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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Epidemia de Febre Tifóide em Laranja da Terra/Espírito Santo: relato preliminar]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><font face="Verdana" size="4"><b>Epidemia de Febre Tif&oacute;ide em Laranja da Terra/Esp&iacute;rito Santo: relato preliminar</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Aderbal Henry Strugo Arruda<sup>I</sup>; T&#226;nia Maria de Ara&#250;jo<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><sup>I</sup>M&#233;dico, com especializa&#231;&#227;o em Sa&#250;de P&#250;blica, Epidemiologia e Planejamento, do Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI), Funda&#231;&#227;o Nacional de Sa&#250;de (FNS), Minist&#233;rio da Sa&#250;de    <br> </font><font face="Verdana" size="2"><sup>II</sup>Assistente Social, com especializa&#231;&#227;o em Sa&#250;de P&#250;blica, do N&#250;cleo de Controle de Doen&#231;as de Veicula&#231;&#227;o H&#237;drica, Superintend&#234;ncia de Epidemiologia, Planejamento e Informa&#231;&#227;o (SPEI), Secretaria Estadual de Sa&#250;de do Esp&#237;rito Santo (SESA/ES)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2"><i>No ano de 1996, o Munic&#237;pio de Laranja da Terra, no Estado do Esp&#237;rito Santo, foi acometido por uma epidemia de febre tif&#243;ide, detectada pelo sistema de vigil&#226;ncia epidemiol&#243;gica a partir de uma solicita&#231;&#227;o de cloranfenicol, feita pela Secretaria Municipal de Sa&#250;de de Laranja da Terra, em 24 de julho. Por tratar-se de um medicamento de uso pouco freq&#252;ente, isso suscitou a curiosidade dos t&#233;cnicos da Secretaria Estadual de Sa&#250;de, os quais, ap&#243;s indagarem o porqu&#234; da solicita&#231;&#227;o, foram informados que v&#225;rios casos de gastroenterite vinham ocorrendo no munic&#237;pio, desde o dia 11 do mesmo m&#234;s. Estes apresentavam febre e queda do estado geral e respondiam satisfatoriamente apenas ao uso de cloranfenicol. Nos dias subseq&#252;entes, os primeiros resultados de exames laboratoriais realizados, a partir de amostras de sangue colhidas de alguns pacientes, identificaram a <b>Salmonella typhi </b>- agente etiol&#243;gico da febre tif&#243;ide. O</i> <i>presente relato tem como objetivo descrever sucintamente alguns aspectos fundamentais da doen&#231;a e da evolu&#231;&#227;o da epidemia, nos elementos pessoa, tempo e lugar, atualizando as informa&#231;&#245;es junto ao Sistema Nacional de Vigil&#226;ncia Epidemiol&#243;gica. Os dados utilizados, sujeitos a revis&#227;o, ser&#227;o objeto de novos estudos.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="3"><b>1. A Febre Tif&#243;ide</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">&Eacute; uma doen&#231;a infecciosa, transmiss&#237;vel, sist&#234;mica, de gravidade vari&#225;vel, caracterizada por um quadro de febre prolongada, cefal&#233;ia, esplenomegalia, sintomas gastrointestinais, tosse e queda do estado geral, e que pode levar &#224; morte por perfura&#231;&#227;o intestinal, hemorragia ou toxemia severa<sup>1,2</sup><sup>,</sup><sup>3</sup>. Seu agente etiol&#243;gico, a <i>Salmonella typhi, </i>&#233; uma bact&#233;ria gram negativa da fam&#237;lia <i>Enterobacteriaceae, </i>transmitida atrav&#233;s de &#225;gua e alimentos contaminados por fezes de doentes</font> <font face="Verdana" size="2">ou portadores<sup>3</sup>. Sua resist&#234;ncia &#233; vari&#225;vel, de acordo com o meio: at&#233; quatro semanas em &#225;gua doce, ostras, mariscos e outros moluscos, ou at&#233; dois meses em manteiga, por exemplo.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Ap&#243;s um per&#237;odo de incuba&#231;&#227;o, de uma a tr&#234;s semanas (podendo variar de 3 a 56 dias, de acordo com a dose infectante), o paciente passa a apresentar febre alta, que pode ser acompanhada por cefal&#233;ia, mal-estar geral, inapet&#234;ncia, esplenomegalia, exantema (ros&#233;ola t&#237;fica), obstipa&#231;&#227;o intestinal ou diarr&#233;ia, e tosse. Sua evolu&#231;&#227;o geralmente &#233; arrastada, podendo</font> <font face="Verdana" size="2">levar a complica&#231;&#245;es: hemorragia intestinal, pneumonia, colecistite, perfura&#231;&#227;o intestinal com peritonite, septicemia e &#243;bito.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O diagn&#243;stico laboratorial baseia-se no isolamento e identifica&#231;&#227;o da <i>S</i>. <i>typhi </i>, atrav&#233;s da hemocultura, nas primeiras duas semanas ap&#243;s o in&#237;cio dos sintomas; da coprocultura, ap&#243;s a segunda semana; e da urocultura, na convalescen&#231;a<sup>4</sup>. A rea&#231;&#227;o de Widal, outro m&#233;todo bastante utilizado, consiste na identifica&#231;&#227;o de ant&#237;genos (O-som&#225;tico, e H-flagelar) da <i>S. typhi, </i>atrav&#233;s de anti-soros espec&#237;ficos. A aglutina&#231;&#227;o O surge entre o 6<sup>o</sup> e o 12<sup>o</sup> dias ap&#243;s o in&#237;cio dos sintomas, e pode persistir at&#233; 3 meses; a aglutina&#231;&#227;o H aparece entre o 8<sup>o</sup> e o 15<sup>o</sup> dias, e pode ser positiva por v&#225;rios anos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O tratamento da febre, da desidrata&#231;&#227;o e do estado geral deve ser acompanhado por tratamento espec&#237;fico: cloranfenicol (primeira escolha), ampicilina, sulfametoxazol-trimetoprim ou outros, por um per&#237;odo m&#237;nimo de 14 dias, a maior parte das vezes em car&#225;ter ambulatorial.