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<journal-title><![CDATA[Boletim de Pneumologia Sanitária]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Centro de Referência Prof. Hélio Fraga , Secretaria de Vigilância emSaúde, Ministério da Saúde]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Tuberculose - Aspectos históricos, realidades, seu romantismo e transculturação]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Professor Titular de Tuberculose e Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba Membro do Comitê Técnico Científico de Assessoramento em Tuberculose do Ministério da Saúde]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Historicaly, tuberculosis verifies a singular on of cultural interaction with a variety of aspects of human revealings because it victimized, scientists, literary, poets, musicians painters, philosofers and Kings. Tuberculosis altered political ocurrences of many countries. Before the modern chemotherapy, the treatments were very extravagants, damaging, romantics and erotics. Among the sanatoriums and health resorts, for many years of hospitalization the patients were lacking in personality, being called "Hominis Sanatorialis". After the bacillus discovery by Koch, the hysteria against the sputum unchained. In the developing countries, because of the great number of the tuberculous patients, the lack of hospital beds, many of them live in poor human conditions. The doctors specialized in tuberculosis, before the modern age of chemotherapy, were idealists, and humanitarians, conforting the ill and fighting against tuberculosis with the precarius measures available. The apogee of the tuberculosis integration of the romantism ocurred on the 19th century and the first half of the 20 th century. On the contrary the hug poor human mass anonimous, the died victimized by tuberculosis, there are no description of their suffering of which only exists statiscs numbers]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Tuberculose - Aspectos    hist&oacute;ricos, realidades, seu romantismo e transcultura&ccedil;&atilde;o </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute; Rosemberg</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor Titular    de Tuberculose e Pneumologia da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas de    Sorocaba da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo.    Membro do Comit&ecirc; T&eacute;cnico Cient&iacute;fico de Assessoramento em    Tuberculose do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Jehovah te ferir&aacute;    de t&iacute;sica e de febre.    <br>   </font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deuteron&ocirc;mio.    Cap. 28. Ver. 22.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> S&oacute; se domina    completamente uma ci&ecirc;ncia, conhecendo sua hist&oacute;ria.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Augusto Comte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No curso de milhares    de anos a Tuberculose encerrou mensagem ainda n&atilde;o totalmente decifrada.    Pela sua influ&ecirc;ncia cultural, seus efeitos sobre a obra humana, suas implica&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas, sociais, econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas, constitui modelo    cient&iacute;fico peculiar. Modernamente continua causando as maiores devasta&ccedil;&otilde;es.    Seu valor epistemol&oacute;gico &eacute; imenso. Misteriosa e amea&ccedil;adora    permanece o paradigma dos temores das paix&otilde;es e dos conhecimentos humanos.    <br>   </font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">La Tuberculose.    Jacques Chretien.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1">     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Historicamente    a tuberculose constitui inusitado fen&ocirc;meno de interpenetra&ccedil;&atilde;o    cultural com diversas formas da manifesta&ccedil;&atilde;o humana, por ter vitimado    cientistas, literatos, poetas, m&uacute;sicos, pintores e monarcas, interferindo    inclusive no curso pol&iacute;tico de pa&iacute;ses. Na &eacute;poca anterior    &agrave; moderna quimioterapia os tratamentos foram bizarros, danosos, b&aacute;rbaros,    rom&acirc;nticos e er&oacute;ticos. O pneumot&oacute;rax foi o primeiro tratamento    racional. Nos sanat&oacute;rios, os dramas dos doentes, os internamentos por    longos anos despersonalizavam os pacientes, criando-se o denominado &quot;<i>Hominis    Sanatorialis</i>&quot;. Ap&oacute;s a descoberta do bacilo por Koch, criaram-se    a histeria contra o escarro e ambiente prop&iacute;cio ao charlatanismo. Nas    est&acirc;ncias climat&eacute;ricas, havia aspectos peculiares de assimila&ccedil;&atilde;o    dos t&iacute;sicos e paralelamente o desencadeamento de quadros dantescos, de    mis&eacute;ria dos doentes amontoados em verdadeiras mansardas. Os tisi&oacute;logos    dessa &eacute;poca foram her&oacute;is idealistas e humanit&aacute;rios, ajudando    os pacientes e lutando contra a doen&ccedil;a praticamente de m&atilde;os vazias.    O apogeu da integra&ccedil;&atilde;o da tuberculose no romantismo, dos dramas    e dos lirismos de tuberculosos c&eacute;lebres ocorreu no s&eacute;culo 19 e    primeira metade do s&eacute;culo 20, contrastando com a imensa massa humana    an&ocirc;nima dizimada pelo <i>Mycobacterium tuberculosis</i>, cujos sofrimentos    permaneceram ignorados restando apenas frios n&uacute;meros estat&iacute;sticos.</font></p> <hr size="1">     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SUMMARY</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Historicaly, tuberculosis    verifies a singular on of cultural interaction with a variety of aspects of    human revealings because it victimized, scientists, literary, poets, musicians    painters, philosofers and Kings. Tuberculosis altered political ocurrences of    many countries. Before the modern chemotherapy, the treatments were very extravagants,    damaging, romantics and erotics. Among the sanatoriums and health resorts, for    many years of hospitalization the patients were lacking in personality, being    called &quot;<i>Hominis Sanatorialis</i>&quot;. After the bacillus discovery by Koch,    the hysteria against the sputum unchained. In the developing countries, because    of the great number of the tuberculous patients, the lack of hospital beds,    many of them live in poor human conditions. The doctors specialized in tuberculosis,    before the modern age of chemotherapy, were idealists, and humanitarians, conforting    the ill and fighting against tuberculosis with the precarius measures available.    The apogee of the tuberculosis integration of the romantism ocurred on the 19th    century and the first half of the 20 th century. On the contrary the hug poor    human mass anonimous, the died victimized by tuberculosis, there are no description    of their suffering of which only exists statiscs numbers.</font></p> <hr size="1">     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Este artigo visa    abordar alguns aspectos hist&oacute;ricos de como foi encarada a tuberculose,    pin&ccedil;ando de um lado algumas realidades m&eacute;dico-cient&iacute;ficas,    &agrave;s vezes pitorescas, outras vezes danosas, e os dramas, trag&eacute;dias    e situa&ccedil;&otilde;es estereotipadas, com lirismo e romantismo nas sociedades    em geral. Ferindo intelectuais, cientistas, literatos, poetas, artistas e as    altas classes sociais, constituiu caso inusitado de integra&ccedil;&atilde;o    em todas as formas da manifesta&ccedil;&atilde;o humana, cujo apogeu ocorreu    nos dois &uacute;ltimos s&eacute;culos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com o advento    da moderna quimioterapia, sucedeu not&aacute;vel revolu&ccedil;&atilde;o na    tuberculose. O maior impacto foi no mundo rico, onde v&aacute;rios pa&iacute;ses    chegaram ao limiar de sua elimina&ccedil;&atilde;o. Nos pa&iacute;ses em desenvolvimento,    o efeito, embora significante, foi e &eacute; bem menor, pois a doen&ccedil;a    continua sendo s&eacute;rio problema de sa&uacute;de p&uacute;blica. A tuberculose,    vitimando todas as camadas sociais, sempre feriu mais contundentemente os segmentos    pobres, e hoje, no contexto mundial, est&aacute; essencialmente confinada aos    pa&iacute;ses em desenvolvimento, onde ocorrem 95% dos casos e 98,8% da mortalidade    total. Fato marcante &eacute; que, tanto nos pa&iacute;ses ricos como nos pobres,    a tuberculose deixou de ser doen&ccedil;a das elites para continuar vitimando    os segmentos pobres da popula&ccedil;&atilde;o. Dessa forma, a tuberculose despiu-se    do seu antigo manto aristocr&aacute;tico para tornar-se essencialmente pleb&eacute;ia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De &eacute;pocas    passadas, desde a Antig&uuml;idade, a maior informa&ccedil;&atilde;o que nos    chega sobre as v&iacute;timas da tuberculose &eacute; relativa &agrave;s camadas    sociais mais altas. Como disse Marx, a hist&oacute;ria da humanidade &eacute;    a hist&oacute;ria das classes dominantes. Por isso, em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; tuberculose, sabemos muito mais dos dramas e comportamentos dos doentes    mais destacados e sua repercuss&atilde;o social na &eacute;poca considerada.    Dos milh&otilde;es de desvalidos que morreram consumidos pela tuberculose, tanto    no passado como na modernidade, praticamente nenhuma not&iacute;cia se tem relativamente    aos seus sofrimentos e dramas. Nada de lirismo, pobre n&atilde;o tem possibilidades    de ser rom&acirc;ntico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Assim, desde a    Antig&uuml;idade, como por exemplo o Egito, quase tudo que se sabe da tuberculose    refere-se aos fara&oacute;s e altos sacerdotes. Pela data&ccedil;&atilde;o com    o carbono 14, esqueletos com les&otilde;es &oacute;sseas compat&iacute;veis    com a tuberculose t&ecirc;m sido encontrados em v&aacute;rias regi&otilde;es,    sendo o mais antigo de cerca de 5.000 A.C. N&atilde;o h&aacute; todavia certeza    etiol&oacute;gica, porque, mesmo em casos com presen&ccedil;a de micobact&eacute;rias,    pode tratar-se de germes que se desenvolvem nos solos. A primeira evid&ecirc;ncia    mais segura de tuberculose constatou-se em 44 m&uacute;mias bem preservadas,    datando de 3.700 a 1.000 A.C., todas em Tebas; a maioria &eacute; da 21<sup>a</sup> dinastia    do Egito. Em muitas, as destrui&ccedil;&otilde;es e s&iacute;nfises de v&eacute;rtebras    s&atilde;o compat&iacute;veis com mal de Pott. Uma m&uacute;mia tinha o pulm&atilde;o    preservado, com les&otilde;es pleuropulmonares e sangue na traqu&eacute;ia.    Esses achados revelam que muitos fara&oacute;s foram tuberculosos e morreram    extremamente jovens. Amenophis IV e sua linda esposa Nefertiti, cujo busto de    ouro maci&ccedil;o &eacute; a maior atra&ccedil;&atilde;o do museu eg&iacute;pcio    de Berlim, morreram de tuberculose em torno de 1.300 A.C.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A primeira m&uacute;mia    pleb&eacute;ia com tuberculose foi identificada em &iacute;ndia do Peru, com    t&eacute;cnicas de biologia molecular. &Eacute; de jovem inca, cujo corpo se    mumificou espontaneamente devido &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es peculiares    do terreno. No pulm&atilde;o direito havia volumoso n&oacute;dulo hilar, contendo    bacilos com o DNA conservado. Com a amplia&ccedil;&atilde;o da PCR, identificaram-se    seq&uuml;&ecirc;ncias RFLP da inser&ccedil;&atilde;o IS 6110 espec&iacute;fica    do complexo <i>Mycobacterium tuberculosis</i>, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel saber    se era o bacilo humano ou bovino. A data&ccedil;&atilde;o constatou que a &iacute;ndia    viveu h&aacute; 1.100 A.C.; &eacute; o primeiro diagn&oacute;stico bacteriol&oacute;gico    de certeza em m&uacute;mia milenar, comprovando a exist&ecirc;ncia da tuberculose    na Am&eacute;rica, na era pr&eacute;-colombiana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dos &uacute;ltimos    s&eacute;culos bem se conhecem as repercuss&otilde;es da tuberculose nas classes    sociais mais altas e os dramas de indiv&iacute;duos que pela sua posi&ccedil;&atilde;o    e notoriedade fizeram hist&oacute;ria. Deles falaremos adiante. Em contraposi&ccedil;&atilde;o,    das multid&otilde;es populares que sofreram a tuberculose, em condi&ccedil;&otilde;es    muitas vezes abaixo da dignidade humana, quase nada foi descrito. Temos apenas    &iacute;ndices estat&iacute;sticos cujos dados s&atilde;o sempre abaixo da realidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Hordas de tuberculosos    existiram, na idade m&eacute;dia, por quase toda a Europa. Se temos conhecimento    delas &eacute; somente porque, nesse quadro epidemiol&oacute;gico, foram implicados    os monarcas crist&atilde;os, a quem por supersti&ccedil;&atilde;o religiosa    atribu&iacute;ram-se poder de cura. S&oacute; por isso sabemos que, naquela    fase medieval, havia multid&otilde;es de tuberculosos, com formas graves disseminadas    da primo-infec&ccedil;&atilde;o, com manifesta&ccedil;&otilde;es linfoganglionares    fistulizadas, as escr&oacute;fulas, que acorriam em massa, muitos, caqu&eacute;ticos,    para receber o toque encantado da medalha real (<a href="#item5">Item 5</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mais tarde, entre    o final do s&eacute;culo 18 e in&iacute;cio do 19, efetuou-se a revolu&ccedil;&atilde;o    industrial na Inglaterra, estendendo-se pela Europa. Multid&otilde;es oper&aacute;rias    concentraram-se nos maiores centros urbanos; adultos e crian&ccedil;as, laborando    15 e mais horas por dia, amontoados em mansardas, subalimentados, vivendo abaixo    da condi&ccedil;&atilde;o humana, foram vitimados aos magotes pela tuberculose,    cuja mortalidade atingiu a 800 por 100.000, e em Londres, o elevado coeficiente    de 1.100 por 100.000.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em meados do s&eacute;culo    19, operaram-se em Paris grandes reformas urbanas, promovidas pelo Bar&atilde;o    de Haussmann, sob o governo de Luis Napole&atilde;o Bonaparte. A cidade foi    embelezada com imensos jardins e largas avenidas, que hoje se admiram. Extensos    quarteir&otilde;es de casas populares foram demolidos. Multid&otilde;es imensas    de trabalhadores pobres (1 em 8 parisienses estava registrado na Ag&ecirc;ncia    de Indigentes) foram jogadas para a periferia nas piores condi&ccedil;&otilde;es    imagin&aacute;veis, em corti&ccedil;os improvisados, geralmente com uma &uacute;nica    privada, sem esgoto, para mais de 100 pessoas. Adultos e crian&ccedil;as, na    maior promiscuidade, dormiam amontoados no ch&atilde;o. Nessa massa humana,    os &oacute;bitos por tuberculose atingiam a 80% da mortalidade geral. Na segunda    metade do s&eacute;culo 19, a mortalidade tuberculosa nas capitais europ&eacute;ias    ia de 400 a 600 por 100 mil, atingindo a 30% da mortalidade geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na primeira guerra    mundial (1914-18), na Fran&ccedil;a e na Alemanha, contra&iacute;ram tuberculose    ativa, respectivamente, 80.000 e 50.000 combatentes, muitos dos quais perambulavam    pelas ruas por n&atilde;o haver m&iacute;nimas condi&ccedil;&otilde;es de hospitaliza&ccedil;&atilde;o.    Grande mortandade tuberculosa atingiu os pretos senegaleses, recrutados pela    Fran&ccedil;a para lutarem contra os alem&atilde;es. Estes contaminaram-se em    massa nas trincheiras e foram dizimados, com quadros graves de primo-infec&ccedil;&atilde;o,    com m&uacute;ltiplas adenomegalias caseosas, tor&aacute;cicas e abdominais,    das quais Borrel fez estudo que se tornou cl&aacute;ssico. Ante tantos casos    ele exclamou: &quot;il neige tuberculose&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em toda a hist&oacute;ria    das conquistas territoriais, das coloniza&ccedil;&otilde;es, onde o homem civilizado    chegou, levou tamb&eacute;m o bacilo da tuberculose, contaminando os nativos,    os quais, sem defesas imunit&aacute;rias, tiveram grandes contingentes dizimados.    Descreveram-se epis&oacute;dios semelhantes na coloniza&ccedil;&atilde;o dos    pa&iacute;ses da &Aacute;frica, &Aacute;sia, Am&eacute;rica, e Polin&eacute;sia.    Ante esse quadro repetido de forma mon&oacute;tona, Webb desenvolveu a tese    de que &quot;ante a terr&iacute;vel mortandade provocada pela tuberculose nessas    popula&ccedil;&otilde;es expostas, essa doen&ccedil;a foi um dos pontos cardeais,    como maior aliado dos civilizados nas conquistas dos povos abor&iacute;genes&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Um par&ecirc;ntesis    para lembrar que na coloniza&ccedil;&atilde;o do Brasil vieram jesu&iacute;tas    e colonos, na maioria tuberculosos, para c&aacute; atra&iacute;dos e destacados    pelos &quot;benef&iacute;cios do clima ameno&quot;. Eles contaminaram os &iacute;ndios,    tuberculisando-os em massa, na primeira fase da coloniza&ccedil;&atilde;o. Em    cartas de In&aacute;cio de Loyola (1555) e de Anchieta (1583) dirigidas ao Reino,    est&aacute; descrito que &quot;os &iacute;ndios, ao serem catequisados, adoecem    na maior parte com escarro, tosse e febre, muitos cuspindo sangue, a maioria    morrendo com deser&ccedil;&atilde;o das aldeias&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na atualidade,    na d&eacute;cada dos anos 1990, morreram de tuberculose no mundo 30 a 35 milh&otilde;es    de pessoas, n&atilde;o obstante a quimioterapia, sendo que quase todas, como    foi dito atr&aacute;s, nos pa&iacute;ses em desenvolvimento (98,8%).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De toda essa legi&atilde;o    an&ocirc;nima, n&atilde;o h&aacute; registros dos seus sofrimentos, dramas e    trag&eacute;dias. S&oacute; temos n&uacute;meros. Frias cifras.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>2. Sobre alguns    tuberculosos c&eacute;lebres</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os personagens    que viveram antes de 1840, mencionados como portadores de tuberculose, eram    na &eacute;poca chamados &quot;t&iacute;sicos&quot;. O termo tuberculose s&oacute;    foi criado em 1839, por Schoenlein, que aproveitou a raiz &quot;tub&eacute;rculo&quot;,    nome dado ao n&oacute;dulo lesional por Sylvios Deleboe em 1680.