica.     Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria; 2004.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 9 Foucault M. O poder psiqui&aacute;trico.     S&atilde;o Paulo: M. Fontes; 2008.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 10 Foucault M. Vigiar e punir: a hist&oacute;ria     da viol&ecirc;ncia nas pris&otilde;es. Petr&oacute;polis: Vozes; 1997.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 11 Goffman E. Estigma: notas sobre a manipula&ccedil;&atilde;o     da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: J. Zahar; 1988.&nbsp; &nbsp; &nbsp;    &nbsp; &nbsp;&#091; <a href="http://74.125.155.132/scholar?q=cache:kLY7PhMCpyIJ:scholar.google.com/&hl=pt-BR&as_sdt=2000" target="_blank">Links</a> &#093;</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 12 Karam ML. Pela aboli&ccedil;&atilde;o do     sistema penal. In: Passetti E, coordenador. Curso livre de abolicionismo     penal. Rio de Janeiro: Revan; 2004.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 13 Laplantine F. Antropologia da doen&ccedil;a.     S&atilde;o Paulo: M. Fontes; 2004.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 14 Olmo R. A face oculta da droga. Rio de Janeiro:     Revan; 1990.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> 15 Zorrilla CG. Drogas y cuesti&oacute;n criminal.     In: Bergalli R, organizador. El pensamiento criminol&oacute;gico II. Bogot&aacute;:     Temis; 1983.</font><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"><b><a name="endereco"></a><a href="#topo"><img src="/img/revistas/rpas/v1n1/seta.gif" border="0"></a>Correspond&ecirc;ncia/Correspondence/Correspondencia:</b>    <br>   Pablo Ornelas Rosa    <br>   Universidade Tecnol&oacute;gica Federal do Paran&aacute;    <br>   Av. Monteiro Lobato, km 4, s/n    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Ponta Grossa-Paran&aacute;-Brasil    <br>   E-mail:<a href="mailto:pablorosa13@gmail.com">pablorosa13@gmail.com</a></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Recebido em/Received/Recibido en: 27/5/2009    <br> Aceito em/Accepted/Aceito en: 14/10/2009</font></p> <script type="text/javascript"> var gaJsHost = (("https:" == document.location.protocol) ? "https://ssl." : "http://www."); document.write(unescape("%3Cscript src='" + gaJsHost + "google-analytics.com/ga.js' type='text/javascript'%3E%3C/script%3E")); </script> <script type="text/javascript"> try { var pageTracker = _gat._getTracker("UA-7885746-4"); pageTracker._setDomainName("none"); pageTracker._setAllowLinker(true); pageTracker._trackPageview(); } catch(err) {}</script>      ]]></body><back>
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