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A febre tif&#243;ide permanece end&#234;mica em grande parte dos continentes asi&#225;tico (importante no subcontinente indiano), africano e americano, marcadamente nos chamados pa&#237;ses do terceiro mundo, onde persiste como uma importante causa de mortalidade, apresentando taxas de letalidade entre 12% e 32%, enquanto em pa&#237;ses desenvolvidos essa taxa tem sido reduzida com sucesso para cifras inferiores a 2%.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Estat&#237;sticas referentes a doen&#231;as de veicula&#231;&#227;o h&#237;drica nos Estados Unidos mostram, at&#233; 1989, a exist&#234;ncia de 1.702 surtos ou epidemias, com 542.018 casos doen&#231;a e 1.089 mortes, e apontam que quase todos os &#243;bitos ocorridos antes de 1940 foram causados por febre tif&#243;ide<sup>5</sup>. Uma revis&#227;o de 2.666 casos de febre tif&#243;ide ocorridos entre 1975 e 1984, nesse mesmo pa&#237;s, mostrou que 62% dos mesmos eram importados, em contraste com apenas 33% durante os anos de 1967-72; a propor&#231;&#227;o de casos importados continuou a crescer, alcan&#231;ando 69% em 1984<sup>6</sup>. As maiores fontes foram o M&#233;xico (39%) e a &#237;ndia (14%).</font> <font face="Verdana" size="2">A taxa de letalidade foi de 1,3%.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Estudos referentes &#224;s condi&#231;&#245;es de sa&#250;de na Uni&#227;o Sovi&#233;tica, em 1989, apontavam que a morbidade por doen&#231;as intestinais agudas, registrada nos anos imediatamente anteriores, deviam ser encaradas como uma conseq&#252;&#234;ncia da n&#227;o resolu&#231;&#227;o dos problemas ligados ao suprimento de &#225;gua e alimentos seguros para a sa&#250;de<sup>7</sup>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Um surto de febre tif&#243;ide ocorreu no norte de Israel, em 1987, logo ap&#243;s uma grande epidemia de disenteria; tanto um quanto a outra resultaram de contamina&#231;&#227;o de po&#231;o artesiano que supria o sistema de &#225;gua municipal, devido &#224; ruptura de um cano de esgoto. Acometeu 77 pessoas, das quais 75 foram hospitalizadas, e demonstrou o alto risco de surtos por contamina&#231;&#227;o da &#225;gua de abastecimento municipal<sup>8</sup>. Estudo semelhante, referente a uma epidemia de febre tif&#243;ide ocorrida em Chu-Tung, Taiwan, entre julho e agosto de 1983, sugere que a epidemia teria sido causada por contamina&#231;&#227;o repetida de fonte comum de &#225;gua, a qual seria o servi&#231;o de &#225;gua pot&#225;vel municipal<sup>9</sup>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Registros de 370 pacientes tratados de febre tif&#243;ide em Singapura, entre 1986 e 1988, mostram que a doen&#231;a teve evolu&#231;&#227;o geralmente branda, sem &#243;bitos. A febre foi o achado mais comum em 98,4% dos casos, e a diarr&#233;ia esteve presente em 21%. O risco de desenvolver o estado de portador foi significativamente maior naqueles pacientes que se apresentaram afebris na admiss&#227;o<sup>10</sup>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">A import&#226;ncia dos portadores assintom&#225;ticos &#233; assinalada em v&#225;rios artigos internacionais. Um pequeno surto ocorrido em Maryland, USA, entre 24 de agosto e 01 de setembro de 1986, apontou como fonte de infec&#231;&#227;o uma salada de camar&#227;o servida em um restaurante, onde foi identificada uma portadora assintom&#225;tica entre os manipuladores de alimentos<sup>11</sup>. Na regi&#227;o de N&#225;poles, sul da It&#225;lia, onde a febre tif&#243;ide &#233; end&#234;mica, um estudo caso-controle, conduzido de janeiro a junho de 1990, detectou que o consumo de mariscos crus foi o fator de risco mais importante (odds ratio de 13,3; IC95% 5,5-32,8)<sup>12</sup>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No Brasil, dados do Minist&#233;rio da Sa&#250;de mostram que h&#225; um decl&#237;nio no coeficiente de incid&#234;ncia da febre tif&#243;ide (de 4/100.000 hab. em 1970, para 1,34/100.000 hab. em 1990, e 1,0/100.000 hab. em 1993), como tamb&#233;m na mortalidade (0,11/100.000 hab. em 1979 para 0,05/100.000 hab. em 1988), e na letalidade (3,27% em 1982, e 1,98% em 1985). As regi&#245;es Norte e Nordeste s&atilde;o as mais atingidas, devido &#224; precariedade de suas condi&#231;&#245;es de saneamento; na d&#233;cada de 80, a incid&#234;ncia nestas regi&#245;es variou entre 2,1 e 9,8/100.000 hab..