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Tuberculosos c&eacute;lebres    que figuram nas principais enciclop&eacute;dias s&atilde;o: 16 reis e imperadores,    duas rainhas, 53 com titulagem de nobreza, 101 escritores, 110 poetas, 40 cientistas,    8 fil&oacute;sofos, 16 m&uacute;sicos, 9 pintores e 9 santos cat&oacute;licos.    &Eacute; interessante destacar que grande n&uacute;mero desses t&iacute;sicos    teve laringite como complica&ccedil;&atilde;o do processo pulmonar, tendo muitos    deles morrido sufocados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Esse pequeno grupo    de 364 t&iacute;sicos amalgamou a tuberculose &agrave; hist&oacute;ria cultural    das manifesta&ccedil;&otilde;es criativas e &agrave; dramaticidade da doen&ccedil;a.    Somente alguns casos s&atilde;o aqui comentados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item21"></a>2.1.    M&eacute;dicos de renome internacional</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Come&ccedil;amos    com m&eacute;dicos famosos. Bichat, no in&iacute;cio do s&eacute;culo 19, morreu    tuberculoso com laringite sufocante. Sua contribui&ccedil;&atilde;o anatomopatol&oacute;gica    da doen&ccedil;a foi importante, sendo o primeiro a vincular definitivamente    a laringite com a t&iacute;sica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Ren&eacute; Jacinto    Te&oacute;filo Laennec contraiu a tuberculose infectando-se durante os estudos    anatomopatol&oacute;gicos, como se descrever&aacute; mais adiante. Vindo da    prov&iacute;ncia, logo tornou-se professor. Aprofundou seus estudos na cl&iacute;nica    experimental e anatomopatologia, entrando para a hist&oacute;ria como um dos    maiores tisi&oacute;logos do s&eacute;culo 19. Seu grande m&eacute;rito foi    o de dar unidade &agrave;s les&otilde;es tuberculosas, demonstrando que as diferentes    les&otilde;es, encontradas nos t&iacute;sicos, eram todas manifesta&ccedil;&otilde;es    de uma &uacute;nica doen&ccedil;a, &quot;equivalendo, por exemplo, &agrave;s    diferen&ccedil;as aparentes de um mesmo fruto, quando verde e depois maduro&quot;.    Toda a sua demonstra&ccedil;&atilde;o est&aacute; condensada no Tratado de Ausculta&ccedil;&atilde;o    Mediata, t&iacute;tulo relacionado com o estetosc&oacute;pio que inventou. Na    &eacute;poca suas id&eacute;ias foram submersas por Broussais, not&aacute;vel    orador, que sustentava a inflama&ccedil;&atilde;o como geradora de todas as    doen&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Levou mais de    um s&eacute;culo para se aceitar definitivamente a unidade das les&otilde;es    tuberculosas. No final do s&eacute;culo 19, dominava o conceito do prestigioso    Wirchow, pontificando que a t&iacute;sica tinha uma dualidade, de um lado a    componente pneum&ocirc;nica caseosa e de outro o tub&eacute;rculo, complica&ccedil;&atilde;o    gerando a expans&atilde;o tuberculosa. Esse disparate teve tal difus&atilde;o,    que Niemayer, eminente tisi&oacute;logo, chegou a dizer: &quot;o t&iacute;sico    deve resguardar-se de n&atilde;o tornar-se tuberculoso&quot;(!).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Laennec feriu-se    no polegar esquerdo durante uma aut&oacute;psia de tuberculoso; alguns dias    ap&oacute;s surgiu inflama&ccedil;&atilde;o supurada e adenite axilar. H&aacute;    portanto evid&ecirc;ncia de se tratar de complexo prim&aacute;rio. Mais tarde    desencadeou-se quadro cl&iacute;nico, com tosse, expectora&ccedil;&atilde;o    &agrave;s vezes hemopt&oacute;icas. &Eacute; de admirar que Laennec n&atilde;o    tenha dado a import&acirc;ncia devida, &quot;aceitando&quot; a tuberculose somente    no per&iacute;odo final quando voltou &agrave; sua cidade natal. Existe um &uacute;nico    quadro de Laennec, muito diferente dos divulgados; nele, ele est&aacute; com    o semblante impressionantemente magro, enrugado, pesco&ccedil;o fino &quot;nadando&quot;    dentro do colarinho de celul&oacute;ide, o qual est&aacute; no museu da Faculdade    de Medicina de Paris.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Edward Livingston    Trudeau, nos Estados Unidos, foi not&aacute;vel tisi&oacute;logo atingido pela    tuberculose, contagiado por seu irm&atilde;o. Doente j&aacute; antes da descoberta    do bacilo da tuberculose, foi viver em Andirondak Lake, onde, como recomendava-se    naquela &eacute;poca, fazia longas galopadas di&aacute;rias e ca&ccedil;ava    nas matas, com estafantes caminhadas. Usou um casar&atilde;o, n&uacute;cleo    inicial do que seria o famoso Andirondak Cottage Sanitarium, no qual foram tratados    mais de 2.000 t&iacute;sicos. Na frontada, em letras gra&uacute;das, exibia-se    o aforismo de Hip&oacute;crates: &quot;Curar &agrave;s vezes, aliviar quando    poss&iacute;vel, consolar sempre&quot;. Esse aforismo foi tamb&eacute;m a mensagem    dos primeiros congressos internacionais de tuberculose, atestando a exig&uuml;idade    da terap&ecirc;utica da &eacute;poca. Trudeau fundou o Saranac Laboratory to    Study of Tuberculosis que se tornou o mais famoso da Am&eacute;rica. Os maiores    nomes da bacteriologia e patologia ali desenvolveram investiga&ccedil;&otilde;es.    Na escola de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o que fundou formaram-se 600 especialistas.    Na auto-biografia escreve que ao receber o diagn&oacute;stico de tuberculose    pensou: &quot;fiquei siderado. Pareceu-me que o mundo subitamente ficou sombrio,    o universo perdeu todo tra&ccedil;o de luz. Estava atingido pela t&iacute;sica,    doen&ccedil;a das mais fatais que significava a morte sobre a qual jamais sonhei&quot;.    N&atilde;o obstante venceu a doen&ccedil;a que se cronificou, com a qual conviveu    at&eacute; mais de 50 anos de idade, com capacidade de trabalho e esp&iacute;rito    cient&iacute;fico para criar uma das maiores organiza&ccedil;&otilde;es de luta    contra a tuberculose. Em sua homenagem fundou-se a American Trudeau Society    que por anos foi a editora da prestigiosa revista American Review of Turberculosis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Entre outros tisi&oacute;logos    ilustres que sofreram de tuberculose cite-se Georges Canetti, cuja contribui&ccedil;&atilde;o    para o conhecimento da doen&ccedil;a, de sua imunologia, fisiopatologia, bacteriologia,    cl&iacute;nica e epidemiologia, trouxe preciosa colabora&ccedil;&atilde;o com    suas pesquisas e publica&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplos artigos e livros    t&eacute;cnicos. Figura destacada em todos os congressos e com altas fun&ccedil;&otilde;es    em &oacute;rg&atilde;os de luta antituberculose, notadamente da Uni&atilde;o    Internacional Contra a Tuberculose, erigiu-se em um dos mais altos pilares da    moderna tisiologia. Foi o idealizador, com a coopera&ccedil;&atilde;o de Rist    e Grosset, do chamado m&eacute;todo das propor&ccedil;&otilde;es para teste    da sensibilidade do <i>Mycobacterium tuberculosis</i>, difundido em todos os pa&iacute;ses,    e largamente empregado no Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Florence Nightingale,    enfermeira, contraiu tuberculose aos 30 anos e n&atilde;o obstante chegou aos    90 anos, trabalhando intensivamente. Conseguiu dar status profissional &agrave;s    enfermeiras e tornar cient&iacute;fica a enfermagem. Seu maior empreendimento    foi humanizar os hospitais onde os doentes viviam amontoados em condi&ccedil;&otilde;es    s&oacute;rdidas. Teve importante participa&ccedil;&atilde;o na luta contra a    tuberculose na Europa e na constru&ccedil;&atilde;o de hospitais espec&iacute;ficos    para os t&iacute;sicos, divulgando nos diversos pa&iacute;ses a concep&ccedil;&atilde;o    da cura sanatorial, melhorando as condi&ccedil;&otilde;es de interna&ccedil;&atilde;o    dos tuberculosos como pol&iacute;tica governamental de sa&uacute;de p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Tamb&eacute;m    sofreram de tuberculose, Chevalier Jackson, pioneiro da broncoscopia, e Ram&oacute;n    y Cajal, pr&ecirc;mio Nobel pelos seus cl&aacute;ssicos estudos de anatomia    fina do c&eacute;rebro e da degenera&ccedil;&atilde;o das fibras nervosas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>2.2. Cientistas    e literatos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Champollion -    t&iacute;sico - cr&ocirc;nico, decifrou a pedra de Rosetta descoberta no Egito    numa expedi&ccedil;&atilde;o de Napole&atilde;o, podendo hoje ser admirada no    Museu Brit&acirc;nico. Nela est&aacute; inscrito decreto de Ptolomeu V em grego,    em caracteres dem&oacute;dicos e hier&oacute;glifos. Essa circunst&acirc;ncia    facilitou a decifra&ccedil;&atilde;o da escrita eg&iacute;pcia e o conhecimento    de sua hist&oacute;ria. Os estudos consumiram 5 anos e historiadores dizem que    a faculdade de an&aacute;lise e paci&ecirc;ncia exaltada nos tuberculosos cr&ocirc;nicos    foi decisiva para o &ecirc;xito da decifra&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Braille - cego,    organista, contraiu a tuberculose e foi obrigado a permanente repouso que lhe    facultou a paci&ecirc;ncia e o tempo para criar um alfabeto com pinos salientes    para a leitura dos cegos, universalmente adotado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Priestley - na    fase mais intensa de sua t&iacute;sica acabou com a teoria do flog&iacute;stico,    descobriu e isolou o oxig&ecirc;nio. Morreu com a complica&ccedil;&atilde;o    da laringite.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dos tuberculosos    que suportaram hemoptises, febres, complica&ccedil;&otilde;es de laringite e    outros padecimentos, produzindo sem esmorecer obras para a posteridade, embora    quase todos sucumbindo precocemente, h&aacute; uma lista infinda. Sintetizando    lembraremos alguns:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Herbert Lawrence,    celebrizou-se com &quot;Os Amores de Lady Chatterley&quot;, romance que causou    esc&acirc;ndalo, sendo processado. Franz Kafka, em dois dos seus romances imprime    conota&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas com a tuberculose. &quot;O Processo&quot;    no qual o personagem central sofre a ang&uacute;stia de n&atilde;o saber de    onde e como vem a acusa&ccedil;&atilde;o, incerteza que ocorre no t&iacute;sico    com a inquieta&ccedil;&atilde;o ante a inc&oacute;gnita do futuro. &quot;A Metamorfose&quot;,    onde o personagem se transforma numa forma de batr&aacute;quio sem capacidade    de rea&ccedil;&atilde;o, como o doente ante a progress&atilde;o inexor&aacute;vel    do mal. Kafka sofreu final dram&aacute;tico, com intensa dispn&eacute;ia e dores    lacinantes; ao seu amigo Klopstok que dele cuidava, implorava inje&ccedil;&otilde;es    de morfina clamando: &quot;se voc&ecirc; n&atilde;o me mata, voc&ecirc; &eacute;    um assassino&quot;. O'Neill realizou quase toda a sua obra dram&aacute;tica,    convivendo com a tuberculose. Roland Barthes tem sua obra pontilhada por surtos    epis&oacute;dicos da t&iacute;sica. Albert Camus no romance &quot;A Peste&quot;    descreveu a invas&atilde;o de ratos que &eacute; considerada cr&iacute;tica    ao nazismo; para alguns analistas simboliza a difus&atilde;o da epidemia tuberculosa    no norte da &Aacute;frica, onde se passa a a&ccedil;&atilde;o. &Eacute; extensa    a galeria de escritores tuberculosos que em suas obras especularam sobre a doen&ccedil;a    explicitamente ou simbolicamente ou pelos personagens que criaram: Maximo Gorki,    Prosper Merim&eacute;e, Somerset Maughan, Paul Eluard, Allan Poe, Edmond Rostand    (not&oacute;rio pelo Cyrano de Bergerac e pelo L'Aiglon, filho de Napole&atilde;o,    descrevendo a dramaticidade de sua morte pela tuberculose), Alfred Musset, Henry    Murger, Thomas Mann. Sobre os tr&ecirc;s &uacute;ltimos, voltaremos nos <a href="#item9">itens    9</a> e <a href="#item13">13</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dos poetas de    renome mundial, que sofreram de tuberculose, a lista &eacute; tamb&eacute;m    extensa, mas bastar&aacute; chamar a aten&ccedil;&atilde;o para os quatro seguintes:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Shelley desesperava-se    por consumir-se na tuberculose, vendo a alegria de viver dos seus amigos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>E v&oacute;s outros,    ventos selvagens / Podeis dormir em calma / Enquanto t&atilde;o fortemente palpita/    A tormenta em meu peito?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Schiller, n&atilde;o    obstante ro&iacute;do pela tuberculose que literalmente destruiu seus pulm&otilde;es,    com otimismo exasperado cantou a &quot;Ode &agrave; alegria&quot; que a sentia    fugidia. Esses versos com sua mensagem pela confraterniza&ccedil;&atilde;o universal    foram usados por Beethoven no coral do &uacute;ltimo movimento da 9<sup>a</sup>. sinfonia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Byron, poeta ingl&ecirc;s    que tanto influiu no romantismo, sobretudo da Fran&ccedil;a, transfigurava-se    nos versos l&iacute;ricos. Al&eacute;m de outros tratamentos extravagantes submeteu-se    a incont&aacute;veis sangrias como um dos tratamentos her&oacute;icos da t&iacute;sica,    ironizando os m&eacute;dicos: &quot;n&atilde;o tendes outro rem&eacute;dio?    Morre mais gente da lanceta dos m&eacute;dicos que da lan&ccedil;a dos guerreiros&quot;.    Seu amor com Tereza Aguacciole ser&aacute; contado no <a href="#item13">item    13</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Antonio Nobre,    congenitamente inspirado, afogava-se em hemoptises, tratando-se da ilha da Madeira    at&eacute; Davos na Su&iacute;&ccedil;a. Sempre enganado pelos m&eacute;dicos,    sabia de sua morte pr&oacute;xima como deixa entrever nestes versos:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Poeta: <i>Coveiro,    meu amigo! Abre-me a cova / funda, t&atilde;o funda como o negro mar./ Eu quero    nessa recolhida cova / dormir, enfim, a noite milenar.    <br>   </i></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Coveiro:    <i>P&aacute;lido mo&ccedil;o, &oacute; meu pequeno poeta! / Doce fantasia, m&iacute;stica    vis&atilde;o! / Dize: que m&aacute;goa tr&aacute;gica e secreta / te roeu assim    depressa o cora&ccedil;&atilde;o. / Que vens pedir-nos? Paz? Consola&ccedil;&atilde;o?    / Olha que nada posso; eu sou um morto,/ Eu sou um vivo, morto de ilus&atilde;o</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Moli&eacute;re    (Jean Baptiste Poquelin) no s&eacute;culo 17 satirizava os costumes e sobretudo    os m&eacute;dicos, estes naturalmente porque n&atilde;o aliviavam os padecimentos    que a t&iacute;sica lhe infligia. A maior cr&iacute;tica sarc&aacute;stica est&aacute;    contida em sua pe&ccedil;a &quot;Le malade imaginaire&quot;. A espinafra&ccedil;&atilde;o    antol&oacute;gica est&aacute; na cena na qual cinco examinadores se revezavam    arg&uuml;indo o formando em medicina, sobre qual o tratamento da hidropisia,    da hipocondria, dor de cabe&ccedil;a, dor no peito, etc., etc. A resposta do    doutorando &eacute; invariavelmente a mesma para todos esses diferentes males,    e os examinadores em coro d&atilde;o a sua aprova&ccedil;&atilde;o. A linguagem    &eacute; um misto de franc&ecirc;s-latim grotesco. Assim para o tratamento da    hidropesia a resposta &eacute; dada:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Clisterum donare    / Postea seignare / En suita purgare</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dizem os mestres    examinadores:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Bene, bene, bene    respondere/ Dignus est intrare / In nostro docto corpo</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O exame continua,    sempre com a mesma resposta para cada mal diferente, e o candidato afirma no    final:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Resseignare, repurgare    et reclisterizare!</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A banca examinadora    aprova jubiliza exigindo um juramento:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Juras gardere    statuta/ Per facultatem prescripta,/ Cum sensu et julgamento</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Moli&eacute;re,    ele pr&oacute;prio em cena representava o formando e ao dizer Juro! com toda    a for&ccedil;a de sua voz, tem uma hemoptise. O p&uacute;blico cai na gargalhada    imaginando tratar-se de truque c&ecirc;nico. Carregado para a casa o c&eacute;lebre    dramaturgo morreu tr&ecirc;s dias, ap&oacute;s a terceira representa&ccedil;&atilde;o    da pe&ccedil;a, vitimado pela tuberculose.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Ao passar a lista    acima, ressalte-se que n&atilde;o h&aacute; mais possibilidade de surgir um    tuberculoso que marque a hist&oacute;ria da doen&ccedil;a, como no passado.    Exemplo: tivemos recentemente a tuberculose de N&eacute;lson Mandela o grande    l&iacute;der contra o apartheid na &Aacute;frica, que pela sua popularidade    mundial, se fosse h&aacute; um s&eacute;culo antes, teria capitalizado a doen&ccedil;a    aumentando-lhe a aur&eacute;ola. A poderosa trinca HRZ tirou-lhe essa chance...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Personagens c&eacute;lebres    sobre os quais pairam d&uacute;vidas quanto ao diagn&oacute;stico de tuberculose    s&atilde;o: Goethe, Descartes, Kant, Mozart, Beethoven, Rousseau, Balzac, Ana    d'&Aacute;ustria Rainha da Fran&ccedil;a, Henrique VIII da Inglaterra, Hadriano    Imperador romano, Ov&iacute;dio Publio poeta da Roma antiga.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Afinal, a literatura    mundial da segunda metade do s&eacute;culo 19 e primeira deste, coincidindo    com suas fases rom&acirc;ntica e realista, est&aacute; impregnada de tuberculose.    Escritores que n&atilde;o foram tuberculosos, descreveram e analisaram personagens    tuberculosos: os mais proeminentes, Vitor Hugo, Zola, Flaubert, Dickens e E&ccedil;a    de Queiroz. N&atilde;o h&aacute; descri&ccedil;&atilde;o mais realista de crian&ccedil;a    morrendo com meningite tuberculosa, como a de Aldous Huxley no romance &quot;Point    counter point&quot;. A palavra meningite n&atilde;o &eacute; pronunciada, por&eacute;m    &eacute; dela que se trata, pela invulgar capacidade eid&eacute;tica do Autor,    descrevendo o quadro com nitidez e profundo realismo. Entre os modernistas,    Boris Vian, franc&ecirc;s, jazzista, participante do movimento existencialista    encabe&ccedil;ado por Sartre, no seu romance &quot;L'ecume des jours&quot;,    sem citar o termo tuberculose, descreve o progresso de um nen&uacute;far que    se desenvolve nos pulm&otilde;es de uma jovem, cujos ramos e flores multicoloridas    v&atilde;o se entranhando nos alv&eacute;olos. A medida que o nen&uacute;far    cresce os sintomas respirat&oacute;rios intensificam-se e o quarto se estreita,    o teto se abaixa, tornando-se cada vez mais ex&iacute;guo, como o tempo da vida    da paciente que se encurta. De toda a literatura este romance &eacute; do maior    lirismo e dramaticidade, descrevendo a tuberculose pulmonar, por um &acirc;ngulo    surrealista.