</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em 1990 ocorreram duas epidemias de febre tif&#243;ide por transmiss&#227;o h&#237;drica, em munic&#237;pios do interior de S&#227;o Paulo, e em 1991 houve um surto de transmiss&#227;o por alimentos<sup>3</sup>. Por&#233;m, n&#227;o foi poss&#237;vel aos autores, at&#233; o momento, encontrar relatos ou estudos de epidemias de febre tif&#243;ide na literatura cient&#237;fica brasileira.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>2. O Munic&#237;pio de Laranja da Terra</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Localizado na regi&#227;o serrana do Estado do Esp&#237;rito Santo, a 154 quil&#244;metros da capital, Vit&#243;ria, Laranja da Terra faz fronteira, a oeste, com o Estado de Minas Gerais. Com uma &#225;rea de 461 km<sup>2</sup>, e uma altitude de 150 metros, seu relevo &#233; montanhoso, seu solo argiloso, e sua hidrografia tem como destaque o rio Guandu, pertencente &#224; bacia do Rio Doce. O per&#237;odo de maior ocorr&#234;ncia de chuvas vai de outubro a mar&#231;o e, por tratar-se de um munic&#237;pio eminentemente agr&#237;cola, as &#225;guas fluviais t&#234;m um importante papel na irriga&#231;&#227;o das lavouras, cujos maiores representantes s&#227;o o tomate e o quiabo.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Segundo o censo de 1991, o munic&#237;pio contava com 10.635 habitantes, 51% do sexo masculino e 49% do sexo feminino, distribu&#237;dos em tr&#234;s distritos: Laranja da Terra, que passaremos a denominar Sede, com 4.416, Sobreiro, com 3.430, e Joatuba, com 2.789 habitantes. A popula&#231;&#227;o urbana dos tr&#234;s distritos totalizava 2.044 habitantes, 1.078 dos quais localizados na Sede.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Dos 2.583 domic&#237;lios recenseados, </font><font face="Verdana" size="2">apenas 27% contavam com abastecimento de &#225;gua proveniente de rede geral (&#225;gua tratada, geralmente na sede dos tr&#234;s distritos), 35% com &#225;gua de po&#231;o ou nascente, e 38% de outras fontes, dentre as quais deve-se ressaltar a utiliza&#231;&#227;o da &#225;gua do rio Guandu e de c&#243;rregos; por exemplo, somente na Sede do munic&#237;pio, em 1996, a CESAN (Companhia Esp&#237;rito Santense de Saneamento) constatou a exist&#234;ncia de 46 po&#231;os e nascentes.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quanto ao destino de dejetos, somente 6% tinham seu esgoto ligado &#224; rede geral, e 67% contavam apenas com fossa rudimentar. No caso da &#225;rea urbana da Sede, a rede geral ia desembocar diretamente no rio Guandu, sem nenhum tratamento, isto acontecendo tamb&#233;m a montante e a jusante, em praticamente todas as localidades ribeirinhas, algumas delas sedes de outros munic&#237;pios.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No que se refere ao destino do lixo, em apenas 8% dos domic&#237;lios era coletado, em 26% queimado, e em 60% dos mesmos jogado em terreno baldio.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">A Prefeitura mant&#233;m uma Casa de Sa&#250;de, com 18 leitos, mas cadastrada junto ao SUS somente como ambulat&#243;rio, uma Unidade Sanit&#225;ria tipo II, que atende uma grande demanda de consultas m&#233;dicas, e cinco pequenas unidades na &#225;rea rural, com consultas m&#233;dicas peri&#243;dicas.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Os dados de morbidade do munic&#237;pio s&#227;o bastante escassos, devido a n&#227;o ter cadastrada nenhuma de suas unidades junto ao SIH-SUS, bem como a n&#227;o ter um sistema de vigil&#226;ncia epidemiol&#243;gica em funcionamento, mas t&#227;o somente notifica&#231;&#245;es espor&#225;dicas. A Coordena&#231;&#227;o de Informa&#231;&#245;es da Superintend&#234;ncia de Planejamento, Epidemiologia e Informa&#231;&#227;o (SPEI/SESA), tem em seus registros de 1995, apenas 359 casos de doen&#231;a notificados em Laranja da Terra, com a seguinte distribui&#231;&#227;o: 68,8% esquistossomose, 12,3% caxumba, 8,6% gastroenterocolites, 4,5% pneumonias, 2,8% rub&#233;ola, 0,8% hepatites inespec&#237;ficas, e 0,8% febre tif&#243;ide (3 casos). Existem registros de febre tif&#243;ide no munic&#237;pio tamb&#233;m em 1993 (9 casos) e em 1994 (11 casos), por&#233;m n&#227;o h&#225;</font> <font face="Verdana" size="2">ind&#237;cios de que tenham sido objeto de investiga&#231;&#227;o e/ou outras medidas de controle em Sa&#250;de P&#250;blica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>3. A Epidemia de Febre Tif&#243;ide em Laranja da Terra</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Logo ap&#243;s a suspeita de que poderia tratar-se de febre tif&#243;ide, a Secretaria Estadual de Sa&#250;de do Esp&#237;rito Santo (SESA/ES) e o Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI/FNS/MS) destacaram equipes t&#233;cnicas com a finalidade de acompanhar os trabalhos <i>in</i> <i>loco, </i>e colaborar no acompanhamento da epidemia e na tomada de medidas para o seu controle.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Devido &#224; aus&#234;ncia de um registro sistematizado dos pacientes, foi necess&#225;rio realizar um rastreamento de casos suspeitos, nos prontu&#225;rios hospitalares e fichas de ambulat&#243;rio da Sede, tomando-se um tempo de seis semanas antes do surgimento do primeiro caso confirmado, o que corresponderia &#224; primeira semana de junho. Somente a partir da terceira semana do mesmo m&#234;s (semana epidemiol&#243;gica 25) havia registro de casos que se convencionou chamar &quot;compat&#237;veis com febre tif&#243;ide&quot;: febre a esclarecer, ou febre acompanhada de sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, diarr&#233;ia, obstipa&#231;&#227;o, n&#225;useas e v&#244;mito. Isso j&#225; permitia a elabora&#231;&#227;o de uma curva, a qual mostrava um incremento, semana a semana, de modo que at&#233; o dia 23 de agosto (semana epidemiol&#243;gica 34) tinha-se uma listagem preliminar de 112 casos &quot;compat&#237;veis&quot;.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Foi estabelecido um sistema de vigil&#226;ncia epidemiol&#243;gica, com o intuito de manter as informa&#231;&#245;es atualizadas quanto ao comportamento da epidemia, ao mesmo tempo em que foram tomadas uma s&#233;rie de medidas para evitar o alastramento da mesma, por meio das atividades de vigil&#226;ncia sanit&#225;ria, de saneamento, de educa&#231;&#227;o em sa&#250;de e de manejo de casos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Os m&#233;todos de diagn&#243;stico laboratorial utilizados foram a hemocultura, a coprocultura e a rea&#231;&#227;o de Widal, realizados pelo Laborat&#243;rio Central do Estado do Esp&#237;rito Santo (LACEN/SESA/ES), em Vit&#243;ria, sob a coordena&#231;&#227;o e</font> <font face="Verdana" size="2">supervis&#227;o d&#243; &quot;Centro de Refer&#234;ncia Nacional para C&#243;lera e Outras Enterobact&#233;rias&quot;, da FIOCRUZ/RJ. Apesar de alguns problemas no que se refere &#224; coleta e ao transporte de amostras (falta de material, coleta inadequada nas primeiras semanas, transporte em m&#225;s condi&#231;&#245;es, entre outros.), mais de um ter&#231;o dos pacientes suspeitos (38%), desde o in&#237;cio da epidemia at&#233; dezembro/96, tiveram pelo menos um exame positivo. Deve-se ressaltar que nem todos os pacientes suspeitos foram submetidos a exames de laborat&#243;rio e, alguns daqueles que o foram, tiveram suas amostras colhidas fora das condi&#231;&#245;es ideais para o diagn&#243;stico; por exemplo, em muitos casos foi solicitada a rea&#231;&#227;o de Widal nos primeiros dias de febre, ou hemoculturas ap&#243;s uso de antibi&#243;ticos, o que deve ter determinado um n&#250;mero ainda n&#227;o avaliado de falsos negativos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Por orienta&#231;&#227;o da SESA/ES, o tratamento dos casos foi padronizado, tendo como primeira escolha o cloranfenicol, na dose de 50 mg/Kg/dia, de 6 em 6 horas, seja por via oral ou endovenosa; como segunda escolha a ampicilina ou a amoxicilina, na dose de 100 mg/Kg/dia, de 6 em 6 horas, e como terceira escolha o sulfametoxazol-trimetoprim, na dose de 800 mg de sulfametoxazol/dia, para adultos, e de 50 mg/dia para crian&#231;as, de 12 em 12 horas, todos devendo ser ministrados durante 14 dias no m&#237;nimo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="3"><b>4. An&#225;lise dos dados</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Embora o primeiro caso confirmado laboratorialmente de febre tif&#243;ide tenha sido atendido na semana epidemiol&#243;gica 27 (30 de junho a 06 de julho), desde a semana 25 (16 a 22 de junho) come&#231;aram a aparecer casos sugestivos da doen&#231;a, os quais foram inclu&#237;dos na curva de casos suspeitos, na tentativa de compreender o in&#237;cio da epidemia (<a href="#f1">Figura 1</a>). A partir da semana 30 (21 a 27 de julho) a curva sofre uma agudiza&#231;&#227;o ascendente, atingindo o pico na semana 34 (18 a 24 de agosto), com 113 casos, declinando rapidamente at&#233; a semana 37 (08 a 14 de setembro), com 19 casos, um</font> <font face="Verdana" size="2">novo pico na semana 39 (22 a 28 de setembro), com 29 casos, e declinando novamente, com pequenas varia&#231;&#245;es, at&#233; a semana 50 (08 a 14 de dezembro), com os &#250;ltimos 2 casos identificados no ano de 1996. O per&#237;odo cr&#237;tico corresponde ao m&#234;s de agosto, com 56,4% dos casos suspeitos.</font></p>     <p><a name="f1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04f1.gif" border="0"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Salienta-se que os casos aqui considerados suspeitos n&#227;o incluem todos aqueles que foram inicialmente notificados, mas t&#227;o somente os que tinham quadro cl&#237;nico compat&#237;vel com febre</font> <font face="Verdana" size="2">tif&#243;ide: febre a esclarecer, ou febre acompanhada de cefal&#233;ia intensa e/ou sintomas gastrointestinais. Mais de 80 notifica&#231;&#245;es fora destes crit&#233;rios foram descartadas.