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>3. A tuberculose,    a po&eacute;tica e literatura no Brasil</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A po&eacute;tica    no Brasil por todo o tempo at&eacute; o final da primeira metade deste s&eacute;culo    est&aacute; quase toda impregnada pela tuberculose. Passa de quarenta a rela&ccedil;&atilde;o    dos vates vitimados pela tuberculose, entre os not&oacute;rios e os menos conhecidos.    A imensa maioria faleceu entre os 21 a 35 anos de idade. Eram jornalistas, advogados,    r&aacute;bulas, funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, todos bo&ecirc;mios vivendo    a noite nos bares, botequins, discutindo, bebendo e fazendo versos. Poetas pr&eacute;-rom&acirc;nticos,    rom&acirc;nticos, parnasianos e modernistas, conforme seu temperamento e evolu&ccedil;&atilde;o    da doen&ccedil;a, extravasaram seus sentimentos, uns sarc&aacute;sticos, amargos,    outros romantizando seus sofrimentos e outros ainda, fleugm&aacute;ticos, ironizando    sua sorte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Castro Alves,    baiano, com 23 anos comp&ocirc;s estes dram&aacute;ticos versos, alta madrugada,    num bar do Largo S&atilde;o Francisco, em frente &agrave; Faculdade de Direito,    em S&atilde;o Paulo:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Eu sei que vou    morrer... dentro do meu peito /um mal terr&iacute;vel me devora a vida. / Triste    Assaverus, que no fim da estrada / s&oacute; tem por bra&ccedil;os uma cruz    erguida. / Sou o cipreste qu'inda mesmo florido / Sombra da morte no ramal encerra!    / Vivo - que vaga entre o ch&atilde;o dos mortos, / Morto - entre os vivos a    vagar na Terra.</i></font></p>     <p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Aacute;lvares    de Azevedo sobre a vida que a tuberculose estava lhe roubando:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Descansem o meu    leito solit&aacute;rio / Na floresta dos homens esquecida / &Agrave; sombra    de uma cruz e escrevam nela: / Foi poeta, sonhou e amou a vida.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Casimiro de Abreu    revelou a ang&uacute;stia do futuro que o esperava:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>A febre me queima    a fonte / E dos t&uacute;mulos a aragem / Ro&ccedil;a-me a p&aacute;lida face    / Mas no del&iacute;rio e na febre / Sempre teu rosto contemplo.    <br>   </i></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Eu    sofro; o corpo padece / E minh'alma se estremece / Ouvindo o dobrar de um sino.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Raymundo Correia,    desesperado bradou:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Larga essa lira    caqu&eacute;tica! / Ouve! E desculpa esta ep&iacute;stola! / Porque antes n&atilde;o    curas h&eacute;tica, / P&uacute;stula, escr&oacute;fula e f&iacute;stula? /    Larga essa lira caqu&eacute;tica! / Ouve! E desculpa essa ep&iacute;stola!</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nenhum poeta foi    t&atilde;o amargo e sarc&aacute;stico ante a tuberculose quanto Augusto dos    Anjos. Entre muitas de suas poesias no mesmo tom pat&eacute;tico destacam-se    estas duas quadras:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Falar somente    uma linguagem rouca, / Um portugu&ecirc;s cansado e incompreens&iacute;vel,    / Vomitar o pulm&atilde;o na noite horr&iacute;vel / Em que se deita sangue    pela boca!    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </i></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Expulsar    aos bocados, a exist&ecirc;ncia / Numa bacia automata de barro / Alucinado,    vendo em cada escarro / O retrato da pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia...</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Barbosa de Freitas,    cearense, trabalhava na imprensa passando as noites na boemia. Muito jovem e    j&aacute; tuberculoso internou-se como indigente na Santa Casa de Fortaleza.    Ali morreu abandonado, achando-se sob o len&ccedil;ol, longa poesia da qual    pin&ccedil;amos estes lancinantes versos:</font></p>     <p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&Eacute; cedo    ainda, oh p&aacute;lidos coveiros! / Ainda quero beber venturas, enganos...    / Quero cantar a minha doce aurora / Que me sorri, aos meus vinte e dois anos    ! &Eacute; cedo ainda, oh p&aacute;lidos coveiros.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Este poeta plebeu    teve seu nome perpetuado em aristocr&aacute;tica rua de Fortaleza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Martins Fontes    nas tert&uacute;lias bebia por horas seguidas. Tuberculoso, foi se tratar na    Ilha da Madeira onde em dram&aacute;tica quadrinha lamentou-se:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Longe defronte    do mar / Triste, saudoso, sozinho aqui estou / Vim &agrave; Madeira buscar /    A sa&uacute;de que seu vinho me levou.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nidoval Tom&eacute;    Reis, poeta modernista desconhecido, viveu em pens&otilde;es pobres de Campos    do Jord&atilde;o, onde padeceu da doen&ccedil;a e da mis&eacute;ria; seus versos    foram amargos:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Noite alta / Outros    dormem venturosos / Eu tenso / Tusso e escarro sangue. / Os outros s&atilde;o    felizes! / Eu, caminhando para o fim da vida / Vou jogando pela boca afora /    Esponjas sanguinolentas / Dos meus apodrecidos pulm&otilde;es...</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Da longa galeria    de poetas tuberculosos da qual destacamos uns poucos exemplos, terminamos com    Manoel Bandeira, que conviveu com uma tuberculose de surtos agudos nos primeiros    anos, para depois cronificar-se e viver por mais de 80 anos. &Eacute; o exemplo    da simbiose da t&iacute;sica cr&ocirc;nica com a voca&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria.    Inicialmente tratou-se em sanat&oacute;rio da Su&iacute;&ccedil;a, onde tamb&eacute;m    esteve internado Antonio Nobre, e conviveu com Paul Eluard not&oacute;rio escritor.    Produziu in&uacute;meras poesias, comentando a doen&ccedil;a, as ang&uacute;stias,    incertezas do futuro, com tintas tristes pessimistas:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Minha respira&ccedil;&atilde;o    se faz como um gemido / J&aacute; n&atilde;o entendo a vida e se mais a aprofundo    / Mais a descompreendo e n&atilde;o lhe acho sentido    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   '- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- -    <br>   Temo a monotonia e apreendo a mudan&ccedil;a / Sinto que minha vida &eacute;    sem fim, sem objeto... / Ah, como d&oacute;i viver quando falta a esperan&ccedil;a.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Aos trinta anos    Manoel teve o &uacute;ltimo surto, estabilizando-se depois a doen&ccedil;a.    Aos poucos vai adquirindo mais confian&ccedil;a no futuro, e como ele mesmo    disse, foi depois dos 50 anos que seus horizontes se ampliaram. Embora a morte,    quase sempre estivesse presente em seus versos, passou a encarar a tuberculose    com fleugma, at&eacute; dela ironizando:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>J&aacute; fui    sacudido, forte,/ De bom aspecto, sadio /Como os rapazes do esporte / Hoje sou    l&iacute;vido e esguio / Quem me v&ecirc; pensa na morte.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O modo ir&ocirc;nico    e at&eacute; humor&iacute;stico para a tuberculose est&aacute; bem explicitado    em famoso verso sobre o tratamento com o pneumot&oacute;rax que ser&aacute;    abordado no <a href="#item8">item 8</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> V&aacute;rios    poetas n&atilde;o doentes, por&eacute;m com familiares tuberculosos, transpuseram    em versos suas preocupa&ccedil;&otilde;es com o mal. Jamil Almansur Haddad,    poeta modernista com sa&uacute;de de ferro ante os quadros que presenciou de    t&iacute;sicos, comp&ocirc;s &quot;Tuberculose galopante&quot;:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Noutros tempos    a morte / Tinha asas e voava / Hoje ela me veio / Montando um cavalo / E eu    irei na garupa / Numa viagem veloz / Putupum, putupum /    <br>   </i></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>-    - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - -    <br>   Onde eu compro a passagem / No meu leito de doente / Para o pa&iacute;s sossegado    / Pa&iacute;s louro da morte / Onde um pulm&atilde;o escavado / Serve de passaporte,    / Putupum, putupum    <br>   &Eacute; um pa&iacute;s sossegado / Que n&atilde;o tem hemoptise; / &Eacute;    uma terra decente,/ Sem escarros no ch&atilde;o,/ Putupum, putupum. Pa&iacute;s    sem suores frios, / Sem cadeiras de lona, / Sem bacilos de Koch / Putupum, putupum    / E onde o vil pneumot&oacute;rax / Por certo &eacute; ignorado &#8216; / Putupum,    putupum    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Putupum.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A &quot;Balada    do T&iacute;sico&quot; termina com simbolismos lembrando o romance de Boris    Vian j&aacute; citado:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Senhor! Piedade!    Meus pulm&otilde;es negros / Sofrem agora ang&uacute;stias tamanhas / Que eles    no seu retiro nefando / Recordam duas torvas montanhas / Que o t&uacute;nel    da amargura vai cavando.    <br>   No meu pulm&atilde;o h&aacute; jardineiros / Que, quando    chega a primavera, / Cuidam dos tr&aacute;gicos canteiros / Donde despontam    papoulas flu&iacute;dicas,/ Vermelhas rosas liquefeitas.    <br>   Sangue que n&atilde;o    te estancas! / Suor que n&atilde;o te enxugas! / Andam por meu pulm&atilde;o    milh&otilde;es de sanguessugas! / Vai prosseguindo o louco a can&ccedil;&atilde;o    otimista: / Pulm&atilde;o! Pulm&atilde;o! &Oacute; meu triste pulm&atilde;o!    / Como se o desgra&ccedil;ado tivesse pulm&atilde;o...</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na fase anterior    &agrave; quimioterapia em que viveram os poetas mencionados, a epidemia tuberculosa    minava o Pa&iacute;s, e at&eacute; os poetas da literatura de cordel dela se    ocupavam, cujos versos eram vendidos nas barracas de jornais; o exemplo abaixo    &eacute; citado ao acaso entre dezenas:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>No circo o p&uacute;blico    era multid&atilde;o / Nisso a linda trapezista despencou / Boca sangrando, estatelada    no ch&atilde;o. / O m&eacute;dico que chamavam a examinou: / &quot;&Eacute;    tuberculose que feriu o pulm&atilde;o / Fazendo nele um extenso rendado / De    cavernas, todo ornado&quot;.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o temos    conhecimento de exemplo igual ao ocorrido no Brasil, onde dezenas de poetas    tuberculosos ou n&atilde;o, tenham se servido da tuberculose para meditar sobre    sua interfer&ecirc;ncia humana, seja de forma rom&acirc;ntica, realista ou amarga.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Contrariamente    do ocorrido com os poetas, poucos prosadores nacionais foram tuberculosos. J&uacute;lio    Ribeiro, popularizado pelo romance, &quot;A carne&quot; n&atilde;o se ocupa    da doen&ccedil;a nos seus escritos. Paulo Set&uacute;bal, notabilizado pelos    livros hist&oacute;ricos, escreveu grande parte de sua obra em S&atilde;o Jos&eacute;    dos Campos, onde esteve em tratamento por longo per&iacute;odo. Agn&oacute;stico    que era, converteu-se ao catolicismo e contou-nos que isso sucedeu durante uma    semana de alta febre, tempo que levou para contar a transforma&ccedil;&atilde;o    no seu livro &quot;Confiteor&quot;. Graciliano Ramos superou parcialmente a    tuberculose, tabagista inveterado, tinha tamb&eacute;m bronquite e enfisema    e faleceu de c&acirc;ncer broncog&ecirc;nico. Nas &quot;Mem&oacute;rias do C&aacute;rcere&quot;    transfere suas rea&ccedil;&otilde;es ante a tuberculose para personagens tuberculosos    com quem conviveu na pris&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Escassa &eacute;    nossa literatura de fic&ccedil;&atilde;o, que trata da tuberculose, destacando-se    Dinah Silveira de Queiroz, que tinha tuberculose na fam&iacute;lia e Paulo Dantas    que era tuberculoso. Ambos escreveram sobre Campos do Jord&atilde;o como se    menciona no <a href="#item9">item 9</a>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item4"></a>4.    Interfer&ecirc;ncia da tuberculose na hist&oacute;ria pol&iacute;tica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Foi sugerido que    a tuberculose de Eduardo VI da Inglaterra, nos meados do s&eacute;culo 16, foi    respons&aacute;vel pela chamada guerra das rosas, porque o poder passou a ser    exercido por seu tio que exilou o futuro Henrique VII. Eduardo VI tuberculoso    morreu com 16 anos; se tivesse vivido e reinado efetivamente a guerra entre    as casas de York e Lancaster, da qual saiu arruinada toda a nobreza, n&atilde;o    teria acontecido.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na Fran&ccedil;a    sucedeu que Luis XIII e seu Primeiro Ministro Cardeal Richelieu eram tuberculosos.    O primeiro sofria epis&oacute;dios agudos que o prostravam e o retinham no leito.    Com tantas sangrias, purgativos e outros tratamentos danosos, com o ventre enorme    permanentemente inchado, relegou todas as obriga&ccedil;&otilde;es do reinado    a seu ministro Richelieu que vivia com sua t&iacute;sica cr&ocirc;nica. Especulase    que o rei n&atilde;o teria feito a alian&ccedil;a com pot&ecirc;ncias contr&aacute;rias    aos Habsbourg, como foi promovida pelo Ministro, alterando o curso dos acontecimentos    pol&iacute;ticos da &eacute;poca. Do mesmo modo argumenta-se que v&aacute;rios    acordos e manobras com outras pot&ecirc;ncias n&atilde;o teriam se efetuado.    Richelieu morreu v&aacute;rios meses antes de Luis XIII, n&atilde;o havendo    tempo nem disposi&ccedil;&atilde;o, para este de alterar o quadro pol&iacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Historiadores    tamb&eacute;m argumentam que no s&eacute;culo 18, se o primog&ecirc;nito Luis,    filho de Luis XV e pai do futuro Luis XVI n&atilde;o fosse tuberculoso, teria    vivido para assumir o trono governando de modo diferente; Maria Antonieta n&atilde;o    teria sido rainha, seu destino n&atilde;o seria tr&aacute;gico como o foi; e    a Revolu&ccedil;&atilde;o, se desencadeada, poderia ter curso diferente. Analisese    ainda outro &acirc;ngulo. Com a morte do primog&ecirc;nito de Luis XVI, seu    segundo filho, crian&ccedil;a, foi entregue pela dire&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria,    &agrave; guarda de um sapateiro, sendo depois proclamado Luis XVII pelo Conde    de Provence. Eis que ele morreu de tuberculose com 10 anos, em 1795. Embora    persistam d&uacute;vidas sobre sua identidade (que agora v&atilde;o ser derimidas    pela an&aacute;lise do DNA) especula-se que se o pequeno pr&iacute;ncipe n&atilde;o    tivesse sido vitimado pela tuberculose, os acontecimentos p&oacute;s Revolu&ccedil;&atilde;o    poderiam ter obstaculizado a ascens&atilde;o de Napole&atilde;o. Por&eacute;m    ainda perora-se que a Restaura&ccedil;&atilde;o talvez n&atilde;o tivesse ocorrido,    se o filho de Napole&atilde;o, com o t&iacute;tulo de Rei de Roma e proclamado    Napole&atilde;o II pela C&acirc;mara dos Cem Dias, n&atilde;o tivesse contra&iacute;do    tuberculose. Doente, foi levado por sua m&atilde;e Maria Lu&iacute;sa, para    a Corte de Viena, ficando vigiado e retido no Castelo de Sch&ouml;nbrun, com    o t&iacute;tulo de Duque de Reichstadt, onde foi submetido a tratamento contraproducente,    como se ver&aacute; adiante. Na pr&aacute;tica, foi assim mantido por Metternich    que manobrava para extinguir a dinastia napole&ocirc;nica. L'Aiglon, como o    apelidaram, foi vitimado por tuberculose caquetizante, morrendo sufocado devido    a traqueolaringite, aos 21 anos. Sua m&aacute;scara mortu&aacute;ria no quarto    onde faleceu no Castelo de Sch&ouml;nbrun, mostra um rosto magro apergaminhado    como se fosse um octogen&aacute;rio. Se L'Aiglon n&atilde;o tivesse sido vitimado    pela tuberculose, Luis Napole&atilde;o (Napole&atilde;o o pequeno, como Victor    Hugo o chamava) n&atilde;o teria implantado o 2.<sup>o</sup> Imp&eacute;rio. Assim    a tuberculose mudou a hist&oacute;ria, na fase de sua maior transforma&ccedil;&atilde;o    operada pela Revolu&ccedil;&atilde;o da Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na Am&eacute;rica    Latina, Simon Bol&iacute;var - &quot;El libertador&quot;, considerado um g&ecirc;nio    pol&iacute;tico-militar, foi tuberculoso desde a juventude, quando fez v&aacute;rias    curas de repouso. Conseguiu vencer a doen&ccedil;a, e embrenhar-se nas lutas    pela liberta&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses sob dom&iacute;nio espanhol.    No final as les&otilde;es quiescentes reativaram-se. Morreu em Santa Marta,    Col&ocirc;mbia. O laudo da aut&oacute;psia registra: &quot;grande cavidade no    pulm&atilde;o direito e extenso foco em vias de calcifica&ccedil;&atilde;o &agrave;    esquerda&quot;. Pobre e abandonado, tiveram que procurar at&eacute; camisa para    enterr&aacute;-lo.</font></p>     <p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; de interesse    mencionar que San-Martin, outro grande lutador pela liberta&ccedil;&atilde;o    da Am&eacute;rica espanhola, hoje venerado na Argentina, tamb&eacute;m teve    implica&ccedil;&otilde;es com a tuberculose, por&eacute;m na pessoa de sua mulher    que tratou-se na Fran&ccedil;a, l&aacute; morrendo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item5"></a>5.    