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O sexo feminino foi o mais atingido, com 54% do total dos casos suspeitos. Quanto &#224; distribui&#231;&#227;o por faixa et&#225;ria, notou-se um maior percentual de casos (70%) entre adolescentes e adultos jovens (10 a 39 anos de idade) (<a href="#t1">Tabela 1</a> e <a href="#f2">Figura 2</a>). No que se refere a ocupa&#231;&#227;o, entre os menores de 20 anos de idade, 60% eram</font> <font face="Verdana" size="2">estudantes e 10% lavradores; acima dos 20 anos de idade, aproximadamente 40% eram lavradores. Tanto a distribui&#231;&#227;o por sexo quanto por ocupa&#231;&#227;o demostraram percentuais bastante aproximados daqueles verificados no total da popula&#231;&#227;o, de modo que n&#227;o foi poss&#237;vel estabelecer sexo ou ocupa&#231;&#227;o de maior risco, nesta primeira an&#225;lise.</font></p>     <p><a name="t1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04t1.gif" border="0"></p>     <p align="left">&nbsp;</p>     <p align="left"><a name="f2"></a></p>     <p align="left">&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04f2.gif" border="0"></p>     <p align="left">&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quanto &#224; &#225;rea de resid&#234;ncia, consideramos como &quot;&#225;rea urbana&quot; os casos suspeitos residentes na Sede do Distrito de Laranja da Terra (1.078 habitantes); como &quot;&#225;rea rural&quot;, os residentes em todas as outras comunidades do munic&#237;pio (9.557 habitantes); e, como &quot;outros munic&#237;pios&quot;, aqueles pacientes suspeitos residentes em outros munic&#237;pios, mas que estiveram em Laranja da Terra, entre uma e tr&#234;s semanas antes do in&#237;cio dos sintomas. Essa divis&#227;o enfatiza a gravidade da epidemia na &#225;rea urbana da Sede, a qual apresentou 52% dos casos suspeitos (taxa de ataque de 29%), em contraposi&#231;&#227;o &#224;s demais comunidades do munic&#237;pio, com 46% dos casos (taxa de ataque de 3%), o que faz crer que a transmiss&#227;o deu-se</font> <font face="Verdana" size="2">originalmente na Sede, e os casos aqui denominados rurais aconteceram seja por terem comparecido &#224; Sede, ou por contato com pessoas, geralmente familiares, que se deslocaram para a Sede na vig&#234;ncia da transmiss&#227;o.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A <a href="#f3">Figura 3</a> mostra a progress&#227;o da epidemia no tempo, por &#225;rea de resid&#234;ncia, o in&#237;cio na &#225;rea urbana, seguida ap&#243;s uma ou duas semanas na &#225;rea rural, sendo que esta &#250;ltima passa a apresentar um n&#250;mero de casos proporcionalmente maior, semana a semana, ap&#243;s o decl&#237;nio da &#225;rea urbana. Tal fato pode ser explicado pela maior dificuldade de acesso aos servi&#231;os de sa&#250;de das pessoas residentes fora da Sede. Isso teria ocasionado um atraso na procura do atendimento, associado ao mecanismo de transmiss&#227;o pessoa a pessoa, que pode ter sido mais importante na &#225;rea rural, devido &#224; menor disponibilidade de &#225;gua pot&#225;vel e, conseq&#252;entemente, maior precariedade nas condi&#231;&#245;es de higiene. Os 12 casos suspeitos residentes em outros munic&#237;pios representaram apenas 2% do total, e quase todos foram</font> <font face="Verdana" size="2">atendidos em Laranja da Terra.</font></p>     <p><a name="f3"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04f3.gif" border="0"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">A <a href="#t2">Tabela 2</a> mostra a distribui&#231;&#227;o de 430 (71%) pacientes suspeitos que tiveram pelo menos um resultado de exame laboratorial (os outros 178 n&#227;o tinham resultados dispon&#237;veis), conforme os seguintes crit&#233;rios:</font></p>     <p><a name="t2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04t2.gif" border="0"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">1. Positivo: um ou mais exames (coprocultura, hemocultura, rea&#231;&#227;o de Widal) positivos, mesmo que tivesse algum resultado negativo ou Widal-suspeito;</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">2. Widal-suspeito: pelo menos um resultado de rea&#231;&#227;o de Widal com t&#237;tulos entre 1:20 e 1:80, mesmo que tivesse algum outro resultado negativo, por&#233;m sem nenhum resultado positivo;</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">3<b>. </b>Negativo: Um ou mais exames negativos, sem outros resultados.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Ressalta-se o n&#250;mero relativamente baixo de exames negativos (12,1%), alguns dos quais podem ter apresentado este resultado por terem sido realizados exames incompat&#237;veis com a fase da doen&#231;a, ou ap&#243;s o uso de antibi&#243;ticos. Desta forma, consideramos que os exames negativos n&#227;o afastam o diagn&#243;stico de febre tif&#243;ide, at&#233; que se possa fazer uma revis&#227;o mais acurada destes casos, individualmente.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Apesar das dificuldades com coleta, transporte e processamento das amostras, nota-se um expressivo percentual de exames positivos, o que vem de certa forma a confirmar a validade</font> <font face="Verdana" size="2">dos crit&#233;rios utilizados para a defini&#231;&#227;o de caso suspeito, utilizada na presente epidemia.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A <a href="#f4">Figura 4</a> mostra o aparecimento de todos os casos suspeitos (680) e, dentre eles, aqueles que foram confirmados por exames laboratoriais (230) por semana epidemiol&#243;gica, de tal forma que pode observar-se uma correspond&#234;ncia entre as duas curvas, exceto em duas situa&#231;&#245;es: a primeira, na semana de pico (semana epidemiol&#243;gica 34, de 18 a 24 de agosto), na qual houve limita&#231;&#245;es para coleta de amostras, devido ao grande n&#250;mero de pacientes suspeitos; e a segunda, a partir da semana 42, com n&#237;veis muito baixos, preditivos do final da epidemia. De fato, o &#250;ltimo caso com exame laboratorial positivo ocorreu na semana 48 (24 a 30 de novembro); o &#250;ltimo com Widal-suspeito na semana 49 (01a 07 de dezembro), e o &#250;ltimo caso suspeito cl&#237;nico-epidemiol&#243;gico na semana</font> <font face="Verdana" size="2">foram encaminhados para hospitais da Grande Vit&#243;ria e est&#227;o registrados como hospitalizados.</font></p>     <p><a name="f4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04f4.gif" border="0"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">A <a href="#t3">Tabela 3</a> mostra os principais sinais e sintomas encontrados entre os casos suspeitos, obtidos atrav&#233;s de revis&#227;o de fichas, prontu&#225;rios e busca ativa de pacientes. A febre &#233; o sintoma ou sinal mais caracter&#237;stico, freq&#252;entemente acompanhada de cefal&#233;ia.</font></p>     <p><a name="t3"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/iesus/v6n2/2a04t3.gif" border="0"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Tanto a diarr&#233;ia quanto n&#225;useas e/ou v&#244;mito estiveram presentes em aproximadamente 40% dos pacientes (n&#225;useas e v&#244;mito foram colocados juntos, como um sintoma apenas). As dores no corpo e as dores abdominais estiveram por volta de 32%. Curiosamente, a tosse foi mais freq&#252;entemente referida do que a obstipa&#231;&#227;o. Ao procurarmos estas mesmas freq&#252;&#234;ncias apenas entre os pacientes confirmados laboratorialmente</font> <font face="Verdana" size="2">50 (08 a 14 de dezembro).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quanto ao tipo de tratamento, a quase totalidade dos atendimentos ambulatoriais e hospitalares foi realizada no pr&#243;prio munic&#237;pio de Laranja da Terra: 75% dos pacientes receberam tratamento exclusivamente ambulatorial, e um em cada quatro pacientes (25%) recebeu tratamento hospitalar, em car&#225;ter de internamento, em pelo menos uma ocasi&#227;o. Pacientes com quadro cl&#237;nico de maior gravidade</font> <font face="Verdana" size="2">(exame positivo), verificamos que todas se encaixam dentro dos intervalos de confian&#231;a acima, exceto n&#225;useas e/ou v&#244;mito. A presen&#231;a de exantema (ros&#233;olas t&#237;ficas) e de outros sintomas mais gerais, como queda do estado geral, fraqueza, anorexia, emagrecimento, apesar de serem relatados em v&#225;rias ocasi&#245;es e constitu&#237;rem motivo de internamento algumas vezes, n&#227;o foram objeto de an&#225;lise, por n&#227;o terem sido sistematicamente investigados entre</font> <font face="Verdana" size="2">todos os casos suspeitos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Aproximadamente 15 pacientes foram encaminhados para tratamento em centros de maior complexidade, a maioria deles por apresentarem estado geral bastante comprometido. Em dois casos houve hemorragia digestiva alta e em outros dois perfura&#231;&#227;o intestinal. Apenas um &#243;bito foi registrado, em 30 de outubro, j&#225; nas &#250;ltimas semanas da epidemia: uma crian&#231;a de oito meses de idade, do sexo masculino, que apresentou um quadro de infec&#231;&#227;o respirat&#243;ria aguda, e em cujo l&#237;quor (colhido ap&#243;s o &#243;bito, quando foi detectado abaulamento de fontanelas), foi encontrada a <i>Salmonella typhi.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>5. Conclus&#245;es</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Desde o momento de alerta, ao aventar-se a possibilidade de estar ocorrendo uma epidemia de febre tif&#243;ide em Laranja da Terra, foram mobilizadas m&#250;ltiplas institui&#231;&#245;es, tanto governamentais quanto privadas, organiza&#231;&#245;es</font> <font face="Verdana" size="2">outras, religiosas, de classe, civis e militares, etc., as quais trabalharam nas diversas frentes, no intuito de identificar e tratar os doentes, conter o alastramento da epidemia e identificar os poss&#237;veis fatores de risco.