O toque da realeza nos escrofulosos</b></font></p>     <p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; uma inc&oacute;gnita    como nasceu a cren&ccedil;a do poder real de curar escr&oacute;fulas, com seu    cerimonial rom&acirc;ntico-teatral.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> H&aacute; muita    probabilidade dessa taumaturgia ter sido iniciada por Clovis, Rei dos Francos,    no final do s&eacute;culo 6, ap&oacute;s converter-se ao cristianismo. Com a    finalidade de angariar maior apoio popular surgiu a id&eacute;ia de tocar com    moeda de ouro as escr&oacute;fulas dos tuberculosos, por ser a &uacute;nica    les&atilde;o exteriorizada da doen&ccedil;a, muito disseminada na Europa. O    cerimonial resultou proveitoso, transformando-se em costume e difundindo-se    entre os monarcas crist&atilde;os. Na Fran&ccedil;a, no s&eacute;culo 9 sob    os reinados de Felipe e Luis VI, quando se instituiu a frase &quot;o Rei te    toca e Deus te cura&quot;, essa pr&aacute;tica generalizou-se. Carlos II da    Inglaterra durante os 25 anos de reinado tocou 90.798 escrofulosos. Ali a doen&ccedil;a    foi batizada King's evil e na Fran&ccedil;a, mal du Roi. Esse cerimonial atingiu    o apogeu com Henrique IV na Fran&ccedil;a, que lhe imprimiu um ritual teatral    e Ricardo o Confessor, na Inglaterra. Shakespeare na trag&eacute;dia Macbeth    (que reinou no s&eacute;culo 12) menciona o poder do Rei de curar as escr&oacute;fulas,    acentuando como m&eacute;dicos estavam convictos disso, pela afirmativa do personagem    m&eacute;dico, na cena 3<sup>a</sup> do ato 4<sup>o</sup>: &quot;H&aacute; uma multid&atilde;o de    sofredores esperando sua cura (pelo Rei); sua doen&ccedil;a resiste a todas    as tentativas da arte. Em troca curam-se imediatamente, t&atilde;o sagrado &eacute;    o poder que Deus dep&ocirc;s em suas m&atilde;os&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A taumaturgia    dos Reis com o toque da moeda, tinha al&eacute;m de m&aacute;gica, uma conota&ccedil;&atilde;o    da aproxima&ccedil;&atilde;o do povo com o monarca, pois o doente, &uacute;ltimo    da escala social, era cuidado diretamente pelo Rei que detinha a autoridade    divina que Deus lhe concedia.</font></p>     <p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Acirc;ngulo a    ser ressaltado &eacute; o enorme n&uacute;mero de escrofulosos, refletindo a    epidemia tuberculosa, atingindo grandes contingentes da popula&ccedil;&atilde;o    por toda a Europa, com formas cl&iacute;nicas de primo-infec&ccedil;&atilde;o,    de dissemina&ccedil;&atilde;o linfohematog&ecirc;nica em indiv&iacute;duos sem    resist&ecirc;ncia, vivendo em precar&iacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es sociais.    As peregrina&ccedil;&otilde;es para o toque real constitu&iacute;am multid&otilde;es    de criaturas com formas extensas da doen&ccedil;a, esqu&aacute;lidas e caqu&eacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A liga&ccedil;&atilde;o    das escr&oacute;fulas com a tuberculose foi desconhecida at&eacute; Sylvius    Deleboe que em 1680, a identificou ap&oacute;s ter batizado de tub&eacute;rculo    o n&oacute;dulo encontrado nos pulm&otilde;es dos t&iacute;sicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com o tempo o    toque real nos escrofulosos foi perdendo a m&iacute;stica. No s&eacute;culo    17, Guilherme reinando no Principado de Orange, agn&oacute;stico, n&atilde;o    acreditava nessa taumaturgia. Pela press&atilde;o do povo, dos nobres e de m&eacute;dicos    teve de realizar a cerim&ocirc;nia, alterando por&eacute;m a f&oacute;rmula    por: &quot;Deus te d&ecirc; melhor sa&uacute;de e mais senso comum&quot;. Aos    poucos as moedas de ouro, muito caras, foram sendo substitu&iacute;das por outras    de prata e por fim de cobre, perdendo seu encanto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A cren&ccedil;a    da cura das escr&oacute;fulas pelo toque real durou 12 s&eacute;culos e, em    1825, fez-se o &uacute;ltimo cerimonial no dia da coroa&ccedil;&atilde;o de    Carlos X que tocou 130 escrofulosos trazidos por Dupuitren, c&eacute;lebre cirurgi&atilde;o,    amigo de Laennec.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item6"></a>6.    A tortuosa trajet&oacute;ria do tratamento da tuberculose, quando n&atilde;o    havia tratamento</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Este cap&iacute;tulo    n&atilde;o &eacute; sobre a hist&oacute;ria da terap&ecirc;utica da tuberculose.    S&atilde;o apenas citados aspectos peculiares dos tratamentos propostos at&eacute;    a descoberta do bacilo da tuberculose. Desta, at&eacute; a era quimioter&aacute;pica,    aborda-se tamb&eacute;m alguns &acirc;ngulos do pneumot&oacute;rax e da cura    sanatorial, pela universalidade que tiveram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Por quase 3 mil&ecirc;nios,    desde as primeiras refer&ecirc;ncias sobre tratamento da t&iacute;sica (civiliza&ccedil;&otilde;es    hindu e persa) passando por Hip&oacute;crates, as escolas de C&oacute;s e Cnide    na Gr&eacute;cia, depois Alexandria, Galeno em Roma, Salermo, Montpellier, a    Renascen&ccedil;a at&eacute; a primeira metade do s&eacute;culo 20, recomendou-se    repouso e alimenta&ccedil;&atilde;o, enfeixados modernamente sob a denomina&ccedil;&atilde;o    regime higienodiet&eacute;tico. Climas amenos foram recomendados, crescendo    nos &uacute;ltimos cem anos do per&iacute;odo considerado, a m&iacute;stica    do ar das montanhas. No final aumentaram as indica&ccedil;&otilde;es de helioterapia,    que j&aacute; vinham sendo feitas, sobretudo para as formas &oacute;sseas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O tratamento de    sintomas hemopt&oacute;icos perde-se na noite dos tempos. As primeiras recomenda&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o de infus&atilde;o de repolho, de p&oacute; de casca de caranguejo,    de pulm&atilde;o de raposa e de f&iacute;gado de lobo em vinho tinto... O grande    Avicena, mais rom&acirc;ntico, receitava infus&atilde;o de rosas vermelhas em    mel, administrada por via traqueal! Para as hemoptises graves Erasistrato e    Europhilus aplicavam garrotes nos bra&ccedil;os e coxas, pr&aacute;tica que    ainda eventualmente se usa para diminuir o volume de sangue de retorno. &Eacute;    estranho e mesmo inexplic&aacute;vel como esses m&eacute;dicos tiveram essa    id&eacute;ia, visto que n&atilde;o se conhecia a circula&ccedil;&atilde;o descoberta    por Harvey no in&iacute;cio do s&eacute;culo 17.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Para melhorar    a respira&ccedil;&atilde;o e a tosse cr&ocirc;nica h&aacute; receitas persas    de comer crocodilo cozido e hindus de pele de burro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Por volta de 75    D.C., Diascoride resolveu empregar resina de m&uacute;mias eg&iacute;pcias emulsionadas    quase sempre em mel. Esse tratamento, s&oacute; para pacientes muito ricos,    foi empregado por s&eacute;culos. Luis XIII e o primog&ecirc;nito de Luis XV,    foram assim tratados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Sete tipos de    tratamentos, constituindo o &quot;septeto da panacea&quot;, porque eram indicados    para todos os males, foram: sangria, purgativos, ventosas, vesicat&oacute;rios,    em&eacute;ticos, sanguessugas e clisteres. Os seis primeiros constavam do &quot;armamento    antituberculoso&quot;, de todos os centros m&eacute;dicos. A sangria, cuja t&eacute;cnica    de aplica&ccedil;&atilde;o foi estipulada por Galeno, foi fartamente praticada    at&eacute; quase o final do s&eacute;culo 19. Indicavam-se at&eacute; para os    doentes hemopt&oacute;icos, imaginando-se que retirando sangue do paciente diminuiriam    as hemoptises. Com isso os doentes tornavam-se an&ecirc;micos, debilitando-se    mais ainda. Sua voga era t&atilde;o larga que foi satirizada notadamente por    Moli&eacute;re e Byron, como exposto em outros itens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Desde Bayle e    Sydenham, que se recomendava alterar o repouso com atividades f&iacute;sicas,    exerc&iacute;cios, cavalgadas por longas horas e os doentes extenuavam-se. Livingston    Trudeau fazia extensas galopadas, com ca&ccedil;adas. Luis XIII da Fran&ccedil;a,    debilitado, com seu enorme ventre, promovia essa cavalgada que o cansava, precisando    permanecer no leito por dias. L'Aiglon, filho de Napole&atilde;o, mantido vigiado    no Castelo de Sch&ouml;nbrun, como dito atr&aacute;s, era obrigado a montar    a cavalo por muitas horas; esse estafante exerc&iacute;cio terminava com um    banho em emuls&atilde;o de tripas de porco!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A Marquesa de    Pompadour, favorita de Luis XV, na realidade, era um encanto de mulher, como    se comprova pelo magn&iacute;fico retrato pintado por Natier (Museu do Louvre).    Seu m&eacute;dico, Renait, lhe infringia tratamentos cru&eacute;is submetendo-a    a exerc&iacute;cios violentos e sangrias sucessivas; mais ameno era o leite    de jumenta como se ver&aacute; adiante. Com a morte do Rei (var&iacute;ola),    espalhou-se a not&iacute;cia de seus freq&uuml;entes escarros de sangue, sendo    enxotada de Versalhes. Seu quadro complicou-se com laringite, ficando af&ocirc;nica.    Como era h&aacute;bito, no dia de sua morte, ainda sofreu uma sangria. Finou-se    em dia chuvoso, e no enterro, al&eacute;m do sacerdote, uns tr&ecirc;s amigos    fi&eacute;is. Assim finou-se a outra poderosa quando detinha poder nas m&atilde;os.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na Alemanha, em    1650, ap&oacute;s cem anos da chegada do tabaco &agrave; Europa, Jean Neander,    c&eacute;lebre m&eacute;dico-fil&oacute;sofo, publicou alentado tratado &quot;Tabacologia&quot;,    traduzido em v&aacute;rias l&iacute;nguas, no qual s&atilde;o tratadas com sucesso    quase quatro dezenas de doen&ccedil;as por efeito do fumo. Para a t&iacute;sica    recomendou tabaco emulsionado em mel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nota a parte foram    os tratamentos rom&acirc;nticos, alguns com conota&ccedil;&otilde;es l&iacute;ricas    e outros er&oacute;ticos. Avicena e Averroes mandavam secar rosas vermelhas,    moer e espalh&aacute;-las no quarto do t&iacute;sico. Outra receita do primeiro    consistia em forrar o ch&atilde;o com p&eacute;talas de rosas, sempre vermelhas,    e ramos de plantas arom&aacute;ticas, sobre os quais o t&iacute;sico deveria    passear o maior tempo poss&iacute;vel. Galeno prop&ocirc;s aos t&iacute;sicos    viverem em quarto subterr&acirc;neo, de temperatura amena, sendo o assoalho    coberto de rosas vermelhas e pendurados no teto ramos de palmeiras misturados    com ervas coloridas arom&aacute;ticas. Na renascen&ccedil;a, m&eacute;dicos    romanos recomendavam temporadas em Veneza, com passeios di&aacute;rios de g&ocirc;ndola,    devendo o barqueiro cantar can&ccedil;&otilde;es er&oacute;ticas. Evidente,    esses tratamentos rom&acirc;nticos eram para t&iacute;sicos abastados. Nessa    linha integrou-se o leite, cuja recomenda&ccedil;&atilde;o e uso permaneceram    por quase 3 mil anos, desde as civiliza&ccedil;&otilde;es antigas da P&eacute;rsia    e Hindus at&eacute; o s&eacute;culo 19; o preferido era o de jumenta, mas tamb&eacute;m    indicou-se leite de cabra, de f&ecirc;mea de elefante e de camelo. Para Avicena,    os homens t&iacute;sicos deveriam tomar leite de mulher jovem e bela, e na Renascen&ccedil;a,    Petrus Forestus explicava que o leite de mulher deveria ser o mais fresco poss&iacute;vel,    e portanto sugado diretamente da mama, raz&atilde;o porque ela deveria dormir    com o doente. Para isso, o t&iacute;sico - sempre muito rico - tinha que contratar    uma jovem lactante, o que n&atilde;o era muito f&aacute;cil; custava os olhos    da cara. Por&eacute;m n&atilde;o havia nada mais er&oacute;tico - rom&acirc;ntico!    J&aacute; se mencionou a tuberculose da Marquesa de Pompadour; esta, durante    sua doen&ccedil;a, ingeriu centenas de gal&otilde;es de leite de jumenta e de    camelo; car&iacute;ssimo, que sua condi&ccedil;&atilde;o de favorita do Rei,    lhe permitia consumir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Uma id&eacute;ia    mais pormenorizada de como se tratava a tuberculose em meados do s&eacute;culo    19 nos chega pelos registros das receitas formuladas para a Dama das Cam&eacute;lias    e Chopin: opi&aacute;cios (xaropes e inje&ccedil;&otilde;es de morfina), ferruginosos,    creosoto, pomada de iodeto de pot&aacute;ssio nas axilas, exerc&iacute;cios    (dan&ccedil;a para a primeira), sanguessugas, sangrias, b&aacute;lsamo de Peru    e musgo da Isl&acirc;ndia. &Eacute; interessante que ap&oacute;s a descoberta    da estreptomicina, estudaram-se muitos musgos, entre eles o da Isl&acirc;ndia,    do qual se isolou um antibi&oacute;tico com certo poder bactericida &quot;in    vitro&quot; sobre o <i>Mycobacterium tuberculosis</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>7. O desastre    do tratamento com a tuberculina de Koch</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os tratamentos    da tuberculose no passar dos s&eacute;culos, in&oacute;cuos na maioria, muitos    b&aacute;rbaros e nocivos, e alguns rom&acirc;nticos, n&atilde;o causaram a    mortandade, que por ironia da hist&oacute;ria, foi provocada pelo pr&oacute;prio    Koch com sua tuberculina. No XI Congresso M&eacute;dico Internacional, Berlim    1890, Robert Koch soltou a segunda bomba ao anunciar ter descoberto uma subst&acirc;ncia    que se difunde nos meios l&iacute;quidos de cultura do bacilo da tuberculose    (que chamou de &quot;linfa&quot;), a qual &quot;insensibiliza animais de laborat&oacute;rio    &agrave; inocula&ccedil;&atilde;o de bacilos tuberculosos, e &eacute; capaz    de deter o processo tuberculoso nos j&aacute; infectados, sendo provavelmente    de utilidade no tratamento da t&iacute;sica humana&quot;. Em 1891, Koch publicou    o hist&oacute;rico artigo &quot;Sobre um rem&eacute;dio para a cura da tuberculose&quot;,    que ulteriormente recebeu o nome de tuberculina (proposto por Pohl Pincus).    A not&iacute;cia espalhou-se como rastilho de p&oacute;lvora por toda a Europa    e nos Estados Unidos, sendo logo a tuberculina considerada o medicamento milagroso.    Em toda a hist&oacute;ria da medicina, n&atilde;o h&aacute; exemplo de maior    notici&aacute;rio sensacionalista pela imprensa mundial quanto foi o da tuberculina.    Seu pre&ccedil;o tornou-se alt&iacute;ssimo, e nos Estados Unidos cobrava-se    1.000 d&oacute;lares por cent&iacute;metro c&uacute;bico. Na Europa, as passagens    nos vag&otilde;es dormit&oacute;rios dos trens esgotaram-se por v&aacute;rios    meses, tal era o afluxo de doentes &agrave; Berlim para se tratar com a tuberculina    de Koch. N&atilde;o tardou muito para que a euforia internacional se transformasse    em cruel desencanto. Com as elevadas doses de tuberculina, ent&atilde;o usadas,    desencadearam-se, nos t&iacute;sicos, intensas rea&ccedil;&otilde;es sist&ecirc;micas    e graves progress&otilde;es lesionais, com grandes destrui&ccedil;&otilde;es    pulmonares e generaliza&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a, levando rapidamente    &agrave; morte. Embora n&atilde;o existam dados seguros, estimou-se que em Berlim    morreram v&aacute;rias centenas de doentes, os quais, somados com os vitimados    em outros pa&iacute;ses, devem ter totalizado milhares. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Koch foi acerbamente    criticado pela sua precipita&ccedil;&atilde;o, inexplic&aacute;vel num cientista    do seu padr&atilde;o. Desculpou-se por n&atilde;o ter resistido &agrave; press&atilde;o    dos centros m&eacute;dicos especializados e do governo alem&atilde;o, para que    divulgasse sua descoberta, sem perda de tempo, aumentando o prest&iacute;gio    da ci&ecirc;ncia germ&acirc;nica na corrida internacional na luta contra a epidemia    tuberculosa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A tuberculina    foi abandonada at&eacute; 1908, quando Von Pirquet, demonstrou seu valor diagn&oacute;stico    na infec&ccedil;&atilde;o tuberculosa, sendo hoje uma das mais importantes armas    para o estudo epidemiol&oacute;gico da tuberculose.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item8"></a>8.    Pneumot&oacute;rax - primeiro tratamento racional da longa era anterior &agrave;    moderna quimioterapia</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em 1882, Carlo    Forlanini, da It&aacute;lia, consolidando id&eacute;ias esparsas anteriores,    e com suas fundamentais investiga&ccedil;&otilde;es, criou a colapsoterapia    m&eacute;dica pelo pneumot&oacute;rax artificial. A introdu&ccedil;&atilde;o    de ar, no espa&ccedil;o intrapleural, faculta ao pulm&atilde;o, cujo volume    &eacute; menor que o da caixa tor&aacute;cica, a permanecer como lhe permite    sua elasticidade, ocupando seu volume real, propiciando-lhe o que se chamou    de repouso fisiol&oacute;gico. Desse modo, as les&otilde;es tuberculosas n&atilde;o    sofrem o traumatismo provocado pela respira&ccedil;&atilde;o, pela tosse e outros    fatores desfavor&aacute;veis, tendo condi&ccedil;&otilde;es para sua regress&atilde;o.    Conforme a capacidade de reabsor&ccedil;&atilde;o da pleura, as insufla&ccedil;&otilde;es    de ar faziam-se tr&ecirc;s, duas ou uma vez por semana. Os aparelhos com man&ocirc;metro    para medir a press&atilde;o intrapleural, que devia ser subatmosf&eacute;rica,    eram de diversos modelos, sendo o mais utilizado o original de Forlalinini.    A manuten&ccedil;&atilde;o do pneumot&oacute;rax era no m&iacute;nimo de 2 anos,    indo a 5 e at&eacute; 8 anos em casos especiais. Tinha por&eacute;m indica&ccedil;&otilde;es    precisas: les&otilde;es recentes, cavernas frescas, el&aacute;sticas, localiza&ccedil;&atilde;o    nos andares superiores do pulm&atilde;o; les&otilde;es contralaterais, se existentes,    n&atilde;o extensas, havendo casos de indica&ccedil;&atilde;o de pneumot&oacute;rax    bilateral simult&acirc;neo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Criou-se uma literatura    especializada. Discutiram-se equa&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas sobre    a elasticidade do pulm&atilde;o, conforme a altura do segmento pulmonar, sobre    o peso do pulm&atilde;o, partindo do &aacute;pice para a base, as diferen&ccedil;as    potenciais el&aacute;sticas dos segmentos, as varia&ccedil;&otilde;es de press&otilde;es    intrapleurais subatmosf&eacute;ricas e todo um complexo arrazoado, beirando    &agrave; metaf&iacute;sica para explicar as vantagens do repouso fisiol&oacute;gico.    