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A inclus&#227;o neste relato de todos os casos suspeitos e n&#227;o t&#227;o somente os casos confirmados por laborat&#243;rio (embora pudessem a&#237; estar inclu&#237;das outras patologias), n&#227;o parece relevante do ponto de vista de uma superestima&#231;&#227;o da epidemia. O rastreamento feito de casos compat&#237;veis com febre tif&#243;ide, anteriores aos primeiros casos confirmados, foi infrut&#237;fero, e n&#227;o houve registro de outras patologias que pudessem confundir-se com febre tif&#243;ide, no per&#237;odo epid&#234;mico. O expressivo percentual de positividade, bem como o conhecimento - fruto da observa&#231;&#227;o da equipe de vigil&#226;ncia - de que muitos pacientes foram tratados por curandeiros, farmac&#234;uticos e mesmo em domic&#237;lio, levam a crer que o n&#250;mero total de infectados pode ter ultrapassado com</font> <font face="Verdana" size="2">boa margem os 608 casos aqui registrados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Quanto aos sintomas encontrados, deve-se lembrar que, com a identifica&#231;&#227;o do agente respons&#225;vel pela epidemia e com a relativa facilidade de tratar os sintom&#225;ticos, muitas pessoas receberam medica&#231;&#227;o espec&#237;fica t&#227;o logo apresentaram os primeiros sintomas, de modo que nem todos chegaram a desenvolver um quadro cl&#237;nico t&#237;pico. O intervalo de confian&#231;a de 95%, apresentado na <a href="#t3">Tabela 3</a>, foi inclu&#237;do com a finalidade de estabelecer uma margem de erro aceit&#225;vel, de acordo com o n&#250;mero de pacientes que apresentaram cada sintoma. Por outro lado, o tratamento em tempo eficaz fez com que a letalidade fosse bastante baixa: 1 &#243;bito entre 608 casos suspeitos (0,16%), ou 1 &#243;bito entre 230 casos confirmados laboratorialmente (0,43%).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Uma boa parte dos pacientes foi atendida e conseq&#252;entemente medicada em mais de uma ocasi&#227;o, por&#233;m n&#227;o foi poss&#237;vel registrar o n&#250;mero de reca&#237;das. De qualquer forma, a baixa letalidade fala em prol da qualidade do atendimento ministrado aos pacientes, o que &#233; digno de louvor em se tratando de uma epidemia de t&#227;o grandes propor&#231;&#245;es, acometendo abruptamente um munic&#237;pio pequeno e com escassos recursos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quanto ao controle ambiental, desde a primeira visita ao munic&#237;pio, quando da suspeita de uma poss&#237;vel epidemia, foram coletadas amostras de &#225;gua de consumo (&#225;gua pot&#225;vel, de po&#231;os, de nascentes, de c&#243;rregos, do rio Guandu, etc), leite, verduras e outros alimentos, na tentativa de identificar o fator ou os fatores de risco associados &#224; transmiss&#227;o. As an&#225;lises laboratoriais destes produtos mostraram contamina&#231;&#227;o por coliformes fecais em praticamente todas as amostras, mas em nenhuma ocasi&#227;o foi poss&#237;vel detectar a presen&#231;a de <i>Salmonella. </i>Foram tomadas as medidas necess&#225;rias para garantir a qualidade desses produtos, com especial aten&#231;&#227;o para a &#225;gua de consumo, tanto em rela&#231;&#227;o &#224; companhia de saneamento, quanto em rela&#231;&#227;o ao uso</font> <font face="Verdana" size="2">individual, com ampla distribui&#231;&#227;o de hipoclorito de s&#243;dio em domic&#237;lio, na &#225;rea urbana e na &#225;rea rural. As a&#231;&#245;es de educa&#231;&#227;o em sa&#250;de tiveram papel fundamental, e praticamente todos os segmentos populacionais foram envolvidos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Foram realizados tr&#234;s inqu&#233;ritos no decorrer dos trabalhos de controle da epidemia, no intuito de identificar os fatores de risco implicados: um na &#225;rea urbana da Sede, outro nas comunidades rurais de maior porte, e o terceiro entre os escolares, tanto da Sede quanto da &#225;rea rural. Algumas an&#225;lises <a name="topo" id="topo"></a>preliminares foram feitas, mas os dados ainda est&#227;o em fase de revis&#227;o para posterior avalia&#231;&#227;o. De qualquer modo, a aus&#234;ncia de descri&#231;&#245;es de epidemias semelhantes em nosso meio, aliada &#224; necessidade de se entender melhor como um pequeno munic&#237;pio pode ser alvo de um evento de t&#227;o grandes propor&#231;&#245;es, exige um estudo mais acurado, para que se possam recomendar medidas de preven&#231;&#227;o e controle realmente eficazes, na eventualidade de eclos&#227;o de outras epidemias(<a href="#endereco">1</a>).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Deve-se procurar maneiras realmente eficazes de proteger a popula&#231;&#227;o de Laranja da Terra, pois sabe-se que a presen&#231;a de um n&#250;mero consider&#225;vel de portadores remanescentes desta epidemia (1 a 5% at&#233; um ano<sup>10</sup>), aliada &#224;s condi&#231;&#245;es prec&#225;rias de saneamento e de cuidados sanit&#225;rios com &#225;gua e alimentos, poder&#227;o levar a uma endemiza&#231;&#227;o ou mesmo &#224; eclos&#227;o de uma nova onda epid&#234;mica.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Torna-se imperativo que as autoridades sanit&#225;rias dos tr&#234;s n&#237;veis de governo, federal, estadual e municipal, procurem envidar todos os esfor&#231;os poss&#237;veis visando a estrutura&#231;&#227;o e a manuten&#231;&#227;o das a&#231;&#245;es de preven&#231;&#227;o e controle da febre tif&#243;ide, pois ficou amplamente demonstrado com esta epidemia o alto grau de vulnerabilidade que pode apresentar uma popula&#231;&#227;o como a de Laranja da Terra e, por extens&#227;o, as popula&#231;&#245;es da maior parte dos munic&#237;pios brasileiros, cujas condi&#231;&#245;es de vida e sa&#250;de s&#227;o, sem d&#250;vida, bastante semelhantes.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">&nbsp;</font></p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>Bibliografia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">1. CENEPI/FNS. Febre tif&#243;ide: normas e instru&#231;&#245;es. Guia de Vigil&#226;ncia Epidemiol&#243;gica; Bras&#237;lia, 1994.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">2. Gomez, J. S.; Focacia R. Febres tif&#243;ide e paratif&#243;ide. In Veronesi R, Doen&#231;as infecciosas e parasit&#225;rias, 8 ed. Rio de Janeiro, 1991.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">3. Secretaria de Estado da Sa&#250;de de S&#227;o Paulo; Centro de Vigil&#226;ncia Epidemiol&#243;gica &quot;Professor Alexandre Vranjac&quot;. Febre tif&#243;ide: normas e instru&#231;&#245;es. Manual de Vigil&#226;ncia Epidemiol&#243;gica, p.38, 1992.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">4. Minist&#233;rio da Sa&#250;de, Secretaria Nacional de A&#231;&#245;es B&#225;sicas de Sa&#250;de, Divis&#227;o Nacional de Laborat&#243;rios de Sa&#250;de P&#250;blica. - Normas, m&#233;todos e t&#233;cnicas para diagn&#243;stico laboratorial da febre tif&#243;ide, p.37; Bras&#237;lia, 1985.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">5. Craun, G. F. Waterborne disease outbreaks in the United States of America: causes and prevention. <b>World Health Stat Q. </b>45(2-3): 192-9,1992.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">6. Ryan C. A.; Hargrett-Bean N. T.; Blake P. A. Salmonella typhi infections in the United States, 1975-1984: increasing role of foreign travel. <b>Rev Infect Dis. </b>Jan-Feb. 11(1): 1-8, 1989.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">7. Narkevich M. I.; Onishchenko G. G.; Solodovnikov I. P.; Kolesnichenko V. I.; Chikova S. S. Condition of morbidity and</font> <font face="Verdana" size="2">prevention of acute intestinal infections in the USSR. <b>Zh Mikrobiol Epidemiol Immunobiol. </b>Feb. (2): 55-60, 1989.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">8. Egoz N.; Shihab S.; Leitner L.; Lucian M. An outbreak of typhoid fever due to contamination of the municipal water supply in northern Israel. <b>Isr J Med Sci. </b>Nov. 24(11): 640-3, 1988.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">9. King C. C.; Ce C. J.; Ou S. L.; Chuang Y. C.; Huang H. H.; Tsai W. C. Community-wide epidemiological investigation of a typhoid outbreak in a rural township in Taiwan, Republic of China. <b>Int J Epidemiol. </b>Mar. 18(1): 254-60, 1989</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">10. Yew ES.; Chew S. K.; GohK. T.; Monteiro E. H.; Lim Y. S. Typhoid fever in Singapore: a review of 370 cases. <b>J Trop Med Hyg</b>. Oct. 94(5): 352-7, 1991.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">11. Lin F. Y.; Becke J. M.; Groves C.; Lim B. P.; Israel E.; Becker E. F.; Helfrich R. M.; Swetter D. S.; Cramton T.; Robbins J. B. Restaurant-associated outbreak of typhoid fever in Maryland: identification of carrier facilitated by measurement of serum Vi antibodies. <b>J Clin Microbiol. </b>Jun. 26(6): 1194-7, 1988.</font><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"><a name="endereco" id="endereco"></a>12. StrofFolini T.; Manzillo G.; De Sena R.; Manzillo E.; Pagliano P.; Zaccarelli M.; Russo M.; Soscia M.; Giusti G. Typhoid fever in the Neapolitan area: a case-control study. <b>Eur J Epidemiol. </b>Jul. 8(4): 539-42 1992.</font><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">(<a href="#topo">1</a>)Este estudo, realizado por um dos autores, ser&#225; objeto de tese de mestrado.</font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="">
<collab>CENEPI/FNS</collab>
<source><![CDATA[Febre tifóide: normas e instruções. Guia de Vigilância Epidemiológica]]></source>
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