O livro mais manuseado sobre o assunto foi &quot;Fisiomec&acirc;nica pulmonar&quot;    de Parodi.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os tisi&oacute;logos,    preocupados com esses intrincados problemas, chamavam de &quot;insufladores&quot;    os m&eacute;dicos que s&oacute; praticavam a rotina do pneumot&oacute;rax. A    colapsoterapia m&eacute;dica foi a fase &aacute;urea em termos econ&ocirc;micos    para os m&eacute;dicos que tratavam a tuberculose em sua cl&iacute;nica particular.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A pr&aacute;tica    do pneumot&oacute;rax artificial disseminou-se por todos os pa&iacute;ses, constituindo-se    no tratamento her&oacute;ico at&eacute; o in&iacute;cio da d&eacute;cada dos    anos 50, quando surgiram as drogas antituberculosas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nos pa&iacute;ses    desenvolvidos, com menos tuberculosos, o pneumot&oacute;rax era aplicado com    um certo ritual. Nos Estados Unidos, uma insufla&ccedil;&atilde;o era verdadeiramente    teatral; o paciente era coberto com campos esterilizados, deixando-se um pequeno    espa&ccedil;o intercostal, com rigorosa assepsia, para introdu&ccedil;&atilde;o    da agulha. No Brasil, a pr&aacute;tica do pneumot&oacute;rax simplificou-se.    Nos dispens&aacute;rios, os pacientes faziam longas filas. A medida que chegavam,    iam tirando a camisa, deitando-se com o bra&ccedil;o sobre a cabe&ccedil;a.    R&aacute;pida passada de algod&atilde;o embebido em &aacute;lcool e a agulha    era espetada; mal o paciente se erguia, e j&aacute; outro se deitava. Havia    dispens&aacute;rios, como por exemplo o do Instituto Clemente Ferreira, de S&atilde;o    Paulo, e o Dispens&aacute;rio Escola da Rua do Rezende, no Rio de Janeiro, entre    outros, com filas de 100 a 150 doentes, diariamente, atendidos por v&aacute;rios    m&eacute;dicos. O controle radiosc&oacute;pico, ap&oacute;s a insufla&ccedil;&atilde;o,    realizava-se por grupos de uns 20 pacientes que iam passando rapidamente pelo    ecram. Na d&eacute;cada dos anos 30, os c&eacute;lebres Rist e Sergent por aqui    passaram, ficando surpresos com o que chamaram &quot;democratiza&ccedil;&atilde;o    do pneumot&oacute;rax&quot;. O primeiro escreveu a respeito interessante artigo    na ent&atilde;o Revue de la Tuberculose.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o obstante    sua universalidade, o pneumot&oacute;rax teve rendimento relativo. As melhores    estat&iacute;sticas consignaram 60% de curas cl&iacute;nicas, as demais entre    40% a 50%. Al&eacute;m disso, havia o &oacute;bice que s&oacute; 40% a 50% dos    doentes tinham indica&ccedil;&atilde;o e/ou pleura livre, sem s&iacute;nfises    extensas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <a name="texto1"></a>Nesses    casos havia op&ccedil;&otilde;es, nenhuma ideal. Havia o pneumot&oacute;rax    extrapleural, pelo descolamento cir&uacute;rgico da faixa endotor&aacute;cica,    criando espa&ccedil;o que era mantido com insufla&ccedil;&otilde;es peri&oacute;dicas    de ar, com press&otilde;es atmosf&eacute;ricas positivas. A frenicectomia, cortando    o nervo fr&ecirc;nico no trajeto pr&eacute;-escal&ecirc;nico e arrancamento    da maior por&ccedil;&atilde;o inferior poss&iacute;vel, elevando o hemidiafr&aacute;gma;    indicava-se de prefer&ecirc;ncia nas cavernas situadas na base do pulm&atilde;o.    Para estas era freq&uuml;ente tamb&eacute;m a indica&ccedil;&atilde;o do pneumoperit&ocirc;neo.    Para as cavernas el&aacute;sticas com s&iacute;nfise pleural, teve muita voga    a drenagem endocavit&aacute;ria de Monaldi, atingindo a caverna com trocate    e sonda atrav&eacute;s da parede tor&aacute;cica e mantendo sistema de aspira&ccedil;&atilde;o    constante at&eacute; o seu fechamento. Nos casos antigos, fibrosados, de cavernas    com paredes r&iacute;gidas cabia a toracoplastia, cujo pioneiro foi Sauerbruch,    com ressec&ccedil;&atilde;o de n&uacute;mero vari&aacute;vel de costelas. No    in&iacute;cio essa cirurgia foi aplicada tamb&eacute;m em jovens, que com o    crescimento do hemit&oacute;rax oposto encurvava a coluna criando monstruosas    deforma&ccedil;&otilde;es tor&aacute;cicas. Outras interven&ccedil;&otilde;es    preenchiam o espa&ccedil;o, - para manter o pulm&atilde;o colapsado, com &oacute;leo,    m&uacute;sculo, bolas de lucite e outros materiais. As ressec&ccedil;&otilde;es    pulmonares (lobectomias e pneumectomias) pelas freq&uuml;entes reativa&ccedil;&otilde;es    focais e dissemina&ccedil;&otilde;es no pulm&atilde;o oposto, s&oacute; foram    largamente empregadas com o advento da quimioterapia, dando cobertura protegendo    contra essa s&eacute;ria complica&ccedil;&atilde;o(<a href="#nota">*</a>).    Seu apogeu foi nos anos 50 e 60, at&eacute; que terminou o estoque de doentes    cr&ocirc;nicos, com les&otilde;es extensas ou pulm&atilde;o destru&iacute;do.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Todos os procedimentos    citados eram graves, com grande freq&uuml;&ecirc;ncia de complica&ccedil;&otilde;es    s&eacute;rias, sendo que a cura cl&iacute;nica, em m&eacute;dia, mal passava    dos 40%.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dessa forma, a    impossibilidade do tratamento com o pneumot&oacute;rax intrapleural representava    para o doente s&eacute;ria decep&ccedil;&atilde;o, uma senten&ccedil;a negra    com a triste perspectiva de tratamentos graves, complicados, pouco eficazes    e perda de esperan&ccedil;a de cura. N&atilde;o h&aacute; melhor descri&ccedil;&atilde;o    e mais crua dessa frustra&ccedil;&atilde;o, que a de Manoel Bandeira, que com    ironia e humor negro descreve o impacto quando o m&eacute;dico anunciava a impossibilidade    de indicar o pneumot&oacute;rax:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Febre, hemoptise,    dispn&eacute;ia e suores noturnos, / A vida inteira que poderia ter sido e n&atilde;o    foi. / Tosse, tosse, tosse./ Mandou chamar o m&eacute;dico./ Diga trinta e tr&ecirc;s./    Trinta e tr&ecirc;s... trinta e tr&ecirc;s... trinta e tr&ecirc;s.../ Respire    / O senhor tem uma escava&ccedil;&atilde;o no pulm&atilde;o esquerdo / e o pulm&atilde;o    direito infiltrado./ Ent&atilde;o doutor, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    tentar o pneumot&oacute;rax? / N&atilde;o. A &uacute;nica coisa a fazer &eacute;    tocar um tango argentino.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item9"></a>9.    A cura sanatorial. o <i>hominis sanatorialis</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No s&eacute;culo    19, surge a id&eacute;ia do tratamento dos t&iacute;sicos em estabelecimentos    fechados, onde deviam permanecer e receber alimenta&ccedil;&atilde;o adequada.    Esse conceito foi considerado absurdo por ser a ant&iacute;tese do recomendado    durante s&eacute;culos, o repouso entremeado com exerc&iacute;cios, galopadas    a cavalo e outras extravag&acirc;ncias. As primeiras sugest&otilde;es sobre    o sanat&oacute;rio foram de Brehmer, mas as bases cient&iacute;ficas foram propagadas    por Dettweiller, que lutou durante 20 anos para, em 1860, afinal, impor suas    concep&ccedil;&otilde;es. A maior responsabilidade pela estrutura&ccedil;&atilde;o    pr&aacute;tica dos sanat&oacute;rios &eacute; devido a enfermeira Florence Nightingale,    que conviveu com sua t&iacute;sica cr&ocirc;nica (<a href="#item21">item 2.1</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Sanat&oacute;rio    e regime higienodiet&eacute;tico foi a simbiose fundamental para a cura da tuberculose,    entrando por toda a primeira metade do s&eacute;culo 20, at&eacute; o advento    da era da moderna quimioterapia. O sanat&oacute;rio foi associado &agrave; m&iacute;stica    do ar da montanha. Aos poucos, o conceito clim&aacute;tico foi se diluindo e    os hospitais para tuberculosos passaram a ser localizados nas cidades com qualquer    clima.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A fase dos sanat&oacute;rios,    com sua tonalidade dram&aacute;tica e rom&acirc;ntica, muito contribuiu para    impregnar a literatura e a dramaturgia. Ressalte-se, novamente, que essa literatura    foi sustentada pelos tuberculosos ricos em cultura, ou em finan&ccedil;as, enfim,    pela classe mais elevada. Dessa forma, o arqu&eacute;tipo da obra liter&aacute;ria    condensando a vida sanatorial &eacute; sem d&uacute;vida o not&aacute;vel romance    Zauberberg (Montanha M&aacute;gica) de Thomas Mann, tamb&eacute;m tuberculoso    e pr&ecirc;mio Nobel. A a&ccedil;&atilde;o se passa no luxuoso sanat&oacute;rio    Berghof - Davos, na Su&iacute;&ccedil;a. O personagem central, Ans Casptor,    vem visitar o primo em tratamento, quando descobre que tamb&eacute;m est&aacute;    doente. Por&eacute;m, a a&ccedil;&atilde;o extrapola para todos os demais internados,    com seus comportamentos conforme suas personalidades e seus dramas &iacute;ntimos.    O microcosmos social resulta de um universo fechado com as deforma&ccedil;&otilde;es    decorrentes da falta de influ&ecirc;ncia exterior. H&aacute; uma dissimula&ccedil;&atilde;o    do conte&uacute;do dram&aacute;tico da doen&ccedil;a. O sanat&oacute;rio tornase    para o t&iacute;sico um campo progressivamente ampliado da express&atilde;o    da tuberculose, provocando uma esp&eacute;cie de resson&acirc;ncia &agrave;s    suas alternativas, ora de esperan&ccedil;a, ora de desencorajamento, e seus    dramas. A segrega&ccedil;&atilde;o sufocante da vontade, a uniformiza&ccedil;&atilde;o    ritual dos internados, e acentuada por uma hierarquia rigorosa, dirigida n&atilde;o    se sabe por quem, cria um ambiente semelhante ao &quot;Castelo&quot; de Kafka,    com sua opress&atilde;o sutil, cruel e demon&iacute;aca. Descreve-se o ritual    a que o doente est&aacute; acorrentado, a obsessiva anota&ccedil;&atilde;o da    temperatura, a ansiedade a cada nova radiografia, as 6 refei&ccedil;&otilde;es    di&aacute;rias religiosamente a horas certas, agem como oposto &agrave; ociosidade    for&ccedil;ada e dicotomizam o tempo. Este se torna infinito, dentro de um universo    finito em fun&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o confinado. Se o tempo &eacute;    fun&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o como disp&otilde;e a teoria da relatividade,    a medida do tempo &eacute; circular, fechado sobre si mesmo e o terr&iacute;vel    presente repete-se sem cessar por anos. O paradoxo &eacute; que surgem duas    alternativas: o abandono do pensar, caindo no v&aacute;cuo vazio, ou a rea&ccedil;&atilde;o    mental, acentuando a dramaticidade. Todos esses &acirc;ngulos e outros s&atilde;o    questionados pelos diversos personagens ali internados, empres&aacute;rios,    soci&oacute;logos, te&oacute;logos, pol&iacute;ticos e anarquistas. Descrevem-se    casos de acelerada rea&ccedil;&atilde;o mental, propiciando a cria&ccedil;&atilde;o    intelectual. Na realidade, isso sucedeu com v&aacute;rios intelectuais como    s&atilde;o os exemplos de Eugene O'Neill, Roland Barthes, que escreveram toda    a sua obra no sanat&oacute;rio, e de Paul Eluard e Albert Camus, que internados    por v&aacute;rias vezes, mais produziram quando estavam nos sanat&oacute;rios.    Ali&aacute;s, j&aacute; na Gr&eacute;cia havia a express&atilde;o &quot;spes    phtisica&quot; para descrever a energia que muitos t&iacute;sicos forjavam,    dirigindo-a para uma criatividade especial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Quanto ao comportamento    geral dos tuberculosos, por anos internados nos sanat&oacute;rios, Rist forneceu    a defini&ccedil;&atilde;o em poucas linhas. As longas separa&ccedil;&otilde;es,    pela lentid&atilde;o da cura, destru&iacute;am os v&iacute;nculos com os familiares.    Esposas e maridos infi&eacute;is, fam&iacute;lias desinteressadas ou pouco preocupadas    com a sorte do paciente internado, noivados e casamentos desfeitos, aumentavam    a solid&atilde;o, o doente sentia-se exilado, desorientando-se a vida ps&iacute;quica.    Privado de seus alimentos essenciais, como a profiss&atilde;o, o trabalho, a    fam&iacute;lia, a incerteza da cura sempre demorada, produzia sensa&ccedil;&atilde;o    de viver num fosso profundo onde a luz n&atilde;o penetrava. Al&eacute;m disso,    o tuberculoso convivia por anos numa sociedade de contrastes: introvertidos    e exuberantes, m&iacute;sticos e racionalistas, bons e maus, delicados e brutais,    resignados e revoltados, inteligentes e pobres de esp&iacute;rito, enfim uma    comunidade de heterog&ecirc;neos condenados a um conv&iacute;vio execr&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Todos esses fatores    criaram um tipo de personalidade sui generis que Dumarest chamou de <i>Hominis    sanatorialis</i>, que era fruto da incerteza pelo temor do inesperado, fosse a chegada    da morte, fosse a cura cl&iacute;nica, ap&oacute;s anos e anos de internamento.    No sanat&oacute;rio, o doente, com o tempo, incorporava a ociosidade; organizava-se    nela como numa profiss&atilde;o, compenetrando-se dos fins indefinidos a que    sua doen&ccedil;a expunha, desaparecendo do resto do mundo ante essa preocupa&ccedil;&atilde;o.    Em resumo, a personalidade do <i>Hominis sanatorialis</i> negativava-se com a longa    espera da negativa&ccedil;&atilde;o do escarro, que podia levar at&eacute; 10    anos!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Descreveram-se,    em muitos t&iacute;sicos internados, exacerba&ccedil;&atilde;o da libido, fomentando    paix&otilde;es, atingindo em alguns, comportamentos m&oacute;rbidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Para contar a    vida dos tuberculosos nos nossos sanat&oacute;rios e nas est&acirc;ncias clim&aacute;ticas,    destaca-se o romance de Dinah Silveira de Queiroz, &quot;Floradas na serra&quot;,    passado em Campos do Jord&atilde;o; aborda as rea&ccedil;&otilde;es e dramas    dos doentes nos sanat&oacute;rios, a ang&uacute;stia face &agrave; doen&ccedil;a,    ao abandono e afastamento dos familiares. Epis&oacute;dios amorosos com internados,    a dificuldade da readapta&ccedil;&atilde;o &agrave; vida normal. Uma jovem adiciona    &agrave; doen&ccedil;a o sofrimento que lhe ocasiona a paix&atilde;o por seu    m&eacute;dico assistente. A autora contou-nos que o personagem Dr. Celso, na    vida real tornou-se not&oacute;rio tisi&oacute;logo. &quot;Floradas na serra&quot;    fez sucesso no cinema e em novela de televis&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Se s&atilde;o    abundantes os relatos dos tuberculosos das classes sociais mais elevadas economicamente,    &eacute; escassa a literatura dos doentes indigentes. Importante pelo vigor    de sua den&uacute;ncia &eacute; o escrito de Maxence Van Der Merch, Pr&ecirc;mio    Goncourt na Fran&ccedil;a, sobre as mis&eacute;rias ocorridas com os t&iacute;sicos    nos hospitais p&uacute;blicos, mesmo nos pa&iacute;ses ricos. Entre n&oacute;s,    Paulo Dantas, que foi tuberculoso e com dificuldades econ&ocirc;micas, descreve    de forma crua as trag&eacute;dias dos doentes pobres em &quot;Cidade enferma&quot;    e &quot;As &aacute;guas n&atilde;o dormem&quot; aprofundando os dramas vividos    pelos doentes abandonados em Campos do Jord&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>9.1. A est&acirc;ncia    climat&eacute;rica de S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A nosso ver, seria    de interesse hist&oacute;rico um relato mais aprofundado da estrutura das est&acirc;ncias    climat&eacute;ricas do Brasil, como por exemplo, S&atilde;o Jos&eacute; dos    Campos, Campos do Jord&atilde;o, Correas, Palmira e outras cong&ecirc;neres,    sua organiza&ccedil;&atilde;o e sua assimila&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o    tuberculosa. Por exemplo, S&atilde;o Jos&eacute; dos Campos era uma cidade que    em 1930 tinha 8.000 habitantes aut&oacute;ctones e albergava cerca de 2.000    tuberculosos, distribu&iacute;dos em 4 sanat&oacute;rios (3 beneficentes com    doentes pagantes e indigentes, e um particular de propriedade de um m&eacute;dico),    dezenas de pens&otilde;es e muitas &quot;rep&uacute;blicas&quot;. Os donos de    pens&otilde;es eram tuberculosos ou doentes curados. Poucos desses estabelecimentos    eram id&ocirc;neos. A maioria, com instala&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias,    mantinha 2 a 4 doentes em cada quarto. Geralmente havia uma s&oacute; privada    com chuveiro. Forneciam 3 refei&ccedil;&otilde;es por dia. Tinham agentes aliciadores    (tamb&eacute;m doentes) que disputavam os t&iacute;sicos rec&eacute;m-chegados,    na esta&ccedil;&atilde;o ferrovi&aacute;ria e terminais de &ocirc;nibus. Nas    pens&otilde;es mistas, eram comuns os casos amorosos. Mulheres, solteiras ou    casadas, engravidavam. Em certas ocasi&otilde;es, instituiu-se a ind&uacute;stria    do aborto por curetagem, sem anestesia, praticados por pessoas com algumas tintas    de enfermagem. V&aacute;rios casos de perfura&ccedil;&atilde;o do &uacute;tero    ocorreram. Nas &quot;rep&uacute;blicas&quot;, montadas por grupos de doentes    associados, moravam at&eacute; meia dezena de doentes em um quarto. Havia beliches.    Empregava-se uma dom&eacute;stica bronca, geralmente proveniente &quot;da ro&ccedil;a&quot;,    que mal sabia cozinhar feij&atilde;o. Era comum comer em marmitas fornecidas    por pens&otilde;es ou fam&iacute;lias que exploravam esse com&eacute;rcio. Havia    car&ecirc;ncia de tudo, de higiene e outros recursos. Doentes miser&aacute;veis    recebiam assist&ecirc;ncia de m&eacute;dicos abnegados. Registravam-se casos    de doentes injetarem morfina na veia de agonizante, n&atilde;o para praticar    a eutan&aacute;sia, mas para se livrarem do moribundo no beliche ou na cama    ao lado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Certa ocasi&atilde;o,    prostituta tuberculosa instalou um bordel com mulheres tamb&eacute;m tuberculosas,    cuja freguesia era de t&iacute;sicos (chamado sanatorinho da Zefa) e que funcionou    por alguns anos, extinguindo-se com a morte ou cura das prostitutas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Doentes com profiss&otilde;es    definidas empregavam-se, trabalhavam enquanto se tratavam (geralmente com pneumot&oacute;rax)    ou, conforme os recursos econ&ocirc;micos, instalavam seus pr&oacute;prios neg&oacute;cios:    alfaiatarias, sapatarias, barbearias, lojas de armarinhos, bares, etc. Alguns,    intelectualizados, movimentavam o jornalismo, montavam pe&ccedil;as de teatro    e, conforme os dotes art&iacute;sticos, davam recitais pagos. Muitos deles constitu&iacute;am    fam&iacute;lia, casando-se com habitante local. Alguns ingressavam na pol&iacute;tica,    v&aacute;rios se elegeram vereadores e um chegou &agrave; prefeito da est&acirc;ncia;    tinha epis&oacute;dios hemopt&oacute;icos, e quando um deles surgia, o chefe    de gabinete informava:&quot;o senhor prefeito est&aacute; hoje de bandeira vermelha    e as audi&ecirc;ncias est&atilde;o canceladas&quot;. A est&acirc;ncia crescia    assim, com tuberculosos assimilados, integrados na comunidade. Era relativamente    alto o n&uacute;mero de aut&oacute;ctones que se infectavam e desenvolviam tuberculose    ativa: empregados nas casas com tuberculosos, mo&ccedil;as e rapazes da est&acirc;ncia    que viviam em promiscuidade com doentes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na Semana Santa,    as irmandades que desfilavam (Filhas de Maria, Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o,    S&atilde;o Benedito, etc.) contavam com a integra&ccedil;&atilde;o de in&uacute;meros    t&iacute;sicos. No Sanat&oacute;rio Vicentina Aranha, pertencente &agrave; Santa    Casa de S&atilde;o Paulo, havia uma internada permanente, soprano l&iacute;rico,    que desfilava como Ver&ocirc;nica, com v&eacute;u e longo vestido preto, desenrolando    em cada esquina um pergaminho com a ef&iacute;gie de Cristo, e cantando uma    litania que terminava: &quot;Pater noster dolor meus&quot;. No final da d&eacute;cada    de 20, aportou &agrave; S&atilde;o Jos&eacute;, um violinista que tinha sido    &quot;spala&quot; da orquestra de companhia l&iacute;rica italiana, que se dissolveu    no Rio de Janeiro. Nome pomposo, Enrico Della Rosa. Tratando-se com pneumot&oacute;rax,    abriu uma sorveteria e ensinava piano &agrave;s mo&ccedil;oilas para sobreviver.    Reuniu v&aacute;rios m&uacute;sicos e fundou a Banda Filarm&ocirc;nica Euterpe.    Nas prociss&otilde;es do enterro, na Semana Santa, encerrava o cortejo, e ap&oacute;s    o canto da Ver&ocirc;nica, executava os primeiros compassos da marcha f&uacute;nebre    da 3<sup>a</sup>. sinfonia - Eroica - de Beethoven. Aos domingos, no coreto &quot;belle    epoque&quot; da pra&ccedil;a, a banda Della Rosa embalava os namorados, a maioria    tuberculosos que faziam o chamado &quot;footing&quot;, com suas melodiosas valsas    de Strauss e operetas de Lehar. Esses encantamentos faziam esquecer a triste    realidade da doen&ccedil;a, criando um toque rom&acirc;ntico - terno e repousante    naquela cidade enferma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>9.2. A car&ecirc;ncia    dos leitos na fase pr&eacute;quimioter&aacute;pica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A car&ecirc;ncia    de leitos para tuberculosos, at&eacute; meados do s&eacute;culo 20, foi geral,    devido a dimens&atilde;o da epidemia tuberculosa, na fase em que n&atilde;o    havia tratamento eficaz. O problema evidentemente era mais grave nos pa&iacute;ses    subdesenvolvidos e em desenvolvimento. A demanda de leitos era enorme pela gravidade    das formas cl&iacute;nicas da tuberculose e as precar&iacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es    econ&ocirc;mico-sociais da imensa maioria dos doentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, a falta    de leitos era aguda. Nos anos 20 e 30, os &oacute;rg&atilde;os oficiais do Rio    de Janeiro lan&ccedil;aram m&atilde;o dos chamados abrigos, que eram casar&otilde;es    alugados nos bairros populares, onde se albergavam tuberculosos, porque os leitos    hospitalares eram absolutamente insuficientes. Nas est&acirc;ncias climat&eacute;ricas,    a situa&ccedil;&atilde;o atingia propor&ccedil;&otilde;es dram&aacute;ticas.    Doentes, em estado grave e de indig&ecirc;ncia, eram &quot;despachados&quot;    por delegados de pol&iacute;cia e funcion&aacute;rios municipais das cidades    de origem com apenas a passagem no bolso. Chegavam por exemplo em Campos do    Jord&atilde;o, onde permaneciam na Esta&ccedil;&atilde;o, no ch&atilde;o, deitados    em colch&otilde;es improvisados sem terem onde se internar. Sanat&oacute;rios    repletos, pens&otilde;es recusando-os, eles ali ficavam e alguns morriam. Quadro    dantesco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na fase considerada,    esfor&ccedil;os foram despendidos pelos governos estaduais, pela Campanha Nacional    Contra a Tuberculose do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e pelas Ligas Assistenciais    Contra a Tuberculose, para a constru&ccedil;&atilde;o de hospitais para tuberculosos,    minorando parcialmente a situa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em suma, o leito    para o t&iacute;sico foi uma conting&ecirc;ncia dram&aacute;tica na fase em    que n&atilde;o havia a quimioterapia, e os tratamentos consumiam anos. Isso    tornou sem sentido a discuss&atilde;o ent&atilde;o travada sobre a pol&iacute;tica    da hospitaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o importando saber se a raz&atilde;o    estava com os que advogavam a generaliza&ccedil;&atilde;o dos leitos nos programas,    por motivos t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos do tratamento, ou com os que questionavam    essa finalidade por considerar prec&aacute;rias as terap&ecirc;uticas vigentes,    sendo que o objetivo priorit&aacute;rio n&atilde;o era curar o doente, mas assegurar    o seu isolamento, protegendo a coletividade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>9.3. O tisi&oacute;logo    brasileiro da fase pr&eacute;-quimioter&aacute;pica</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os tisi&oacute;logos    de todos os pa&iacute;ses que labutaram contra a tuberculose, na fase comentada    nos itens anteriores, foram her&oacute;is especiais, porque sua luta foi de    m&atilde;os vazias, sustentada apenas por um ideal human&iacute;stico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Do tisi&oacute;logo    brasileiro quase nada se escreveu na nossa literatura. Eles encaravam a tuberculose,    de forma rom&acirc;ntica, no sentido de que n&atilde;o se via a luz do t&uacute;nel    de um grav&iacute;ssimo problema de sa&uacute;de p&uacute;blica. Eram movidos    t&atilde;o somente pela sua f&eacute; e ideal que lhes davam for&ccedil;as para    um trabalho persistente, desgastante. Pelo longo tempo de conv&iacute;vio com    os pacientes, integravam-se nas suas vidas, partilhando dos seus dramas, trag&eacute;dias    e ang&uacute;stias. Aconselhavam, eram &aacute;rbitros para dirimir as disc&oacute;rdias    e abandonos familiares. M&eacute;dicos sacerdotes. Paralelamente, muitos deles    dedicaram-se &agrave; luta no plano geral. Organizavam e promoviam cursos de    divulga&ccedil;&atilde;o, atualiza&ccedil;&atilde;o e de especializa&ccedil;&atilde;o,    fizeram escola, e quando em 1946 foram oficialmente criadas as c&aacute;tedras    de tisiologia, por meio de memor&aacute;veis concursos, tornaram-se catedr&aacute;ticos    universit&aacute;rios. Participaram e assumiram a dire&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os    oficias de sa&uacute;de de controle da tuberculose, nos &acirc;mbitos nacional    e estaduais. Alguns destacaram-se como t&eacute;cnicos em &oacute;rg&atilde;os    internacionais de controle da tuberculose. Enriqueceram a literatura cient&iacute;fica,    com livros e artigos publicados. Em suma, na hist&oacute;ria da luta contra    a tuberculose, muito se deve a esses tisi&oacute;logos, que al&eacute;m de t&eacute;cnicos    atuando com a vis&atilde;o de sa&uacute;de p&uacute;blica, ou embrenhados na    cl&iacute;nica, bacteriologia, fisiopatologia e outros &acirc;ngulos da complexa    problem&aacute;tica da tuberculose, agiam junto aos doentes com romantismo e    at&eacute; lirismo, para minorar seus sofrimentos f&iacute;sicos e ps&iacute;quicos,    transmitindo-lhes al&iacute;vio e esperan&ccedil;a, embora sofrendo tamb&eacute;m,    por saber que esse lenitivo quase sempre era ilus&oacute;rio, ante a realidade    fatal na maioria das vezes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>10. A histeria    contra o escarro</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com a descoberta    do bacilo da tuberculose, Koch afinal comprovou o que Pierrre Dasault afirmou    em 1733 que a tuberculose se transmitia pelo escarro, e alertou da necessidade    de esteriliz&aacute;-lo, &quot;para torn&aacute;-lo inofensivo, suprimindo o    cont&aacute;gio&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De in&iacute;cio    todos os m&eacute;dicos tuberculosos ou suspeitos de sofrerem da doen&ccedil;a    apressaram-se a examinar sua expectora&ccedil;&atilde;o, que era neles freq&uuml;ente,    pois a maioria fumava cachimbo. Caso dram&aacute;tico foi de Herlich, ideador    das cadeias laterais e descobridor do Salvarsan 606 para tratamento da s&iacute;filis.    Amigo de Koch, pediu a este uma cultura do bacilo para estudar novo processo    tintoreal. Entre os escarros que examinou incluiu o de sadios, para controle,    inclusive o seu. Sua triste surpresa foi constatar que estava marchetado de    bastonetes vermelhos, fazendo assim diagn&oacute;stico de sua tuberculose. Livingston    Trudeau (<a href="#item21">item 2.1</a>), que se julgava curado de sua tuberculose,    teve a surpresa de constatar que sua expectora&ccedil;&atilde;o era bacil&iacute;fera.    Como disse em sua autobiografia, se ao receber o diagn&oacute;stico de sua doen&ccedil;a,    ficou siderado e o mundo se tornou sombrio, muito mais agoniado e como que paralisado,    por ainda estar doente quando pensava estar curado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com as constata&ccedil;&otilde;es    de Koch da transmiss&atilde;o da doen&ccedil;a pelo escarro e com as pesquisas    de Pfl&uuml;gge, que obtinha culturas do bacilo da tuberculose nas placas distribu&iacute;das    nos recantos dos quartos onde viviam t&iacute;sicos, pelas got&iacute;culas    produzidas pela tosse e pelas poeiras de material dessecado que nelas se depunham,    desencadeou-se verdadeira histeria contra o escarro pelas campanhas alarmantes    das institui&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas e &oacute;rg&atilde;os de sa&uacute;de    p&uacute;blica. Cartazes afixados em todos os locais, nos transportes coletivos,    e folhetos distribu&iacute;dos &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es, alertavam    sobre a transmiss&atilde;o da tuberculose pelo escarro e poeiras, com advert&ecirc;ncia    da proibi&ccedil;&atilde;o de escarrar no ch&atilde;o. A comercializa&ccedil;&atilde;o    imediatamente entrou em cena. Anunciavam-se escarradeiras pr&oacute;prias para    hospitais, escrit&oacute;rios, f&aacute;bricas, restaurantes, teatros, transportes    coletivos, etc. A empresa Truette em Paris fazia propaganda de escarradeiras    de bolso; Lut&eacute;cia vendia bolsas, &quot;pochetes&quot;, porta-len&ccedil;os    com antiss&eacute;pticos e descart&aacute;veis. Em Berlim inventaram um preparado    aderente para colar nas solas dos sapatos, que matava os bacilos; seus usu&aacute;rios    desse &quot;modo n&atilde;o os traziam para a casa&quot;. Houve impermeabilizadores    de assoalhos com subst&acirc;ncias bactericidas. A empresa internacional Simmons    apurou grandes rendas com seus colch&otilde;es e travesseiros com antiss&eacute;pticos    que matavam os bacilos. Entre n&oacute;s, nos anos 1930 a 35, m&eacute;dico    do Rio Grande do Sul inventou e anunciava travesseiro &quot;com propriedades    esterilizantes antituberculosas&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nos Estados Unidos,    o Departamento de Sa&uacute;de promulgou portaria, proibindo escarrar nos assoalhos,    plataformas das esta&ccedil;&otilde;es e viaturas p&uacute;blicas. Os contraventores    eram multados em 25 d&oacute;lares, ou conforme o caso, 10 dias de pris&atilde;o.    Os denunciantes dos infratores recebiam metade do valor das multas. V&aacute;rias    cidades norteamericanas aprovaram resolu&ccedil;&otilde;es semelhantes com multas    atingindo at&eacute; 500 d&oacute;lares. Em Viena, a multa ia de 2 a 200 coroas    com pris&atilde;o de 6 horas at&eacute; 20 dias. Hot&eacute;is de primeira categoria,    na Europa, ofereciam apartamentos sem tapetes e sem cortinas protegendo os h&oacute;spedes    das &quot;poeiras transmissoras da tuberculose. O London National and Military    Gazette acolheu artigos de m&eacute;dicos, que recomendavam aos homens usar    bigodes para prote&ccedil;&atilde;o contra as poeiras nos locais de trabalho,    que poderiam estar impregnadas com bacilos da tuberculose. O mais inusitado    ainda foi a portaria da Secretaria de Sa&uacute;de de Paris, proibindo e multando    as mulheres que usassem saias longas, arrastando-se pelo ch&atilde;o, &quot;levantando    poeiras e espalhando pelos ares o bacilo da tuberculose&quot;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>11. A onda de    charlatanismo na tuberculose</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com a descoberta    do agente causal da tuberculose, ap&oacute;s o desastre da terap&ecirc;utica    tubercul&iacute;nica e outras decep&ccedil;&otilde;es com a soroterapia, antigenoterapia    e de outros produtos biol&oacute;gicos extra&iacute;dos do bacilo, por uns tempos,    at&eacute; os anos 20 deste s&eacute;culo, abriu-se vazio prop&iacute;cio &agrave;    prolifera&ccedil;&atilde;o do charlatanismo. Paradoxalmente, repetiu-se, guardadas    as propor&ccedil;&otilde;es e peculiaridades, o quadro imperante na Roma antiga,    que Pl&iacute;nio &quot;O Velho&quot; fustigou clamando contra o &quot;amontoado    incr&iacute;vel de receitas as mais bizarras, absurdas e monstruosas, que deviam    suportar os pobres t&iacute;sicos&quot;. No in&iacute;cio do s&eacute;culo 20,    laborat&oacute;rios e m&eacute;dicos anunciavam a cura da tuberculose com o    Xarope Pantauberge. Hemoglobina Dalloz, contra as formas ganglionares, era vendida    em toda a Europa. &quot;Eminente especialista, da Faculdade de Medicina de Paris,    anunciava ter descoberto &quot;rem&eacute;dio que cura a tuberculose em menos    de um m&ecirc;s&quot;. E mencionava o endere&ccedil;o: Proves Higienique Rue    de R&iacute;voli, 4, Paris. Dr. Bernay, vedete da tisiologia de Lyon, tinha    um &quot;m&eacute;todo embol&iacute;geno catal&iacute;tico&quot;, consistindo    na tomada de &quot;medicamentos &agrave; base de biocatalizadores suscept&iacute;veis    de regular as rea&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas eletr&ocirc;nicas da s&eacute;rie    de Mendeleiev sobre o bacilo da tuberculose&quot;, levando &agrave; cura da    tuberculose. Outro tisi&oacute;logo, Victor Simon, curava a t&iacute;sica com    inje&ccedil;&otilde;es nos m&uacute;sculos do t&oacute;rax, de &oacute;leo extra&iacute;do    de uma folha de palmeira rica em fibras. Foi tamb&eacute;m muito difundido um    rem&eacute;dio &quot;milagroso&quot;, o Vinho Saint Courflor, &agrave; base    de planta das Antilhas, preparado pelo &quot;eminente&quot; Dr. Acard. A pasta    dentifr&iacute;cia Sarte e o sab&atilde;o Dalloz matavam os bacilos da tuberculose    em minutos. Em 1918, logo ap&oacute;s o t&eacute;rmino da grande guerra, fez    grande estardalha&ccedil;o em todo o Continente Europeu o tratamento da tuberculose    com inje&ccedil;&atilde;o, na regi&atilde;o gl&uacute;tea, de preparado especial    em solu&ccedil;&atilde;o concentrada de certo a&ccedil;&uacute;car cristalizado.    O Diretor de Higiene de Paris publicou portaria obrigando os militares tuberculosos,    que eram dezenas de milhares, e civis dependentes do servi&ccedil;o de sa&uacute;de,    a se &quot;submeterem met&oacute;dica e rigorosamente&quot; &agrave;s referidas    inje&ccedil;&otilde;es, muito dolorosas. No Congresso Internacional de Actinologia,    em Berlim, 1929, apresentou-se com grande repercuss&atilde;o o &quot;m&eacute;todo    Dangerfield&quot;, constante de &quot;raio molecular&quot; que destru&iacute;a    os bacilos da tuberculose &quot;em menos de 2 minutos&quot;, baseado nas &quot;propriedades    bactericidas da energia cient&iacute;fica vibrat&oacute;ria por heterodina&ccedil;&atilde;o    act&iacute;nica&quot; (!); verdadeiro jarg&atilde;o esot&eacute;rico incompreens&iacute;vel.    Nessa onda, os fabricantes de queijos e outros produtos latic&iacute;nios anunciavam    &quot;Camembert preparado com leite antituberculoso&quot;; produtos preparados    com leite de est&aacute;bulos indenes de tuberculose, a Nestl&eacute; vendia    um &quot;leite bactericida&quot; e chocolate confeccionado com &quot;leite de    vaca indene de tuberculose&quot;. Em v&aacute;rios pa&iacute;ses, empresas faziam    propaganda de &quot;leite antituberculoso&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Foi criada uma    sociedade, com sede &agrave; Rua du Coq 60, em Marselha, para demonstrar a &quot;estupefaciente    atividade do rem&eacute;dio Radiol, produto biol&oacute;gico, na tuberculose    n&atilde;o cavernosa&quot;, com convites para presenciar os seus efeitos. A    lista charlatanesca era infinda. Uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica,    o Partido Social da Sa&uacute;de P&uacute;blica da Fran&ccedil;a, aproveitou    a corrente elaborando, em 1910, programa do qual constava o &quot;seguro obrigat&oacute;rio    contra o desemprego, garantindo melhor qualidade de vida, diminuindo a tuberculose    no pa&iacute;s&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A Alemanha, atrav&eacute;s    da Liga de Pesquisas Sobre a Tuberculose, promoveu a mais larga opera&ccedil;&atilde;o    de marketing que se tem not&iacute;cia sobre tratamentos, com a chamada vacina    de Friedmann, preparada com micobact&eacute;ria isolada da tartaruga, in&oacute;cua    para os animais de sangue quente. A propaganda estendeu-se por toda a Europa    nos anos 20 e 30. Foi remetida, em 1936, a Arlindo de Assis, sendo a micobact&eacute;ria    cultivada no laborat&oacute;rio do Hospital S&atilde;o Sebasti&atilde;o, no    Rio de Janeiro, onde constatou que a &quot;vacina&quot; n&atilde;o exercia nenhuma    prote&ccedil;&atilde;o contra a infec&ccedil;&atilde;o tuberculosa experimental    em animais de laborat&oacute;rio. A propaganda da Sa&uacute;de P&uacute;blica    da Alemanha garantia a obten&ccedil;&atilde;o de curas cl&iacute;nicas de tuberculosos,    embora os protocolos dos casos jamais tivessem sido divulgados. A vacina Friedmann    foi largamente usada em v&aacute;rios pa&iacute;ses. Por fim, estudos controlados    realizados em diversos centros tisiol&oacute;gicos europeus, n&atilde;o constataram    qualquer modifica&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel nas les&otilde;es tuberculosas    dos doentes tratados. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, a vacina foi interditada em    v&aacute;rios pa&iacute;ses, inclusive na Fran&ccedil;a, provocando enormes    controv&eacute;rsias. Foi t&atilde;o intensa a propaganda popular da vacina    de Friedmann, que os doentes dos sanat&oacute;rios rebelaram-se, exigindo serem    tratados com ela, e em um deles a revolta foi com depreda&ccedil;&atilde;o das    instala&ccedil;&otilde;es, inclusive de aparelhos radiol&oacute;gicos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>12. S&iacute;mbolos    anti-tuberculose. A tuberculose na luta contra o nazismo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O selo antituberculose    nasceu na Dinamarca em 1904, quando Einar Hollboel, empregado nos correios,    teve a id&eacute;ia de colar, em todos os envelopes, uma etiqueta com frases    alertando do perigo da tuberculose. Logo foi editado um selo com a ef&iacute;gie    da Rainha, que era tuberculosa. A seguir foi lan&ccedil;ado em Portugal o selo    da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Tuberculose com o retrato da Rainha    D. Am&eacute;lia, que tamb&eacute;m era t&iacute;sica. Inicialmente vendido    no Natal, teve difus&atilde;o mundial pelas Ligas e Associa&ccedil;&otilde;es    de luta e de assist&ecirc;ncia. Mais de 60 pa&iacute;ses editaram selos oficiais    de correio, a maioria com edi&ccedil;&otilde;es anuais, tornando-se especializa&ccedil;&atilde;o    dos filatelistas. Na d&eacute;cada dos anos 40, a Rep&uacute;blica Dominicana    editou um selo com mensagem dupla contra a tuberculose e o impaludismo. Retratava    um sanat&oacute;rio encimado por enorme an&oacute;feles; por certo tempo, professores    de escolas prim&aacute;rias ensinaram &agrave;s crian&ccedil;as que a tuberculose    se transmitia pelos mosquitos...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Aqui no Brasil,    todas as ligas assistenciais de luta antituberculose editaram selos, alguns    art&iacute;sticos e at&eacute; rom&acirc;nticos. Nos anos 30, entidade fantasma,    criada por espertalh&otilde;es, arrecadou boa soma, vendendo por &quot;um mil    r&eacute;is&quot; selo com a frase &quot;tudo pela luta antitubercular&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em 1902, Sendon,    m&eacute;dico relativamente obscuro, prop&ocirc;s ao Bureau Internacional de    Preven&ccedil;&atilde;o da Tuberculose, em Berlim, que a cruzada contra a tuberculose    tivesse como s&iacute;mbolo mundial, a cruz vermelha de duplo bra&ccedil;o,    hasteada na Bas&iacute;lica do Santo Sepulcro em Jerusal&eacute;m, em 1099,    pela 1<sup>a</sup>. cruzada, ent&atilde;o chefiada por Godofredo de Bouillon. Em 1920,    esse s&iacute;mbolo foi adotado pela Uni&atilde;o Internacional Contra a Tuberculose,    sendo oficializado para todos os pa&iacute;ses no 6<sup>o</sup>. Congresso Internacional    de Tuberculose, Roma, 1928.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O selo e a cruz    antituberculose erigiram-se em s&iacute;mbolos de maior curso internacional    de toda a hist&oacute;ria da medicina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o se    esperava que a cruz de bra&ccedil;o duplo criasse incidente diplom&aacute;tico    religioso com os pa&iacute;ses mu&ccedil;ulmanos, cujas organiza&ccedil;&otilde;es    antituberculose negaram-se a adot&aacute;-la. O impasse durou at&eacute; 1959,    havendo acordo no Congresso da Uni&atilde;o Internacional Contra a Tuberculose,    no Cairo: os pa&iacute;ses com cren&ccedil;a maometana passaram a usar o quarto    crescente como s&iacute;mbolo antituberculose, ficando optativa a representa&ccedil;&atilde;o    simult&acirc;nea da cruz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na segunda guerra    mundial (1939-1945), a luta e a resist&ecirc;ncia contra o nazismo na Fran&ccedil;a    adotou a cruz, s&iacute;mbolo da tuberculose, de modo a confundi-la com a cruz    de Lorena, por sua vez, mensageira da liberta&ccedil;&atilde;o. Assim, a conclama&ccedil;&atilde;o    ao povo pela resist&ecirc;ncia contra o nazismo realizou-se atrav&eacute;s da    campanha antituberculose. Milh&otilde;es de panfletos foram periodicamente difundidos    nas &aacute;reas ocupadas pelos alem&atilde;es, sem maiores problemas. Com a    dupla cruz encimando a mensagem, a proclama&ccedil;&atilde;o do Comit&ecirc;    de Defesa Contra a Tuberculose dizia &quot;a tuberculose &eacute; um risco de    guerra. Pensem nos soldados vitimados pelos carrascos bacilos da tuberculose.    A vit&oacute;ria s&oacute; se conquista com um ex&eacute;rcito que defende a    P&aacute;tria, e uma P&aacute;tria que sabe se defender. Temos esperan&ccedil;a    de cura e vit&oacute;ria nessa guerra&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Al&eacute;m da    cruz referida, o pneumot&oacute;rax e o BCG foram eficientes auxiliares para    salvar in&uacute;meros militantes da deporta&ccedil;&atilde;o para trabalhos    for&ccedil;ados nas ind&uacute;strias alem&atilde;s, explorando o grande temor    que o ex&eacute;rcito de ocupa&ccedil;&atilde;o tinha da tuberculose. Nas v&eacute;speras    da apresenta&ccedil;&atilde;o, m&eacute;dicos da resist&ecirc;ncia instalavam    um pneumot&oacute;rax e davam ao convocado uma c&aacute;psula contendo suspens&atilde;o    de BCG, que na boca era esmagada, tornando a expectora&ccedil;&atilde;o rica    de bastonetes &aacute;lcool-acido resistentes. Pneumot&oacute;rax, evidenciado    na radioscopia e escarro positivo, constitu&iacute;a passaporte seguro para    a rejei&ccedil;&atilde;o do convocado. Fato singular &eacute; que por muito    tempo esse estratagema n&atilde;o foi descoberto pelos m&eacute;dicos do ex&eacute;rcito    alem&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Entre os m&eacute;dicos    militantes da resist&ecirc;ncia antinazista, destacou-se o tisi&oacute;logo    Jacques Arnaud, tuberculoso cr&ocirc;nico, diretor de um dos principais sanat&oacute;rios    da Fran&ccedil;a, que mantinha como internados, com pneumot&oacute;rax, elementos    da resist&ecirc;ncia, que &agrave; noite saiam para a&ccedil;&otilde;es de proselitismo    e sabotagem. Afinal, descoberta a trama, Arnaud foi preso pela Gestapo e fuzilado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="item13"></a>13.    O romantismo incorporado &agrave; turberculose</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O auge da fase,    chamada rom&acirc;ntica, da tuberculose ocorreu no s&eacute;culo 19, dos meados    para o fim, com manifesta&ccedil;&otilde;es anteriores e ulteriores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na renascen&ccedil;a,    Rafael, que era tuberculoso, n&atilde;o deixou, em suas telas, tra&ccedil;os    sobre a doen&ccedil;a. Boticelli produziu alegoria indiretamente relacionada    com a tuberculose. O modelo preferido pelo pintor, que posou para todas as madonas,    foi a linda Simoneta Vespucci, tuberculosa cuidada por not&aacute;veis m&eacute;dicos.    Lorenzo, o Magn&iacute;fico por ela arrastou a asa. Nas c&eacute;lebres telas,    Alegoria &agrave; Primavera e Nascimento de V&ecirc;nus (Galleria degli Uffizi    - Floren&ccedil;a) ela resplandece, alta, esguia, loura, de face macilenta,    olhar distante. Foi consumida pela tuberculose aos 23 anos. Pintores tuberculosos    foram Rembrandt, Watteau. Na fase mais intensa do romantismo, temos Gauguin,    sabendo-se hoje que abandonou a mulher e filhos, n&atilde;o para libertar o    g&ecirc;nio de pintura, mas devido &agrave; tuberculose; refugiando-se no Haiti,    muitas das nativas que pintou t&ecirc;m o olhar triste do seu pr&oacute;prio    sofrimento. Dessa fase, outro tuberculoso, Delacroix, transferiu para a face    de Chopin, a sua amargura expressa nos olhos e na contratura do rosto (Louvre).    Modernamente, Modegliani, consumido pela doen&ccedil;a e o &aacute;lcool, deixou    legado triste e dram&aacute;tico. Mais profundo, por&eacute;m &eacute; o dramatismo    de Munch (no quadro &quot;O Grito&quot;) e a doente visitada pelo m&eacute;dico,    da fase rosa da juventude de Picasso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Dos m&uacute;sicos,    temos Paganini, violinista ex&iacute;mio, encantando toda a Europa, que executava    as mais dif&iacute;ceis composi&ccedil;&otilde;es, inclusive o seu Moto Perpetuo,    quando era acometido pelos violentos acessos de febre da t&iacute;sica que o    consumiu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pergolesi, t&iacute;sico,    morreu aos 26 anos, e todo o seu sofrimento est&aacute; estampado nas suas obras    sacras, sobretudo no Stabat Mater, que traduzem com profunda sensibilidade o    seu sofrimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Compositores tuberculosos,    com grande participa&ccedil;&atilde;o na express&atilde;o rom&acirc;ntica da    m&uacute;sica, s&atilde;o Pursell, Bocherini (fenomenal violoncelista) Grieg,    Weber. Este, com seu famoso Der Freischutz e a &oacute;pera Oberon, comp&ocirc;s    a cantata Natur un Liebe (Natureza e Amor), com melodias de pungente dramaticidade;    deixou um di&aacute;rio com anota&ccedil;&otilde;es de seus padecimentos at&eacute;    o dia da morte. Stravinsky teve t&iacute;sica cr&ocirc;nica que lhe permitiu    longa exist&ecirc;ncia. Sua m&uacute;sica, inclusive com incurs&otilde;es dodecaf&ocirc;nicas,    serviu para as maiores manifesta&ccedil;&otilde;es coreogr&aacute;ficas do Bal&eacute;    Bolshoi, em Paris, influindo no romantismo da &quot;belle epoque&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Com Napole&atilde;o    e ap&oacute;s este, a Fran&ccedil;a mergulhou no mais profundo romantismo. J&aacute;    se viu que seu filho L'Aiglon (<a href="#item4">item 4</a>) faleceu muito jovem    com granulia tuberculosa. Sua irm&atilde;, Paulina (magn&iacute;fica escultura    de Casanova, Galeria Borghese, Roma), ficou tuberculosa, dizem, por excesso    sexual; &eacute; mencionada como exemplo de exalta&ccedil;&atilde;o da libido    pela tuberculose.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O auge do romantismo,    devido &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de intelectuais em Paris, fen&ocirc;meno    que se acentuou a partir de 1820, quando Laennec ainda pontificava, &eacute;    devido a apenas cerca de 6.000 pessoas, que eram escritores, cientistas, m&uacute;sicos,    pintores, cr&iacute;ticos liter&aacute;rios, jornalistas, que produziam suas    obras, faziam confer&ecirc;ncias, davam concertos, freq&uuml;entavam os espet&aacute;culos,    os restaurantes, os sal&otilde;es intelectuais e clubes noturnos. Paris tornou-se    assim o palco onde se desenvolveu toda a representa&ccedil;&atilde;o do romantismo.    Alguns estrangeiros como Byron, poeta, tuberculoso, exerceram influ&ecirc;ncia    liter&aacute;ria no romantismo franc&ecirc;s. Na sua &eacute;poca, o romantismo    da tuberculose (esta era a doen&ccedil;a da moda!) estava t&atilde;o disseminado    na intelectualidade, que uma aura l&iacute;rica envolvia os t&iacute;sicos.    Byron escreveu: &quot;gostarei de morrer t&iacute;sico porque as jovens t&ecirc;m    a maior compaix&atilde;o quando v&ecirc;em um doente no leito de morte&quot;.    Atra&iacute;da pelo seu porte elegante e provavelmente tamb&eacute;m pela sua    t&iacute;sica, a jovem Tereza Aguacciole por ele se apaixonou: ao sentir que    estava perdendo seu amante, fingiu-se de tuberculosa para nele despertar compaix&atilde;o.    Ap&oacute;s separa&ccedil;&otilde;es e reencontros, num destes, passeando de    g&ocirc;ndola em Veneza, surge s&eacute;rio desentendimento e Byron passa a    agred&iacute;-la, s&oacute; parando ante hemoptise que a acometeu. Afinal, para    felicidade m&uacute;tua, ela tamb&eacute;m estava t&iacute;sica e n&atilde;o    sabia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nessa &eacute;poca    surge Musset, o poeta l&iacute;rico, precoce, considerado o mais aut&ecirc;ntico    do romantismo. Em muitas passagens, seus versos refletem a ang&uacute;stia &iacute;ntima    devido &agrave; tuberculose que o devorou, superando-se &agrave; insufici&ecirc;ncia    card&iacute;aca que lhe facultou auto-observar-se descrevendo o sinal que nas    semiologias levam o seu nome. Os versos seguintes s&atilde;o os mais eloq&uuml;entes,    quando o poeta antevia seu final pr&oacute;ximo:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>L&#8217;Heure    de ma mort...    <br>   L&#8217;heure de ma mort, depouis dix-huit mois, / De tous les cot&egrave;s    sonne &agrave; me oreilles, / Depouis dix-ouit mois d&#8217;ennuis et de veilles,/    Partoux je la sens, partous je la vois.    <br>   Plus je me d&eacute;bat contre la mis&egrave;re, / Plus s&#8217;&egrave;veille    en mois l&#8217;instinct du malheur, / Et, d&egrave;s que je veux faire un pas    sur terre,/ Je sens tous &agrave; coup s&#8217;enfler mon coeur.    <br>   Jusqu&#8217;a repos, tout est un combat; / Et, comme un coursier bris&egrave;    de fatigue, /Mon courage &egrave;teint chancelle et s&#8217;abat.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Henry Murger,    escritor, apesar de tuberculoso, consumia sua vida nas noites dos clubes galantes    de Paris. Nas noitadas alegres, apaixonou-se pela famosa vedete Maria Cristina    Roux. Por fim, cansado de suas infidelidades, abandonou-a e ela tamb&eacute;m    terminou seus dias consumida pela tuberculose, esquecida numa enxerga na Piti&ecirc;.    Murger fez da Mimi (nome de guerra da Maria Cristina) o personagem central no    livro &quot;Cenas da vida bo&ecirc;mia&quot; que causou sensa&ccedil;&atilde;o    em toda a Europa. Puccini gostou tanto da est&oacute;ria que a aproveitou para    a sua &oacute;pera &quot;La Boheme&quot;. Puccini tocou as &aacute;rias cantadas    pela Mimi, para grupos de doentes de um sanat&oacute;rio, para dizerem se sentiam    nelas express&otilde;es sobre a tuberculose.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Alexandre Dumas    Filho, defensor de teses sociais causando esc&acirc;ndalo como o da emancipa&ccedil;&atilde;o    da mulher, o div&oacute;rcio, o direito das prostitutas, n&atilde;o foi tuberculoso,    mas tem seu nome ligado indissoluvelmente &agrave; tuberculose. A est&oacute;ria    come&ccedil;a na prov&iacute;ncia onde nasceu Alphonsina Duplessis cujo pai,    um devasso, alco&oacute;latra, a entrega aos 14 anos a um velho libidinoso.    Depois leva-a a Paris onde a deixa empregada em um bar. A&iacute; passa a comercializar    seu corpo. Falando o patois e quase analfabeta do franc&ecirc;s, por&eacute;m    bela e graciosa, freq&uuml;entando os bailes populares conhece o aristocrata    Agenor de Guiche, d&acirc;ndi badalado da alta sociedade e filho do Duque de    Gramont; com vestidos caros e coberta de j&oacute;ias faz sucesso nos sal&otilde;es    e clubes da elite, at&eacute; que o Duque imp&otilde;e um final a essa liga&ccedil;&atilde;o.    Alphonsine une-se ent&atilde;o ao Conde de Perregault, neto do gerente do Banco    de Fran&ccedil;a. Troca seu nome para Maria, aprende a falar e escrever corretamente    o franc&ecirc;s e estuda piano. Em 1842, com 21 anos, liga-se ao Duque Narbon-Pelet    e instala-se por tempos em seu castelo. Cronistas sociais a introduzem em suas    colunas nos jornais. &Eacute; quando passa a usar um ramo de cam&eacute;lias    vermelhas no decote; quando deseja aceitar um novo amante, d&aacute; o sinal    com cam&eacute;lias brancas. P&aacute;lida, com tosse seca permanente, numa    festa do Caf&eacute; Anglais, tem uma hemoptise. Dumas Filho que a acompanhava    e por ela se apaixonou, chama Davaine, m&eacute;dico famoso por ter descoberto    o bacilo do carb&uacute;nculo. Este tornou-se um de seus m&eacute;dicos e por    ela tamb&eacute;m se apaixonou. Com a tuberculose progredindo, tem longo caso    com o Conde de Stackelberg, russo riqu&iacute;ssimo, que lhe presenteia com    uma carruagem com 8 cavalos, casa, j&oacute;ias e centenas de vestidos. Entre    festas, epis&oacute;dios hemopt&oacute;icos e febre &eacute;tica, conhece Teofilo    Gautier, Prust, Balzac, Musset, Dumas o pai, e Liszt, tendo com este um caso    amoroso durante os tr&ecirc;s meses de sua temporada em Paris. O compositor    dedicou-lhe as &quot;Valsas Esquecidas&quot; e a &quot;Valsa Triste&quot;, e    parece que este foi o &uacute;nico que Maria Duplessis verdadeiramente amou.    H&aacute; um epis&oacute;dio complicado do seu casamento com o Conde de Perregault,    realizado em Londres, sem validade na Fran&ccedil;a. Com a sa&uacute;de cada    vez mais abalada, emagrecimento extremo, hemoptise e febre, confina-se abandonada    por todos. Para pagar os m&eacute;dicos e sobreviver, vende quase tudo que tem,    desfazendo-se de suas j&oacute;ias, carruagem, m&oacute;veis e casas. O tratamento    que recebeu foi mencionado no <a href="#item6">item 6</a>. No dia anterior &agrave;    sua morte, com 23 anos, Davaine chama Dumas Filho, que recebe enorme choque    ao ver aquela ru&iacute;na, um feixe de pele e ossos, quadro dantesco da caquexia    tuberculosa. O que se sabe ao certo &eacute; que se Maria Duplessis tivesse    se casado com Agenor de Guiche, seu primeiro amor, teria tido destino muito    diverso. N&atilde;o conseguiu mudar sua vida pelas press&otilde;es que sofreu    em contr&aacute;rio. &Eacute; impressionante como uma menina analfabeta, em    pouco mais de 5 anos, tornou-se letrada, centro das atra&ccedil;&otilde;es da    aristocracia e intelectualidade de Paris. Dumas Filho resolve escrever sua biografia    publicando o celeb&eacute;rrimo romance &quot;A dama das cam&eacute;lias&quot;.    Transformando Maria em Marguerite Gautier, prostituta de bons sentimentos, impedida    de se regenerar no amor, face aos preconceitos sociais. Escreveu tamb&eacute;m    um drama teatral representado com sucesso no Teatro Vaudeville, que Maria tanto    freq&uuml;entou. As maiores int&eacute;rpretes dram&aacute;ticas da Dama das    Cam&eacute;lias foram Sara Bernhardt, Eleonora Duse e Cecile Sorel, as tr&ecirc;s    tamb&eacute;m tuberculosas. Verdi serviu-se do tema na &oacute;pera &quot;Traviata&quot;;    o prel&uacute;dio do ato final &eacute; uma das composi&ccedil;&otilde;es musicais    mais pungentes. Na estr&eacute;ia, por&eacute;m, a soprano Donatelli no papel    de Violetta (que &eacute; a dama das cam&eacute;lias) gordissima, com todo o    seu peso corporal, ao lan&ccedil;ar o grito da agonia &quot;la tisi non le accorda    que poche ore&quot;, provocou uma onda de gargalhadas. No correr dos anos at&eacute;    hoje, com sopranos magras e gordas, a Traviata &eacute; uma das &oacute;peras    que mais sucesso alcan&ccedil;a. Tanto no teatro como na &oacute;pera, massas    de expectadores choram at&eacute; hoje, mas oceanos de l&aacute;grimas foram    e s&atilde;o provocados pela Greta Garbo no filme dirigido por George Cukor.    N&atilde;o h&aacute; filmoteca no mundo que n&atilde;o tenha c&oacute;pia dessa    fita, que continua comovendo multid&otilde;es. Sem d&uacute;vida, o fen&ocirc;meno    Maria Duplessis (Dama das Cam&eacute;lias) constitui o acme do romantismo, impulsionado    pela tuberculose.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="texto2"></a>Quase    todos os personagens tuberculosos do auge do romantismo est&atilde;o enterrados    no cemit&eacute;rio P&egrave;re Lachaise, em Paris. Este cemit&eacute;rio &eacute;    &quot;sui generis&quot;, porque praticamente n&atilde;o tem mortos; a imensa    maioria dos que ali dormem est&aacute; viva na hist&oacute;ria e nossa cultura:    Moli&egrave;re, La Fontaine, Claude Bernard, Augusto Comte, Champolion, Gay    Lussac, Musset, Oscar Wilde, Lavoisier, Balzac, Proust, Alan Kardec, Bichat,    Rossini, Dieulafoy, Dumas Filho e tantos outros. Andando por uma da alas centrais,    cujas copas de &aacute;rvores se entrela&ccedil;am, encontra-se uma l&aacute;pide    branca, simples, coberta por um chor&atilde;o com longos ramos pendentes que,    balan&ccedil;ando-se, difundem sons harmoniosos, enternecedores e envolventes.    Estamos diante de Chopin. Seguramente ningu&eacute;m, como este poeta da m&uacute;sica,    vinculou tanto sua capacidade criadora para nos contar sua trag&eacute;dia.    Quando Frederic Chopin chegou em Paris com 20 anos, era mo&ccedil;o, esguio    e p&aacute;lido. Com o crescer de sua notoriedade, sua palidez virou moda e    os aristocratas empoavam mais e mais suas faces para imit&aacute;-lo, e porque    a tuberculose estava na moda. T&iacute;mido, externava, por&eacute;m, plena    consci&ecirc;ncia da grandeza do seu destino. N&atilde;o obstante, a nostalgia    do seu primeiro amor adolescente - Constanza Gladkovska - no primeiro encontro    com George Sand, descreveu-a como mulher simp&aacute;tica, inteligente, irradiante.    Todavia, nos seus retratos, elaborados por Delacroix e Charpentier (Museu Carnavalet),    delineiam-se tra&ccedil;os s&eacute;rios e at&eacute; duros. Aurora Dupin, Baronesa    Dedavant (pseud&ocirc;nimo George Sand), caracterizou-se pelas teses de independ&ecirc;ncia    da mulher, que a levaram a separar-se do marido. Teve uma liga&ccedil;&atilde;o    com Musset (tuberculoso, como vimos) e por fim, com Chopin. Compreendeu logo    que ia ligar-se a um dos maiores g&ecirc;nios art&iacute;sticos. Com a sa&uacute;de    de Chopin declinando paulatinamente, come&ccedil;am as peregrina&ccedil;&otilde;es    a regi&otilde;es de climas amenos, sem melhoras substanciais. Mais de tr&ecirc;s    dezenas de m&eacute;dicos, a maioria professores das Faculdades de Medicina    da Europa, o examinaram, constataram a t&iacute;sica e receitaram-lhe as barbaridades    da &eacute;poca. Entre eles, Clark, m&eacute;dico da Rainha da Inglaterra, Trousseau,    apologista dos ferruginosos, Koreff (que foi tamb&eacute;m m&eacute;dico da    Dama das Cam&eacute;lias), R&ouml;emer, Cruveilhier, Louis (que foi disc&iacute;pulo    de Laennec), Malfatti que assistiu Beethoven nos &uacute;ltimos dias. Prescreveram-lhe    revulsivos, vesicat&oacute;rios, banhos sulfurosos, sangrias, sanguessugas,    exerc&iacute;cios f&iacute;sicos exaustivos. S&oacute; Detweiller, em Berlim,    que ent&atilde;o propagava a doutrina do repouso em sanat&oacute;rio (ent&atilde;o    considerada um absurdo), aconselhou-o inatividade absoluta, que evidentemente    n&atilde;o foi seguido. Da temporada na Ilha Majorca, h&aacute; uma carta de    Sand, queixando-se que eram &quot;tratados como galinha. Um m&eacute;dico disse    que Chopin n&atilde;o era tuberculoso, outro diagnosticou t&iacute;sica cr&ocirc;nica    e um terceiro prognosticou a morte em breve&quot;. O patr&atilde;o da pequena    casa, que conseguiram alugar, quis process&aacute;-los, exigindo de acordo com    a lei local que fosse lavada com desinfetantes, e em Barcelona, o senhorio exigiu    pagamento pelo colch&atilde;o no qual Chopin dormiu, pois deveria ser queimado    por exig&ecirc;ncia da sa&uacute;de p&uacute;blica. Um par&ecirc;ntesis para    registrar como em v&aacute;rios pa&iacute;ses e na Fran&ccedil;a o conceito    do cont&aacute;gio da tuberculose estava arraigado na popula&ccedil;&atilde;o,    pois Chopin, voltando a Paris, n&atilde;o encontrou hospedaria que quisesse    aceit&aacute;-lo(<a href="#nota">**</a>). A vida sexual com George Sand teve    breve dura&ccedil;&atilde;o; Chopin n&atilde;o era o homem ardente sonhado por    Sand e esta n&atilde;o lhe dava o afeto que necessitava. H&aacute; a crua declara&ccedil;&atilde;o    em carta de Sand a uma amiga: &quot;tenho a sensa&ccedil;&atilde;o de deitar-me    com um cad&aacute;ver&quot;. Separaram-se um ano antes de sua morte. Nos &uacute;ltimos    anos, os sintomas intensificaram-se: epis&oacute;dios hemopt&oacute;icos, por    fim dispn&eacute;ia intensa que n&atilde;o lhe d&aacute; descanso, febre &eacute;tica,    dores agudas que o torturaram. Finou-se em 1849 com apenas 39 anos. Apesar de    jovem, ap&oacute;s os 30 anos parece um velho como transparece no retrato pintado    por Delacroix, que tamb&eacute;m tuberculoso, soube, como j&aacute; dito, imprimir    no rosto do g&ecirc;nio sofrimento com o qual convivia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Quanto &agrave;    composi&ccedil;&atilde;o musical, a pot&ecirc;ncia criadora de Chopin parece    crescer com a destrui&ccedil;&atilde;o dos seus pulm&otilde;es, e suas obras    s&atilde;o reflexo de suas torturas. Durante a temporada de Liszt em Paris,    dos contatos prolongados dos dois g&ecirc;nios, embora de temperamentos diferentes,    introvertido o primeiro e extrovertido o segundo, o esp&iacute;rito agudo deste    nos deixou uma an&aacute;lise real&iacute;stica quanto a influ&ecirc;ncia da    doen&ccedil;a na obra de Chopin. Afirmou que em todas as produ&ccedil;&otilde;es    de Chopin, desde Majorca at&eacute; o final, encontram-se os sofrimentos agudos    que o torturam, e por isso, sua m&uacute;sica &eacute; divina, impregnada de    ternura e melancolia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Ainda no dizer    de Liszt, a primeira grande manifesta&ccedil;&atilde;o desse infort&uacute;nio    est&aacute; no famoso prel&uacute;dio em R&eacute; Bemol Maior. Considerou tamb&eacute;m    que os 29 prel&uacute;dios op. 28, compostos em Majorca, refletem n&atilde;o    s&oacute; as explos&otilde;es de suas rea&ccedil;&otilde;es, como &agrave;s    vezes a euforia que precede &agrave; morte. Em verdade, nos momentos mais agudos    do amargo cortejo sintomatol&oacute;gico, Chopin munia-se de for&ccedil;as atingindo    o cl&iacute;max da cria&ccedil;&atilde;o. Da&iacute; a maravilha dos seus improvisos    que brotavam em borbot&otilde;es sob influxo da febre para em seguida cair extenuado,    como descreveu George Sand. Quanta m&uacute;sica sublime, n&atilde;o anotada,    se perdeu, a qual ningu&eacute;m mais ouviu. Em suma, esse mago que fez do piano    uma verdadeira orquestra, para este transferiu as sonatas, baladas, noturnos    e prel&uacute;dios, seus estados de alma, com tons ora l&iacute;ricos, alegres,    esperan&ccedil;osos, ora melanc&oacute;licos, amargos e tr&aacute;gicos. Estranho    paradoxo: o bacilo de Koch, ao mesmo tempo que destruiu seu corpo, exaltou-lhe    a inspira&ccedil;&atilde;o e a cria&ccedil;&atilde;o de arte sublime que se    tornou eterna.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>14. O vil&atilde;o    respons&aacute;vel pela saga</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O respons&aacute;vel    pelo exposto at&eacute; aqui pertence ao microcosmos, t&ecirc;m duas a cinco    micra de comprimento e 0,2 a 0,3 d&eacute;cimos do m&iacute;cron de espessura,    protegido por forte e espessa carapa&ccedil;a cero-lip&iacute;dica. Seu genoma    cont&eacute;m 4.000 genes, dos quais 3.924 j&aacute; decodificados e 4.411.529    pares de bases nucleot&iacute;deas. Diariamente identificam-se novas fun&ccedil;&otilde;es    dos genes e novos ep&iacute;topos. Esses conhecimentos, ap&oacute;s 120 anos    de sua descoberta, abrem-se enfim melhores perspectivas para enfrent&aacute;-lo    e destru&iacute;-lo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Por enquanto continua    vitimando milh&otilde;es de seres humanos, sendo o maior respons&aacute;vel    pela mortalidade nos adultos, e configura-se como o maior agente isolado de    morte entre as doen&ccedil;as infecciosas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Entretanto, a    estrat&eacute;gia para barrar sua propaga&ccedil;&atilde;o &eacute; simples    e do menor custo entre as a&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de, que &eacute;    o DOTS (Directly Observed Treatment Short Course), a qual, todavia, n&atilde;o    est&aacute; tendo sua implanta&ccedil;&atilde;o efetuada com a rapidez necess&aacute;ria.    Para obviar esse &oacute;bice, criou-se a &quot;Stop TB iniciative&quot;, congregando    a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de, a Uni&atilde;o Internacional    Contra a Tuberculose e Doen&ccedil;as Pulmonares, a Real Associa&ccedil;&atilde;o    Holandesa de Tuberculose, a Associa&ccedil;&atilde;o Americana de Pulm&atilde;o,    o Centro de Controle e Preven&ccedil;&atilde;o de Doen&ccedil;as dos Estados    Unidos (CDC-P) e o Banco Mundial. A prioridade da aplica&ccedil;&atilde;o da    estrat&eacute;gia DOTS ser&aacute; nos 22 pa&iacute;ses que concentram 80% dos    casos de tuberculose do mundo, em cujo grupo o Brasil est&aacute; inserido.    Em dezembro de 1999 o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de instituiu o Plano Nacional    de Controle da Tuberculose, no qual est&aacute; inclu&iacute;da a estrat&eacute;gia    DOTS.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A Organiza&ccedil;&atilde;o    Mundial de Sa&uacute;de enfatiza que para o controle da tuberculose imp&otilde;e-se    a descoberta intensiva dos casos novos, submetendo-os imediatamente &agrave;    quimioterapia correta pela sua administra&ccedil;&atilde;o diretamente supervisionada    (DOTS); esta impede a multidrogarresist&ecirc;ncia e reduzir&aacute; a mortalidade,    evitando 70 milh&otilde;es de &oacute;bitos por tuberculose que, sem essa estrat&eacute;gia,    ocorrer&atilde;o at&eacute; o ano 2020.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Germe t&atilde;o    mal&eacute;fico, no entanto nos campos do microsc&oacute;pio, do escarro corado    pela t&eacute;cnica de Ziehl-Neelsen, apresenta-se como tra&ccedil;os e v&iacute;rgulas    num emaranhado de trab&eacute;culas de fibrina e mucina, encantando os olhos    qual quadro abstrato rom&acirc;ntico, transmitindo harmonia e tranq&uuml;ilidade    da mesma forma que uma tela abstrata de Jackson Pollock. Paradoxalmente ambos    t&ecirc;m poder semelhante de abstra&ccedil;&atilde;o, como se v&ecirc; nas    figuras aqui estampadas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="../img/revistas/bps/v7n2/2a02f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="../img/revistas/bps/v7n2/2a02f2.gif"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Bibliografia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 1. ABBOT, E.C.    Composers and tuberculosis: the effects on creavity. C.M.A. J.; 126:534. 1982.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 2. ABRAM, H.S.    The pschology of physical illness as portrayed in Thomas Mann's The Magic Mountain.    <u>Arch Inter Med</u>; 128:466. 1971.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 3. BERNARD, E.    Phtisiologues et phtisiologie, Paris. Masson, 1951 - 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 4. BOUDET, M.    La fleur du mal. La v&eacute;ritable histoire de la Dame aux Cam&egrave;lias,    Paris. A. Michel. 1993. </font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 5. CHRETIEN, J.    La tuberculose. Parcours imag&eacute;. Prop&ocirc;s. Regards, Paris. Hauts de    France. 1995. 2v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 6. CORTEJO, L.    Tuberculosos c&eacute;lebres. Grandes personalidades forjadas por la tuberculosis,    Barcelona Mateu.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 7. CUMMINS, L.    Tubercilosis in history, Londres. B. T. Cox. 1949.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 8. DANTAS, P.    Cidade enferma, S&atilde;o Paulo. Brasilense 1950.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 9. GRELLET I,    Kruse C. Histoire de la tuberculose. Les fievres de l'&acirc;me. 1800-1950,    Paris. Romsay. 1983. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 10. GUILLAUME,    P. Du d&egrave;sespoir au salut: les tuberculeux ao XIX et XX si&egrave;cles,    Paris. Aubier. 1986. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 11. ILVENTO, A.    La tuberculosi a traverso i secoli Storia di un&#8217;ideia, Roma. 1933.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 12. ISSARTEL,    C. Les dames aux cam&eacute;lias. De I'histoire &agrave; la l&eacute;gende,    Paris. Hachette. 1981. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 13. KERURAN, R.    Laennec. Medecin Breton,. Paris. Hachette. 1955. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 14. LICHTENTHALER,    C. Histoire de la m&eacute;didine, Paris. Fayard. 1978.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 15. LYEUS, A.;    Petrucelli, J. History of medicine. An illustrated hislory, N. York . A. Pres.    1987.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 16. MANN, T. La    montagne magique, Paris. Fayard. 1931. 2v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 17. MICHEL, E.B.    Le souffle coup&eacute;, Paris. Gallimard 1984. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 18. MONTENEGRO,    T.H. Tuberculose e literatura, Rio de Janeiro. Casa do Livro. 1949.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 19. ORIOL, Anguera,    J.A. Historia de la tuberculosis, Barcelona. Salvat. 1944.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 20. PIERY, M.;    Roshen, J. Histoire de la tuberculose, Paris. Doin et Cie. 1931. 1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 21. QUEIROS, D.S.    Floradas na serra, Rio de Janeiro. Jornal de Letras. 1950.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 22. ROUILLON,    A. La croix a double barre symbale de I'UICT. Quelques informations sur les    origins. <u>Bull. Union Int. Tuber</u>.; 57:200. 1982.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 23. SAND, G. -    Un hiver &agrave; majorque, Paris. Lib. G&eacute;n&eacute;rale francaise. 1984.    1v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 24. SANTOS NEVES,    J. A outra hist&oacute;ria da companhia de Jesus, Esp&iacute;rito Santo. 1984.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 25. TRUDEAU, E.    L. An autobiography, N. York. Nat. Tuber. Ass. 1944.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 26. VAN DER MERSCH,    M. Corps et &acirc;mes, Paris. A. Michel. 1943. 2v.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 27. WEBB, G.B.    Tuberculosis, N. York. C. Medice. 1936.</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 28. ROSEMBERG    - Romantismo e Tb.</font><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nota"></a>(<a href="#texto1">*</a>)    Em decorr&ecirc;ncia da quimioterapia irregular, est&aacute; aumentando assustadoramente    no mundo, sobretudo nos pa&iacute;ses em desenvolvimento, a multidrogarresist&ecirc;ncia    do <i>Mycobacterium tuberculosis</i>. Para os pacientes nesses casos, est&atilde;o    se realizando ressec&ccedil;&otilde;es pulmonares. Sem d&uacute;vida &eacute;    tentativa obrigat&oacute;ria para salvar a vida desses doentes. Entretanto sob    o &acirc;ngulo epidemiol&oacute;gico, a volta dessa cirurgia &eacute; um melanc&oacute;lico    retrocesso de meio s&eacute;culo, e em piores condi&ccedil;&otilde;es que antigamente,    porque para a tuberculose multirresistente n&atilde;o h&aacute; meios de impedir    as reativa&ccedil;&otilde;es focais e propaga&ccedil;&atilde;o das les&otilde;es,    por n&atilde;o haver cobertura quimioter&aacute;pica.    <br>   (<a href="#texto2">**</a>) A medicina oficial desde o s&eacute;culo 16 com os    conceitos de Fracastoro adotou a doutrina do cont&aacute;gio que mais se arraigou    na It&aacute;lia e Espanha, onde inclusive promulgaram-se editos regulando medidas    contra o cont&aacute;gio da tuberculose. A doutrina contagionista nos s&eacute;culos    seguintes foi questionada e mesmo abandonada. Desse modo no s&eacute;culo 19    na Fran&ccedil;a, a medicina oficial n&atilde;o admitia a transmissibilidade    da doen&ccedil;a; quando Villem&iacute;n demonstrou-a, infectando animais com    catarro ou material de pulm&otilde;es de t&iacute;sicos falecidos, a Academia    de Medicina de Paris incumbiu Pidoux a repetir essas experi&ecirc;ncias, o qual    &quot;demonstrou&quot; que continham erros. Recebeu um pr&ecirc;mio de 10.000    francos por ter comprovado que a tuberculose n&atilde;o era transmiss&iacute;vel!    Impressionante, como mesmo ap&oacute;s a descoberta do bacilo por Koch, muitas    escolas continuaram negando o papel do cont&aacute;gio, considerando a tuberculose    conseq&uuml;&ecirc;ncia somente da reativa&ccedil;&atilde;o de focos residuais    contra&iacute;dos na inf&acirc;ncia, posi&ccedil;&atilde;o essa definida na    c&eacute;lebre frase de Behring: &quot;a tuberculose do adulto &eacute; o &uacute;ltimo    verso de uma can&ccedil;&atilde;o recitada pela ama ao p&eacute; do ber&ccedil;o&quot;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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